Pendências

1 Detestável mundo novo


Notas iniciais
Pra essa história eu imagino uma versão mais "punk" da Mona, ou seja, uma garota que tem as pontas dos cabelos tingidas de vermelho e que usa camisetas de bandas :)

A primeira coisa que vi assim que abri cautelosamente os olhos foi o céu, colorido de um azul denso e cheio de estrelas. Era uma visão tão linda e tão tranquila que por um segundo a única coisa que eu quis foi ficar ali, fitando aquela imensidão sem me preocupar com nada. Afinal, tudo acabaria por ser um sonho mesmo.

Foi então que senti uma brisa gelada tocar meu braço direito e a parte inferior da barriga, que por algum motivo a camiseta não cobria. Um por um, de cima a baixo, os pelinhos que cobriam meu corpo foram se arrepiando. Por que tão frio? Os outonos não costumavam ser assim no sul da Pensilvânia. De qualquer jeito, era um frio diferente, mais cruel, que de certa forma arranhava minha pele. Por um momento pensei que não fosse capaz de me mover, mas tinha a sensação de estar deitada sobre algo duro, que com certeza não era a minha cama.

Respirando cuidadosamente, tentei tatear a superfície com os dedos trêmulos de minha mão direita. O que quer que fosse, era áspero. Asfalto? Sim. Pus-me de pé, com um pouco de dificuldade. À frente, tudo que vi foram dezenas e mais dezenas de metros de uma estrada completamente vazia e uma enorme placa verde que dizia Seja Bem-Vindo à Filadélfia! Virei-me, finalmente começando a entrar em pânico. A estrada se estendia à perder de vista, deserta. Na encosta, apenas árvores. Muitas delas.

Espere aí. Filadélfia? Mas... mas que diabos? Girei mais trezentos e sessenta graus em meu próprio eixo, reprimindo o impulso de gritar por minha mãe, pois ela seria a única capaz de me acordar daquele pesadelo. O silêncio era ensurdecedor. Eu não ouvia motores ao longe, nem grilos, nem sequer o barulho do vento soprando nas folhas das árvores. Mas ainda assim aquilo parecia real demais para ser um sonho. Eu sentia o ar frio entrar por minha boca de forma entrecortada; sentia com perfeição os jeans colados às minhas pernas e a camiseta de mangas duplas do Rolling Stones que não me abrigava suficientemente; também não precisava colocar as mãos nos bolsos para saber que não carregava nenhum peso extra; nem chaves, nem carteira, tampouco celular. Sentindo o choro entalado em minha garganta, fiz de tudo para manter a calma e finalmente comecei a caminhar para longe da placa verde e de volta para Rosewood.

Como alguém que sai de uma piscina com os ouvidos um tanto cheios d’água e vai recobrando a perfeita audição gradualmente, eu comecei a reconhecer outra vez os sons do ambiente – como minhas passadas apressadas que ecoavam ao redor – e isso foi a única coisa que conseguiu me acalmar ainda que mínima e momentaneamente.

Enquanto caminhava determinadamente, tentei não pensar no fato de que não lembrava de absolutamente nada do que havia acontecido antes de eu me encontrar deitada sob o sereno. Minhas mãos tremiam. Sem pânico, eu repetia incessantemente para mim mesma, se isso não for um sonho, mais cedo ou mais tarde eu chego em casa e assim poderei esquecer disso tudo.

E então eu me vi obrigada a parar.Um barulho fraco veio detrás de mim, que foi aumentando e aumentando até que consegui distinguir uma sirene. Senti meu coração se contorcer quando percebi que o veículo também havia parado ali, a metros da onde eu estava. Mesmo estando de costas, via os sinalizadores vermelhos de uma ambulância iluminarem o chão asfaltado abaixo de meus pés.

Em câmera lenta, novamente me virei e, pouco depois de meu queixo cair, me perguntei como diabos eu não havia notado um caminhão parado ali também. Os dois veículos vinham da Filadélfia mas, ao contrário da ambulância, que havia chegado há segundos atrás, o caminhão parecia estar já estacionado ali há algum tempo. Estava com a porta esquerda da cabine aberta e encarava o capô quase que completamente destruído de um terceiro veículo que tinha ido de encontro a algumas árvores na encosta da estrada.

Aquela cena definitivamente não havia se formado naqueles poucos segundos em que eu me mantivera em movimento. Ignorei meu aparente problema seríssimo de visão assim que reconheci aquele carro destroçado. Eu tinha um igual!

