Pelo Olhar de Chrissie
21 Fazendo Música (ou Bagunça)
Depois de uma semana em que Smile tinha se tornado Queen, parecia que os meninos finalmente tinham se conformado com o nome e o visual, ou pelo menos começando a se adaptar às ideias de Freddie. Brian que o diga. Toda vez que checava o reflexo no espelho, suspirava frustrado ao observar seu cabelo começando a enrolar. Por fim, quando chegou o sábado e ele foi se aprontar para o show daquela noite, fiquei sem palavras ao ver seu novo penteado.
—O que foi? — ele soou assustado — eu estou horrível, não estou?
—Uau... — foi o que consegui pronunciar, sentindo o coração bater mais forte, sem conseguir ignorar o cabelo cheio e perfeitamente cacheado emoldurando seu rosto.
—Ai, eu sabia que era uma má ideia... — Bri reclamou, lamentando.
Eu ignorei o que ele disse, me aproximei dele e coloquei minhas mãos em seu rosto.
—Eu não sabia que tinha como você ficar ainda mais lindo... — eu elogiei sinceramente, um pouco surpresa comigo mesma por dizer isso em voz alta.
—Então... — ele corou — gosta do meu cabelo assim?
—Está perfeito — eu sorri e o beijei, para que ele tivesse certeza que falava a verdade.
—Obrigado — Brian agradeceu, aliviado.
A buzina da van nos interrompeu e nos apressou para irmos encontrar os meninos, dessa vez eu estava livre para ver o show daquela noite, uma das raras vezes em que fui ver o Queen naquele ano. Mas finalmente, depois de muito esforço e dedicação à minha vida acadêmica consegui me formar, finalmente sendo uma professora propriamente. Só faltava minha própria classe para minha vida profissional estar completa.
Enquanto eu procurava um emprego, Brian continuava se desdobrando com as apresentações, a faculdade e o trabalho, e os meninos continuavam cada vez mais se apresentando em quase toda cidadezinha e faculdade da região, enfrentando como podiam um contratempo aqui e ali, como o dia que ficaram parados na estrada por causa de um pneu furado e, Freddie, sendo Freddie, ignorou a aflição e impaciência dos amigos para dizer qual era sua próxima grande ideia para o Queen.
Quando Brian voltou de Glasgow, tanto eu como ele tínhamos excelentes novidades pra contar um ao outro. A van parou em frente ao nosso apartamento para ele descer, os meninos estavam tão esgotados que não teríamos nenhum encontro hoje, tudo que os pobres músicos queriam era uma boa noite de sono. Eu levantei imediatamente quando Brian entrou em casa, e lhe dei um abraço apertado, mesmo cansado, ele me levantou do chão, como sempre fazia quando estava animado e comemorava algo bom comigo, por isso deduzi que ele tinha excelentes notícias para me contar.
—Como senti saudade Chrissie... — ele falou ainda me abraçando — nem vai acreditar no que aconteceu.
—Eu também tenho umas coisas pra te contar — acariciei seu cabelo enquanto falava — mas sinto muito, meu amor, vai ter que me soltar pra conversarmos.
Ele riu e me beijou, então sentamos para ouvirmos o que tínhamos pra contar um ao outro.
—Fala primeiro — Bri pediu e eu suspirei e sorri, feliz pelo que tinha me acontecido.
—Eu consegui um emprego — contei — vou começar semana que vem, finalmente vou ser uma professora na prática!
—Parabéns! — Brian vibrou, seu olhar estava cheio de orgulho — isso é muito, muito bom, mesmo....
—Agora me conta, o que foi que aconteceu? — estava curiosa para saber.
—Hã... primeiro tenho que contar que um pneu da van furou no meio da estrada, graças a Deus não sofremos nenhum acidente nem nada, só atrasamos um pouco e abusamos da boa vontade do John, confesso, mas no meio desse caos todo — Brian parou para retomar o fôlego — Freddie quer que a gente grave algumas músicas nossas... pra um futuro disco em potencial.
—Mas como? Vocês não tem estúdio nem gravadora — eu me interrompi por um instante — desculpa, pareci pessimista, eu só me preocupo, quer dizer, a ideia é incrível.
—Então, é aí que a sua notícia vem bem a calhar... — Brian mordeu o lábio, apreensivo — fizemos uns cálculos rápidos e pelo jeito, vai levar uns três meses de trabalho de nós quatro, pra arrecadar o suficiente pra pagar o aluguel de um estúdio.
—E agora, comigo trabalhando, não vai pesar no nosso orçamento — disse em voz alta o que ele estava pensando, o motivo de eu dar aulas ser bom para nós bem naquele momento.
—Exatamente! — ele gesticulou dando ênfase no que disse — bom, mesmo não pesando pra nós, ainda assim vamos ter que vender a van...
—Vender a van? — eu pulei de susto com essa ideia, não conseguia não me preocupar — mas como é que vocês vão pros shows fora de Londres agora?
—Foi o que eu pensei também... — Brian virou a cabeça, preocupado e pensativo — mas Freddie está confiante de que vamos achar um agente pelas demos, alguém vai gostar e nos contratar, e aí vamos ter uma gravadora pra gerenciar nossos shows, uau!
