Pele E Alma

3 Traímos


Notas iniciais
Núbia volta para uma visitinha. Será que ela conseguirá o que tanto quer?

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Mick se movia, fechando os olhos com força para que a luz da janela recém aberta pela mãe, não ferisse sua retina. Eu simplesmente me afastei um pouco, para que ninguém chegasse a encostar em mim e permaneci imóvel, completamente envergonhado e com minhas mãos escondendo as partes íntimas do meu corpo – como se alguém pudesse me ver...

Sentia-me numa cena de filme em que a mãe da garota entra no quarto e a flagra transando com seu namorado. Isso, definitivamente, nunca ocorrera antes. Em lembrar que tudo estava tão perfeito, seu sabor ainda estava nos meus lábios, sua boca sugando... Vergonha! A cena mais cômica de um fantasma em toda a história da humanidade.

Por sorte, a mãe de Mick não se delongou no quarto. Em pouco tempo, estávamos a sós com um aviso ecoando no ar “sua prima o aguarda na sala”. Concentrei-me nele: eu podia ouvir a sua respiração tranqüila, silenciosa... Ele apoiava o cotovelo numa das pernas, e sua cabeça repousava na palma da mão. Parecia exausto, olhando para o nada com grandes olhos vagos, perdidos.

Aproximei-me instintivamente, no intuito de despertá-lo com o meu melhor beijo... Afaguei delicadamente sua têmpora pensando “sinta-me, meu amor, estou aqui...”. Ele inspirou profundamente, como se tentasse buscar palavras e consciência perdidas na atmosfera ou nos lençóis como resquícios da noite anterior. Expirou:

- Carlos, quem sou eu? — ainda inexpressível — Quer dizer, qual parte de mim ainda é real? Eu já nem sei se sou pensamentos, sonhos... O que eu sou? A qualquer momento alguém virá e estourará essa bolha, me despertando de mais um sonho? — seu queixo rolou sobre a palma da mão, inclinando-se levemente para a esquerda -. Às vezes eu acredito que poderia dormir pra sempre... O que eu quero dizer, na verdade, é que estes poucos momentos com você, durante meu sono, não me bastam. V­ocê não é só meu sonho; você é a realidade que eu quero viver, sem despertadores... Não deve ser tão ruim, não é mesmo?– seus lábios se moveram formando um leve sorriso, cavando covinhas em suas bochechas — Afinal, eu já vivo mais em você do que em mim. É o que eu sinto.

Eu só conseguia pensar que, nestes momentos, era tão bom que ele não pudesse me ver, ouvir... Só de estar em sua presença é difícil encontrar palavras que fazem sentido. Digo mais: é impossível formular algo na mente uma vez que ela só sabe processar o desejo e a necessidade urgente de abraçá-lo, de carregá-lo em meus braços, de amá-lo constantemente, pra sempre...

Ele continuou:

– Prevejo que hoje não será um bom dia. Temo por nós... Minha prima costuma trazer desavenças para nosso relacionamento. Você sente ciúmes sem fundamentos por ela. Espero que na hora de adormecer estejamos bem

“Sim meu amor, assim será”, pensei. Ele se levantou com dificuldades. Seu corpo caminhava em direção ao banheiro, mas seu espírito ainda parecia repousar em cima da cama. O acompanhei para tomarmos banho “juntos”, afinal, eu já estava nu mesmo.

No corredor, antes de chegarmos a nosso destino, o cheiro da comida preferida de Mick (lasanha) pareceu despertá-lo, ao menos um pouco. Ele caminhava mais depressa e, animado gritou escada abaixo:

– Hum, que cheirinho delicioso, mãe. Já já estou descendo!

Nosso banho foi breve. Enquanto ele se ensaboava eu tratava de observar a água percorrendo seu corpo. Consegui estourar algumas bolhinhas de sabão em sua face, o que despertou o sorriso mais lindo do mundo: ele sorriu pra mim. Minhas mãos caminhavam lentamente na superfície de seu corpo, o que fazia com que seus pelos se eriçassem. Mick tremia todo em calafrios. Eu sorria do jeito dele.

– É tão bom quando você vem para o banho comigo! – disse-me ele – Às vezes sua presença fica tão evidente, e é tão boa.

Infelizmente, nesta realidade, meus carinhos só podiam se limitar a isto: arrepios, lufadas vindas da janela, sonhos... Um dia, quem sabe, nossas sensações tornem-se mais constantes e intensas. Talvez pra sempre.

Quando o banho acabou, Mick enrolou a toalha na cintura e saiu de volta para o corredor que nos trouxe ao banheiro. Algo estranho pairava no ar, e pela expressão do meu Mogli, não fui só eu quem notou isso. Antes de abrir a porta do quarto, ele inspirou profundamente, dando passagem para uma das visões que nós dois mais temíamos: Núbia.

Ela estava deitada na cama numa posição despojada, mas, ainda assim, mais parecia uma pose para revista masculina: os pés enrolavam o ar enquanto as mãos brincavam com alguns fios de seus longos cabelos loiros. Os lábios vermelhos estavam ligeiramente inflados e seus grandes olhos azuis forjavam uma surpresa ao ver o dono do quarto a flagrando que pareciam dizer: “oh, meu Deus, como vim parar em cima dessa cama? Desculpe-me Mick, que descuido o meu, perdoe-me, isso não vai se repetir”.

Mick ficara visivelmente transtornado e envergonhado por sua prima o estar vendo nestas condições, com estes trajes. Mesmo assim, decidiu entrar, talvez contando que ela percebesse que ele queria se vestir e se retirasse. Ledo engano.

Ela se levantou, evidenciando um belo vestido floral que marcava sua silhueta esbelta. Havia crescido, não era mais a garota magricela e com “cara de cotoca” que eu conheci há mais de um ano... Na verdade, ela era o tipo de garota que poderia deixar qualquer homem fora de si. Engoli em seco.

