Pela Primeira Vez
1 "Você pertence a mim"
Eu me lembro da primeira vez que abri os olhos.
Era como estar embaixo d’água. Eu não ouvia quase nada, e o que eu ouvia parecia vir do final de um túnel, muito longe, um simples eco da realidade. O mundo à minha volta era rosa-desbotado e fora de foco – como se eu espiasse-o através daquele líquido espesso que me envolvia. Havia uma pressão constante em minha cabeça e ouvidos, que me causava calafrios. Mas eu não me mexia, não se meu Alfa não permitisse.
As formas não eram sólidas no mundo em que eu vivia. Elas nunca paravam de se mexer, ficavam ondulando e pulsando. Reconhecer qualquer coisa se tornava uma tarefa difícil quando tudo o que é vivo não passa de uma sombra. Pelo que me lembro, as coisas sempre foram assim. O nosso Alfa diz em quem devemos confiar, ele tem esse direito, o único que tem o direito de enxergar. Nós somos apenas dragões tolos. O Alfa existe para nos ajudar a escolher o lado certo. O Alfa sempre acerta.
A primeira coisa que vi em meu mundo borrado foi uma estrutura irregular, levemente retangular, pelo ângulo em que eu estava olhando-a. Não sei como sabia que era um homem, tampouco como sabia que ele estava apontando algo para mim – eu apenas sentia que era isso. Atrás dele, um pouco para a esquerda, estava o meu Alfa. Mais alto do que qualquer coisa, forte, imponente, perfeito. Ele olhava para mim, me dando uma atenção especial que eu de forma alguma merecia, e eu era grato por isso. Havia outra coisa à minha direita, mas eu não virei a cabeça. O Alfa não disse para virar.
A primeira coisa que ouvi saía do homem à minha frente, eu quase não pude entender o que ele dizia.
– Frente a ele, você é nada.
O homem desviou o que quer que fosse de mim e apontou para a forma à minha direita, eu ainda não a olhava. Então, o Alfa me encarou, suas vibrações eram fortes. A voz dele era rouca e alta, penetrava em meu cérebro, fazia meus ouvidos doerem. Era uma honra que ele estivesse se comunicando comigo, então eu voltei toda a minha atenção para ele. Eu faria tudo que ele pedisse.
"Este ser humano à sua frente é seu mestre"
O meu Alfa olhou para a forma à direita, me permitindo olhar também. Outro homem. Ele era muito menor do que o meu mestre em todos os aspectos possíveis. Era mais baixo, mais magro, sua voz era mais fina. Não era um homem, cheguei a essa conclusão. Era quase um homem.
"Mate-o", ordenou o meu Alfa.
Não hesitei em satisfazer o desejo dele. Se meu Alfa queria o garoto morto, eu o mataria. Virei o corpo inteiro para a minha futura vítima e fui me aproximando. Não pude ver sua expressão em momento algum, mas ele devia estar bem assustado. Mesmo assim, foi mais com preocupação e uma calma forçada que ele murmurou bem baixinho:
– O que foi que ele falou para você?
Adquiri uma posição de ataque: me apoiando nas patas dianteiras como se fosse pular, as asas meio abertas para parecer maior e poder encurralá-lo, impedindo que ele fuja. A cada passo que eu dava, ele dava um para trás. Perecia decidido a não sair correndo. Eu não me importava. Isso deixava tudo mais fácil. Mas recuar não era a única coisa que ele fazia, ele também insistia em continuar falando, como se me conhecesse:
– Banguela, peraí. Qual é o problema com você?
"Mate-o", repetiu o meu Alfa em um silvo. "Ignore-o. Mate-o"
O garoto ainda insistia, sem saída, preso entre mim e uma enorme parede de gelo. Eu não o dei ouvidos. Já podia sentir o gás se revolvendo dentro de mim; o fundo de minha garganta se incendiou. Ouvi gritos, alguns do garoto, outros vindos de um lugar que eu não podia ver. Ele estava conversando com alguém um pouco antes de sua morte – bem, a escolha era dele. Não me distraí. O meu Alfa confiava em mim para esse trabalho. Eu tinha que fazer. O quase homem era só mais uma sombra no mundo em que eu vivia.
