Pela barriga, rumo ao coração
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Mina sempre foi do tipo de pessoa muito sociável, e saber que sua melhor amiga — que pouco parecia ter interesse em qualquer tipo de romance — tinha um pretendente a fazia querer sair fofocando por toda a escola e ver um relacionamento surgir disso. O que ela não queria, porém, era ter esse pretendente constantemente em seu encalço pedindo por sua ajuda.
Ambos os adolescentes estavam agora andando pelos corredores movimentados do colégio, e a menor deles se apressava para conseguir a maior distância que podia do outro, torcendo para que outros estudantes em que ele acabasse se esbarrando conseguissem o fazer ficar para trás. Os dois tinham a maioria de suas aulas em comum, e a Carolina sentia que só conseguia paz quando se escondia no banheiro feminino.
Devido a insuportável insistência do rapaz, somada a uma exemplar falta de bom senso, ela se questionava sobre por quanto tempo isso continuaria sendo útil até que o garoto se cansasse de esperar do lado de fora e entrasse para procurá-la.
— Vamos, Mina. — Ele dizia pelo que deveria ser a vigésima vez naquele dia. — Toda a escola sabe que você é a melhor amiga da Annie, e provavelmente a única. Eu não tenho mais pra quem pedir conselhos.
Suspirou irritada, pelo que também deveria ser a vigésima vez naquele dia, e parou de andar ao chegar em seu armário. Os últimos dias com essa rotina haviam sido extremamente exaustivos, e Annie que a perdoasse, mas Mina não aguentava mais teimosia do Yeager que ignorava todas as vezes que o pedia para que a deixasse em paz.
— Então aqui vai o seu primeiro conselho, cabeça de vento: — O olhar amedrontador fez o maior recuar alguns passos. — Não fale pra ela a merda que você acabou de me falar.
— Mas o que tem de mais nisso? Honestidade é uma coisa boa, as pessoas se encantam por isso. — Ainda apreensivo, ele tentou entender as palavras da garota.
— Não significa que você tem que falar tudo que passa pela sua cabeça, seu idiota. — Abriu o armário a procura dos materiais para próxima aula, bloqueando o garoto que já não tinha mais tanta certeza se pedir ajuda à Reiner era uma ideia tão ruim assim. — Não existe encanto nenhum dizer pra uma pessoa que ela quase não tem amigos.
— E-entendi. — Afirmou receoso, se assustando com o armário abruptamente fechado a sua frente.
— Segundo: ela adora doces, donuts mais especificamente, é fanática por eles. Leve uma caixa pra ela que é provável que a deixe de bom humor com facilidade.
—Donuts?
—Algo de errado com isso?
— Não, não, nada de errado! É só que isso me parece meio avulso, esperava por algo mais especial, sabe?
— Como o quê, uma frase secreta ou coisa parecida que a faria se apaixonar perdidamente por você na mesma hora?
— Não, não é bem isso. É só... — Procurou melhores palavras para mostrar o que queria dizer, e foi só então que a ficha caiu que nem mesmo ele sabia o que queria dizer. — Obrigado pela ajuda, vou comprar uma caixa desses pra ela.
— Ótimo, bom pra você.
E com isso, Mina se encaminhava pelos corredores rumo a sua próxima aula. Mesmo que o garoto não se satisfizesse com a pouca informação, o período a seguir não era compartilhado entre eles. Saber que teria seu tão esperado momento de tranquilidade, ainda que não fosse durar mais do que alguns minutos, quase fez a garota cantarolar enquanto se afastava do maior. Mas antes que fosse muito longe, se deu conta de um detalhe muito importante. Annie não iria gostar nada em saber que ela tinha algo a ver com a aproximação repentina de Eren, e o rapaz sendo tão boca aberta como era de se esperar a colocava em risco.
— Yeager! — Ela o chamou, vendo o rapaz andando na direção oposta. — Não diga nada pra Annie que tivemos essa conversa. Pior do que ser sincero demais, é um homem não ter coragem suficiente pra falar com a mulher que ele gosta e precisar procurar ajuda com uma amiga dela.
Claro, não era esse o motivo de pedir pelo seu silêncio, mas serviria como um lembrete muito maior para que ele não fosse abrir a boca e falar o que não devia. O que quer que fosse acontecer, Mina não queria ter envolvimento algum.
— Certo, pode deixar. — Engoliu em seco, agora se sentindo mais intimidado pela pressão do que antes. — Ela nunca vai saber.
[...]
Em uma biblioteca praticamente vazia, Eren agradeceu mentalmente pela ocasião em que se encontrava. Era o cenário ideal para falar com Annie sem que um professor ou qualquer outro aluno pudessem interrompê-los, mas lamentava profundamente por não fazer uma abordagem sutil o suficiente. Agora, em frente a garota de seus sonhos, — alguns indecentes demais para admitir em voz alta para qualquer um — simplesmente aparecer com uma caixa de doces e não tendo nada em particular para conversar com ela não parecia ser uma ideia tão boa quanto pensava.
— A Mina te contou isso, não foi?
— O quê!? Não, mas é claro que não! Eu praticamente nem falo com a Mina. — Sua voz involuntariamente saiu mais fina do que de costume, e o rapaz já não se sentia mais tão bem em ser um péssimo mentiroso. — O que te faz pensar isso? Eu te trouxe donuts porque achei que você fosse gostar.
Eren estremeceu em sua cadeira, sentindo que os olhos azulados da loira podiam ver diretamente em sua alma. Era como se estivesse nu na frente dela, e o pensamento fora de hora serviu apenas para deixá-lo mais desconcertado do que antes.
