Pequenas Histórias
2 Confessionário - Parte I
Notas iniciais
O tema é meio dorgado, principalmente tendo em vista que é difícil imaginar um colégio católico na Coreia xD espero que a fic não ofenda a religião de ngm, ok? keke
Classificação: +16
Gêneros: Yaoi, Universo Alternativo
– Volte aqui, filho do demônio!
Os gritos roucos da freira idosa ecoavam pelo corredor, enquanto outra senhora desengonçada perseguia às pressas o já conhecido garoto de cabelos louros. Em questão de poucos segundos, alunos e professores do colégio inteiro se aglomeraram nas portas de suas classes para assistir à fuga de Cha Sunwoo, que certamente havia acabado de aprontar mais uma de suas travessuras.
– Aish, que exagero! Onde está o bom humor dos professores de hoje em dia? – Baro comentou em pensamento, ainda correndo o máximo que conseguia para despistar a inspetora. – Se as pessoas aqui passassem mais tempo estudando o livro de Biologia ao invés da Bíblia, com certeza saberiam que aquela cobra nem era venenosa! – e pulou seis degraus de uma vez quando enfim alcançou as escadarias no final do corredor.
Por sorte, o garoto era realmente rápido. Correr talvez fosse a melhor coisa que Baro sabia fazer na vida, portanto não demorou a deixar a velha para trás e chegar ao pátio principal do colégio católico em que vivia e estudava desde os sete anos de idade.
Colégio do qual não via a hora de ser expulso.
E só no último ano havia recebido cerca de vinte advertências, mas nada que aprontava parecia ser grave o suficiente a ponto de justificar uma suspensão definitiva. Com alguma sorte, se a polêmica da serpente encontrada no armário da professora de Moral Cristã repercutisse, dessa vez a tão sonhada expulsão estaria a caminho.
Mas antes, precisava fugir e se esconder, como sempre fazia. No momento certo, apareceria na sala do reverendo – que também era o diretor – por livre e espontânea vontade. Afinal, a brincadeira não tinha graça se ele fosse pego logo de cara.
Ofegante e encolhido atrás de uma das pilastras do pátio aparentemente vazio, Baro tentou pensar depressa em algum lugar em que jamais suspeitariam que ele fosse se esconder. A resposta não poderia ter vindo mais depressa. Se existia um local onde o garoto detestava estar, esse lugar era a capela. Não porque era pouco religioso ou qualquer coisa do gênero, mas porque nenhum adolescente normal suportava ouvir uma missa de três horas de duração toda santa noite do ano.
A capela não ficava longe dali, mas teve que sair em disparada pelo jardim quando ouviu os passos furiosos da inspetora se aproximando da escadaria. Rapidamente chegou em frente à entrada do santuário, e como sabia que não havia nenhuma missa antes do meio-dia, tratou logo de entrar em silêncio e de cabeça baixa, fazendo antes, claro, o sinal da cruz.
Não era um jovem tão desrespeitoso assim.
Lá estavam apenas o jardineiro do colégio e uma das freiras do convento, ambos fazendo suas orações, ajoelhados em frente aos bancos de madeira. Baro pensou que talvez fosse uma boa ideia imita-los, mas não contava com a entrada repentina dos coroinhas, as criaturas mais fofoqueiras da face da terra, no templo. Disfarçadamente, caminhou pela lateral do santuário até mais ou menos próximo ao altar, virando à esquerda e entrando em uma das diversas passagens que ali existiam e levavam para outros ambientes. Quando se deu conta, estava no piso escuro onde ficava o confessionário do padre Siwon, e foi lá que resolveu se esconder.
Lembrou então que já havia se confessado com o padre diversas vezes desde sua primeira comunhão, e em todas elas deu um jeito de tirar o pobre homem do sério.
Aquele confessionário comum, composto por dois cubículos, definitivamente trazia boas lembranças a Cha Sunwoo, e não só pelas peças que costumava pregar ao sacerdote quando se confessava. Se bem estava lembrado, foi dentro dele que deu seu primeiro beijo – em um garoto, obviamente. Até porque, o internato era masculino e ele jamais se atreveria a “convidar” uma freira a beija-lo. Entretanto, apesar de continuar se pegando constantemente com seu colega Sandeul pelos cantos do colégio, Baro não se considerava homossexual. “Quem não tem cão caça com gato, né?”, era o que dizia a si mesmo. Além do mais, não tinha qualquer tipo de diálogo com o companheiro de quarto quando não estavam se atracando, então estava certo de que não existia sentimento algum por trás do desejo físico. Ou havia? Bem, preferia não pensar em nada.
Livrando-se do breve momento de nostalgia, Baro entrou na cabine mal iluminada do padre Siwon e trancou bem a porta. Acomodou-se na cadeira dura de madeira, e respirou pausadamente. Estava exausto e suado da corrida. Pouco depois tirou o celular do bolso do moletom e começou a jogar um game qualquer. Sabia que não poderia ficar mais de duas horas ali, pois o padre começaria suas atividades no confessionário logo depois do almoço, mas pelo menos aproveitaria algumas horas de paz.