– FILHO! – berraram à minha direita, essa foi a palavra dita com mais clareza que ouvi desde que abri os olhos. Fosse quem fosse, eu precisava acabar com isso rápido, porque estava se aproximando.
– Pai, NÃO! – O garoto estava desesperado, abandonando totalmente a calma de antes.
O calor se tornou difícil de suportar, aquilo me queimaria por dentro a qualquer momento. A minha primeira ação de verdade: atirar. Tiro de plasma – o lado de fora do corpo permanece intacto, mas acaba com o seu interior, faz o seu coração parar de bater. Não entendi como um ato tão simples, que não custou quase nada de minha parte, pôde mudar uma história de tal maneira.
Tudo se passou em apenas alguns segundos, mas pareceu muito mais. Expeli o fogo. O local se iluminou como se o próprio Sol estivesse ali e eu, com minha visão embaçada, não vi o que aconteceu nesse meio tempo. Só consegui enxergar a luz – nenhuma sombra, nem nada. O meu mundo nunca esteve tão branco.
Mas previ o que houve em seguida.
Ele foi jogado contra a parede.
Seu corpo caiu no chão, estacas de gelo em cima.
Eu o matei.
Minha cabeça pendeu para frente, o focinho perto do chão, a boca semiaberta – um fio de fumaça cinza saindo dela e se afunilando para o céu. Fiquei parado, ofegante com o esforço de produzir uma bola de fogo e esperar tanto para lançá-la. Consegui. Meu Alfa me deu uma missão e eu cumpri. Eu estava tão orgulhoso de mim mesmo que nem notei o pior erro que podia ter cometido.
Eu não matara o garoto. Ele era pequeno e magro; ao contrário, a sombra no chão era grande como a de meu mestre humano, parecia mais uma montanha de pedras empilhadas. Na verdade, o garoto estava caído à minha esquerda, bem distante, como se tivesse sido jogado para lá. Só fui perceber isso quando notei uma movimentação estranha e me assustei ao ouvir o quase homem gritar, com a voz chorosa:
– Pai!
Mesmo sem me mexer, comecei a entrar em pânico. Eu falhei. Eu não o matei! Não o matei! Então, quem eu matei? Não importa, o importante é que o Alfa deve me castigar. Ele precisa me castigar, porque desobedeci sua ordem. Mas ele não fez nada; ficou apenas observando a cena que se seguia à nossa frente – pensando bem, ele podia estar avaliando quanta besteira eu fiz para só depois me castigar da maneira correta. O Alfa é sempre justo.
Mais uma sombra apareceu. Essa menor que o homem que eu matei e maior que o garoto que eu não matei. Eu continuava olhando para o chão, só sentindo o que acontecia e tendo uma vaga noção disso pela visão periférica. Podia dizer que a nova sombra era a de uma mulher, mas não tinha certeza. Ela meio que deitou sobre o corpo – um comportamento normal para humanos –, vendo se existia algum sinal de vida, batidas do coração ou alguma respiração fraca. Mas não existia, e eu sabia disso bem melhor do que qualquer humano.
Então, aconteceu.
Foi a pior coisa que podia ter acontecido.
Eu não esperava por isso.
Não esperava mesmo.
Senti um repuxo no estômago. Meu mundo virou de cabeça para baixo. O fundo rosa-desbotado começou a girar. Eu vi cores, senti cheiros, ouvi coisas, tive sentimento que nunca tive; em um redemoinho colorido. Fiquei tonto; perdi o chão. Flutuava em um local que nunca estive, girando loucamente. Vi tudo e não vi nada ao mesmo tempo. Eu estava triste, com medo, queria fazer aquilo parar, correr para um canto do mundo a nunca mais voltar. Se esse era o castigo de meu Alfa, eu não desobedecê-lo-ia novamente enquanto vivesse.
