Pedaços Transformados
191 Estrelas
estrelas
setembro, um dia depois
Uma boa noite de sono era tudo que eles precisavam, Julie repetiu mais uma vez, deitando-se em sua cama e suspirando.
—Mova-se, Ashton — murmurou ela, encarando o teto, não se movendo para empurrá-lo.
Estrelas são bolas maciças de energia, que puxam tudo ao redor para orbitar ao redor delas; a luz que se vê emanando delas é porque elas morreram há muitos anos e o universo é tão vasto que sua explosão ainda está acontecendo para nós, que estamos na borda de algo que é infinito... Isso parecia chato, cansativo, e tudo o que Julie mais queria era algo descomplicado.
Estrelas rosadas estão caindo em fileira, Julie tentou decifrar por um momento, mas não tinham forças para tentar responder enigmas de séries que não assistiu.
Ela suspirou.
Próximo.
Estrelas são pontos
luzes
brilhantes
E ela era péssima nisso de poema, poesia, haicai, qualquer coisa que fosse...
—Não – recusou Ash, negando-se a soltar a mão dela, a se afastar, a não continuar tocando-a. – Eu estou bem, obrigado.
—Porque eu estou preocupada com você – murmurou Julie para si mesma, suspirando. – Muito preocupada com você. O que você era fazendo aqui, a propósito? – Ela virou-se para ele, curiosa. – Mamãe é contra eu e você dividindo uma cama até o casamento.
—Já pensando em nosso casamento? – questionou Ashton, achando difícil não sorrir, controlando-se para não levantar as sobrancelhas e flertar.
Existe hora e local.
E era muito tarde.
E era muito cedo.
E era num local confortável o suficiente para Ash não querer tentar sua sorte e perdê-lo.
Ele estava bem com sua má sorte.
—Não, mamãe pensa – respondeu ela. – Se eu for pensar em algo vai ser em nosso divórcio.
—Precisaríamos nos casar primeiro – lembrou ele, recusando-se a perder – então você está pensando em nosso casamento?
Maldito, praguejou Julie. Maldito, maldito, maldito, três vezes maldito, pensou, sorrindo levemente. E ela era outra por sentir orgulho.
—Estou pensando em estrelas – respondeu Julie simplesmente, deitando-se de costas novamente.
—Estrelas? – repetiu Ashton, cético, embora... havia sentido. Eles estavam deitados, olhando para estrelas, então por que não pensar nelas? — Em como Andrew desenhou isso?
Era um bom ponto, reconheceu Julie. Seu pai era pior do que ela e aquilo, aquelas estrelas que pareciam tão reais pintadas no teto do seu quarto, era uma obra de arte.
—Em como somos pequeno em comparação – respondeu ao invés disso, num raro momento de insight.
Eles eram pequenos, não eram?
Tudo era tão medíocre comparado ao quão vasto o universo era, tudo era tão impressionante e maravilhoso, e qualquer coisa podia acontecer a qualquer um e não ser culpa de nada, ninguém; o mundo podia acabar e recomeçar e ninguém perceber a diferença.
Ela podia não ser uma fada – mas ela era.
Ela podia não fazer diferença – mas ela faria.
Ela podia não realizar desejos – mas ela realizava.
—Eu acredito em você – confessou Ashton, sua voz saindo num murmúrio suave. – Eu acredito em você – repetiu ele.
—Obrigada – agradeceu Julie, grata, levando a mão ao coração. – O-bri-ga-da – repetiu, simulando cada sílaba como se fosse um batimento de Ashton, levantando e abaixando a mão contra o peito dele. – Mas desnecessário.
—E não tem problema em ser pequeno – continuou ele, segurando a mão dela ali, para que ouvisse, sentisse, seus batimentos – o problema está em não se permitir ser grande.
—Ashton – gemeu Julie, aconchegando-se ao seu lado. – Sem frases de auto ajuda barata.
—Calum está bem – prometeu Ashton para ela, passando as mãos em seus cabelos loiros e cheios de nós.
Julie bufou. Ele estava dizendo isso para ela? Logo para ela? Julie não precisava ouvir isso, ela não precisava de promessas falsas, que não podiam ser realizadas; ela não precisava de palavras que queria ouvir, mas de palavras que precisavam ser ditas.
E aquelas palavras, "Calum está bem", eram mentiras, porque ele não estava; eram uma promessa falsa, porque Ash não podia prometer algo desse tipo; e, ainda sim, era verdade, porque Julie acreditava.
—Eu sei.
—Boa noite, Julie – murmurou Ash.
Julie fechou os olhos, sentindo que a luz era demais e que lacrimejava-os, e tentou se re-convencer disso, re-acreditar, apenas acreditar.
—Boa noite.
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