não namoro

setembro, uma semana e um dia depois

—Toc, toc.

—Está aberto — respondeu Luke, olhando-a fixamente. Sua irmã sabia disso, ela não era burra, nenhum pouco. E ele não estava no clima para brincadeiras.

—Você arruinou o resto da piada! — exclamou ela. — Oh, espere. — Julie recuou, escondendo-se atrás da parede. — Vamos tentar de novo. Oh-oh. – A cabeça de Julie reapareceu com os dedos entreabertos sobre os olhos. — Será que eu verei algo que eu não posso?

—Como? — resmungou Luke.

—Hum, não sei. — Julie baixou as mãos, entrando completamente no quarto — Mamãe sempre fala sobre hormônios e como eu devo parar de entrar em seu quarto sem bater, porque você já é um mocinho e mocinhos tem... Você nem vai me mandar calar a boca ou "pare, Julie"?

—Não. Entre. O que é?

—Pizza.

—Não vou te levar para sair.

—Eu não pedi — retrucou ela. — Pizza.

—Julie.

—Luke.

—Pizza — repetiu ele.

—Eeexato – sorriu Julie, como se tivesse ganhado. — Mamãe comprou pizza, ela disse que você se recusou a fazer o jantar. O que é?

—Nada — resmungou ele.

—Você parece mal, Luke. O que é? — repetiu ela. – Oh, venha aqui. – Julie subiu na cama, sentando e batendo a mão nas suas pernas num convite. – Diga a sua irmãzinha o que houve.

—Eu não vou...

—Eu não vou...

—Agora, Luke. Estou ordenando, não pe...

—Satisfeita? — murmurou Luke, colocando a cabeça aonde ela queria e cruzando os braços emburrado e olhando-a irritado.

—Pare de fazer beicinho. — Ela cutucou sua bochecha.

—Pare de ser irritante.

—E o que eu vou ser então? O que sobra para mim nesse mundo frio e cruel?

—Menos, Julie, por favor. — Luke revirou os olhos. — Vamos focar em mim.

—Certo. Focar. Você. O que houve? Diga para sua pequena irmã o que houve — pediu Julie, apertando suas bochechas.

—Eu não sei.

—Isso ajuda muito — comentou ela, passando os dedos em seu cabelo suavemente. — Diminui bastante minha lista de possíveis coisas possíveis.

—Essa é uma boa lista — elogiou Luke. — Qual é a primeira coisa possível para "eu não sei"?

—Que você sabe — respondeu Julie. — Você sabe?

—Eu acho que nunca gostei de ninguém realmente até agora — confessou Luke.

—Você acha ou você sabe? — questionou sua irmã. — Porque estávamos falando do que você sabe.

Luke sorriu. Essa era Julie, sempre direta. E quase-sempre-nunca certa. E confusa.

—O que você sabe? — perguntou Luke.

—Que eu nunca realmente gostei de ninguém no sentido romântico que você fala até agora. Até Ashton.

—É bom ter essa certeza, não é? — disse Luke, desejoso.

Julie deu de ombros.

—Agora. Quando eu percebi não era. Porque eu sou uma alma livre e Ashton é um espírito imundo. Nunca que eu pudesse imaginar que daria certo, que iríamos namorar. Até agora. Ao menos.

Luke sorriu.

—Ao menos — concordou. — É só que... é tão ruim.

—Muito ruim.

—Eu não sei como ser amigo e na... O que quer que temos agora sem... sem confundir tudo.

—Não sabe mesmo. Mas qual o problema?

—Confundir tudo — respondeu Luke devagar. Julie estava ouvindo-o?

—Sim, eu ouvi — disse ela, ouvindo muito mais do que ele dizia, do que saia da boca dele. — Mas qual o problema de confundir tudo? Vocês, garotos, são tão complicados. — Suspirou Julie. — Você não precisa saber, Luke, apenas seguir o fluxo. Está bem com o que acontece.

Luke refletiu. Era um bom conselho, o melhor que sua irmã já devia ter dado a alguém, algum dia, em toda a vida dela. Era assim? Tão simples? Era esse o segredo do duradouro namoro de Julie e Ashton apesar da implicância continua de término da parte dela?

—Pare de pensar — reclamou Julie, batendo com os dedos na cabeça dele antes de recomeçar a passar os dedos pelo cabelos dele. — É simples. Namoro é que nem amizade, só que com alguns aproveitamentos a mais. Tipo amizade colorida, que só tem beijo a mais. Namoro é tipo amizade colorida, só que de conhecimento público e fixo.

