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Eu lia, pela segunda vez naquela semana, meu livro favorito do John Green, A Culpa é das Estrelas. Gostava bastante do amor incomum entre Hazel e Gus, mas, em minha opinião, eles poderiam ter se beijado bem antes do que havia sido.
Um fato interessante sobre a minha relação com esse livro era que nunca conseguia chegar ao capítulo vinte e um sem me afogar em lágrimas. Não importa o quanto eu tentasse, quando a última palavra era lida no capítulo anterior, elas surgem.
Mas, no momento, eu ainda não estava me afogando com meu próprio choro, estava xingando Van Houten mentalmente por ser tão idiota.
O barulho do telefone de minha irmã, Clara, chamou a minha atenção e virei meu rosto para olhá-la. Estava sentada ao meu lado, esperando, assim como eu, o transporte escolar chegar para que pudéssemos ir para a aula. Mesmo morando nessa cidade quente, nosso uniforme era calça jeans e blusa de manga. Se não houvesse um ar-condicionado em nossas salas, todos seriam reduzidos à sopa de adolescentes.
Antes de poder voltar á minha leitura, uma buzina de carro fez com que meu livro quase caísse no chão. Beijamos nossos pais, que se aprontavam para o trabalho, e fomos.
Minha mãe se chama Letícia e trabalha como enfermeira junto ao meu pai, Arthur. Ambos tem um trabalho muito pesado e, na maioria das vezes, chegam em casa tarde e cansados, ansiando por um banho relaxante. Não os culpo, sei que se esforçam bastante para termos o que temos.
Pensando neles, nem havia percebido que tínhamos chegado e minha irmã já estava fora do carro me esperando. Já na porta, nos separamos e, de longe, a vi entrando em sua sala.
Eu e Clara não tínhamos a mesma idade, ela era dois anos mais nova que eu, mas, do jeito que vinha crescendo, logo ela vai parecer mais velha. Esse ano estou fazendo o 8º ano e ela, o 6º.
Até agora, somente Leandro havia chegado, e estava sentado em frente à porta, ainda trancada, jogando Flappy Bird no telefone. Uma vez eu havia tentado jogar esse jogo, mas fiquei com tanta raiva que desinstalei no mesmo dia.
Não demorou muito e todos os outros alunos começaram a chegar, enchendo o corredor de conversas e, por vezes, fofocas por parte das meninas. Logo que já podíamos entrar, peguei a cadeira da frente, como era costume meu.
Assim que Ana e Raquel chegaram, conversamos até que o professor chegasse para a aula de Biologia.
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Quando cheguei em casa, ainda estava rindo da aula de Português, onde a professora nos fez juntar em duplas e escrever três defeitos e quatro qualidades da sua dupla. No meio da apresentação, João citou os três defeitos de seu amigo:
1 – Fede.
2 – Muito bafo.
3 – Tem chulé insuportável.
Mas, quando a professora pediu que citasse as quatro qualidades, ele deu de ombro e disse que só encontrou uma.
– É meu amigo, professora!
Minha sala riu tanto que nossa professora teve que gritar por silêncio para ser ouvida no meio da bagunça. Depois disso, a aula seguiu normal e sem risos. Não muitos, pelo menos.
Fiz minhas tarefas e resolvi ler algo. Toquei a capa de um, mas outro me chamou a atenção: era um livro que eu nunca havia visto na vida, vermelho. Puxei da estante, mas, para minha surpresa, no local onde deveria estar o título, havia apenas um borrão negro.
Curiosa, abri e folheei, não encontrando nenhuma palavra, nada. Quando estava prestes a desistir de achar algo que fizesse sentido naquele livro em branco, um desenho apareceu do nada, na primeira folha. Era um desenho de criança, feito a giz de cera.
Nele, aparecia um homenzinho verde de orelhas pontudas e nariz enorme. Poderia ser confundido com um duende se não fossem as pernas. Quer dizer, falta delas: no lugar, havia dois balões cor-de-rosa. O balão da direita tinha desenhos de estrelinhas, como se saído de um aniversário de dois anos. E o da esquerda dava a impressão de ter sido mastigado antes de encher.
De qualquer forma, foi bem estranho encontrar esse livro desconhecido nas minhas coisas, embora o desenho me pareça estranhamente familiar.
