culpa

ANDREW, (?) ANOS.

Andrew abriu a porta para a sala do diretor e recuou, fechando-a novamente e rogando a Deus para ter ficado louco de vez, porque... uau, aquilo acontecia.

Batendo a cabeça apenas uma vez contra a porta e sentindo-a reverberar até a maçaneta contra sua mão, Andrew ouviu vagamente o diretor perguntar "ele está bem?" e sua filha dizer "dê um tempo ao cara, é muito para ele processar", porque, sim, era.

Suas três crianças sentavam-se ao redor da mesa do diretor. As três! Todas elas! Não era apenas sua filhinha, era Luke e Calum e Andrew não queria saber o porquê, mas, oh, ele precisava.

Pegando forças do fundo da sua alma, Andrew empurrou a porta e colou um sorriso no rosto, não sabendo se o fato dele estar ali era bom ou ruim, se teria sido melhor ele ou sua esposa, contudo, fosse o que fosse, Andrew Hemmings daria um jeito e não deixaria isso chegar aos ouvidos de Liz — se chegasse... até ele seria culpado, pois era muito mole com os seus filhos.

—Vocês três? Por que sempre tem que ser vocês três?

—Se não for nós três, quem seria? — sorriu sua filhinha, com um pequeno sorriso que dizia desculpa, só que Andrew sabia que ela não se arrependia nem um pouco pelo que fez. Ele queria acreditar nela, ele queria não se arrepender também. — Não sei se você se lembra, papai, mas eu só tenho dois amigos. Um — apontou ela para o seu irmão que tinha um saco de gelo sobre o punho fechado e depois para o seu melhor amigo que parecia ter chorado. — Dois.

—O que ele fez? — questionou Andrew. — Ele — disse, apontando para Calum .

—Bem, senhor Hemmings, não foi...

—Luke? — interrompeu Andrew, puxando o ar, surpreso. — Nunca esperei isso de você.

—Também não foi...

—Está vendo, querida? — Andrew voltou-se para sua filha, dando de ombros em desculpa. — Eu tentei, mas você sempre é a culpada.

—Hunf — bufou Julie. Ela não podia negar que seu pai havia tentado, mas... — Você não tentou bem o suficiente, tente de novo.

—O que aconteceu? — questionou Andrew finalmente, perdendo o sorriso e a encarando sério.

—Um garoto me disse que eu sou gostosa.

Andrew a olhou horrorizado. Ele não podia acreditar. Deveria ser algum tipo de brincadeira, pensou, ou uma mentira, mas todos olhavam inexpressivos, exceto por Luke que parecia irritado.

—O que você fez? — questionou Andrew, pigarreando.

—Eu disse que não sou um pedaço de carne para ser gostosa. Ou uma fatia de bolo. Eu sou uma pessoa e sou linda. Ele riu de mim. Riu! — Julie soou chocada, surpresa e acima de tudo enojada. — Acredita?

—Quem é o próximo? — perguntou Andrew, porque um)Seus outros dois filhos não estariam ali se não tivessem feito alguma coisa e dois)Eles com certeza teriam feito alguma coisa.

—Eu perguntei se ele era cego — respondeu Calum, encarando suas unhas, envergonhado de mais para olhar para Andrew — porque era óbvio que Julie era linda.

Andrew assentiu, solene. Era uma verdade indiscutível. Era uma verdade absoluta como só verdades absolutas eram — verdades absolutas eram incontestáveis e aquela era. Julie era linda. Sem discussão. Ela tinha o sorriso, a áurea e o coração da mãe, então como não seria?

—Luke?

—Eu o soquei — respondeu seu filho simplesmente.

Andrew sorriu orgulhoso. É, ele havia criado bem seus filhos; ele se sentia em paz quanto a isso.

—Eu não vejo porque fui chamado, parece que tudo já foi resolvido. Vamos, crianças. — Andrew voltou-se para a saída, tentando aproveitar a surpresa.

—Senhor Hemmings! — exclamou o diretor, chocado. Se estivesse perto da porta, Andrew teria batido a cabeça de novo contra ela. — Seu filho bateu em outro aluno apenas porque...

—Hemmings é minha esposa, Paul — sorriu Andrew, sobre seu ombro antes de caminhar de volta para a mesa. — Eu sou Andrew. Apenas Andrew.

—Papai está se sentindo numa fase de James, James Bond — comentou Julie para ninguém em particular.

—É Bond — corrigiu Luke. — James Bond.

—Não, não é — discordou Calum em um murmúrio.

—E eu só aceito "apenas" nesse caso — continuou Andrew — porque Luke parecia ter tido um bom motivo para bater nesse garoto.

—Nós não toleramos agressão nessa escola, senhor Hemmings — disse o diretor, sarcasticamente no Hemmings

Andrew estava decepcionado. Humanos que não aprendiam com os erros eram os piores humanos que ele conhecia — Andrew odiava esses tipos de humanos.