Quando dei por mim, estava em outro lugar e estava mesmo correndo – não lembrava para onde e nem por quê. O meu desejo era simples: deixar de existir. Devo ter feito algo realmente ruim. Mas naquele momento, quem eu matei, quem não matei... já não importava. Eles não estavam mais ali. Desapareceram, de algum modo. O meu Alfa se livrou deles, fez o que eu não consegui fazer.
Ele estava perto de uma grande e disforme massa escura, como uma montanha. Se levantou nas patas traseiras e rugiu para o céu: “Venham a mim”
Soube no mesmo segundo que iríamos partir, com sorte, para um lugar bem longe dali. E eu queria ir com ele. Que eu me lembre, nunca quis tanto isso. Dei impulso e bati as asas, mas não consegui voar. Caí espalhando neve. Os outros dragões descreviam círculos no ar, se aglomerando sobre a cabeça de nosso Alfa; eu continuava no chão, incapaz de fazer o mesmo.
Sombras assustadoras vagavam pelo terreno. Se meu Alfa tinha seguidores, o meu mestre humano também poderia ter. Era isso que eles eram, humanos que fazia parte do exército de meu mestre. Todos eles carregando o armamento e preparando os navios.
Tentei me lançar no céu mais uma vez, e dessa vez, algo se prendeu em mim e me puxou para baixo. Era meu mestre humano. Ele deve ter percebido que eu não conseguia voar, porque, quando tentei me levantar, ele prendeu minha cabeça pressionando-a no chão usando uma coisa pontuda, fria e que machucava. Montou em meu pescoço. Não sei o que ele fez, mas pulei e finalmente pude acompanhar o bando. Eu pude voar.
Enquanto nos afastávamos e o meu mestre gritava ordens para seus homens, eu só conseguia me sentir pior.
Como se eu soubesse o que tinha de fazer, o que todos esperavam que eu fizesse, mas também soubesse que não era o certo.
*-*
Eu ia na frente do bando, levando meu mestre nas costas, meu Alfa nadando logo abaixo de mim, sempre me dizendo para onde eu deveria ir.
Quando anoiteceu, uma ilha surgiu, com estátuas em formatos de humanos feios usando chapéus pontudos e carregando lanças, que foram colocadas no meio do mar, cercando toda a baía, como se fosse uma saudação de boas vindas ou uma expulsão imediata; fogo ardia de suas bocas abertas e as ondas quebravam em suas estruturas de pedra. Uma aldeia grande, cheia de pessoas dormindo ou já em suas casas sem saberem que nos aproximávamos.
Onde estávamos devia ser muito ao norte, porque, durante os meses próximos ao verão, o Sol demorava mais a se pôr, deixando o céu claro até quando deveria estar escuro – não que isso me ajudasse a enxergar muita coisa. Eu via um breu quase inacabável, de modo que meu mestre humano tinha que me conduzir totalmente. Eu acho que ele gostava disso.
A água em volta da ilha era rasa o suficiente para um dragão do tamanho de meu Alfa conseguir andar por ali à vontade. Ele começou a mandar vibrações pelo ar até a aldeia. Com certeza existiam dragões lá que precisavam do comando dele. Eu sentia-os responderem e se juntares a nós, submissos. O meu Alfa derrubou uma das estátuas de caretas só para mostrar que não se sentiria intimidado com nada que os habitantes fizessem. O Alfa era melhor do que todos eles, ele era o ser mais poderoso da Terra.
Ele escalou uma parede de rocha e ficou bem perto da aldeia. Eu sobrevoava à sua frente, esperando por suas ordens.
As pessoas saíram de suas casas, assustadas.
– Seu líder está morto – anunciou o meu mestre em minhas costas. – Ninguém pode protegê-los agora.
O meu Alfa rugiu.
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