Fechei os olhos com força, aquele carinha verde não estava ali há um segundo. Tenho certeza. Quando os abri, ele ainda estava ali, com uma careta alegre muito sinistra.
Deixei o livro em cima da cama e resolvi parar de pensar nele. Quem sabe eu não tenha dormido na aula de Inglês e essa seja minha mente me pregando peças? É, era isso.
Minha estante parecia gritar pela minha atenção, então fui até ela novamente, mas parei quando vi o livro vermelho ali, onde estava antes. Olhei para a cama, onde ele deveria estar, mas só havia a colcha meio amarrotada onde eu o havia posto.
Um pouco assustada, sentei no chão e fiquei olhando para a parede. Nunca tinha acreditado em fantasmas antes, mas parecia que agora tinha um querendo me pegar.
Tentei imaginar um motivo para isso acontecer. Será que eu tinha feito o carinha do livro ficar zangado? Talvez ele quisesse chamar minha atenção para alguma coisa?
Levantei-me em um pulo, mas percebi que agora o livro estava no chão, de frente para onde eu me sentava. É, com certeza ele queria minha atenção, mas a pergunta era: para que?
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Eu devia estar, pelo menos, há uma hora olhando para aquela mesma capa vermelha. Se antes o livro estava tentando me falar alguma coisa, desistiu e virou apenas algo quase normal. Pois a capa ainda tinha o título borrado e completamente ilegível.
Com raiva, lancei o livro para longe, mas ele acertou alguma outra coisa, que caiu no chão e fez muito barulho. Encolhi-me e olhei. Meu estojo e três livros de escola estavam abertos e no chão, junto com o que eu havia jogado. O peguei, de boca aberta e completamente espantada.
Um unicórnio. Um unicórnio estava estampado na segunda página, logo depois do duende estranho. E estava lá como se sempre estivesse. Também era feito de giz de cera, provavelmente o de alguém bem mais novo que eu.
Abaixo do desenho malfeito, estava o nome Marrie. Por coincidência, ou não, ela era minha gatinha da Disney favorita quando eu era menor. Era algo relativamente fofo, mas não deixava de ser grosseiro.
Comecei a sentir uma dor de cabeça incômoda, mas continuei olhando para o chifre dourado do cavalo cor-de-rosa. Algo dentro de mim começou a me cutucar, dizendo que eu deveria saber o que isso significava, mas nada vinha. Fiquei forçando minha memória até que a dor foi muita e só deitei na cama, pronta para dormir.
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O dia seguinte não foi muito bom. Estava tão concentrada em descobrir o que era aquele livro vermelho e o que ele significava, que levei uma advertência do professor de Geografia, reclamando que quando me fez uma pergunta, eu estava olhando para baixo e não respondi.
Realmente, respondi qualquer coisa que me veio à cabeça na hora e continuei olhando para o livro no meu colo pensando sobre a outra surpresa sobre ele: os adultos não conseguiam vê-lo. Descobri isso esta manhã, quando resolvi perguntar a meus pais se eles sabiam o que significavam os desenhos estranhos e a capa borrada.
Meu pai apenas franziu o cenho e me perguntou se Jack, meu amigo imaginário de quando eu tinha seis anos, havia voltado. Perguntei o motivo e ele apontou para minhas mãos e disse que eu não estava segurando nada. Confusa, perguntei para minha mãe se ela também não estava vendo o objeto comigo. Ela apenas sorriu e perguntou o que deveria ver.
Entendo o que ela quis fazer. Pois, se sua filha de 13 anos começa do nada a afirmar que tem um objeto invisível com ela, o mínimo que poderia fazer era sorrir e afirmar, como se estivesse mesmo vendo o que quer que seja.
Na hora, eu não havia pensado isso, apenas fiquei com raiva, não sabendo se era algum tipo de brincadeira, até que minha irmã chegou e disse:
– Que livro estranho. Quem deu? – Acho que nunca na vida vi meus pais tão espantados. E foi aí que percebi que eles realmente não viam o livro.
Logo depois eu só fingi uma gargalhada e falei que nós duas havíamos enganado eles direitinho, uma boa piada. Nesse momento, antes que Clara pudesse estragar minha atuação forçada, a buzina do transporte apitou e saí correndo para fora, arrastando minha irmã e gritando um “Amo vocês!” para meus pais, que ainda não haviam entendido nada.
