Tinham-se passado alguns dias desde que Max me beijara mas nem por isso me preocupei em ir ver como ele estava.

Dediquei-me a ir trabalhar e apenas a observá-lo de longe. Renato, tal como tinha dito, estava a ajudar-me e na minha opinião eu estava a dedicar tudo e mais alguma coisa aquela profissão.

- Devias falar com ele...- suspirou enquanto olhávamos Max a fechar os portões que levavam para os balneários, num dos finais de tarde, quando os treinos terminam.

- Ele é que foi arrogante...- suspirei também de resposta

- Ele só foi ciumento...entende o lado dele. Ambos estão a sofrer e não digas que não porque notasse na vossa cara..

- Achas mesmo que devo ir falar com ele?- perguntei um pouco receosa

- Sim, deixa isto...eu acabo-o.

Deixei os equipamentos sobre os bancos e segui a passo curto em direcção a Max. Parei dois metros diante dele e fiquei a observar. Ele tinha braços fortes e parecia que estava bem sem mim...não tive coragem, virei costas e segui para casa. Senti Renato a observar-me pelo canto do olho, mas em vão...não estava com cabeça para estar ali.

Quando cheguei a casa nem João nem a minha mãe estavam, o que ultimamente era normal. Por cima da mesa de cozinha tinha um envelope com o meu nome. Rapidamente reconheci a letra da minha mãe a li:

" Querida Mary,

existem muitas coisas que eu gostava de te contar...muitas coisas que nem a mim sou capaz de reconhecer. Possivelmente, deves estar a estranhar o porquê de eu te escrever uma carta. Antes de mais, quero admitir que fugi. Fugi e levei João comigo. Não me procures, deixarei alguém que te ama, alguém que faria tudo por ti e ele vai sem dúvida apoiar-te no que eu acabarei por te contar.

Não me procures em lado nenhum, assim que eu me sentir preparada eu contactarei. Ate lá, aquilo que precisas de saber é que João é adoptado. Não é teu irmão de sangue...mas é meu filho, não tem os meus genes mas é meu!

Espero que saibas que estou a fazer isto para o bem de todos. E espero que um dias me perdoes este acto de loucura.

Beijos, mãe"

Corri até ao quarto de ambos e tudo batia certo, ambas as divisões estavam arrumadas e sem roupas.

- O que foste fazer, mãe?- perguntei enquanto as primeiras lágrimas apareciam nos meus olhos.- O que foste fazer?

Deitei-me na cama de João, da mesma maneira que me deitava todas as noites até ele adormecer...ele era mesmo meu irmão...adoptado? Isso é completamente...a verdade é que era um pouco estranho eu ter ido viver com o meu pai durante algum tempo e depois voltar com um novo irmão, mas nunca tinha pensado nessa hipótese...

E de qualquer das formas, ele era meu irmão! Nada apagaria os sorrisos que ele me dava quando eu lhe fazia cócegas, a maneira como me acordava quando estava com fome ou com medo; a maneira como discutíamos amorosamente; a maneira como ele se deitava no meu colo quando estava cansado... ele era meu irmão...adoptado ou não...

Agora o quarto parecia demasiado vazio, era como se parte de mim tivesse ido viajar e a outra tivesse ficado. E Leandro? Já sabia de toda esta história? Se já sabia porque não me tinha dito? Decidi pegar no telefone e ligar-lhe, não me interessavam horários nem o que ele estava a fazer.

- Sim?- ouvi uma voz cansada e ensonada do outro lado da linha

- Leandro?- perguntei enquanto tentava acalmar as lágrimas

- Mary? Que se passa?

- A mãe fugiu...levou o João...- suspirei enquanto focava no teto para não chorar ainda mais.

- Mas...deu-te alguma razão?- perguntou alarmado.

- Deixou uma carta...João é adoptado. Sabias disso?- do outro lado silêncio- SABIAS?- gritei.

- Mary, acalma-te...é uma história complicada. Pode-se saber que sabia e que não sabia... Eu tinha as minhas suspeitas, a mãe andava muito estranha, por isso é que eu vim para aqui. O exército tem clarificado algumas coisas mas mesmo assim...não imaginava... Como estás?

- Como achas?

- Pois...

- Olha Leandro, acho que vou dar uma volta...é isso que eu estou a precisar. Desculpa ter-te acordado...- suspirei antes de desligar a chamada.

Fiquei cerca de cinco minutos a olhar pela pequena janela. Janela agora desconhecida e vazia, apenas com alguns desenhos feitos por João e sai.

Andei sem rumo até chegar a um pequeno riacho que havia a algumas horas (2h) de caminho. Sentei-me numa das bermas e comecei a atirar pedras.

- Estás a tentar pescar á pedrada?- reconheci a voz de Max atrás de mim.

- Antes fosse...- suspirei enquanto enxugava a cara.

- Percebes-te o que me incomodava no outro dia?- perguntou sério enquanto se sentava ao meu lado.

- Era isto que não me querias ser tu a contar? Que o meu irmão mais novo é adoptado? Tu...

- Eu fui cobarde, okay, mas não tenho culpa de ter medo de te ver a ficar assim. Não queria que ficasses assim por minha causa, por algo que tinha sido eu a dizer-to.

- E porque é que aquilo que eu sinto eu deixo de sentir te afecta tanto? Porque é que é assim tão importante.

— Porque...