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LUKE, 13 ANOS.

Julie era uma idiota.

Luke tinha certeza que sua irmã era, porque era a melhor alternativa — a outra seria... Ele achava melhor criticar o juízo dela do que sua inteligência. Por que gênios eram loucos? Luke conseguia pensar em muitos: Einstein (quem usava aquele cabelo?), Newton (quem via uma relação entre maçã e gravidade?), Tesla (quem conversava com pombos?)... e Julie (quem trazia um desconhecido para casa?)

Primeiro, ela não deveria sair do hospital enquanto não estivesse completamente bem.

Segundo, ela não deveria ir para a escola enquanto não estivesse completamente bem.

Terceiro, ela não deveria trazer um desconhecido para casa — se bem que...

Luke o conhecia.

Luke sabia que aquele garoto era da sua sala, chamava-se Ashton, e sempre estava na companhia duvidosa de garotas mais velhas...
O que ele estava fazendo com sua irmã?

Luke queria saber.

Não, não queria.

Queria.

Não.

Sim.

Não.

Sim.

—Ei, Luke — cumprimentou sua irmã depois de ter aberto a porta de casa, e Luke tentou olhá-la, surpreso, como se não estivesse encarando-a pela janela, esperando preocupado sua chegada, e não soubesse o estrago que ela estava.
Não era difícil, ele ainda surpreso pelo que via.

Os cabelos de Julie escorriam grudado na sua pele, os olhos estavam vermelhos como se tivessem chorado (Luke sabia que era um grande "como se", porque sua irmã não tinha), os lábios curvavam-se alegremente e ela estava (não parecia) viva.

—Você está toda molhada – balbuciou, olhando o acompanhante dela apenas por um momento (quem se importava com o fato daquele garoto estar todo molhado?), antes de fixar os olhos na sua irmã .

Julie não devolveu o seu olhar.

Luke deveria saber, ela era uma teimosa e ainda devia estar brava por ele não concordar com ela. Sobre nada. Sobre sair do hospital. Sobre ir para a escola. Sobre ter um garoto que não conhecia em sua casa.

—Você é um gênio — parabenizou Julie, sarcástica, olhando para qualquer lugar menos para o seu irmão enquanto andava até as escadas . — Sente ai, Ash, que eu vou pegar uma roupa para você. Não pergunte, Luke.

—Ok, mas eu não ia – murmurou ele, voltando a jogar videogame. Ou fingir que jogava. Ele definitivamente iria, mas não mais, porque não era tão previsível quanto sua irmã achava que era. E porque ela parecia bem, melhor do que esperava. E porque não queria arruinar isso. – E mamãe vai chegar daqui a pouco.

—Ele é um dos seus amigos — disse Julie sem parar de subir as escadas. — Não meu.

Tão bem quanto se ela tivesse dito, Luke ouviu o "se virem", porque é claro que Julie deixaria ambos sem uma apresentação, ela era péssima em primeiras conversas.

—Então... – Luke era tão bom em iniciar uma conversa quanto a própria, e não podia fazer o que queria, que era colocar Ashton para fora, pois iria acabar com o (que faltava do) humor da sua irmã. – De onde vocês se conhecem?

—Da escola – disse Ashton, dando de ombros.

—Você acha que vou cair nessa? – questionou Luke, cético. – Você começou a estudar lá esse ano e Julie ainda não foi para a escola nesse ano.

—Pergunte a Julie – disse Ashton ao invés disso, sentando-se no sofá ao lado dele. – Vai me dar esse joystick ou não?

Não querendo ser mal educado nem nada, (Luke podia sentir o quão educado ele era) Ashton tomou o joystick de suas mãos, como se não quisesse participar daquele conversa, como se aquela fosse uma conversa constrangedora com o irmão da sua namorada — o que significava que Ashton era seu cunhado.

E, sim, Luke não queria aquela conversa também.

—Quer jogar, Ashton? – questionou Luke, pegando o outro joystick que estava do seu lado. – Obrigado, Luke, eu adoraria jogar com...

As palavras sumiram da sua boca, porque, descendo as escadas, estava uma garota que ele nunca viu antes.

Cadê.

Sua.

Irmã.

—Parece que vocês estão se dando bem – cantarolou Julie, jogando uma blusa para Ashton, quase não a pegando. – Aqui a blusa, Ash.

—O seu cabelo... – murmurou o "amigo" dela, atordoado. – Seu cabelo não era... — Ele piscou. — Maior?

Luke tinha as mesmas dúvidas.

Ou certeza.

