Pedaços Transformados
29 Fada
fada
JULIE, 9 ANOS.
—Ela vai acordar? – questionou Julie.
Se Branca de Neve fosse a Bela Adormecida e tivesse num sono profundo... oh, ela esteve, então se Malia Hood fosse Branca de Neve (ela com certeza parecia por causa do cabelo preto como a noite e a pele branca como a neve), sua amiga iria acordar. Seu pai precisava dizer que sim, porque seu pai médico era bem mais confiável (ou deveria ser) do que um conto de fadas. Fadas não existiam, seu pai existia.
—Sim – disse seu pai. – Ela vai acordar.
—E tudo vai ficar bem?
Julie sabia que estava forçando a barra, pedindo mais do que podia, mas pedidos eram assim. Pedidos era pedir mais do que podia acontecer, pedidos era acreditar em fadas e Sininho e Peter Pan e paz mundial e comida para todos e Malia bem. Pedidos era a única coisa que lhe restava e Julie acreditaria em fadas até o último dia da sua vida, ela seria uma, se... apenas...
Julie iria começar leve: se apenas Malia acordasse e sorrisse para ela e dissesse que iriam assistir Rei Leão juntas.
Se isso acontecesse, Julie seria uma fada.
—O que você está fazendo?
Por um momento, a mão de Julie parou como se tivesse sido pega no flagra (ela tinha sido), como se tentasse roubar o último biscoito e olhasse para o lado antes de enfiar a mão no pote (ela nunca olhava; olhar era para ladrões amadores), antes de fazer o que queria e pegar a mão de Malia, levantando a palma para cima e traçando a pele da sua melhor amiga com a ponta dos seus dedos.
—Lendo a mão dela – respondeu Julie. – Obviamente. O que você pensou que era?
—Eu não pensei. Obviamente.
—Você quer que eu leia a sua depois?
—Não. – Seu pai parou por um momento e Julie olhou para a mão de Malia enquanto esperava o que quer que ele quisesse dizer, tentando se lembrar de tudo que tinha lido sobre ler mãos. A primeira linha era do coração ou da vida? – Julie?
—Sim? – A primeira era a da cabeça, decidiu.
—Você não... Você não pode acreditar nisso de destino. Você faz seu destino. Você escolhe o que quer fazer e quem quer ser.
—Eu sei.
—Profecias são auto realizáveis – continuou Andrew, não a ouvindo. – Elas acontecem porque você acredita nelas e faz com que elas aconteçam.
—Eu sei.
—Não existe isso de futuro certo...
—Pai? – interrompeu Julie, olhando-o profundamente. – Eu sei. Você não precisa dizer isso, eu sei.
—É só que...
—Eu sei.
Julie sabia. Seu pai não precisava dizer, ela sabia. Malia... Malia não iria ficar boa – e ela não podia dizer que iria a sua amiga, porque era errado, e nem que não iria, porque também seria. Não existia certo, não existia errado. Não existia isso de ler mãos, não tinha como saber o que aconteceria, mas... Julie sabia.
Malia morreria.
De alguma forma, de algum jeito, Julie sabia. Ela sabia que sua amiga morreria, que estava certa quanto sua amiga morrer, que não existia isso de futuros certo e que, mesmo assim, estava certa quanto sua amiga morrer...
Julie sabia.
Ela não precisava que seu pai dissesse, porque sabia.
Mas Malia não sabia.
Malia precisava que ela dissesse algo que... que desse esperança.
Malia precisava de esperança.
Malia precisava dela.
(E Julie não sabia como dizer adeus.)
(Julie não queria dizer adeus.)
(Julie não precisava dizer adeus.)
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