Ele mesmo se surpreendeu com o que falou em voz alta, ao perceber que o que eles estavam esperando acontecer era, no momento, ousado de se pensar e improvável de acontecer.
—É um grande sonho mesmo — ponderei — difícil, mas não impossível. E sabe de uma coisa Bri? Vocês estão fazendo a parte de vocês pra que isso aconteça, e isso é o primeiro passo pra torná-lo realidade.
—É, é sim — Brian sorriu, me olhando com esperança — além disso, tenho que começar a trabalhar em músicas novas.
—Bom, então descanse essa sua cabecinha pensante — toquei com meu indicador na testa dele de leve — e depois coloque as mãos na obra.
Brian logo seguiu meu conselho, indo dormir profundamente e sem interrupções. Nos dias seguintes, sempre que ele tinha um tempinho, ou tinha uma ideia de repente, corria para anotar no seu caderno. Rabiscava a letra da canção, cantarolava melodias, experimentava tocar um pouco na Red Special. Enquanto estava criando, tinha sempre os cachos caindo nos olhos, o olhar concentrado, os lábios meio abertos, sempre murmurando ideias baixinho. Vê-lo assim sempre me fazia sentir como se derretesse por dentro... Tentava não ficar encarando muito quando ele estava compondo, por mais que Brian já soubesse o quanto eu o amava.
Freddie também aparecia em casa vez ou outra para compor com Brian, fazer sugestões aqui e ali, debater o tema de cada música que gravariam, além de arranjos vocais e dos instrumentos. Era inacreditável vê-los literalmente falando a mesma língua (em termos de entender de música e entender um ao outro) depois das brigas e desentendimentos de quando se conheceram. Houve uma música em particular que eu estava meio que presente enquanto eles acertavam os últimos detalhes dela.
—Tem esse intervalo enorme depois da primeira estrofe que você pode entrar com um solo — Freddie sugeriu a Bri.
—Ok — meu namorado assentiu e começou a tocar, parando ocasionalmente para anotar o que estava compondo.
—E depois disso, não quero que repita o refrão, só "seven seas of Rhye" no final de cada estrofe — continuou o vocalista — e vocês me acompanham ao longo deles, só me deixam fazer o final sozinho.
—Tirando o "forever" quando harmonizamos — lembrou Brian e Freddie assentiu — é, parece que vai ficar ótima.
—Mas é claro que vai, não subestime nosso talento — Freddie deu um tapinha no braço de Brian, entusiasmado.
Assim eles terminaram sua pequena sessão do dia, e continuaram nesse empenho nos ensaios que se seguiram e em economizar para as despesas das gravações. Depois de três meses, finalmente conseguiram a quantia que precisavam e finalmente começaram a gravar. Os pobrezinhos acordavam muito cedo porque o único horário em que ninguém gravava era de madrugada. Eu e Mary os acompanhávamos quando podíamos, agora que já tinha me formado, mesmo com o trabalho, tinha tempo de sobra razoavelmente. Apesar do sono e cansaço, lá estávamos nós.
Eu pude observar entre Mary e Freddie uma certa cumplicidade, uma conexão que ele não tinha com nenhum de nós, mesmo que fôssemos muito amigos, era algo diferente e especial. Tanto eu como Brian, Roger, John e Veronica ficamos esperando um anúncio oficial do namoro dos dois, mas do jeito que a gente já os conhecia bem pela convivência, nem precisou Freddie e Mary falarem alguma coisa.
Pensando no cansaço que sempre sentíamos ao ver os meninos gravando, e como sempre acabávamos dormindo no sofá do estúdio, tive a ideia de levar café para a banda e as meninas (Mary, eu, Veronica e a paquera da semana de Roger) para ajudar a espantar um pouco o sono. Enquanto fazia café na cozinha, percebia a movimentação inquieta de Brian pela casa. Eu tentei ignorar e continuar fazendo o que estava fazendo, até que ele foi abrindo os armários e pegando talheres e panelas desenfreadamente.
—Bri, o que você tá fazendo? Vai desmontar o apartamento todo desse jeito — não aguentei mais e me virei pra ele, meio arrependida de estar o olhando como se ele fosse maluco.
—Desculpa pela bagunça — ele soou como uma criança pega fazendo arte pela mãe — prometo que devolvo tudo, é que vamos fazer uns experimentos com os sons e explorar os efeitos como arranjo, sem precisar de sintetizador...
—Tudo bem, me convenceu — eu ergui as mãos rindo — até que é... engenhoso.
—Parece loucura agora, mas você vai ver, vai ficar muito bom — meu namorado sorriu pra mim, empolgado.
—Acredito em você — eu o apoiei.
Terminei meu café e juntos pegamos o primeiro ônibus que circulava no dia. Ao chegar no estúdio, o que os meninos fizeram com os objetos que os quatro levaram parecia brincadeira de criança, e embora levassem a sério o que estavam fazendo, era claro como também se divertiam no processo. Em meio ao café, música e risadas, víamos um sonho se tornar realidade aos pouquinhos.
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