atraente

CALUM, 13 ANOS. LUKE, 13 ANOS.

Luke soube que a amizade de Julie com Ashton era séria, muito mais do que uma substituição, quando ela o obrigou a participar do seu RPG Live Action — aquilo era praticamente seu segredo mais bem conhecido, todos sabiam o quanto ela era fanática por ser não apenas uma fada, mas a Rainha Fada, a primeira e única e... e Julie não queria qualquer um ao seu lado para ser ordenado, sua irmã tinha um certo nível (e gostava que a contrariassem).

—Quem é esse? — cumprimentou Marcus, franzindo a testa ao ver o... sujeito normal, humano, entediante.

—Esse? — questionou Julie, com um gesto de desprezo. — Esse... Esse é... é... — Ela não tinha a mínima idéia de quem, do quê, ele era. — O meu humano pessoal! Ele está sobre minhas graças, então sem gracinhas para ele... entenderam? Graças, gracinhas?

—Não, Julie — respondeu Ashton. — Eu não entendi. E não sei se quero. Eu sou o que? O seu escravo sexual?

—Você não sabe se quer? — retrucou Julie, sorrindo ao ronronar. — Eu pensei que você fosse querer, que fosse tudo que você sempre quis.

—Eu estou indo procurar Calum — falou Luke, mais alto do que a conversa que não queria ouvir.

Eles se mereciam, pensou dando passos longos para longe. Luke não tinha dúvidas quanto a isso, assim como não tinha que talvez (talvez) até sentisse empatia pelo triste fim de Ashton se apaixonar por Julie, se sua irmãzinha não fosse ainda um bebê e aquilo fosse pedofilia, porque o que tinha na Julie? Ela era tão... blerg! Ela tinha uma péssima personalidade, embora fosse uma ótima (nem tanto) pessoa.

Oh, mas garotos dessa idade não queriam saber de personalidade, eles estavam mais preocupados com a aparência (Luke sabia bem disso) e sua irmã era blerg.

De um ponto de vista completamente não fraternal, Julie não tinha curvas, não tinha seios (Luke sentia sua mente dando pane só de imaginar) e... só pernas, sua irmã tinha pernas que não acabava mais, todavia quem se importava com pernas?

Luke conseguia pensar em muitas coisas mais interessantes, como as marcas ao redor dos olhos quando eles sorriam, a imperfeição de um nariz levemente torto, pequenas marcas de sardas ao redor do nariz, sinais em locais estratégicos, que seus lábios podiam deslizar, como na base do pescoço, no canto do olho esquerdo... lábios franzidos de irritação quando algo não acontecia como queria, ou quando eles tentavam ficar inclinados para baixo, mas teimavam em subir, e os olhos brilhavam de diversão.

Culpe-o, Luke achava isso atraente. Havia algo de atrativo em conhecer uma pessoa profundamente.

Mas não era isso que acontecia.

Calum estava franzindo os lábios de irritação e não era uma irritação fingida. Os olhos dele vagavam, querendo estar em qualquer lugar menos ali, e antes que percebesse Luke caminhava na direção deles.

Do seu amigo desesperado.

E do cara que dava em cima dele.

Sério que aquele garoto não via o quanto Calum estava desconfortável com aquela aproximidade? Luke conseguia sentir de longe.

—Calum — cantarolou, sorrindo tão docemente que poderia ter dado diabetes a sua irmã viciada em doces, mas quando viu a suavidade tomando conta dos olhos de seu amigo, seu sorriso tornou-se verdadeiro e não enjoativo, porque aquele era o seu Calum que...

Oh-oh-oh, Luke parou, tropeçando nos própria pés e arregalando os olhos. Seu? Seu? Ele tinha realmente pensando em Calum como seu? Bem, sim, claro, Calum era seu amigo, e depois de um tempo o período de devolução vencia e a amizade virava uma posse e você começava a pensar no quanto achava algumas características dela atraente. Luke conseguia pensar em muitas da sua irmã. E nem uma era tão...

Seu.

Calum.

—Luke? — sorriu Calum, ansioso, quando ele não continuou. — Luke? — repetiu, um pouco desesperado, porque não, não, não não não....

Calum não sabia o que estava acontecendo na cabeça de Luke e nem precisava (mas queria) enquanto o seu amigo o retirasse dali, de perto daquele garoto que não conhecia limites e não sabia que a distância mínima de uma pessoa para outra era o comprimento de um braço — Calum ficaria surpreso se a distância que os separava fosse de um dedo mindinho.

E...

Sim, ele queria que um garoto desse em cima dele, era algo que todos queriam, era... Calum queria se sentir bem, desejável, mas tudo o que não sentia naquele momento era bem.

Calum sentia-se paralisado e não paralisado de um jeito deslumbrado, admirando algo que era atraente — sua paralisação devia-se mais ao fato de estar aterrorizado e não saber como fugir. Era lutar ou correr e... e ele não conseguia fazer nada disso, porque o garoto estava próximo de si.

Realmente próximo.

Próximo do tipo Calum sentia seu coração batendo de um jeito que não era agradável, apenas dolorido, suas pernas pesadas, como se fossem de concreto, e lágrimas nos cantos dos olhos, querendo sair, porque eles estavam próximos.

Calum não estava acostumado a estar tão próximo de alguém se o alguém não fosse Julie ou Luke ou Liz (ou às vezes sua mãe Kora ou recentemente Michael e Ashton), e ele não sentia-se desse jeito com ninguém — todos também conheciam o limite de aproximação e o conheciam e o amavam e... E ele os queria próximos.

Calum não queria aquele garoto próximo de si.

—E-eu — gaguejou Luke e Calum pensou em qual era o problema (ele que estava encurralado!) — E-eu já volto...

—Querido.

Calum forçou as palavras para fora da sua boca, assim como seus pés, e andou até seu amigo, rígido e consciente dos olhos sobre eles, e tentou... natural, ser natural. Como se chamasse Luke sempre de querido e colocasse as mãos sobre os ombros dele, para poder levantar-se e beijá-lo nos lábios toda hora, toda vez que o via, toda momento que queria — Calum desejava que isso fosse verdade.

Calum desejava que o fato dos seus lábios encontrar os de Luke fosse algo normal, algo que sempre fizeram, algo que não causasse aquele sentimento desconfortável e agradável ao mesmo tempo, algo que fosse apenas agradável porque estava acostumado.

—Precisamos nos encontrar com nossa rainha? — perguntou, apertando com força seus ombros, tentando acordar Luke e se acordar.

Acorde, acorde, acorde.

Aceite a realidade.

Não o beije novamente.

Não se esqueça de como foi.

—Hã? — Luke piscou, perdido. — Sim. — Ele assentiu, devagar.

—O jogo vai começar daqui a pouco e Julie precisa dizer a estratégia? — sugeriu Calum, meio desesperado para estar longe dali e... longe de Luke.

Luke balançou novamente a cabeça, lentamente, ainda...

Oh, cara, os lábios do seu (seu) amigo eram... Ele forçou-se a desviar os olhos deles, porque eles eram atraentes e há pouco tempo estavam sobre os seus e eram suaves — e eles tinham se beijado.

Não era a primeira vez que beijava Calum, mas Luke sentiu que sim. Luke sentiu a mesma ansiedade e nervosismo e redemoinho no seu estômago e...

Seus lábios queimavam, seus dedos queria tocá-los e seu sangue parecia cantar.

Calum, Calum, Calum.

Calum.

Calum.

Seu Calum.

—Vamos?

Luke deixou que ele o guiasse.

E fugiu na primeira oportunidade.