impedir

abril, cinco meses atrás

Luke sentia como se estivesse perdendo Julie e a dor não era como ele imaginava que seria perder um braço repentinamente, era pior.

Começou devagar, aos poucos, a infecção chamada Ashton espalhava-se lentamente, sem pressa, contaminando tudo ao seu redor profundamente, para não ter volta, para não ter salvação.

Era doloroso.

Era desconfortável.

Era o ciclo da vida.

E Luke não podia fazer nada para impedir.

Sua irmã estava crescendo e isso significava que ela não seria mais o seu bebê para sempre (ela seria o seu bebê para sempre não importava o que dissessem) e isso significava que ela não ficaria para sempre ao seu lado (vinte e quatro horas ao seu lado, porque ela ficaria para sempre ao seu lado).

Sua irmã estava crescendo e isso significava que acertando ou errado ela iria aprender (e quebrar a cara, principalmente quebrar a cara).

Julie precisava dele, Luke estava certo quanto a isso, porque também precisava dela, mas...

Era diferente.

Julie precisava dele, mas ela não era mais uma criança — ela era seu bebê, mas não era mais uma criança; ela era seu bebê e Luke não podia se quer imaginar pensar nela de outra forma...

Ela não era mais um bebê?, hesitou Luke por um segundo antes de descartar essa impossibilidade. Ela era seu bebê, ele não tinha dúvidas quanto isso... Ela era seu bebê e ele estava começando a ter dúvidas quanto isso por estar ouvindo o que ouvia.

Era por isso que ele não queria ficar em casa quando soube que Ashton iria levar sua irmã para um encon... jantar! Para um jantar!

—Gostei do nosso jantar – Luke ouviu Ashton confessar.

—Eu também – comentou Julie. – Deveríamos repetir mais vezes isso de eu comer e você pagar. Quando quiser abrir a carteira ou fazer uma nova aposta, avise. Estou sempre disponível.

Por que eles não podiam calar a maldita das bocas?

—Você não vai me convidar para entrar?

—Não – respondeu sua irmã. Luke podia ouvir o sorriso na voz dela, poderia tocá-lo se quisessem, podia morrer agora que não veria diferença. – Por quê? Você quer entrar?

—E se eu quisesse?

Por que eles tinham que ficar falando?

—E se eu não te quiser?

—Existe alguma garota que não me quer?

—Quem sabe eu?

Por que ele tinha um ouvido tão horrorosamente bom?

—“Quem sabe”? – ecoou Ashton, debochando.

—Você não sabe o que significa “quem sabe”?

—Mas por que você diria “quem sabe”?

—Por que eu não diria?

Porque eles tinham que continuar com esse flerte descarado? Era nojento, na opinião de Luke. E ele não podia mais aguentar.

—Por Deus, calem a boca! – gritou, abrindo a porta.

—Ou se peguem de uma vez! – gritou Michael, atrás dele.

—Não! – gritou Luke mais uma vez, olhando assombrando para o seu amigo antes de se virar suplicante para sua irmã e Ashton, com medo deles estarem realmente se agarrando. Aquela era uma imagem que ele desejaria não ver nunca na sua vida. Mais nunca na sua vida. Uma vez bastava e já era suficiente e... Ele queria apagar essa imagem dos seus olhos em chamas.

—Ou... – Calum parou, abrindo e fechando a boca, porque Luke desafiava-o a dizer o que queria dizer. Ou, ou, ou o que? Calum estava bem, obrigado. – Entrem? — tentou.

—Não! – gritou Julie e apontou para Ashton, completando ainda aos gritos: – Ele disse que eu o quero!

—Eu sou lindo mesmo e todas as garotas me querem! – admitiu Ashton. Aos gritos.

O.

Que.

Luke.

Fez.

Para.

Merecer.

Isso.

Isso, apontaria frenético para Ashton, desesperado por alguém que o compreendesse e percebesse que não, Luke não o queria na sua vida, principalmente na da sua irmã.

Não, não, não, não, não, não, para sempre e nunca e eternamente não.

—Calem. A. Boca – gritou Luke, mais uma vez. – Julie — ele rangeu os dentes — para dentro.

—Não — sibilou Julie.

—Para den-tro – rosnou seu irmão.

—Não — repetiu ela, cruzando os braços e batendo o pé claramente irritada e rítmica contra o chão. — Eu não vou entrar.

Luke rangeu os dentes tão forte que sentiu sua mandíbula doendo, tensa por causa da situação.

Luke sabia o que sua irmã odiava e ele sabia o que ela realmente odiava — e sabia quando ela estava fingindo algo. E ela não estava. E ela não estava. E ele estava irritado.

Por que ela não podia ver?

