Pequena Visionária
2 Astromélias
Notas iniciais
"Se você não está disposto a arriscar, esteja disposto a uma vida comum" – Jim Rohn, empreendedor
A menina caminhava erma pelas ruas daquela cidade caótica que estava incrivelmente calma naquela manhã de sábado, o que não era estranho, quando o inverno se aproximava os moradores costumavam ficar dentro de suas casa por conta da temperatura muito baixa pela cidadezinha se localizar nas montanhas. Ela carregava consigo um carrinho com várias flores de diversos tipos decoradas em buquês: Margaridas; Rosas; Tulipas; Violetas; Cravos; e Lírios. A menina batia de porta em porta vendendo essas flores, afinal era o dia dos namorados, não podia perder essa oportunidade de faturar. A maioria dos compradores eram homens, que geralmente contavam a mesma história para a garota, que tinham se esquecido de comprar o presente de dia dos namorados para suas cônjuges. Já as mulheres não compravam tanto e quando faziam era mais pelo fato de achar fofo a menina vender as flores pela vizinhança. Além dos adultos que vendia as flores, ela vendeu alguns buquês para crianças que brincavam nas ruas de guerra de bolas de neve e montavam bonecos do mesmo material gélido, as crianças acharam estranho Laura vender flores ao invés de brincar e até a convidaram para fazer os famosos anjos no chão, porém ela negou.
Com o passar do tempo o carrinho foi ficando cada vez mais vago. As pessoas realmente compravam aquelas flores. Isso era bom, já tinha passado de sua meta de vendas e ainda tinham várias casas. Virando a esquina arrastando o carrinho pelo chão escorregadio, passou reto por várias moradias, que tinham as luzes apagadas, logo estavam vazias. Avistou algumas crianças brincando na frente de uma vermelha com telhado marrom escuro e apressou o passo em direção a ela com a esperança vender algo já que naquela rua, eles eram as únicas almas vivas aparentemente presentes, porém mudou de ideia de rumo quando passou pela casa 801, ela parou. Essa residência que sempre estava vazia quando fazia suas vendas, está estava finalmente com as luzes acesas e conseguiu ver através da janela aberta um homem de cabelos negros cujo usava um chambre azul flanela, fazia alguma coisa na qual a menina não conseguiu identificar o que era. Ela então resolveu tentar vender os buquês para ele, já que era um provável comprador. Bateu duas vezes na porta que fora aberta logo em seguida pelo homem que vira na janela, a primeira coisa que ela notou sobre ele foi sua altura, extremamente alta, ela tinha que quase dobrar o pescoço para olhar nas suas orbes verde. Depois ela reparou no humor dele, estava com a cara um pouco amassada, devia ter acordado faz pouco tempo, o que se tornava mais óbvio pelo fato de ele segurar uma caneca que parecia ter café dentro, a caneca era peculiar, tinha o desenho de uma vaca e ao lado uma letra 'H' gigante. Laura tentou não entender aquela caneca, estava procurando algo mais importante em suas mãos.
– Bom dia senhor. Gostaria de comprar algumas flores? — Disse a menina abrindo um sorriso ao ver uma aliança nas mãos dele que a encarava sonolento na porta — Você pode dar um maravilhoso buquê para sua esposa como presente nesse dia especial. São apenas cinco reais!
– Acho que não. – Disse o homem dando um riso torto, a menina não entendeu o porquê mas não desistiu do cliente, ele era o público-alvo, era alguém casado.
– Pense bem, além de ajudar o orfanato local, o senhor vai dar lindas flores para a pessoa que ama, acho que ela gosta de flores. — Disse a menina fazendo uma carinha fofa com a finalidade de convencer o homem de comprar aquelas flores. Disse aquilo pois, analisando o quintal florido da casa, mesmo estando em temporada de neve, alguém que morava ali realmente gostava de flores.
– Sim, até demais. Certo vou comprar – Concordou caindo no jogo da menor abrindo a carteira enquanto observava os produtos no carrinho, em especial, observou as lindas flores rosas e amarelo com um toque de verão tropical, que por algum motivo tinham um cartão junto — Aquelas flores... São Lírios Peruanos?
– Sim, na verdade o nome verdadeiro delas é Astromélia.
– Onde conseguiu as flores? — Perguntou o homem um pouco tenso, Laura se assustou com o olhar que ele colocou nela e começou a travar, não gostava quando uma pessoa olhava e falava com ela nesse tom, principalmente um homem.
