sem ressentimento

outubro, duas semanas depois e dois dias

—Calum

—Luke.

—Então... isso é... — Luke não sabia — Julie marcou... — o que... — Eu não quis... — dizer.

—Ah — balbuciou Calum.

Ele deveria ter imaginado.

Julie era uma lunática, a primeira e única, e é claro que ela tinha marcado o encontro deles e Luke não sabia disso, assim como ele mesmo não sabia do encontro. O que significava que Calum não queria sair num encontro com ele. O que queria dizer que ele se arrumou para nada.

—Não que eu não queira agora! — exclamou Luke, temendo ter estragado tudo.

É, era sua cara. Não saber o que dizer e ainda sim dizer mais do que devia.

—É por isso que eu marquei um encontro para vocês — disse Julie, assentindo para si mesma. — Até eu fui num encontro antes de namorar.

—Julie — interrompeu Luke, rangendo os dentes. — Você já ouviu a frase que diz que quem não sabe falar não fala?

—Hum... não. — Sua irmã fingiu refletir. — O que ela diz?

—Cale-se.

—Quem... está aí? — questionou Calum, hesitante.

—Julie, A Praga — respondeu, olhando para a própria. — E Liz.

Luke ainda não acreditava nessa parte. Liz, sua mãe Liz. Liz, sua adorável mãe Liz. Até Liz!

—Até Liz?! — exclamou Calum.

—Até Liz — concordou Liz no ouvido de Luke... para Calum ouvir.

—Oh cara — gemeu Calum. — Eu quero morrer.

—Vocês deveriam parar de desejar isso — avisou Liz. — Algum dia desses, alguém ouve e realiza esse desejo.

—Eu não sei porque você está olhando para mim, mãe — resmungou Julie. — Eu não sou qualquer fada, que realiza qualquer desejo. E, nós fadas, vemos embutidas com as três leis da robótica de Isaac A-não-lembro-o-resto.

—Vocês são inacreditáveis — murmurou Calum.

—Eu já posso ir? — perguntou Luke. — Por favor, mãe.

—O que diz, querida? — questionou para sua outra filha, piscando os olhos inocentes.

—Que um pouco mais de vergonha não mata ninguém — respondeu Julie, sorrindo conspiratório. — Faz bem até para a saúde, irrigar todas as células do corpo com sangue desse jeito.

—Você pode ir, Luke — anunciou Liz. — Acho que já foi um bom castigo.

—Castigo? — repetiu ele, chocado.

—O que? Você não achou que eu fosse ficar nem um pouco sentida por você ter duvidado que eu fosse ficar ao seu lado apesar de qualquer coisa?

—Hã — Luke abriu a boca, arregalou os olhos, não sabia o que dizer, não tinha nem como se desculpar, porque era verdade e entendia sua mãe e não a culpava.

—Tudo bem, querido, não se preocupe — disse sua mãe. — Eu já fui adolescente. E já esperei o pior das pessoas que me amavam. E namorei escondido. Sem ressentimento.

—Você namorou escondido? — questionou Julie, surpresa.

—É nisso que você está focando? — perguntou Luke, cético.

—O que? Grande coisa, Luke. — Julie revirou os olhos. — Eu já pensei o pior dela. Sem ressentimento, mamãe.

—Sem ressentimentos — concordou Liz. — Eu também já pensei algumas coisas ruins de você. Filha.

—Eu só... — Luke apontou para qualquer canto, movimentou o dedo ao redor de si mesmo... Por que ele tinha chamado atenção para si quando podia ter desaparecido silenciosamente? — Eu já vou.