Por que ela não podia ver o que estava acontecendo?

Por que ela não podia ver que estava crescendo e e ele queria que ela continuasse seu bebê para sempre, segura e próxima de si?

Por que ela não podia ver que estava pensando nela e no melhor para ela e... e no fato de apenas querer o melhor para ela?

Luke deu um passo para frente antes que pudesse se impedir.

—Você vai...

Calum o impediu, segurando o seu pulso com força o suficiente para perceber que... Não.

—Luke — Calum disse o seu nome.

Luke parou e respirou fundo, tentando recobrar seu juízo, tentando colocar em sua cabeça que podia querer o melhor para sua irmã, mas que ela precisava quebrar a cara sozinha para aprender. E quebrar de novo para ter certeza que errou o que achava que errou, ou se era apenas uma coincidência.

E ele não era o pai de Julie, ele era o irmão dela. E ela não iria obedecê-lo, não a sua irmã irritante. E ele sabia disso. Todos ali sabiam disso.

—Está fazendo frio, entre – pediu Luke, cansado. – Por. Faavor.

—Hum... — murmurou sua irmã, dando um passo em sua direção, antes de mudar de idéia e recuar para longe, para Ashton.

Droga.

Droga, droga, droga, droga, as palavras se repetiram num coro sem fim de desespero e... droga! Luke tinha certeza que tinha pedido por isso. Seja lá o que fosse isso. Ele tinha. Ele tinha, ele tinha, ele tinha, ele...

Ashton bateu as costas contra o carro, tentando fugir, e se viu preso. Por Julie. Próximo. Perto. Quente. Gelada. Ela estava gelada, ela era gelada, ela não estava viva e não brilhava; ela parecia querer o seu sangue e Ash queria fugir.

Desaparecer.

Continuar vivo.

—Ashton – disse Julie, docemente. E Luke só pode pensar droga seja lá pelo que ela fosse dizer ou fazer ou talvez os dois. – Obrigada pelo encontro.

—Por nada... Espere. — Ash piscou, atordoado. Luke seguiu o movimento. Espere, espere, espere, encontro? — Encontro?

—Sim, encontro – concordou Julie, balançando a cabeça e se inclinando para frente.

Para beijá-lo.

Ashton recuou, surpreso, batendo a cabeça contra o vidro, e viu pelo canto do olho Luke dar um passo para frente e depois parar, pensar, esperar, e depois os lábios de Julie estavam sobre os seus e ela estava beijando-o. E ele queria que isso parasse. Logo, rapidamente, naquele instante, o quanto mais rápido possível, porque era tão, tão ruim.

Luke queria não ver isso acontecendo, porque... Ele já tinha visto Julie e Ashton se beijando o suficiente para essa e todas as outras vidas que ainda teria, ele tinha visto essa cena por tempo suficiente para querer não ver nunca mais, no entanto não era por isso, não era apenas por esse motivo que ele não queria ver os dois se beijando.

Sim, certo, sua irmã era seu bebê, ela era jovem e inocente e tudo mais, mas... Julie não estava... Aquele beijo estava tão...De um ponto de vista completamente... Luke não sabia de qual ponto de vista estava falando, mas aquele beijo estava sendo desconfortável de assistir e ainda seria se Julie não fosse a sua irmã, porque mesmo que nem um daqueles lábios fossem os seus (graças a Deus), Luke ainda os sentia gelados, sem química, sem... sem tanta coisa, sem nada.

Luke estava vendo sua irmã quebrar a cara.

Luke estava vendo sua irmã beijar alguém para mostrar um ponto, porque estava irritada.

Luke estava vendo sua irmã beijar Ashton porque ele a tinha coagido a isso, a tinha feito acreditar que tinha que beijar Ash para mostrar que ele não mandava nela, que ela podia fazer o que quisesse.

Ser quem quisesse.

Julie afastou-se de Ashton e Luke não sabia dizer quem parecia mais enojado — por um momento podia considerar que não era ele próprio.

—Julie... – começou Luke, dando um passo arrependido, dando um passo em direção a ela, mas Julie recuou, balançando a cabeça para o seu irmão.

—Não, Luke. Agora não.

E Luke só pode concordar. Não, agora não.

Luke sentia como se estivesse perdendo Julie e a dor não era como ele imaginava que seria perder um braço repentinamente, era pior.

Começou devagar, aos poucos, a infecção chamada Ashton espalhava-se lentamente, sem pressa, contaminando tudo ao seu redor profundamente, para não ter volta, para não ter salvação.

Era doloroso.

Era desconfortável.

Era o ciclo da vida.

Sua irmã estava crescendo.

E Luke não podia fazer nada para impedir.