– Do jardim das freiras, todas as flores são de lá. — mentiu em partes.
O homem nada disse apenas guardou a carteira, olhou novamente para o carrinho da menina e logo se escorou na porta de entrada voltando a encarar a garota do mesmo jeito que antes. Porém, Laura começa a se sentir mal com o olhar dele.
– E as freiras nunca te falaram que é feio mentir? — A garota entrou em choque, como ele sabia que as flores não eram das freiras? Bem, pelo menos as Astromélias não eram. — Só existe uma pessoa nessa cidade que possui essas tais de Astromélias, é a Sra. Marsh. Você às roubou?
– E- eu… — A menina falhou ao argumentar, além dele a chamar de ladra, ele estava de alguma forma pressionando-a, mesmo que essa não fosse a intenção do mesmo. O moreno não disse mais nada, estava esperando uma resposta. Ela então respirou fundo e disse. — Ok, primeiramente essas flores não são roubadas, eu peguei, sim, uma muda da casa da Sra. Marsh mas essas plantas fui eu quem plantou lá no orfanato no jardim nessa primavera e verão. As Astromélias são totalmente minhas e se duvidas pode ir lá olhar. Segundo, as outras plantas realmente são das freiras, porém eu só recebo 5% de cada flor dessas que eu vendo. Por isso eu vendo as minhas próprias, pois o dinheiro vai todo pra mim. E terceiro eu posso te denunciar por calúnia por dizer que eu roubei algo.
– Ok, acredito em você, só fiquei intrigado. – Disse o homem rindo da resposta final ficando cada vez mais curioso com a figura que estava em sua porta. Pensou em algum motivo para a garota estar fazendo aquilo, vendendo flores no meio daquele frio. Deduziu que foi algo mandado pelas freiras que frequentemente faziam rifas com prêmios toscos que todos os moradores da cidade compravam, já que aqueles idiotas não faziam nada pelo orfanato, achavam que já estava de bom tamanho dando um real para o sorteio de um ovo de chocolate recheado. Assim como ele também fazia.- Você está vendendo isso por obrigação certo?
– Claro que não. É ideia minha aliás, como perderia uma oportunidade dessas de faturar dinheiro? Ninguém do orfanato teria a mesma ideia que eu.
– Dinheiro? E você vai faturar com isso? — O moreno duvidou de Laura
– Essas flores das freiras só me fariam perder tempo, eu receberia uma merreca pelo meu trabalho, mas sou mais esperta que isso. Aproveitando o dia dos namorados e o drama que o orfanato carrega consigo além do fato que as minhas Astromélias iriam 'morrer' mesmo neste inverno, eu resolvi vende-las. Vou faturar muito com as flores das freiras e mais ainda com as minhas. — Ele se espantou com a frase da garota que falava aquilo com a maior tranquilidade na face
– Agora você vai me contar como. — Disse novamente rindo do comentário da menina
– Olha, cada flor vale 50 centavos, então eu juntei as flores em um buquê e cobro 5 reais cada um já que as pessoas sempre têm cinco pila no bolso, assim as flores saem mais rápido e fica mais caro com a decoração que vai custar 12 reais no total. Fiz um buquê de cinco flores que então custaria R$2,50 mas já que aumentei o preço com a decoração, eu tenho R$2,50 de lucro pessoal com cada buquê, porém eu arrecada somente R$13,00 por causa do custo da decoração, então resolvi vender minhas próprias flores, agora a decoração custa 17 reais mas eu tenho o lucro total dessas plantas para mim. Faça as contas, R$25,00 das flores das freiras, R$27,50 das minhas flores, tirando o investimento de R$17,00 na decoração, consigo R$35,50. E os cuidados das flores não me custaram nada. Claro se eu conseguir vender tudo eu tenho esse lucro. Mas eu consigo, já vendi mais da metade, e as pessoas gostaram do vale massagem, só não entendo o porquê de alguém querer massagem.
Com toda essa explicação detalhada, quem está sem palavras naquele momento era o homem que está olhando para a menina com os olhos esbugalhados de incrédulo, estava maravilhado que aquela pequena criança teve capacidade de fazer pensar em tudo aquilo e se sentiu um idiota por, quando menor, brincar de super herói e ter como prioridade chegar cedo da escola para assistir desenho de carros e dar comida para seu porquinho da índia. Sem saber o que responder para a figura em sua frente ficou calado assustado.