—Você é inteligente, Julie — comentou Luke, impressionado.

—É, eu sou. — Julie sorriu, orgulhosa de si mesma. — Então... quando foi que você e Calum começaram o... não namoro?

Eram assim que eles iriam chamar? Não namoro? Porque definiam bem o que eles não tinham.

—Há um tempo — respondeu ele, vago.

—Luke.

—Julie.

—Diga.

—Uma semana...

—E? — Julie esperou por mais. — Eu vou confirmar com Calum, você não quer ser sincero comigo agora? Ou quer mentir mais para mim?

—E um dia — murmurou Luke.

—Bom garoto. — Julie bateu em sua cabeça com as pontas do dedos. — E mau garoto. — Ela bateu com mais força, usando agora os nós dos dedos. — Como assim uma semana e um dia? Tudo isso? Eu ao menos...

—Nem venha, Julie. Seu namoro nem Ashton sabia. E você não me disse quando começou o que fosse com ele.

—Você também não iria querer saber — resmungou ela.

—Quando foi que você começou o que fosse com Ashton? — Luke aproveitou para perguntar.

—Bem, você sabe.

—Não.

—Naquele dia — disse ela, vaga.

—Que dia?

—Na aposta.

—Na aposta? — repetiu Luke, chocado. — Tudo isso? Isso foi... muito tempo. Julie!

Luke sentou-se, balançando a cabeça para dia.

—Luke! — exclamou ela também.

—Como você — balbuciou ele.

—Simples. Fácil. Às vezes torturante. Sua vez.

—Nós não estamos reservando!

—É claro que estamos — retrucou Julie. — Ou você acha que eu estaria contando da minha vida romântica a você se não estivéssemos reservando? Sua vez.

—Sua...

—Você está assim por que Calum disse que vocês não estão namorando?

—Assim? — ecoou Luke.

—Na cama. Calum disse que você subiu assim que eu sair. E mamãe disse que você não desceu para a pizza. Então: não namorando?

—Não. Talvez. Um pouco. Sim, certo, satisfeita?

—Luke.

Luke não falou. Ele não queria falar mais e se confundir mais e se irritar mais e achar que estava sendo um idiota, ele já sabia que era um. Não havia nada com que se irritar, mas ele estava irritado. E envergonhado. E só queria que... eles estivessem namorando. Era tão difícil assim?

—Você sabe o que digo — disse sua irmã sem se abalar.

—Não sei. Você fala demais.

—Eu tenho uma ótima idéia — anunciou Julie. — Isso é o que eu digo. Sempre tenho. Uma idéia.

—Qual é ela? — questionou Luke apesar de si, porque a curiosidade era maior que si.

—Vamos. — Pausa dramática para efeitos dramáticos. — Continuar. — Ela sorriu, sabendo o efeito que tinha. — A Operação Não Seja Difícil.

—Hã?

A Operação Não Seja Difícil foi o nome que sua mãe deu a estratégia de conquista de Julie, que se dividia em três parte: ignore-o, faça-o se arrepender de não a ter e então o conquiste. Era idiotice do começo ao fim, Luke sabia — era nesses momentos que ele via que sua mãe não era imune a loucura e a estupidez da família.

—Bem, no seu caso é Operação Seja difícil — lembrou-se sua irmã.

—O que? Por que?

—Ela funcionou comigo — lembrou ela. — Deve funcionar com você. Ashton é pior do que Calum quanto a ser lerdo.

—Eu tenho minhas dúvidas — resmungou Luke.

—Vai querer ou não?

Era tentador, Luke admitia. Se fosse outra vida, se fosse outra pessoa, se já não achasse que tinha muito drama desnecessário na sua vida... Ele aceitaria.

—Não.

—Por que?

—Eu não preciso disso, Julie — disse Luke, com uma altivez e certeza que não tinha, mas que fingia muito bem ter.

—Tudo bem, senhor eu-não-preciso-disso. Agora levante-se, vamos comer pizza.

—Você não acabou de chegar de um encontro?

—Sim, mas já estou com fome. Ashton é um péssimo namorado quanto a me alimentar.

—Ele é sua mãe? — perguntou Luke.

—O que? Alimentar não faz parte do pacote?

—Tem um pacote?

—Você não sabia que tem um pacote? — questionou Julie, horrorizada.

—Quem te disse que tem um pacote?

—Essa não é uma daquelas coisas que você apenas sabe?

—Não — respondeu Luke. — Não é. Agora vamos comer pizza que eu estou com fome.