E assim foi por dez, talvez quinze minutos, até ouvir o barulho de passos caminhando em direção ao confessionário. Desesperado, Baro prendeu a respiração e se encolheu dentro da cabine quando o som cessou, chegando próximo o bastante para abrir sua porta à qualquer segundo.
Seu plano fora arruinado, e agora estava prestes a ser descoberto pelo padre, foi o que pensou. Mas, ao contrário do que esperava, o visitante indesejado não era o sacerdote, e sim um fiel, que abriu a porta do outro cubículo e ali se instalou.
– Perdoe-me, padre, pois eu pequei. – disse uma voz masculina, a qual o garoto reconheceu imediatamente.
Petrificado, Baro espiou a tela que o separava do fiel, e embora não tenha visto mais do que seus vultos, confirmou que não estava alucinando. Era mesmo Lee Junghwan que estava ali.
– S-sandeul hyung? – falou baixinho, de forma totalmente involuntária.
– Não compreendi, padre. – Junghwan disse após alguns segundos. – O senhor por repetir, por gentileza?
“Aish! Quê que eu faço agora?, questionou-se em pensamento, completamente em pânico.
– Estou aqui. – disse, afinando um pouco a voz para que pudesse se passar pelo padre Siwon. Apesar de ter apenas dezesseis anos, Baro tinha a voz bem mais grossa que a dos meninos de sua idade. – Conte-me o que o trás aqui, meu filho.
– Muitas coisas – respirou profundamente. – Eu o desapontei, padre.
Sua voz transmitia angústia, e isso preocupou Baro, ao mesmo tempo em que o deixou curioso. O colégio inteiro sabia que Sandeul, além de líder do coral estudantil, era o estudante “preferido” do sacerdote. Talvez até mesmo do reverendo, já que o garoto tomava aulas particulares com ele semanalmente. Pensar em algo que tenha feito para decepciona-los era no mínimo estranho. Tirando, claro, o fato de que mantinha relações com outro garoto, mas Baro estava certo de que Sandeul jamais confessaria isso, mesmo que em juramento.
– Bem... – continuou. – é o Sunwoo, padre.
– Ah! – exclamou o falsário. – Sabia que este moleque perdido estava sendo um problema para você! Não sei quem teve a infeliz ideia de coloca-lo como seu companheiro de quarto!
– Mas, padre... a ideia foi sua. – Sandeul estranhou. – Foi o senhor quem disse que ele melhoraria se tivesse a companhia de um aluno mais correto.
– Eu disse?
Baro sentiu-se triste, devastado, como se seu coração tivesse sido partido em mil pedaços por Sandeul.
Mesmo depois de viver sozinho por anos naquele quarto, acreditou que Sandeul realmente o tinha escolhido como companheiro. Jamais imaginara que o garoto a quem era tão apegado, mesmo não admitindo isso a si mesmo, teria sido obrigado a dividir um quarto com ele para que fosse uma “boa influência”.
E ainda que continuasse nutrindo o desejo compulsivo de ser expulso do colégio, Baro acreditava que, pela primeira vez em sua vida, não estava sozinho.
– Sim, claro que eu disse. – disfarçou, escondendo a tristeza. – Mas conte-me. O que Cha aprontou dessa vez?
– Receio dizer que dessa vez aprontei tanto quanto ele, padre.
– E por qual razão?
– Bem... – a voz de Sandeul se tornou mais fraca, como se estivesse envergonhado pelo que tinha a dizer. – Baro e eu... Sunwoo e eu... nós... nos deitamos juntos, padre.
– Oh!
Baro não precisou fingir que estava surpreso, pois de fato estava. Por que raios Sandeul estava contando ao padre Siwon que havia se relacionado com ele? E por que só agora, depois de tanto tempo?
– Eu o amo, padre. – Baro ouviu o choro rouco e arrependido do garoto, e seu coração disparou ao ouvir aquela revelação. – Ele, um outro homem. Não me entenda mal, padre. Eu não queria, nunca quis. Mas a verdade é que amo Cha Sunwoo com todo o meu coração.
Houve um longo período de silêncio, enquanto ambos eram tomados por suas emoções.
Sandeul sofria pelo amor proibido, e Baro simplesmente pelo amor.
Naquele momento, Baro soube que seus sentimentos eram os mesmos que os do mais velho. Que aquilo que sentia não era apenas um desejo físico, mas também emocional. Talvez já soubesse disso há muito tempo, mas nunca quis assumir.
– E por que está me contando isso agora, meu filho? – Baro engoliu o choro e perguntou, como se sua vida dependesse daquela resposta.
– Porque ele finalmente conseguiu, padre. – suspirou. – Sunwoo será expulso hoje. O reverendo me chamou em sua sala e me contou. – O coração de Baro congelou por um instante, junto com o resto de seus órgãos. – Por isso, quero fazer-lhe um pedido. Sei que sou um pecador e mereço ser castigado. Traí ao senhor e ao Pai santíssimo. Reneguei a missão que me foi dada, mas estou arrependido e disposto a reparar meus erros. Sabemos que o Senhor Deus é piedoso, e estou disposto a buscar seu perdão. Por isso, peço que me transfira para o Seminário.
Continua...
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