– O senhor tá bem? — perguntou a menina estreitando os olhos, ela achava engraçado, agora era ele que não tinha reação para ela.
– Quantos anos tem? — Disse logo em seguida da pergunta de Laura, tinha muitas coisas para perguntar à garota, mas essa foi sem dúvidas a que mais latejava em sua mente. Por isso só conseguiu dizer aquilo.
– 9 anos.
– Em que série tu está?
– Quarta série
– Qual o seu nome?
– Laura.
– Você realmente é do orfanato?
– O senhor vai comprar as flores? — Ela o cortou, pois começou a se sentir desconfortável com tantas perguntas estranhamente pessoais, ele percebeu o que a menina sentiu e resolveu parar com o interrogatório abrindo novamente a carteira para pegar o dinheiro.
– Quanto custa as essas tais de Astromélias?
– R$5,50, pois vem com o vale massagem.
– Certo, é essa que eu vou querer. — A menina pegou o dinheiro e colocou dentro de uma caixinha amarela do que estava dentro de sua mochila. Que por sinal tinha estava cheia de notas de cinco reais, ela realmente tinha razão, as pessoas sempre têm cinco reais nos bolsos. Logo depois pegou o penúltimo buquê das flores Astromélias e deu ao homem.
– Aqui está senhor. — ela entregou o buquê de flores ao homem que pegou logo o cartão e leu “Este é um vale massagem, a pessoa apaixonada que receber as flores da cor do amor terá uma massagem gratuita do remetente” ele não pode deixar de rir com o cartão da menina que simplesmente ignorou a reação do mais velho. Abaixou o cartão de sua visão e viu a menina arrumando suas coisas preparando pra ir embora – Tchau, foi um prazer fazer negócios com você!
– Espere, não quer um chocolate quente?
– Não... obrigado... Não sou idiota.
– Idiota?
– Bem capaz que eu entraria na casa de um desconhecido para tomar café. Eu nem te conheço e gosto de estar viva.
– Nossa, calma, eu só quero conversar com você. Na verdade você tem razão, isso ficou estranho. Enfim, eu gostei de você e quero somente saber mais de você — A menina ficou quieta, parecia um pouco hesitante ainda. — E se eu quisesse te sequestrar eu já teria feito.
– Você tem razão, mas eu estou ocupada agora tenho que vender essas flores ainda. E você deveria ficar com sua mulher hoje. — Disse ajeitando a mochila nas costas olhando a expressão estranha que o homem tinha feito.
– Minha, ann... “mulher”, vai trabalhar hoje até o meio dia. Escuta, se você quiser aparecer aqui pra gente conversar pode vim. — A menina ficou pensativa, ela tinha receio disso, porém seria interessante conversar com ele, contatos são contatos
– Está certo, se me sobrar tempo hoje eu venho. — Ela disse com um sorriso um tanto tímido, mas não perdendo a firmeza. Se virou pegando o carrinho de mão pela alça e foi andando para fora do pátio — Até!
– Até! — Disse ele vendo a menina ir embora. — Fechou a porta de casa, ainda incrédulo com o que aconteceu, ele simplesmente não sabia o que dizer, aquela menina o encantou de uma forma engraçada, com certeza, seria a primeira coisa que diria ao seu marido quando ele chegasse.
–- * --
A menina continuou as vendas até o carrinho se esgotar. Olhou o relógio laranja que tinha no pulso. “9h48”. Cogitou em ir embora para o orfanato quando lembrou do moreno que venderá o penúltimo buquê de Astromélias. Aquele chocolate quente cairia bem nesse frio afinal. E confirmou que iria para a casa do moreno quando começou a nevar mais forte. Foi em direção a 801 às pressas, só parou de andar quando ajudou uma senhora muito simpática com uma sacola de mercado a atravessar a rua, e quando chegou no local bateu duas vezes na porta e viu o moreno como anfitrião olhando a menina cheia de neve.
– Eu posso, ann… Ficar aqui até a neve parar de cair?
– Claro, entre. — ele fez sinal para menina entrar e tirar os sapatos e o casaco grosso que usava. — Fique a vontade.
– Sua esposa ainda não chegou?