— Ela me contou que você tem a incomodado bastante recentemente, mas não me deu detalhes de como ou porquê, e quando eu ofereci minha ajuda pra quebrar um dedo ou nariz seu, ela me disse que não era necessário.
— Ela te disse isso? — Riu sem jeito, e um pouco apavorado, enquanto amaldiçoava Mina com toda sua vontade. Você me esqueceu de contar esse detalhe.
— E você comprou uma caixa inteira, que não deve ter sido nada barato. O significa que você tinha a plena certeza de que eu gosto de donuts, e isso só poderia acontecer caso alguém te contasse. Em outras palavras, também significa que você mentiu.
Se esforçou ao máximo para manter as aparências, mas ter sido encurralado dessa forma em tão pouco tempo era, no mínimo, apavorante. Não conseguia pensar em nenhuma mentira que fosse convincente para Annie, mas também não podia simplesmente trair a confiança de Mina e a entregá-la. Havia conseguido poucos, mas muito importantes conselhos, que o encorajaram a estar aqui falando diretamente, e principalmente a sós, com a pessoa por quem era apaixonado. Mesmo que as coisas não estivessem indo nada bem, não daria essa facada nas costas da garota que certamente teria problemas caso a amiga descobrisse seu envolvimento.
— Mas existe também outra possibilidade.
E por um breve, e inocente, momento de esperança, Eren acreditou que as palavras a seguir o livrariam de seu problema sem catastróficas consequências para ninguém.
— Que é a de você estar me seguindo. Nesse caso, as coisas seriam bem piores pro seu lado, e eu teria que quebrar muito mais do que só um dedo seu. — Ela se reclinou para frente em sua cadeira, aproximando seus rostos e fitando os olhos verdes e intensamente agitados. A aproximação repentina fez, por mais de um motivo, com que o rosto de Eren se esbranquiçasse. — E Então, qual dos dois foi?
— Foi a Mina, ela que me contou.
A frase foi entregue rápida e de uma vez, sem hesitação. A vergonha que sentia era imensa, e não sabia como faria para olhar seu cúpido nos olhos depois disso. Mas Eren tinha a certeza de que nada do que ela pudesse fazer com ele poderia ser sequer comparável ao que a Leonhart faria caso estivesse mesmo a seguindo.
— Por favor não quebre meus ossos. — Suplicou juntando suas mãos em frente ao rosto em uma breve oração. Não era religioso, mas o medo eminente o fez rezar para qualquer divindade que pudesse ouvi-lo e quisesse ajudá-lo.
Talvez fosse pelo doce aroma e a encantadora visão das guloseimas estarem a deixando de bom humor, mas Annie conteve uma pequena risada diante da cena engraçada que testemunhava, o garoto estava realmente apavorado. Eren não pode deixar de notar isso, e o som, ainda que contido, era como uma bela melodia para os ouvidos do apaixonado. Por um momento, toda situação anterior havia se apagado de sua mente. A única coisa que conseguia pensar era que, de alguma forma, havia feito Annie rir, e isso fez seu coração acelerar de felicidade.
— Não precisa ter tanto medo, eu não vou quebrar nos seus ossos.
— Não vai? — Perguntou desconfiado, mas se sentindo aliviado por não estar mais a vendo irritada com ele.
— Não. — Dessa vez o riso foi breve, espontâneo e nada contido, e Eren podia jurar que seu coração estava derretendo com essa imagem. — Você acha mesmo que eu iria quebrar os ossos de outro aluno? Eu seria expulsa da escola na mesma hora, e eu não quero passar por isso de novo.
— Que bom, por um momento eu pensei...— Demorou um pouco, mas a frase toda foi enfim assimilada. — Como assim de novo!?
E depois da pergunta que foi exclamada praticamente em um grito, um longo e chamativo “shhh” vindo da aborrecida bibliotecária foi escutado pelos dois alunos, o maior desses envergonhado pedindo desculpas.
— É. — Respondeu casualmente, ignorando ambos o aviso de silêncio da bibliotecária e espanto de Eren. — Por que você acha que eu vim pra essa escola no meio do um bimestre?
— Não sei, mas eu com certeza não iria imaginar que foi porque você quebrou os ossos de alguém.
— Acontece. — Despreocupada com o ocorrido, Annie guardou os livres que estavam na mesa em sua mochila. Não iria conseguir os ler de qualquer forma.
— Espero que não com frequência.
— Não se preocupe, isso depende só de você. Mas se eu estiver fora da escola, e ver mesmo você me seguindo, aí você pode começar a se preocupar.
Ainda que fosse inocente do crime e essa situação nunca fosse acontecer, a firmeza em que as palavras lhe foram entregues, e principalmente por agora saber do histórico dela, fizerem Eren temer pelo seu bem-estar.
— Entendido. — Ainda paralisado, a respondeu.
— Então, quer me ajudar a comer logo esses donuts antes que nosso intervalo acabe?
Boquiaberto, só conseguia a responder depois de ver o olhar cheio de expectativa sobre si e perceber que estava há muito tempo calado.
— Claro, foi pra isso que eu vim aqui. — Empurrou a caixa na direção da garota que parecia ansiosa para provar os doces e que não tardou para pegar um com cobertura de chocolate e granulado, dando uma grande mordida imediatamente.
Ela fechou os olhos brevemente e exclamou um som incompreensível, se deliciando com o sabor da guloseima. Chegava a ser cômico como a distante Leonhart, que era costumeiramente tão apática com os demais e assustadora quando queria, perder a compostura tão exageradamente por um mero donut. Foi a vez dele de rir com a visão, ainda que Annie estivesse entretida demais com o doce para reparar nisso.
Agradeceria Mina imensamente por isso depois, e pediria desculpas de antemão por qualquer fatalidade que pudesse ocorrer com ela.
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