Pensamentos Obscuros

1 Pensamentos Obscuros


A aula nunca mais termina.

O professor mantém o seu discurso constante sobre coisas que não me interessam para nada, nem a mim nem a ninguém. A maior parte dos alunos não quer saber. Conversam uns com os outros, adormecem de olhos abertos ou escondem os telemóveis enquanto enviam mensagens.

Sobre o que andarão a falar? Desporto? Sexo? A mente deles parece-me demasiado limitada para existirem outros temas além desses.

Eu estou, como sempre, sozinho. Escrevo em plena aula de matemática. Acho que era de matemática. Não interessa, não vale a pena pensar muito no assunto. Concentrar-me-ei na escrita. Devo fazê-lo.

Escrever sempre foi um hábito meu. O meu pai ensinou-me a fazê-lo. Foi das poucas coisas decentes e úteis que ele me ensinou. Sempre que a minha mente estivesse obcecada com algum pensamento obscuro deveria escrevê-lo, guardá-lo num papel. Só deixando o pensamento redigido em algum lado é que podia deixar a minha mente descansar.

Eu tenho muitos desses "pensamentos obscuros". Costumam ser coisas pequenas. Mas certas vezes são horríveis. "Horríveis" para o humano comum, entenda-se. De momento, por exemplo, estou a pensar no professor. Estou a olhar para o seu corpo magro. É demasiado magro. Como será ele sem roupa? Como será ele de cima a baixo, todo nu? Imagino-o atado a uma cama, os seus membros forçosamente estendidos pelas cordas. À minha mercê. Olho-o por trás dos meus óculos embaciados.

Eu quero-o. Desabotoo a camisa que lhe cobre o peito peludo. Não gosto de homens com muito pelo. Repugna-me um bocado, por alguma razão. Eu próprio não sou propriamente desprovido deles. O que estará por baixo daquela carne? Quase sinto as minhas unhas contra aquelas costelas salientes. Ah ah. Ele pode gritar o que quiser. Se gritasse até me daria mais prazer. Seria tão, tão...

Ouço o meu nome sendo proclamado.

O professor fez-me uma pergunta, mas eu não ouvi a questão. Mantenho-me em completo silêncio, esperando que tudo passe. Mas não passa, só piora. Começam todos a rir-se como se eu fosse um ignorante. Contenho a minha fúria. Preciso de o fazer, pelo bem deles e, mais importante, pelo meu.

Levanto-me da minha cadeira e, sem dar tempo para que o professor me exija explicações, saio da sala. Não quero olhar mais para eles, para todos eles. Os pensamentos são demasiado fortes.

Vejo os meus colegas todos empilhados num gigantesco pilar, um totem humano. Vejo uma tocha na minha mão direita. Vejo-me aproximando a tocha flamejante. Por fim, vejo o fogo subir da base ao topo do totem. Vejo-os gritar, vejo-os queimando. Vejo-me sorrir na mais pura alegria e jovialidade.

Tenho de sair daqui.

De mãos nos bolsos, avanço o mais rápido que consigo em direção ao portão de entrada da escola. O problema é que, pelo caminho, sou intercetado por duas das criaturas que mais odeio na vida.

Boris Stravinski e Umberto Alfama são dois delinquentes juvenis. Como se pode claramente observar, hoje faltaram às aulas, para variar.

—A sair cedo das aulinhas, quatro-olhos?

Foi o Boris a falar. O dominante. Chamam-me "quatro-olhos" por causa dos meus óculos. Irrita-me tanto...

—P'ra onde vais? Espera por nós! Nós vamos contigo.

Sempre naquele tom jocoso, trocista. Malditas pessoas.

Começam-me aos encontrões. Tentam provocar-me, querem tanto fazê-lo. Ameaçam matar-me. Ameaçam o meu sexo. Ameaçam toda a minha integridade física. Inconscientemente, sei que estão a pedir a morte. Ouço a morte sussurrar nas suas vozes. "Mata-nos". "Por favor, mata-nos".

—Com prazer.

A frase saiu dos meus lábios, delicada e quase inaudível, como um murmúrio.

