Pegadas No Destino
14 Capítulo 14
Passamos o resto da tarde a ver filmes na companhia de João, ambos queríamos que ele não desse conta de que algo realmente triste estava prestes a acontecer. E o jantar foi passado em silêncio, isso não foi normal e o pequeno começou a fazer perguntas, mas eu e Leandro apenas dizíamos que estávamos cansados e era por causa disso.
-Vou lavar a loiça.- afirmei assim que me levantei da mesa.
- E nós vamos dormir, não é parceiro?- Leandro fez com que João desse uma resposta afirmativa e levantou-se também para o ir deitar.- Antes de me deitar preciso de falar contigo, pode ser?
- Já sabes que estarei na cozinha...- respondi tristemente.
- Já pensas-te sobre aquilo que falamos?- Leandro perguntou assim que voltou a descer.
- Sobre o quê? Falamos tanta coisa hoje que eu...
- Sobre o facto de estares a dormir quando eu me for embora.- interrompeu-me.
- Vou fazer tal como tu queres...- suspirei.- Se queres que eu esteja a dormir é assim que eu vou estar. Agora, já acabas-te?
- Já.
- Até ama... até um dia.- respondi ainda mais triste e amargurada do que nunca...- boa viajem...
Apaguei a luz atrás de mim e subi as escadas mas rapidamente as desci a correr e abracei bem forte o Leandro.
— Nunca te esqueças de mim...Por mais chato, birrento, criança, idiota, parvalhão, lindo, maravilhoso, poeta, parvo...e tudo mais, que sejas, eu adoro-te.És meu irmão.- chorei enquanto o abraçava
- Nunca te esquecerei. É muito difícil esquecer a coisa mais maravilhosa que se cruza connosco na vida.
- Adoro-te. Nunca te esqueças de cuidar de ti.
- Digo-te o mesmo...
Continuamos a abraçar-nos mas com menos força. Estivemos assim abraçados uma meia hora sem nenhum dizer uma palavra, as lágrimas diziam tudo o que precisava ser dito naquele momento.
- Não te esqueças de me ligar.
- Sempre que puder.
Finalmente terminamos o abraço e eu subi para o meu quarto.
Uma ou duas horas depois Leandro abriu a porta com cuidado e deixou um beijo sobre a minha face e mais de dez sobre a minha testa.
- Nunca te abandonarei. Juro.- suspirou- és a rapariga mais gira, engraçada, impulsiva, maravilhosa e inspiradora que eu conheci.
Senti a respiração dele bem perto de mim e fiz um enorme esforço para que as lágrimas não rolassem naquele momento. Eu tinha de manter o meu disfarce, eu tinha que fazer com que ele acreditasse que eu estava realmente a dormir.
Ouvi os passos dele a afastarem-se e depois o som da porta a fechar. Naquele momento agarrei-me á almofada e chorei em voz baixa. Deixei que as lágrimas caíssem uma a uma, e todas as memórias percorressem a minha cabeça como uma tortura normal.
Quando o som do carro a arrancar se fez ouvir já estava a amanhecer e eu liguei a Max. Naquele momento eu queria o meu irmão lá. Eu tinha apenas 23 anos e estava a comportar-me como uma adolescente. Mas não me interessava...
- Como estás?- Max sussurrou da porta.
- Mal...- respondi encolhida na cama.
- Eu sei...- Max fechou a porta com cuidado.- Eu sei que é difícil, mas tens de ser forte...
- Eu sei que tenho, mas queres saber? É tão difícil...durante anos era apenas eu e ele. Depois João nasceu...e agora eu tenho a sensação que foi a última vez que o vi.
- Não digas isso...- Max sentou-se ao meu lado e deitou a minha cabeça sobre o seu ombro, abraçando-me.- o Leandro é forte, ele vai pensar em ti, no João e em todos aqueles que ama. Ele vai voltar. O país não está em guerra, de certeza que ele vai fazer apenas recruta.
- Eu tento convencer-me disso, mas é difícil..
- Eu sei que é, e vou estar aqui bem do teu lado. Prometo.
- Prometes mesmo?
- Claro que prometo. Agora deita-te, estás com uma cara horrível. Nota-se perfeitamente que não dormis-te a noite toda.
- Isso não me interessa. Parte de mim saiu pela porta a umas horas atrás.
- Por favor Mary, olha para mim.- Max levantou-se e colocou-se á minha frente.- Achas que eu estaria aqui a estas horas da manhã se não estivesse preocupado contigo? Por favor, pensa um pouco em ti. Eu sei o que estás a sofrer. Eu já passei pelo mesmo, mas sabes que mais? Tu tens a esperança de que o teu irmão vai voltar mas eu perdi os meus dois irmãos pelos motivos mais idiotas!
- Tinhas outro irmão para além daquele que me mostras-te?- perguntei um pouco surpresa com a brutalidade dele
- Tinha. Era dois anos mais novo do que eu. Era o irmão mais parecido comigo que eu tinha. Iamos aos pubs juntos, andávamos de bicicleta, fazíamos escalada... ninguém nos superava. Todas as famílias invejavam a nossa amizade. Mas um dia eu quis ir á praia, ele não queria mas como era o dia do meu aniversário, ele aceitou. Quando estava a atravessar a estrada um homem totalmente bêbado passou um sinal vermelho e atropelou-nos. Eu sobrevivi depois de um mês no hospital.
- E o teu irmão?
- Teve morte instantânea. Nunca mais me perdoei. Mas isso não interessa. O que eu quero dizer com isto é que tu tens de viver a tua vida....deixa o Leandro viver a dele, ele já tem idade e tu ainda és jovem. Tens todo o tempo do mundo para ti. Tens de ser forte!
- Lamento...- foi a única coisa que fui capaz de responder.
- Eu também, mas o que é que isso faz? Absolutamente nada....- Max suspirou e eu vi as lágrimas caírem-lhe pelo rosto.
- Desculpa...sou uma besta, mesmo!
- Não...tu és a rapariga mais maravilhosa que eu alguma vez conheci. Eu é que...desculpa...não devia estar a ser tão bruto...
- Não há problema. Tens as tuas razões.
O mais curioso é que as minhas lágrimas entretanto tinham parado de cair e agora era ele quem chorava.
- Agora deita-te e dorme. Por favor? Assim que acordares teremos todo o tempo do mundo para falarmos...
Acabei por o abraçar e adormeci abraçada a ele. Eu tinha medo de adormecer e sonhar com Leandro, mas o cheiro do Max foi mais forte eu não consegui evitar. Adormeci com o cheiro que Max me transmitia. Um cheiro tão particular...um cheiro só dele...
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