Apertei minhas mãos uma na outra numa tentativa frustrada de conter a tremedeira e instruí aos meus pulmões que voltassem a funcionar normalmente, afinal, revendedoras não comercializavam modelos exclusivos; e dentro do possível, ainda de olho naquilo tudo, senti algo próximo a calma se aproximar de mim, mas tal sensação infelizmente não permaneceu comigo.

Três paramédicos desceram às pressas da van vermelha e branca e trabalharam durante alguns minutos para arrastar uma garota para fora do carro pelo lado direito. Uma garota de membros moles, obviamente, e com um corte na testa do qual escorria sangue.

Por meio de algum milagre, consegui fazer meus joelhos não cederem ao ver que a camiseta que a garota usava era também igual a minha. Ao invés de me entregar de vez ao desespero, corri até um quarto paramédico que estava ao lado de um homem de meia idade que provavelmente devia ser o motorista do caminhão.

— Eu a vi perder o controle – alegou o homem para o outro que anotava apressadamente o que lhe era dito em um bloquinho. Estava visivelmente abalado e, pelo sotaque e pela forma humilde de se vestir, devia ter vindo de algum lugar como o Tennessee – e consegui apenas arranjar tempo para desviar.

O homem de cabelos grisalhos tinha o rosto e os olhos vermelhos, parecia temer a mera possibilidade de ter matado alguém. Por um segundo me dei o direito de sentir pena. Ele parecia apenas ser um pai de família sem ficha na polícia como qualquer outro. Quase disse ao homem de uniforme que devia deixar o outro ir, então percebi que não era esse o motivo de eu ter me aproximado.

Minha ideia era cutucar o ombro do rapaz uniformizado e perguntar-lhe se alguém poderia checar a placa do carro do qual estavam removendo a garota, mas por algum motivo eu mantive as duas mãos na cintura enquanto questionava-o pela primeira vez. Pensei ser por isso a dificuldade dele em me ouvir. A confusão estava grande à frente de nós, afinal de contas, e eu levantei uma mão para tocar o ombro dele finalmente enquanto refazia a pergunta.

Senti minha visão embaçar um segundo depois e não pareceu que eu realmente vi o que de fato eu vi. Quatro dedos de minha mão direita simplesmente pareceram... passar por dentro do uniforme azul do rapaz. Sacudi a cabeça e dei um passo para trás, não podendo conter uma leve e irônica risada. Isso definitivamente não está acontecendo, pensei enquanto esfregava os olhos, já passou da hora de você acordar.

Já completamente convencida de que aquele pequeno grande drama não se passava de um sonho esquisito, virei o rosto para a direita involuntariamente e percebi que estava a mais ou menos um metro do capô destroçado daquele carro. Meus olhos baixaram instantaneamente para a placa dele e o reconhecimento da sequência de números e letras foi igualmente instantâneo.

— Eu não estou conseguindo sentir o pulso dela! – ouvi um dos paramédicos gritar afobadamente por trás de mim. Os três outros homens trabalhavam para colocar a garota em uma maca e ajeitar o suporte de espuma amarela em volta de sua cabeça.

Tal frase serviu-me apenas como música de fundo enquanto eu fazia uma desagradável associação. Percebendo finalmente que ninguém ali parecia me notar, dei dois passos para trás, completamente desnorteada, e deixei-me desabar no asfalto, sentindo meus olhos inundados.

Vi quando um dos homens, este parecendo mais experiente, tocou o pescoço da garota na maca.

— Ela ainda tem pulso, mas está fraco demais. Está entrando em estado de coma.

Acompanhei com os olhos todo o processo até a ambulância estar pronta para arrancar, este sendo embalado por vários “rápido, rápido, rápido!”, e a vi se afastar com a sirene à força total – mesmo com a estrada estando completamente livre – em direção à Filadélfia.

Pude ouvir pouco antes o homem de cabelos grisalhos dizer aos paramédicos que iria até o hospital também. Ao meu olhar, o mundo girava inteiramente, mas tirei um segundo do meu estado de choque para agradecer a ele mentalmente. Afinal, eu não sabia como, nem por que, mas a garota dançando entre a vida e a morte naquele exato momento dentro da ambulância que havia agora desaparecido em meio a escuridão era eu.

Notas finais
Opiniões, please :3