Pequenos Contos

1 A menina e o pássaro


Notas iniciais
Espero que gostem do primeiro conto! No final de cada capítulo estarei, muitas vezes, escrevendo um breve comentário sobre a criação do conto e do que mais ou menos eu estava pensando enquanto escrevia, porque tentar mostrar tudo que eu estava imaginando em palavras é ainda é um desafio muito grande!

A moça entrou no quarto de fininho e abriu as cortinas, deixando entrar os raios leves da manhã. Cuidadosamente, deixou a janela entreaberta para o calor das ruas invadir o ambiente. Deu um sorriso meigo e se retirou.

Pouco tempo depois um pequeno pássaro pousa na janela e uma menina no conforto de seus lençóis abre os pequenos olhos. Ela imediatamente reconhece o canto familiar. Ainda um pouco atordoada do sono, levanta-se e anda cambaleando até a janela para cumprimentá-lo.

Começam os rituais matutinos que a menina realiza já com energia e espírito, saltitando pelos cômodos da casa. Ela sente o cheirinho que adorava do café preparado ainda cedo pelos adultos e da um sorriso atrevido. Seus cabelos loiros reluzem à luz do alvorecer e flutuam no ar com seus passos aéreos.

Continua perambulando pela casa e para sob a onipotente porta de madeira rústica. Ela estica o braço para alcançar a maçaneta, esforça-se para empurrar a madeira pesada e passa para o que parece ser outro mundo.

Nos olhos da menina tudo é um espetáculo majestoso e cheio de vida. O Sol é mais vibrante, a grama parece mais verde, o ar mais leve e puro. Ela absorve com gosto essa explosão policromática dos sentidos. Na cerca de madeira repousa o velho conhecido, sua plumagem se confunde com a luz dourada. Ela corre em sua direção.

O pássaro alça voo e mostra o caminho para aquela alma enérgica através da bruma do dia. Há quanto tempo se conhecem? Uma eternidade, pois nem o tempo ousaria intervir nessa amizade idílica.

A menina perdidamente apaixonada corre cada vez mais rápido e cada vez mais rápido até seu coração bater mais forte e seus olhos azuis brilharem. Já não sentia mais seus pés tocarem o chão.

Até que os dois voassem sobre as ruas do subúrbio, desviando das árvores já alaranjadas do outono, cortando por entre as folhas secas que flutuam no ar, passando pelas casinhas da vizinhança, sentindo o vento acariciar-lhes o rosto.

Parecia que as ruas tivessem sido moldadas só para a satisfação dos dois que já não mais voavam e sim nadavam no ar.

No alto, ela nem conseguia mais avistar as pequenas criaturas do solo, nem escutar a conversa abafada dos vizinhos. Havia deixado tudo aquilo para trás e viveria nas nuvens das ideias e dos sonhos.

Seguia o pequeno pássaro que já parecia adepto nas manobras aéreas e planava com destreza, ela, desajeitada. Porque suas asas não foram feitas para voar como as do pássaro que já estão acostumadas com a liberdade. A menina só possuía poucos instantes como esses em que o amigo mostrava-lhe todas as manhãs como desbravar o céu.

A menina e o pássaro eram naquele momento como um só ser, inseparáveis, conectados pela mais pura demonstração de felicidade. Todos reverenciavam a passagem dos dois. Os esquilos nos galhos soltavam as nozes, as pessoas na varanda paravam as conversas, o rabinho dos cachorros balançava de um lado para o outro.

Chegando ao fim da jornada a jovem se despede do amante, mas guarda consigo todas as emoções com a certeza de que no dia seguinte aproveitaria outra aventura.

E no dia posterior, a menina sente os raios da manhã e mais uma vez abre seus olhos com o cantar do pássaro. Ela se levanta, dá um pequeno tropeço, sorri e continua a andar até a janela. Ao sair de casa ela para por um momento e sente a característica paz, aquela inocência que só as crianças conhecem, mas logo dispara com o vento para o passeio diário.

É incrível como o mesmo caminho que se percorre todos os dias pode parecer sempre único e cheio de fascínio. Só os pequenos sonhadores observam cada detalhe, cada nuance como se descobrissem o mundo a cada passo. Uma simples flor que acabara de despertar reacende a chama da vida. Uma bicicleta deixada na calçada conta a história de um livro inteiro.

E no fim ela deixa o companheiro, apenas para reencontrá-lo no dia seguinte.

E no dia seguinte, a menina sente a luz do amanhecer no rosto. Uma moça abre a porta e fala com a voz meio rouca:

— Já está na hora, querida.

A menina abre os pequenos olhos e eles se viram para a janela entreaberta.

Não há pássaro.

Agita-se por um instante.

Havia se atrasado e o amigo partira sem ela, pensou. Mas não haveria de se preocupar, pois ele estaria esperando por ela em cima da cerca. Ela deu um sorriso sincero e levantou para o dia. A menina filha do Sol irradiava sua luz pelos corredores ofuscando os outros astros.

Chegando ao cheiro do café ela abre os olhos, azuis como o céu, e pergunta:

— Ele já partira hoje?

— Quem, querida? – A moça responde confusa, tentando imaginar do que se tratava a ânsia da menina.

Ela dirige-se para a grande porta, estica o braço para alcançar a maçaneta e empurra com dificuldade a madeira. Para por um instante para sentir o ar fresco do dia e logo seus olhos percorrem o ambiente alaranjado do outono. Mas não havia ninguém na cerca e ela sentiu um vislumbre de hesitação.

Mas não havia de se inquietar, pois tinha certeza de que o pássaro a esperava no fim de seu destino. Esperança inabalável embasada nas histórias e momentos de alegria que a menina tanto desfrutara.

E no caminho vê a flor, vê a bicicleta e as árvores do outono e continua a divagar. Dessa vez sozinha, mas ainda sobrevoando as nuvens e com um sorriso caloroso no rosto a reinar sobre o dia. Era um dia lindo e agradável. O vento cantava as mais belas canções pelas folhagens, a rua abria-se em um desabotoar de rosas e os animais dançavam ao voo excêntrico da jovem.

Dois vizinhos observaram a súbita passagem de uma menina pela rua. Mas eles continuam a conversar:

— Você acha que o inverno está perto? As últimas folhas já estão caindo.

— Eu acho que sim, as aves já migraram e há dias não aparecem.

— Vou pegar meu casaco.

E a menina já se aproximava do fim de seu caminho enquanto o murmúrio das casas se dissipava em seus ouvidos. Podia quase ouvir o som familiar que reconhecia todas as manhãs.

Quase.

Porque os adultos não enxergam com os mesmos olhos que as crianças.

Notas finais
A história é inicialmente baseada na dinâmica da menina e do pássaro, mas eu tentei ir demonstrando aos poucos como tudo era parte da perspectiva da menina, o que foi um pouco difícil já que não está em primeira pessoa. Outra coisa que eu tentei mostrar foi como a realidade se mistura com a fantasia na mente das crianças onde tudo é possível. A atmosfera quase de uma natureza mágica faz parte do mundo da menina de forma tão real quanto qualquer outra coisa. E por fim, um breve vislumbre de outra perspectiva que não é a da garotinha que predomina no texto. Se ela vai ou não encontrar o pássaro dependerá de qual ponto de vista o leitor compartilha.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.