importava

CALUM, 13 ANOS.

Às vezes, Calum pensava que nada importava, que não tinha diferença entre estar vivo e morte, que a vida não tinha importância, mas, nesses momentos, ele tentava pensar em tudo que um dia importou, ele tentava lembrar-se de tudo que amava.

Porque importava.

Calum tentava pensar em Malia, nunca parando quieta, sempre se mexendo, nunca fazendo que os outros queria, apenas o certo, nunca... nunca o deixando, ainda ao seu lado.

Calum tentava pensar em Julie, em como ela era a pessoa mais brilhante e animada de um jeito preguiçoso que conhecia, que fazia o certo mesmo que dissesse que não era uma boa pessoa, que era como era e que não tinha medo de dizer e mostrar a todos.

Calum tentava pensar em Luke, em Luke sendo um bom irmão, em Luke sendo um bom filho, em Luke sendo um bom amigo, o seu melhor amigo, em Luke estando ao seu lado e o ajudando, mesmo que ele não soubesse que precisasse de ajuda (ou quisesse).

Calum tentava pensar em Andrew, sempre sorrindo e estando certo, sabendo das coisas antes delas serem ditas e dizendo que o amava sem medo.

Calum tentava pensar em Liz, em como ela era forte e maravilhosa e agia como se fosse sua mãe, parecendo orgulhosa ao dizer que ele era seu filho.

Agora, Calum pensava nela, em sua força – se nada importava, como Liz ainda estava de pé? Algo deveria importar, caso contrário ela não estaria ali, sentada ao seu lado na cama de Luke, pensando nele enquanto Julie estava sendo a teimosa irritante que era e se recusava a falar e se ajudar.

Às vezes, Calum pensava que nada importava, que ele não importava, porque, se importasse, não seria assim, não estaria com aquele presente em suas mãos, mas, então, ele lembrava-se de todas as pessoas que o amava por quem ele era, e sabia que importava.

E Calum pensou em Kora, sua mãe Kora, em sua mãe que tinha ajudado Liz e o abraçado pela primeira vez em muito tempo, tremendo silenciosamente enquanto apertava-o tão forte, como Liz tinha feito antes, no carro, e ele pensou por um momento que, para ela, ele também importava.

Contudo, agora, olhando para o presente em suas mãos e então para Liz, que sorria para ele, Calum teve essa certeza.

Ele importava.

Ele era importante.

—Você sabe o que é isso, certo? – questionou Liz.

E Calum assentiu, mudo. Sim, ele sabia. É claro que ele sabia. Aquilo era... aquilo era um presente que sempre quis desde... desde que seus.. seios... começaram a se desenvolver, desde que sua puberdade havia começado, desde que seu corpo a cada dia parecia mais e mais com o de uma menina.

—É um blinder – respondeu Liz, embora fosse desnecessário. É claro que Calum sabia! – Eu queria te dar isso faz um tempo, mas com tanta coisa acontecendo que...– Ela parou e respirou fundo, meio trêmula, e então Liz o encarou, para ter certeza que seria entendida. – Eu não quero que chegue um momento que você sinta que precisa de algo como isso e decida... recorrer a métodos perigosos – disse ela devagar. Calum desviou o olhar, ele não sabia do que ela estava falando, nem um pouco, internet não existia. – Como usar faixas. – Uma pausa. Antes dela continuar: – Você sabe que isso faz mal, certo? – perguntou Liz, inclinando para encará-lo ainda melhor, ainda mais perto. – Pode quebrar suas costelas, prejudica na hora de respirar – citou, contado nos dedos. – Pode trazer tanta coisa e é tão desconfortável. Eu sei que... Não, eu não sei como é – corrigiu-se Liz rapidamente. – Mas eu quero que você saiba que qualquer coisa que você precisa, que você sinta que precisa, você pode me dizer. Eu quero o seu bem, Calum. Eu quero sua felicidade. Eu quero...

—Isso é uma propaganda eleitoral? – murmurou, desconfortável. Era tão... Urg, Calum imaginava que essa era tipo A Conversa, falar de sexo com os pais e como usar camisinhas e ser responsável na hora de... Ele sentia grato, mas... Ainda era estranho.

—Resposta errada – cantarolou Liz, com um olhar sábio.

—Eu sei – murmurou ele novamente, emocionado. – Obrigado.

—Por nada, querido. Agora não vá utilizar por mais de seis horas por dia, ok? E nem todos os dias também, sua pele precisa respirar.

Calum assentiu, mordendo os lábios, sem saber o que dizer, o que mais fazer. Ele queria abraçá-la, dizer o quanto a admirava, o quanto estava triste, o quanto estava feliz, o quanto a amava.

Liz sorriu.

—Eu também.