– Somente depois do meio dia — Disse ele rindo com a respiração. A menina ignorou, não via motivo para perguntar o que era tão engraçado toda vez que ele falava de sua mulher, talvez eles estejam brigados, ela preferiu não tocar no assunto. Laura olhou a sala de estar dele, mesmo sendo simples era bem decorada e arrumada, tinha um sofá azul marinho, alguns quadros com fotos que não se importou em olhar quem eram, uma estante branca com uma televisão e um console de videogame instalado e um tapete fofo e felpudo. Ele fez sinal para a menina se sentar naquele sofá e assim ela fez. Ele foi para a cozinha e deixou-a sozinha ali. Ela estava um pouco nervosa e cogitou em sair correndo daquela sala com cheiro de gerânio, mas pensou que aquela não seria algo que uma de uma empreendedora bem sucedida faria, por isso resolveu ficar respirando aquele aroma que a acalmava de certa forma. Ficou meditando e pensando o porquê de estar ali, e o quanto ela estava perdendo a noção com essa história de empreendedorismo. Ela não tinha mais nada o que fazer naquele dia, estava nevando forte na rua e queria conversar com ele profissionalmente, cliente é cliente. Talvez ele desse uma ideia de produto ou talvez ele fosse um empresário rico que vive no exterior e por isso sua casa está sempre vazia. Ela pensou como era uma menina gananciosa, mas isso não era um problema, acredito.
Aqui, seu chocolate quente. — O rapaz chegou tirando ela dos seus pensamentos entregando uma caneca decorada para a menina que a analisou antes de beber o líquido, tinha uma frase escrita 'Have a nice day', ela sorriu com a frase. Bebeu o líquido doce queimando um pouco sua boca e garganta, estava muito quente, mas naquele frio era bom e ela gostava daquela sensação, sem contar que o chocolate quente estava realmente muito bom.
– Está muito bom. — Disse a menina cutucando um marshmallow que boiava no líquido escuro
– Obrigado. — Ele se sentou ao lado da menina que se tornou um tanto tensa quando ele fez isso. — Então, por que uma menina de 9 anos tem tanto interesse em conseguir dinheiro?
– Não se trata do dinheiro. E sim no investimento. Aplicação. Quanto mais eu aplico mais chances de crescer. Mas pra aplicar, eu preciso de dinheiro — Ela deu uma pausa para morder um sanduíche de uma bandeja em cima duma mesinha na frente do sofá que fora colocado a poucos minutos pelo moreno. — Mesmo assim entendi sua pergunta, eu pretendo ser alguém na vida sabe. E tudo isso conta como experiência e capital para o futuro.
– Quer ser uma empresária ou algo do tipo? — Ele tomou um gole do seu café depois de suspirar essa pergunta
– Empreendedora. É diferente — Ela olhou para ele bebendo o liquido — E você, o que faz da vida?
– Bem. Sou professor na escola de ensino médio da cidade.
– Uau, que demais. — Disse a menina brilhando os olhos. — Da aula de que?
– Física. — Respondeu dando de ombros tomando um gole do seu chocolate quente
– Parece difícil dar aula de física. — Ela comentou reflexiva.
– Realmente, mas meus alunos sempre tiram ótimas notas. No geral a maioria.
– Isso é ótimo. Deve ser gratificante para o senhor.
– Com certeza. — Ele respondeu abaixando a caneca — Não me chame de senhor, me faz parecer velho.
– E qual seria seu nome então?
– Craig, Craig Tucker. — Disse ele sorrindo.
E assim foi, entre risos e conversas os dois conversaram, o homem e a menina. Socialmente pessoas tão diferentes mas que se tornaram como velhos amigos de infância que jogavam conversa fora sobre diversas coisas: carreira; comidas; filmes; jogos eletrônicos; animais; quadrinhos; e etc. Só pararam de conversar quando deu 11h50 e a neve já tinha parado de cair. Craig tinha convidado a menina para o almoço, mas ela negou dizendo que tinha que chegar ao orfanato 12h30. E com isso eles se despediram um do outro com um convite de Craig para que ela voltasse no dia seguinte, ela confirmou presença. Ela foi embora logo em seguida do pedido acenando como despedida para ele. E quando ele fechou a porta, se tocou que ela voltaria de qualquer forma, ela tinha esquecido o cachecol rosa salmão velho que usava. Praticamente todo dia.
Fale com o autor