Percabeth - I Knew You Were Trouble
47 Capítulo 48
Notas iniciais
Assim que Percy saiu, seu pai entrou na garagem, desligou o carro e foi até o jardim.
—Oi, pai! — Cally sorriu. O homem era alto e grande, como um armário vestido de terno. Se tivesse visto Percy, certamente o teria posto pra correr, mas só porque era um pouco da sua função de pai: proteger a filha de maus elementos. Por dentro, Atlas era uma manteiga derretida.
—Oi querida. — Ele bagunçou os cabelos dela. Foi para a cozinha, carregando um saco de papel. — Chame a sua mãe. Trouxe McDonalds.
Calypso se levantou da grama e entrou na casa, indo até o quarto da mãe. Jonah estava na cozinha, tentando fazer um lanche, mas ao ver a sacola do fast food, parou imediatamente e correu até o pai, com os olhos brilhando.
Cally tinha inveja da animação do irmão. Aos sete anos de idade, Jonah olhava a vida com seus olhos azuis alegres, sem preocupações. Magrelo como era, sempre estava correndo por aí e fazendo macaquices, o que as vezes rendia à Cally uma grande dor de cabeça.
Passou pelo corredor cheio de retratos de ocasiões alegres e abriu a pesada porta de madeira, entrando no quarto dos pais. Estava escuro e um cheiro de incenso imediatamente invadiu seu sistema como um tapa. Acendeu a luz.
—Ah, Cal. — Sua mãe estava sentada no tapete colorido, com as mãos nos joelhos. Tinha longo dreads castanhos, presos para trás com uma fita cor de rosa. A pele morena fazia contraste com os grandes olhos azuis relaxados e seu corpo magro vestia suas largas e coloridas roupas de meditação. — O que foi?
—Desculpe interromper, mãe. — Calypso abanou com a mão aquele cheiro de incenso enjoativo. — Papai trouxe jantar.
—Oba! — Crystal se levantou, rápida como um esquilo, e se alongou. Calypso ficou olhando a decoração do quarto, toda colorida e psicodélica, com um abajur em forma de duende no criado-mudo, cangas coloridas penduras pela parede e tapetes confortáveis no chão. — Vamos lá, meu bem.
Assim que chegaram à cozinha encontraram Jonah devorando seu McLanche feliz, brincando com um boneco do tranformers. Atlas estava sentado na mesa também, comendo um grande Angus Bacon.
—Amor. — Crystal chamou. Atlas encarou-a. — Você passou no restaurante vegano, não é?
Atlas abriu um sorriso esperto.
—Como eu poderia esquecer? — Entregou a ela uma sacola da papel. Crystal foi correndo abraçá-lo e lhe distribuiu beijos nas bochechas.
-Earg. — Jonah fez uma careta, despertando riso no casal.
Era o casal mais estranho que Calypso já conhecera. Uma hippie e um homem de negócios. Sua mãe vegana e o pai muito carnívoro; Sua mãe meditando e o pai estressado; Sua mãe fumando maconha e o pai fazendo telefonemas internacionais.
De certa maneira, essas diferenças tornava-os um casal ainda mais especial.
-Então querido, você falou com o pessoal em Bristol? — Crystal sentou-se a mesa, beliscando sua refeição livre de qualquer coisa animal.
-Bem, falei. — O pai sorriu. — Vamos fornecer pra eles.
-Ah, que maravilha, amor.
Calypso não gostava quando os dois começavam a falar dos negócios. Na verdade, odiava esse emprego que fazia com que carros de polícia ficassem parados em frente a sua casa, espiando tudo.
Crystal Moonlight Ríos era descendente de uma das maiores comunidades hippies dos anos 60. Conheceu Atlas em um protesto contra a companhia para a qual ele trabalhava. Ele lhe deu detalhes sujos da tal companhia sobre os danos que esta causava ao meio ambiente. Crystal divulgou para a imprensa esses dados dessa “fonte sigilosa” que passara a apoiar seu movimento, e, anos depois, a companhia fechou. Atlas ficou desempregado, mas tinha encontrado o amor da sua vida.
Os tempos apertaram depois que os dois se casaram e tiveram a Cally, mas Crystal tivera uma ideia. Ela sabia, mais que ninguém, como cultivar uma certa erva medicinal. Atlas sabia gerenciar negócios. Unindo as habilidades de ambos, os dois criaram a maior rede de fornecimento de marijuana do estado de Nova York, tendo até suas próprias estufas. Isto é, garantindo que a polícia não tomasse conhecimento, é claro. Maconha medicinal já era legalizada pelo estado, mas a recreativa, que Crystal sabia cultivar com maestria, ainda era crime.
Calypso não aprovava nem um pouco o negócio da família. Sabia que a qualquer momento tudo poderia ir por água a baixo, mas percebeu que não havia nada que pudesse fazer. Apenas evitava o assunto.
-Vocês podem não falar disso na mesa?- Ela reclamou, olhando para o sanduíche. Nunca pôde contar à ninguém o que seus pais faziam, por motivos óbvios. Enquanto seus amigos diziam que seus pais eram médicos ou advogados, Calypso sempre ficava quieta, ou dizia que não interessava.
-Você parece meio estressada, meu bem. — A mãe a encarou, preocupada. — Quer um floral?
-Não, obrigada. — Ela terminou seu lanche. — Acho que já vou dormir. Boa noite.
-Boa noite, Cal. Durma bem, querida. — A mãe lhe deu um beijo na bochecha e o pai bagunçou seus cabelos, de novo.
Calypso entrou em seu quarto, a única parte sóbria da casa inteira. Ela gostava das paredes brancas, do chão limpo e da cama arrumada. Qualquer bagunça lhe dava nos nervos.
Deitou-se na cama, refletindo sobre o que Percy tinha lhe contado, de tarde. Não conseguia imaginar ele sendo pai de uma criança. Muito menos Annabeth, aquela loira mimada, sendo mãe.
Quando Percy lhe contou a novidade, parecia meio perdido, meio desamparado. Ela sabia que ele deveria estar totalmente assustado com essa nova função. Já para ela, que teve que cuidar de Jonah durante os últimos anos, a ideia lhe parecia tranquila.
Tomou uma decisão: ia ajudá-los no que precisassem. Afinal, tinha certeza que eles precisariam. E ela estaria lá, mesmo que doesse ver o amigo pelo qual se apaixonara junto com a mulher que traiu sua amizade.
Por que, afinal, ela admitiu pra si mesma o que sempre sentira: A felicidade dos outros vinha em primeiro lugar, mesmo que isso custasse a sua.
Fale com o autor