Notas iniciais
Olá, olá, olá, parece que uma eternidade se passou desde a última vez que postei.

saudade

CALUM, 12 ANOS.

Nunca – nunca – Calum havia ficado sozinho com Julie, porque... nunca houve oportunidade. Quando eram pequenos, ela sempre estava com Malia ou com Luke e ele sempre com sua irmã ou com Luke. Nunca houve Calum & Julie, Julie & Calum. Em todos os seus oito anos de amizade (provavelmente), Calum e Julie nunca estiveram sozinhos, apenas eles, e... e não era estranho, como Calum pensou que seria.

Era simples, era fácil – era como sempre.

Ao mesmo tempo que não.

Calum não era cego para dizer que era como sempre, porque havia algo diferente entre eles quando Luke não estava presente, não tinha como não perceber.

Julie era menos irritante, menos imprudente (provavelmente?) e mais certa do juízo do que ela queira ser ou Luke admitir. Ela sabe pensar antes de agir? Oh, sim, ela com certeza sabe, ela apenas não quer.

E então havia Calum e... hum, Calum gostava de estar sozinho com Julie, era tão bom aquela confiança que só sua amiga tinha e ele sentia que estava sendo compartilhada entre eles, aquela certeza de estar certo e certo e nunca errado.

Era bom estar sozinho com Julie.

—Ter-ra pa-ra Ca-lum — comunicou Julie em sua voz de robô. – Ter-ra pa-ra Ca-lum. Pre-ci-sa-mos de vo-cê. De vol-ta. A-goo-ra. – E começou a ecoar: — Agoora, agoora, agoora.

—Oi – disse Calum, piscando de volta a sua realidade, ao fato de estar sozinho com Julie e daquele momento não ser tão bom assim. – Pare de me bater, Julie.

Estar com Julie era bom? Sim. Estar com Julie naquele momento, naquele local? Não – ou como ela costumava dizer "nop". Por que raios Andrew achou que seria uma boa idéia inscrevê-los numa classe de defesa pessoal? Julie não precisava de algo desse tipo, Calum não queria precisar de algo desse tipo.

—O que? – Julie recuou, levantando os punhos em luvas azuis. – Pensei que esse fosse o objetivo: bater em alguém sem ser discriminado ou visto como bullying.

—Não, isso é defesa pessoal e não um ringue.

—Eu tenho que discordar, porque isso – Julie indicou o arredor deles – é um ringue.

—Não seja tão literal.

—Não me faça ser tão literal – retrucou sua amiga. – Agora, vamos, melhore seu jogo de pés.

—Eu não sei do que... – começou Calum.

—Você está sendo tão óbvio, indo para lá e para cá, como se você e Luke estivessem dançando e não soubessem o que fazer a seguir. Cadê a surpresa? Cadê o sentimento de “o que Calum fará”? Você precisa me surpreender, Calum! Ter um objetivo! Um plano! Alguma coisa, qualquer....

Calum tentou socá-la, pensando se teria sorte e a surpreenderia, mas, embora seu punho em uma luva cor de rosa (os instrutores haviam pegados luvas rosas para Julie e azul para Calum e Julie se recusou a usar rosa) houvesse parado alguns centímetros do nariz de sua amiga, ela não recuou.

Julie não recuou, não piscou, apenas sorriu orgulhosa e lhe deu um soco na barriga.

—Isso era para ser defesa pessoal – murmurou Calum, ofegante. – Não soque seu melhor amigo até que ele vomite seu café da manhã.

—Hum, você disse algo? – Ela se inclinou para o lado, colocando a mão no ouvido e sorrindo zombateira. – Eu não te ouvi. Sua áurea de perdedor está interferindo no sinal, é uma camada tããão densa que o som não passa.

—É sua própria alma de perdedora – mentiu Calum da forma mais infantil que conseguiu.

—Isso foi péssimo – disse Julie, parando e olhando-o incrédula. – Até eu reconheço isso.

—É verdade – gemeu Calum.

—Eu não esperava isso de você.

—Mentira – retrucou ele.

—Verdade. Vamos melhorar isso enquanto Luke não está e então bum! – Julie fez uma explosão, jogando ambas as mãos em frente ao rosto de Calum, assustando-o e fazendo-o cair no chão. – Vamos melhorar seu jogo de pés também – murmurou ela para si mesma, oferecendo seu punho, que Calum enganchou com o próprio e puxou-se para cima. – Agora vamos, bro – cantarolou Julie, puxando-o para um abraço sem perder tempo, batendo em suas costas uma vez antes de soltá-lo, num típico abraço de humanos da caverna. – Arg – rosnou ela, mostrando os dentes, meio rindo.

Calum suspirou. Ele queria que Luke estivesse aqui; ele preferiria a Julie-com-Luke-presente...

Oh, certo, quem Calum queria enganar? Ele sentia saudades de Luke, mas não era o fim do mundo (Julie não ser uma fada seria). E era ótimo não precisar ficar fingindo que tratava Julie como se ela fosse uma boneca de porcelana, como se fosse quebrar a qualquer instante, ser levada pelo vento a qualquer momento, como se garotas fossem frágeis e delicadas e Julie a mais frágil e delicada de todas.

Calum esperava um dia ser tão fraco quanto ela – ele estaria honrado.