Pedaços Transformados
24 Escuridão
Notas iniciais
escuridão
MALIA, 9 ANOS.
As luzes se apagaram num instante e no outro Malia abriu os olhos, Luke gritou do quarto ao lado, e Julie acordou-se repentinamente, murmurando para si mesma sobre irmãos grudentos e assustados enquanto seus pés tateavam no chão atrás das suas pantufas antes de desistir e sair esbarrando nas paredes para chegar ao quarto do seu irmão.
—Julie? – chamou Malia, preocupada.
Na metade do caminho, sua amiga parou, olhou para ela – Malia podia apostar que via os olhos azuis de Julie brilhando no escuro, como os de um gato; o quarto nem estava tão escuro assim, Malia conseguia enxergar vagamente contornos, mas não olhos, ela não deveria enxergar olhos, mas Malia enxergava os olhos azuis brilhantes de Julie – antes da mesma voltar para a cama, pegar o lençol, enrolar-se nele e sair arrastando-o no chão.
—Julie? – chamou ela novamente.
—Eu já vou! Eu já vou! – gritou Julie. – Oh meu Deus! – Sua cara foi de encontro a parede e ela recuou, tropeçando em seus pés.
—Julie?
—Eu já vou!
Malia piscou. Julie era... sonâmbula? Ela não estava surpresa nem não-surpresa, embora isso explicasse como Julie ocasionalmente aparecia na sua cama nas raras vezes que ela dormia na sua casa, mesmo que dissesse, jurasse – Julie era muito certa quanto não mentir – que não saiu da cama, que ETs deviam tê-la sequestrado-a.
—Eu não vou ficar de fora – murmurou Malia para si mesma, levantando-se depois de uns minutos de silêncio.
Esticando as mãos na sua frente, Malia andou devagar, pronta para parar assim que sentisse que suas mãos esbarraram em algo. Parede, mais para o lado porta, um passo, dois passos para o lado, mais um se sua memória estivesse boa, e então para frente.
—Olá – disse ela. – Olá, olá. Hum... Olá? – tentou novamente quando não houve respostas.
O silêncio era tão grande quanto escuro e Malia não enxergava nada e nem esperava uma resposta – embora desejasse, precisasse de uma. Ela se sentia tão vazia quanto aquele quarto, tão na escuridão quanto ele. Haviam ido embora e tinham deixado-a? Haviam se esquecido dela?
—Malia? – chamou Julie, colocando a mão sobre o seu ombro repentinamente, sem aviso, sem som, fazendo-a saltar.
Julie tinha esse negócio de andar tão silenciosamente que Malia já andava meio que esperando para ser surpreendida sempre que fazia algo que não queria que os outros soubessem, (que não queria que Julie soubesse), mas ainda assim... Ou talvez, justamente por isso, ela se viu saltando e virando-se e abraçando Julie, porque, naquele momento, ela queria que Julie a abraçasse.
Malia queria sentir sua amiga, saber que não estava sozinha, porque Calum era a pessoa mais fiel e leal que conhecia e sempre estaria com ela, e Julie... Julie era a pessoa mais honesta que conheceu e sempre lhe dizia a verdade, ela estava ao seu lado porque queria.
—Certo – disse Julie, pega de surpresa, mas nem um pouco lenta para abraçá-la de volta. – Você... está bem? – questionou ela, duvidosa.
—Sim... – Malia começou a assentir, mas parou, negando com a cabeça. – Não. Eu não estou. E-eu... eu acho que estou...
—Certo – concordou Julie, embora Malia não tenha conseguido dizer nada.
Seu rosto estava pressionado no peito de Julie por ser mais baixa e falar... Malia não conseguia. As palavras não saiam, não existiam, Malia não sabia quais usar. O que ela queria dizer? O que ela achava que estava sendo?
—Eu estou sendo egoísta? – perguntou do nada.
—Por que?
—Eu quero que... Eu quero que... Eu não sei! Eu só estou me sentindo tão egoísta.
—Faz bem ser egoísta às vezes – disse Julie, balançando a cabeça para cima e para baixo e dando tapas solidárias em seu ombro. – Faz bem para a alma.
—Você não sabe nem porque eu estou assim.
—Porque você acha que está sendo egoísta e se sente mal por isso – respondeu monótona. – Você é tão óbvia, Malia – disse sua amiga, revirando os olhos. – E não é uma egoísta pura.
—Egoísta pura?
—É – concordou Julie. – Egoístas puras não se preocupam com essas coisas desnecessárias. Agora vamos, me solte, esse abraço está demorando de mais.
—Julie? – chamou Malia ainda sem soltá-la, apertando uma vez antes de deixá-la ir, mas mantendo as mãos nos ombros dela, seus olhos fixos naqueles brilhantes e néon. – Obrigada por ser minha amiga.
—Pare com isso – reclamou Julie, batendo a testa na dela. – Amigas não agradecem umas as outras.
—Você está quebrando seu ideal de egoísmo puro e supremo por se preocupar comigo – sorriu Malia.
—Não estou.
—Está.
—Eu estou pensando em mim – explicou Julie – em como me sentirei mal se você agradecer a mim e começar a esperar algo.
—Me parece que você está com medo de eu ser decepcionada por você. Preocupando-se comigo novamente – provocou.
—Pense no que quiser – murmurou Julie. – Agora vamos, me dê a mão...
—Não é porque nós abraçamos que eu quero pegar sua mão, Julie.
—Eu não quero que você tropece e caia em cima de mim enquanto descemos as escadas, idiota.
—Julie? – chamou Malia quando saíram do quarto.
Julie na frente e ela atrás, seguindo os cabelos dourados – não era só os olhos que brilhavam, os cabelos também eram mágicos. Malia queria saber como isso acontecia porque... ela precisava desse shampoo mágico.
—O que? Vai me agradecer novamente?
—Você é igualzinha a sua mãe – murmurou Malia.
—Não sou! Eu sou uma cópia do papai!
—Pense o que quiser.
—O que você quer?
—Cadê todo mundo?
Por que ninguém veio me procurar?, pensou Malia, mas não perguntou. Não era como se ela tivesse desaparecido, ela apenas não... Não apareceu quando faltou energia e Luke gritou tanto e Calum... E Calum ficou calado. Onde estava seu irmão?
—Eu disse que viria atrás de você – respondeu Julie, dizendo o que Malia precisava muito mais do que percebia. – Mamãe está arrumando a sala e papai fazendo chocolate quente e Calum está protegendo Luke dos monstros. Ele tem uma coisa pelo escuro – confessou suavemente em segredo. — O que acha?
—Isso não é...
Malia abriu e fechou a boca, porque... Julie havia levando-a pelo corredor, da escuridão a luz, e não falava do medo de Luke pelo escuro, mas da sala. A sala que estava iluminada. A sala que era luz. A sala que era luz e quente e agradável e confortável e...
—Incrível – disse Malia sem fôlego.
Ela estava na luz – velas de diferentes cores e tamanhos rodeavam o balcão completamente, lançando uma luz fantasma na sala; colchões estavam colados uns nos outros no chão; Luke sentava-se num sofá com um edredom sobre os ombros e uma caneca fumegante nas mãos, com Calum ao seu lado, passando as mãos nas suas costas suavemente, e Andrew do outro, parecendo um mestre orgulhoso do pupilo na arte de acalentar.
Ela estava na luz.
—Incrível – repetiu Malia, nem um pouco recuperada da visão, ainda ofegante.
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