O cabelo da sua irmã era maior, muito, muito maior. Maior do tipo ultrapassava seus ombros, maior do tipo ela havia sido chamada uma vez para interpretar Rapunzel — e recusado (demitida), pois recusava-se a sentar em uma torre e ser resgatada por um príncipe idiota, que ficava cego ao cair em cima de uma roseira cheia de espinhos e que saia vagando, e que depois, de algum jeito (Luke não se lembrava de que jeito), ela encontrava-o, chorava, e o príncipe recuperava a visão. Julie não iria chorar. E aquilo era machista. E ela queria a versão de Enrolados, onde era jovem e inocente e podia usar uma frigideira.

Luke não podia acreditar que aquele agora era o cabelo da sua irmã, porque ela o amava e agora ele nem chegava aos seus ombros.

Quando Malia havia perdido o seu, sua irmã pareceu determinada a cuidar do próprio, como se estivesse... culpada por ter um.

E Julie amava quando deslizavam suavemente os dedos por seu cabelo, ela podia até ronronar que nem um gatinho — às vezes, num mau dia (ou em um muito bom), ela sentava-se ao seu lado e praticamente colocava a mão dele em sua cabeça, como se precisasse de algo, alguém, ele, para dizer que ela era uma boa garota, a melhor de todas.

Luke sentia falta de deslizar os dedos pelo cabelos suaves e enganchados dela, desembaraçando-os e...

E agora ele nunca mais iria.

—Eu estava com calor – declarou Julie, jogando o cabelo por cima do ombro como costumava fazer. Ou não. Ela olhou para as mãos vazias, sem cabelo, e completou, hesitante: – E não encontrei nenhum... elástico.

Ah, pensou Luke olhando para as mãos dela. Ele devia ter esperado por isso. Mas ele não.

—Tem um no seu pulso – apontou Ash, piscando.

—O que você fez? – questionou Luke, recuperando a voz e desviando os olhos para o rosto dela. – Mamãe vai enlouquecer.

—Eu aposto que ela não vai nem notar.

Ah, pensou Luke novamente. Era por isso. Sua irmã queria que notassem, sua irmã queria que não notassem, sua não sabia o que queria e... era isso. Julie não sabia o que queria e tentava descobrir — Luke não podia não ajudá-la.

—O que eu ganho? — perguntou.

—Se eu ganhar, eu cozinho – disse Julie, sem pensar. – Se você ganhar, você cozinha.

—Feito — concordou, sabendo quem iria ganhar e sentindo-se... Bem, era o aniversário dele e alguém precisava de um presente.

—Por que ainda está com essa roupa molhada? – perguntou Julie, voltando a se lembrar da existência de Ashton.

E, oh sim, Luke virou-se para Ashton que os encarava... Admirado? Confuso? Aterrorizado?

—É, ah, hum... — gaguejou Ash. — Eu acho melhor ir embora. Não está chovendo tan...

O resto da frase foi abafado pelo som alto da chuva repentina batendo no telhado. Luke puxou a cortina da janela e admirou-se ao ver o céu escuro, como se fosse noite, enquanto normalmente tinha uma coloração alaranjada, meio lilás, a essa hora, com o sol se pondo no horizonte.

—Se quiser ficar com tuberculose –murmurou.

Ainda bem que sua irmã havia chegado em casa antes.

—Meu Deus, pare de frescura e tire logo a roupa! – exclamou Julie. – Luke não é homossexual. Ele não vai te atacar.

—É verdade — Luke disse, lançando um olhar para sua irmã, porque, sim, ele não era homossexual, suas escolhas sexuais-românticas eram mais amplas. — Mas você é atirada.

—Você sabe que sou assexual – disse Julie num tom ultrajado, que normalmente era acompanhando de uma jogada de cabelo e...

Luke lembrou-se que ela não tinha cabelo suficiente para fazer isso ao mesmo tempo que a própria, quando os dedos dela tocaram hesitantes as pontas repicadas do seu cabelo e ela parecia... assustada — assustada que nem antes de descer de uma montanha russa (Luke só a tinha visto desse jeito na primeira vez, quando ela não sabia o que esperar), mas determinada.

Fosse o que fosse que aparecesse na sua frente, Julie iria em frente — ela não recuava, ela não desistia, ela tinha medo, mas iria enfrentá-lo.

Acontecesse o que acontecesse, Luke sabia que podia confiar nela para dar a volta por cima, para estar por cima, para nunca desistir de fazer o que achava certo — mesmo que fosse sair do hospital enquanto não estava completamente bem, porque não havia mais nada lá que pudesse ajudá-la; mesmo que fosse ir para a escola ainda debilitada, porque não queria repetir de ano e recusava-se a desistir; e principalmente se fosse para correr na chuva com um desconhecido, porque era o que queria, porque queria um banho de chuva e uma companhia que não a julgasse.

(Porque, talvez, sua irmã quisesse alguém para substituir seu pai.)

(E Luke não podia culpá-la.)