Nesse momento estou imóvel na minha carteira, não prestando nenhuma atenção à aula de Geografia. O assunto tinha alguma coisa a ver com Velho, Novo e Novíssimo Mundo. Ou essa foi a matéria da aula anterior? Não sei, mas não pude continuar meu pensamento, já que professor Gabriel acaba de me mandar para a coordenação.
Enquanto me levantava, conseguia ouvir meus amigos perguntando se o mundo ia acabar, já que Helena Moura conversaria com o diretor. Realmente, isso nunca havia acontecido, nunca fui expulsa de aula, muito menos mandada para a coordenação.
Quando cheguei na tal sala amaldiçoada, pensei que morreria. Tinha começado a suar no meio do caminho e estava tentada a sair correndo. Professor Gabriel também não ajudava, andando atrás de mim como um guarda-costas, ou apenas para evitar que eu mentisse para o coordenador sobre o que havia feito. Ou não havia feito.
Vítor estava sentado em sua mesa trabalhando e dando vistos em tarefas de matemática. O pobre coitado estava tão atolado no que fazia que nem percebeu quando chegamos e me sentei na cadeira em frente a sua mesa. O pé da cadeira fazia um barulho terrível, então ele se assustou e sem querer riscou a folha na sua frente, quase rasgando o papel. Segurei uma risada, seria difícil para ele concertar aquilo.
– Ah, Helena! – olhou para cima – E Ferreira.
– Olá, Castro.
Uma coisa que era muito estranho de se observar era que Gabriel e Vítor tinham uma rixa. Basicamente, os dois eram amigos e queriam ser coordenadores. Quando Vítor foi escolhido para o trabalho depois que Madalena foi demitida por fazer corpo mole, Gabriel o culpou por isso, e desde então se odeiam.
Nesse momento, encolhida na cadeira, no meio da linha de fogo, pensei se Gabriel não havia sido irracional. Não era culpa de Vítor se tinha feito o melhor trabalho, a supervisão escolheu o que seria melhor para o cargo. Decidi não comentar nada, não era assunto meu.
– O que a trás aqui, Helena? – perguntou para mim. E só foi aí que percebi que tinha deixado o livro na sala de aula. Orei com todas as minhas forças que João não resolvesse pegá-lo para implicar comigo. Ele sempre fazia isso, roubava minhas coisas e escondia, me deixando doida atrás do que ele havia pego.
– Ela ignorou minhas perguntas sobre a matéria e não estava prestando atenção. – Vítor olhou para ele, irritado por não ter me deixado responder.
– Isso é verdade? – olhou para mim, e neguei por impulso. Nem percebi que havia feito isso até que Gabriel disse que era mentira. Nunca gostei dele mesmo. – Se estava prestando atenção, pode responder a uma pergunta sobre o que aprendeu hoje, não é?
– Quais continentes formam o Novo Mundo? – perguntou Gabriel antes que eu pudesse responder.
Tinha que pensar rápido, então fui por uma linha de raciocínio simples. Como foi comprovado que todos os continentes tinham a mesma idade e que antes eram o continente Pangeia, então só poderia estar relacionado à história.
Uma vez estudei que os europeus pensavam que existiam apenas a Ásia, Europa e África, então talvez esse fosse o Mundo deles. Mas, em 1.500 descobriram as Américas, isso era uma parte do Mundo deles que não conheciam. Contei até três, esperando estar certa.
– América do Sul, América Central e América do Norte. — respondi. Quase chorei de alegria ao constatar que estava certa, ao ver o professor serrar os olhos e sair, me deixando sozinha com Vítor. Me virei para ele sorrindo, não acreditando que meu grande chute estava certo, mas o sorriso morreu quando vi que ele estava sério.
– Tem que tomar mais cuidado, Helena. Ele sabe que você é minha aluna favorita e vai fazer de tudo pra pôr um pé no seu caminho. — assenti, pensando que a rixa me envolvia mais do que eu pensava – Ótimo, pode voltar para a sala.
Assim que me levantei, ouvi o toque avisando que era o término da terceira aula. Isso significava recreio.