—Então cadê o garoto que chamou minha filha de gostosa? — questionou, batendo ambas as mãos na mesa enquanto inclinava-se sobre ela. — Quais serão as punições para ele? Não acho que ser socado pelo meu filho apenas — E repetiu mais uma vez para ter certeza que estava sendo entendido: — Apenas. Serve.

—Ele... ..

—Minha filha respondeu educadamente como foi ensinada, ela não é um pedaço de carne e ela é uma pessoa e ela é linda.

—A parte da fatia de bolo foi minha idéia — interrompeu Julie, levantando a mão. — Eu não acho carne gostosa, mas mamãe disse que era para responder assim.

—Sim, e você não é uma fatia de bolo — concordou sem desviar os olhos do diretor. — Quando ele riu dela, Calum...

—Calum? — ecoou Paul.

Andrew o ignorou e continuou:

—Calum a defendeu. Menos educado, mas ainda sim educado. Contudo esse garoto continuou. Então Luke interrompeu. Ele defendeu a irmã. Ele defendeu o que acreditava. E estou orgulhoso.

Andrew sabia o quanto seu filho era contra agressão, o quanto aquilo não fazia parte dele, e proteger quem amava passando por cima de si mesmo... Era a maior prova de amor que Andrew conhecia.

—Tudo foi apenas uma brincadeira, Andrew. Não tem para que exageramos. — disse o diretor, tentando sorrir e amenizar a situação. — Você sabe como os garotos são, você já deve ter feito algo assim quando era pequeno, implicando com as garotas que gostava...

—Não — interrompeu Andrew. — Eu não fiz. Eu não fiz nada disso com as garotas ou os garotos que gostei...

—Você gosta de garotos? — questionou Julie, curiosa, verbalizando a surpresa de Calum.

—Não — sorriu Andrew de canto para ela, passando os olhos por Calum e piscando para ele, vendo a surpresa em seus olhos — Você nunca me ouviu dizendo isso. Eu só gostei da sua mãe.

—A questão, Sr. Hemmings — continuou o diretor com um sorriso tenso — é que...

—Você está dizendo que minha filha tinha que ser induzida a algo que não queria?

—Não...

—Ou que meu filho não deve proteger a irmã?

—Não...

—E Calum não devia... O que foi que você fez? — provocou Andrew até que a situação o atingiu. Por que... por que ele estava ali? Calum havia respondido, apenas falado, falado educadamente, então por que ele estava ali? — O que Calum está fazendo aqui? — questionou, voltando-se para o diretor.

—Callie está aqui porque...

—Ah, sim — suspirou Andrew, desanimado. — Vocês podem esperar lá fora, crianças — disse, enxotando sua filha da cadeira para se sentar. — De preferências sentados, porque isso vai demorar. Vocês já comeram? — Andrew puxou sua carteira para fora. — Peguem, vão comer alguma coisa e tragam um copo de café com açúcar, muito açúcar, tanto açúcar quanto Julie poderia comer...

—Você pode colocar seus filhos para fora, Andrew, mas...

—Andrew? — repetiu o próprio. — Já chegamos ao primeiro nome?

—Vou dizer a mamãe! — gritou Julie, batendo a porta sem discutir sobre estar sendo expulsa.

Fosse por ter dinheiro e poder comprar o que quisesse ou por ter percebido que a conversa seria algo que Calum não deveria ouvir... fosse pelo que fosse, Andrew não poderia estar mais grato.

—Mas Callie está aqui por uma questão diferente da briga — continuou Paul. — Como você disse ela não se envolveu...

—Ele não se envolveu — corrigiu Andrew. — Diferente do garoto que chamou minha filha de gostosa e não está aqui.

—Mas não toleramos mentiras — completou o diretor.

—Certo — concordou Andrew. — Eu também não, e daí?

—Eu não deveria falar isso com você, porque você não é o pai, mas como você parece estar compactuando com isso de chamá-la de Calum e tratando-a como se fosse um garoto...

—É, você não deveria falar isso comigo — concordou. — Isso é... Melhor ainda — Andrew levantou-se, subitamente animado. — Gostaria de falar sobre a transferência dos meus filhos. E, caso não tenha percebido, estou me referindo a Calum também.

—Isso não é...

—Sim, sim — Andrew revirou os olhos. — Você pode ligar para Kora e confirmar isso com ela, porque eu — ele sorriu — não tolero esse seu comportamento. E faça-me o favor e ligue para Liz. — Andrew sentiu seu melhor sorriso, o sorriso ameaçador e afiado que era de família, aparecer, e completou com um ronronar: — Você vai adorar falar com ela.

Oh, sim, Andrew podia dizer que sua esposa também iria amar — graças a Deus, aquilo era algo que Liz aprovaria e se orgulharia e ele não precisaria mentir, porque ela sempre conseguia enxergar a verdade através dele e Andrew odiava esconder as coisas dela. Ou a culpa que parecia consumi-lo, que tinha vida própria.

Notas finais
Eu adoro o Andrew. Esses capítulos dele... Aí, aí, aí, é uma pena que ele vai morrer daqui a pouco.