Atingi o nariz do Boris com um soco em cheio na cara. Ouvi-o rachar e isso fez-me feliz. De seguida, segurei-lhe firmemente os ombros e, ceifando as suas pernas com uma das minhas, projetei-o contra o solo. Umberto afastou-se, não queria ter nada a ver com isto. Fazia ele bem. O meu sapato gasto e de cor escura encontrou as gónadas do meu caído adversário.

"Não faças isso" gritava ele mentalmente. Conseguia ouvi-lo na perfeição. "Não me faças isso". Cada frase me dava mais vontade de continuar.

Então, esmaguei-as.

Oh... ele gritou. Chorou e chorou. As lágrimas não paravam nunca. As calças rapidamente se encheram de um sangue concentrado, sustido apenas pela apertada roupa interior. Não se conseguia mexer.

Podia fazer com ele tudo o que quisesse, tudo o que já imaginei fazer.

Mas não o faria. Não merece o meu tempo. Serei apanhado e severamente punido por isto. Mais vale entregar-me enquanto posso, antes de protagonizar mais estragos.

Como estava desatento, fixo no corpo magoado da minha afável vítima, não reparei antes que o Umberto estava armado. Empunhava uma pequena faca, pequena mas potencialmente letal quando utilizada pelas mãos certas. Um passo em falso representaria a minha morte. Mas eu não desejava a minha morte, desejava a dele.

—Não te mexas ou eu esfaqueio-te, ouviste?

Se ainda não me tinha esfaqueado era porque estava com medo. Cheio, cheio, cheio de medo. Eu estava em vantagem. Apesar de tudo, apesar de eu estar desarmado, ele ainda me temia. Ele vira tudo. Vira o seu melhor amigo sendo completamente despedaçado por um derrotado como eu. E agora veria algo ainda pior.

Eu não queria ter chegado a este ponto. Mas a culpa foi deles. Eles tornaram-me assim. O ambiente tornou-me neste vil assassino que mata por mero prazer. Não me orgulho disso. Mas, sinceramente, também não me arrependo.

A primeira reação que tive foi pressionar a palma da minha mão contra a lâmina. Esta trespassou-ma de um lado ao outro. Ah. A dor sabe tão bem quando a ferida é diretamente injetada de adrenalina. Agora a sua arma estava sob o meu controlo total.

Na altura não notei mas havia perdido o domínio das minhas expressões faciais. O meu rosto revelava-se hediondo e aterrorizante. Isto representa que tanto a minha mente como o meu físico se adequavam a uma derradeira máquina de matar.

Os dedos da minha empalada mão encontraram o membro que segurava a faca e capturaram-no. És todo meu, pequeno Umberto. Todo meu. Com um impacto do meu outro punho no seu osso conhecido como rádio, facilmente fraturei esse mesmo braço.

O menino Alfama não parecia estar a aproveitar tanto a sua dor como eu.

Um empurrão fê-lo cair por terra, tal como acontecera antes com o seu companheiro. Desta vez, o meu pé não se dirigia aos órgãos sexuais mas sim à face. Sem pensar muito no assunto, levado pela emoção do momento, pressionei. E nunca mais voltei a ser o mesmo.

Oh! A êxtase! A apoteose dos meus sentidos! Os sentimentos mais primitivos do instinto humano emergindo num uníssono sinfónico. Tudo tão gracioso, tão belo.

Vão prender-me, é claro que vão. Mas pelo menos vivi este pequeno instante de loucura. Em poucos minutos, descobri quem verdadeiramente sou e apaixonei-me por aquilo que verdadeiramente me faz feliz. Sei que sou doente. Sou definitivamente anormal, uma qualquer anomalia genética sem significado. É a minha natureza. Este sou eu, nada posso fazer para mudar isso. Olhem-me como sou ou inventem um outro eu que vos agrade. Façam o que quiserem. Mas esta pessoa sempre será como quer ser.

Eu sou eu, o eu único e exclusivo. Não existe mais ninguém igual a mim. É claro que devem existir muitos parecidos comigo. Imagino que existam diversas pessoas igualmente degeneradas com fantasias idênticas às minhas, talvez piores. Sim, não sou o único, de certeza. Essa pessoa semelhante a mim pode ser o seu vizinho, o seu colega, o seu familiar, o seu melhor amigo. Essa pessoa pode ser qualquer um, um demónio perverso disfarçado, um lobo em pele de cordeiro. Basta procurar-se com afinco.

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