Pensamentos de uma Garota Vazia
17 Castelo de Vidro
Notas iniciais
Mas tinha acabado e eu senti que ainda faltava algo. Que com o meu grito algumas coisas sumiram; saíram pela porta como se fossem segredos e permaneceriam assim. Ninguém se importaria com elas. Todos já as conheciam e tratavam-nas como passado. Enquanto que, para mim, elas são a realidade. Uma realidade feia e dolorosa, escondida por mentiras e pela hipocrisia.
Era a minha vez. Era eu quem deveria falar e eles estavam rindo, corrigindo alguns erros de português. Está tudo bem. Eu sorri e olhei para eles. Vou esperar que terminem. Minhas mãos amaçavam o papel e merda, elas estavam tremendo. E era agora, eu começaria. Alguns murmúrios ainda, contudo eu continuei e o que aconteceu depois deixou-me pensativa.
Todo mundo ficou em silêncio, ouvindo o que eu dizia. Eu não olhava para seus rostos, mas o fato deles terem parado de fazer qualquer outra coisa... Era bem significante. Seria surpresa? Educação? O choque para com a realidade? Ele estariam pensando, ao menos naqueles segundos, em tudo o que eu falei? Em como as coisas aconteciam?
Eu não lembro muita coisa... Apenas o modo como minhas mãos ficavam balançando, sem sentido e sem controle, a dificuldade em dizer aquelas palavras, minha voz denunciando um choro e um grito profundo e por fim, a ausência das pessoas.
Elas estavam lá, claro. Sentadas, cumprindo seus deveres. Porém, pela primeira vez, enquanto eu caía, elas me viam. Eu não enxergava seus rostos e não ouvia nada além de meu grito. Eu queria tanto dizer que foi só mais um pesadelo... Mas, no final, eu continuei caindo e eu não sabia onde eu estava. Eu só... Caía. E eles só me olhavam. Pareciam mortos, horrorizados, assustados. Pareciam pensar e aquilo me surpreendeu.
Como se os risos, as brincadeiras e toda aquela felicidade tivessem se chocado com a minha voz fria, velha e cheia de sentimentos ruins — apesar de haver um ou outro bom. E não havia interrupções, não havia nada até o sinal tocar e todos retomarem seus lugares. Recuperarem a parte deles que eu havia tirado e saírem. Não lembro se rindo, sorrindo, conversando. Eles saíram e eu fiquei lá, como sempre fico; com a cabeça pesada e a consciência pulsando nas minhas veias.
Mas tinha acabado e eu senti que ainda faltava algo. Que com o meu grito algumas coisas sumiram; saíram pela porta como se fossem segredos e permaneceriam assim. Ninguém se importaria com elas. Todos já as conheciam e tratavam-nas como passado. Enquanto que, para mim, elas são a realidade. Uma realidade feia e dolorosa, escondida por mentiras e pela hipocrisia.
E é assim que eles deixam tudo mais aceitável, tudo mais banal. Eles pegam a verdade e introduzem ao seu redor fatos manipulados, digeridos. Eles mentem o tempo todo e as pessoas acreditam sem nem pensar. É como um castelo de vidro que se ergue e prende a veracidade dos fatos, ao mesmo tempo, que engana pelas paredes transparentes.
Então, eu descobri que eu sou quase um castelo de vidro. Tão invisível quanto uma mentira é. Tão frágil que posso ser quebrada com uma mera verdade. Pois, quando o silêncio permitiu-me ouvir a minha voz trêmula e chorosa, guardada há tanto tempo, parte de mim foi lançada aos ares, machucando a todos e principalmente, a mim.
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