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O recreio era a melhor parte de um dia de escola, quando os alunos saíam correndo de suas salas de aula, muitas vezes ignorando o professor que não havia terminado a explicação. Acho que eles não entendiam que, assim que tocava, não tinham mais controle sobre sua turma, e não podiam nos prender ali. A menos que trancassem a porta.
Corri para fora da sala de Vítor, me juntando ao resto dos alunos numa corrida desenfreada para o pátio e a cantina, o lugar mais maravilhoso de todo o prédio que formava a escola. Passei por um menino, que tinha se abaixado para amarrar os cadarços, e acabou dando a mim um ótimo lugar na fila para pagar.
Olhei para trás: por ter ficado parado, ele conseguiu o último lugar da fila, e provavelmente vai ter que comer um salgado frio que ninguém quis. Atrás de mim eu conseguia ouvir aqueles que chegaram bem depois pedindo para os amigos os deixarem passar na sua frente. Quase sempre ouviam um “Não, vá para o final”, mas tinham aqueles que conseguiam e exibiam um sorriso satisfeito no rosto.
Recebi um cutucão no braço e virei o rosto, vendo um garoto, provavelmente do quinto ano, olhando para mim. Com certeza ia pedir alguma coisa.
– Ei, moça, você está no meu lugar. — olhei incrédula para ele, mas resolvi ignorar. Ele continuou me cutucando, e eu já sentia a raiva chegando. Virei o rosto bem devagar com uma expressão de fúria estampada na minha face e ele logo parou, com o dedo estendido no ar. Antes que ele falasse alguma coisa, minha vez chegou e comprei um suco de laranja e um sanduíche.
Antes que eu saísse da cantina, sorri triunfante para o garoto que ainda estava parado no mesmo lugar. Dei uma mordida na minha comida, vendo-o ir para o fim, atrás do menino do cadarço.
No caminho encontrei com Raquel, que estava comendo cookies. Cheguei perto e comecei a conversar com ela, até que um menino de cabelo azul do ensino médio passou pela gente. Ele estava falando com uma outra menina de cabelo pintado de verde. Acho que rimos tão alto que passamos por doidas, mas estava tão engraçado. Perguntei se eram parentes dos Smurfs e saí correndo, com a Raquel logo atrás.
Ainda rindo, chegamos na sala de aula, vendo o professor Fábio quase fechar a porta. Corri mais rápido e pus meu pé, sorrindo para ele e fazendo pose.
– Oi, né, tio. — falei na cara de pau. Enfiei meu corpo pela greta que era meu pé e esperei Raquel passar, também sorrindo e fazendo pose. Ele suspirou e fechou a porta, sem falar nada. Ufa, essa foi por pouco.
Era a aula de física, e eu admito que amo essa matéria. Nunca na minha vida eu pensaria que gostaria tanto de estudar sobre Du Fay, série triboelétrica, ou todas essas outras coisas que fazem o Gustavo dormir e roncar. Outra coisa legal é que ele não é daqueles que “vomita a matéria no quadro”, como ele mesmo diz que muitos professores fazem; sua aula é até divertida e dinâmica, mesmo Fábio sendo muito rígido.
O tempo parece voar, e logo chega a aula de português. Essa aula é um saco.
Não que eu não goste da matéria, mas a professora, Rebecca, é muito chata. Ela, sim, vomita a matéria no quadro. E, como toda e qualquer coisa insuportável, demora a acabar.
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Saio de sala no fim do dia quase chorando. A aula foi tão entediante que, mesmo quando mal tinha começado, já haviam alunos pedindo por socorro. E, para piorar tudo, o ar-condicionado parou e todos morremos de calor. Fora o sofrimento que era Rebecca ainda falando sobre voz passiva e ativa.
O melhor do dia foi quando o glorioso toque fez com que pudéssemos correr para fora, com nossas bolsas nos ombros, estas que sequer foram abertas durante a aula de Sra. Chatice.
Sentei-me em um dos bancos de mármore que haviam no local onde as crianças deviam ficar para esperar seus pais, e peguei meu estranho livro para ver se algo tinha mudado. Realmente, desde que o encontrei, novos desenhos aparecem a cada momento, num intervalo de tempo cada vez menor.
Dessa vez o que apareceu realmente me chocou: era um homem.