– Mick, meu querido! – correu na direção do meu Mogli, apertando-o num abraço que parecia não ter fim.

– Oi, Núbia – respondeu ele, tentando respirar, desvencilhando-se.

– Nossa como você está... Bonito! Ontem quando nos vimos não notei que o tempo também lhe dera... Músculos – Disse ela efusiva e ofegante, apalpando-o nos braços.

– Obrigado, a recíproca é verdadeira.

– Bem, sua mãe disse que eu poderia subir e eu vim. Estava morrendo de saudade – Estas palavras saiam de seus lábios e atingiam a face de Mick que estava a menos de dois palmos de distância. O que mais me intrigava: saudades do que? Ela o vira ontem!

Incrível como eu continuava imóvel, ainda surpreso com os fatos. Ela estava tão bela... O que dizer, então, dele: faltavam-me palavras para descrever. Eles formavam, de fato, o casal perfeito, “coro: own”. De repente, eu me sentia como se estivesse sobrando nesta “fotografia”.

Continuei imóvel enquanto Núbia o atacava:

– Tenho algo para lhe mostrar! – Disse ela, enquanto tirava o próprio vestido, virando-se de costas, apontando para as omoplatas – Veja, é uma borboleta! Tatuei-a há cerca de três meses.

– Poxa, legal...

– Isso não é tudo – virou-se de frente, mostrando o piercing no umbigo – este já é mais recente, o coloquei há um mês.

Eu não conseguia me concentrar num único pensamento. Ela apontava para a tatuagem, para o piercing, mas não havia como não olhar seus seios salientes. Nós três estávamos conscientes disso.

– Uau – foi tudo o que ele conseguiu dizer diante daquela presença explosiva e ofuscante que era sua prima.

– Mas se tem algo que eu realmente gostaria de te mostrar, é isso.

Ela se aninhou nos braços de Mick, e o envolveu num beijo longo, enquanto suas unhas vermelhas desfaziam o frágil nó que prendia a toalha na cintura dele.

Eu me sentia como se caísse num precipício de emoções, desejo, amor e ciúmes impulsionavam-me em sentidos diversos, opostos. Não me parecia digna a posição de voyeurista, eu estava ciente disso, mas mesmo assim, permaneci estático, observando.

Mick voltando-se a si pegou-a pelos braços distanciando-a.

– Núbia, desculpe-me, mas não podemos fazer isso.

– Pensei que você estivesse gostando, alguém aqui ficou bastante animadinho... – disse ela irônica, apontando para baixo.

– Sim, você beija bem, é uma garota maravilhosa, mas não podemos dar continuidade a algo que não tem fundamento. Eu amo outra pessoa e não quero estragar a amizade que nós dois construímos desde pequenos.

– Tudo bem — disse ela insatisfeita, sentando-se na cama. – Na verdade, isso não significa que eu gosto de você acima do nosso parentesco... É só que há uma espécie de gravitação em torno de você que mexe comigo de um jeito estranho. Você é mais bonito do que supõe, e eu me excitei, fiquei fora de mim... Desculpe-me.

– Núbia, não há motivos... Sempre tivemos uma relação aberta. Mesmo distantes, mantivemos contato por internet e telefone este tempo todo. Pra mim é como se nada houvesse mudado.

Um grande silêncio imperou no ar, com direito a pernas ansiosas balançando, dedos estralando e mordidas nos lábios.

– Núbia, há apenas uma lacuna que ainda há entre nossa amizade. Promete não contar nada a ninguém? Posso confiar em você?

– Sim, tudo bem.

– A grande verdade é que... Eu sou gay... Quer dizer, estou namorando um homem.

Ela gargalhou e demorou a se recompor.

– E qual a diferença de namorar um homem e ser gay?

– Não sei, eu só sei que eu poderia estar namorando uma garota, se eu a amasse... Mas como é um homem que eu amo e que eu estou namorando... Bom, talvez eu esteja gay. Não sei, enfim. O meu segredo é esse.

Alguns instantes de silêncio, novamente uma atmosfera de constrangimento.

– Na verdade eu entendo a sua confusão e a respeito. Vou deixar você se trocar, vamos almoçar e depois conversamos mais sobre ele, ok? Estou curiosa e espero que o...

– Carlos – Disse-a Mike

– Carlos?

– Carlos!

– Sim, o Carlos seja mais bonito do que eu, porque senão você vai ver!

Ela se vestiu. Sorriram os dois, abraçaram-se e ela se retirou. Mogli se trocou rapidamente e, diferente das outras vezes, eu decidi acompanhá-lo durante o almoço.

A mesa de oito lugares estava disposta da seguinte forma: na cadeira principal, na cabeceira, sentava o pai de Mogli tendo a seu lado direito a esposa e os filhos. Do outro lado estavam os pais da Núbia, e a filha, de modo que a outra extremidade estava vaga.

As conversas corriam normalmente ao som de garfos raspando no fundo dos pratos, até o momento em que os pais de Mogli pediram a palavra e anunciaram:

– Esta mesa de jantar em breve ficará pequena! -Todos estamparam na face uma interrogação. — Teremos mais um novo membro na família! Sim, hoje confirmamos e estou grávida!

Todos se animaram e o almoço não foi mais o mesmo. As mulheres pensavam no chá de bebê, os homens faziam piadinhas com os gastos que viriam, e Núbia e Mick conversavam e se entreolhavam: sorriam. Já eu, não via a hora da noite chegar pra eu poder comemorar a boa nova nos doces sonhos do meu amor.



Notas finais
Espero que gostem! Aguardo comentários, que para o escritor são muito importantes. Conto com vocês, até breve ♥