Passamos o resto da tarde a ver filmes na companhia de João, ambos queríamos que ele não desse conta de que algo realmente triste estava prestes a acontecer. E o jantar foi passado em silêncio, isso não foi normal e o pequeno começou a fazer perguntas, mas eu e Leandro apenas dizíamos que estávamos cansados e era por causa disso.

-Vou lavar a loiça.- afirmei assim que me levantei da mesa.

- E nós vamos dormir, não é parceiro?- Leandro fez com que João desse uma resposta afirmativa e levantou-se também para o ir deitar.- Antes de me deitar preciso de falar contigo, pode ser?

- Já sabes que estarei na cozinha...- respondi tristemente.

- Já pensas-te sobre aquilo que falamos?- Leandro perguntou assim que voltou a descer.

- Sobre o quê? Falamos tanta coisa hoje que eu...

- Sobre o facto de estares a dormir quando eu me for embora.- interrompeu-me.

- Vou fazer tal como tu queres...- suspirei.- Se queres que eu esteja a dormir é assim que eu vou estar. Agora, já acabas-te?

- Já.

- Até ama... até um dia.- respondi ainda mais triste e amargurada do que nunca...- boa viajem...

Apaguei a luz atrás de mim e subi as escadas mas rapidamente as desci a correr e abracei bem forte o Leandro.

— Nunca te esqueças de mim...Por mais chato, birrento, criança, idiota, parvalhão, lindo, maravilhoso, poeta, parvo...e tudo mais, que sejas, eu adoro-te.És meu irmão.- chorei enquanto o abraçava

- Nunca te esquecerei. É muito difícil esquecer a coisa mais maravilhosa que se cruza connosco na vida.

- Adoro-te. Nunca te esqueças de cuidar de ti.

- Digo-te o mesmo...

Continuamos a abraçar-nos mas com menos força. Estivemos assim abraçados uma meia hora sem nenhum dizer uma palavra, as lágrimas diziam tudo o que precisava ser dito naquele momento.

- Não te esqueças de me ligar.

- Sempre que puder.

Finalmente terminamos o abraço e eu subi para o meu quarto.

Uma ou duas horas depois Leandro abriu a porta com cuidado e deixou um beijo sobre a minha face e mais de dez sobre a minha testa.

- Nunca te abandonarei. Juro.- suspirou- és a rapariga mais gira, engraçada, impulsiva, maravilhosa e inspiradora que eu conheci.

Senti a respiração dele bem perto de mim e fiz um enorme esforço para que as lágrimas não rolassem naquele momento. Eu tinha de manter o meu disfarce, eu tinha que fazer com que ele acreditasse que eu estava realmente a dormir.

Ouvi os passos dele a afastarem-se e depois o som da porta a fechar. Naquele momento agarrei-me á almofada e chorei em voz baixa. Deixei que as lágrimas caíssem uma a uma, e todas as memórias percorressem a minha cabeça como uma tortura normal.

Quando o som do carro a arrancar se fez ouvir já estava a amanhecer e eu liguei a Max. Naquele momento eu queria o meu irmão lá. Eu tinha apenas 23 anos e estava a comportar-me como uma adolescente. Mas não me interessava...

- Como estás?- Max sussurrou da porta.

- Mal...- respondi encolhida na cama.

- Eu sei...- Max fechou a porta com cuidado.- Eu sei que é difícil, mas tens de ser forte...

- Eu sei que tenho, mas queres saber? É tão difícil...durante anos era apenas eu e ele. Depois João nasceu...e agora eu tenho a sensação que foi a última vez que o vi.

- Não digas isso...- Max sentou-se ao meu lado e deitou a minha cabeça sobre o seu ombro, abraçando-me.- o Leandro é forte, ele vai pensar em ti, no João e em todos aqueles que ama. Ele vai voltar. O país não está em guerra, de certeza que ele vai fazer apenas recruta.

- Eu tento convencer-me disso, mas é difícil..

- Eu sei que é, e vou estar aqui bem do teu lado. Prometo.

- Prometes mesmo?

- Claro que prometo. Agora deita-te, estás com uma cara horrível. Nota-se perfeitamente que não dormis-te a noite toda.

- Isso não me interessa. Parte de mim saiu pela porta a umas horas atrás.

- Por favor Mary, olha para mim.- Max levantou-se e colocou-se á minha frente.- Achas que eu estaria aqui a estas horas da manhã se não estivesse preocupado contigo? Por favor, pensa um pouco em ti. Eu sei o que estás a sofrer. Eu já passei pelo mesmo, mas sabes que mais? Tu tens a esperança de que o teu irmão vai voltar mas eu perdi os meus dois irmãos pelos motivos mais idiotas!

- Tinhas outro irmão para além daquele que me mostras-te?- perguntei um pouco surpresa com a brutalidade dele

- Tinha. Era dois anos mais novo do que eu. Era o irmão mais parecido comigo que eu tinha. Iamos aos pubs juntos, andávamos de bicicleta, fazíamos escalada... ninguém nos superava. Todas as famílias invejavam a nossa amizade. Mas um dia eu quis ir á praia, ele não queria mas como era o dia do meu aniversário, ele aceitou. Quando estava a atravessar a estrada um homem totalmente bêbado passou um sinal vermelho e atropelou-nos. Eu sobrevivi depois de um mês no hospital.

- E o teu irmão?

- Teve morte instantânea. Nunca mais me perdoei. Mas isso não interessa. O que eu quero dizer com isto é que tu tens de viver a tua vida....deixa o Leandro viver a dele, ele já tem idade e tu ainda és jovem. Tens todo o tempo do mundo para ti. Tens de ser forte!

- Lamento...- foi a única coisa que fui capaz de responder.

- Eu também, mas o que é que isso faz? Absolutamente nada....- Max suspirou e eu vi as lágrimas caírem-lhe pelo rosto.

- Desculpa...sou uma besta, mesmo!

- Não...tu és a rapariga mais maravilhosa que eu alguma vez conheci. Eu é que...desculpa...não devia estar a ser tão bruto...

- Não há problema. Tens as tuas razões.

O mais curioso é que as minhas lágrimas entretanto tinham parado de cair e agora era ele quem chorava.

- Agora deita-te e dorme. Por favor? Assim que acordares teremos todo o tempo do mundo para falarmos...

Acabei por o abraçar e adormeci abraçada a ele. Eu tinha medo de adormecer e sonhar com Leandro, mas o cheiro do Max foi mais forte eu não consegui evitar. Adormeci com o cheiro que Max me transmitia. Um cheiro tão particular...um cheiro só dele...