Não um como o duende estranho da primeira página, era realmente um homem. Tinha cabelos castanhos muito claros e olhos azuis. Usava roupas vermelhas e azuis típicas da realeza e, ao seu lado, havia um nome. Aaron. Por um motivo, que não soube identificar qual, fiquei observando seus olhos, tanto que nem ouvi quando o transporte buzinou incansavelmente do lado de fora da escola. Só percebi quando minha irmã parou do meu lado e deu um peteleco na minha testa.
Olhei para ela, confusa.
– Vamos, eles chegaram. — disse, já saindo e me deixando para trás.
Fechei o livro e fui atrás dela, passando por alguns amigos, que me desejaram um bom final de semana. Ah, é, hoje é sexta-feira. Nem me lembrava, acho que a falta do ar-condicionado afetou meu cérebro.
Chegando no carro, suspirei: é, hoje vai dar problema. Uns meninos irritantes de seis anos estavam gritando da, última fileira, coisas sem sentido. Cheguei a ouvir coisas obscenas, mas nada que um grande gelo não resolvesse. Eles gostavam de implicar comigo, mesmo sabendo que a qualquer momento eu poderia descer a mão neles, em seus lindos rostinhos de criancinhas completamente idiotas, mas não era sensato pois, só jeito que são, eu poderia acabar num caso na justiça por agressão. Malditos filhinhos de papai.
Ponho meu fone de ouvido, e logo começa a tocar Hope In Front Of Me, do Danny Gokey. É uma de minhas músicas favoritas, e eu nem ligo se não entendo metade do que ele canta. Algo sobre liberdade e superação, não tenho certeza.
Chego em casa e vou direto para meu quarto, jogando minhas coisas de qualquer jeito em cima da cama. Graças a Deus hoje não tenho nada para estudar, e posso fazer o que rapidamente se tornou meu passatempo favorito: desvendar o Capa Manchada, nome este que dei agora para o livro vermelho.
Sento em minha cadeira em frente a mesa de estudos e olho para a capa mais uma vez, e posso jurar que ela brilhou por um momento. Abro na página do príncipe Aaron e percebo que é a última. Então, se as páginas acabaram, os desenhos também, não é? Passo o dedo distraidamente pela parte de dentro da lombada, enquanto observo mais uma vez seus olhos azuis, mas, de repente, não consigo mais movê-lo.
Com um susto, sinto-o afundar nas páginas, sendo forçado para dentro por algo realmente forte. Um grito fica entalado em minha garganta, e logo meu braço também está lá: agora sinto um par de mãos me puxando.
Agarro com força a mesa de madeira, tentando impedir que, o que quer que seja, consiga me levar para dentro desta coisa, mas não consigo. Minha mão está suada, então escorrega e bate no livro, mas, em vez de ser um baque como qualquer outro, ela também afunda nas páginas.
Assustada, me levando e consigo puxar um pouco meus braços, trazendo para fora, também, duas mãos verdes esqueléticas, com unhas roxas e afiadas. Apenas isso consegue tirar minha concentração e eu me sinto ser puxada completamente para dentro.
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Acho que nunca mais vou reclamar de quando vamos ao parque de diversões e minha irmã me arrasta para a Barca, um brinquedo completamente traumatizante que me faz sair de lá verde de enjoo.
Isto aqui é muito pior que qualquer coisa que eu já tenha imaginado. É como pular de paraquedas, sem paraquedas, e ainda por cima com a plena certeza de que vai se despedaçar no chão. Sinto meus ouvidos zunirem enquanto caio, sem ter mais motivo para me preocupar por que estou aqui, quem me trouxe, e onde estou.
Eu ouvia um grito, mas talvez fosse apenas eu em um puro desespero.
E, então, tudo parou.
Não entendi muito bem no início, eu havia morrido? Não, ainda sinto meu coração acelerado e a garganta ardendo. E que zunido é esse? Abro os olhos e encaro a grama. Grama? Olho para os lados e um suspiro de alívio me escapa ao ver que estou viva, e inteira. Mas ainda não sei o que aconteceu.
Tento mover minhas pernas e braços, e percebo que também não tocam o chão. Eu estou flutuando? A um centímetro do chão? Com meu nariz encostando na grama? Não, eu com certeza enlouqueci de vez.
Mas então eu caio, provando minha teoria.
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