preocupação

CALUM, 13 ANOS.

Fazia tempo que Calum não se sentia assim, preocupado, olhando para o relógio a cada poucos segundos, porque... Cadê Andrew? Sim, ele se atrasava, mas sempre chegava, nunca houve uma vez que Andrew atrasou-se mais de uma hora – Calum havia vindo preparado para esperá-lo, com comida e um celular com bateria carregada totalmente e jogos diversos, e ele também podia praticar (não que fosse), mas Andrew sempre avisava que iria chegar mais tarde, ele ligava, ele dizia qual era o problema.

Andrew atrasava, mas nunca tinha esquecido-o.

Calum estava preocupado.

Se fosse Julie, então sim, ele teria sido esquecido. Mas era Andrew e Andrew não o esqueceria.

Calum pegou o celular novamente, olhando-o mais uma vez, vendo que agora o atraso subia para uma hora e dez minutos, e suspirou ao ligar para Liz, aceitando sua derrota.

—Calum? Algum problema?

—Andrew não... – Parecia que ele estava dedurando alguém, pensou Calum, ou confessando um pecado terrível. – Andrew ainda não chegou.

—Hum... – Liz parou, pensando, e Calum podia dizer que ela estava calculando o tempo de atraso.

—É – disse antes que ela terminasse. – Ele está atrasado. Atrasado até para ele.

—Vai ficar escuro daqui a pouco – refletiu Liz. – Ainda tem gente aí? Tem como você pegar uma carona...

—Todos já foram – interrompeu Calum. – E eu não conheço ninguém para pegar caronas, Liz, e você sempre diz...

—Não aceite caronas de estranhos – completou ela num murmúrio. – Certo. Quanto tempo até sua bateria morrer? – perguntou Liz, objetiva como sempre.

Era por isso que Calum a amava. Nada de "não posso pegar você" ou "estou ocupada" ou "me espere, um dia eu chego, quando desocupar eu vou". Ele não tinha como ir para casa, iria ficar escuro e ela iria pegá-lo, Liz deixaria o que quer que estivesse fazendo para ir buscá-lo – Calum conseguia ouvi-la jogando tudo que precisava dentro da bolsa e saindo desesperada, Calum conseguia imaginá-la saindo da sua sala de aula, na escola que trabalhava, com uma pasta cheia de atividades para corrigir, talvez perdendo algumas no caminho e voltando desastrada para recuperá-las.

Calum a amava, não tinha como não fazer. E sorriu sem querer ao ouvi-la praguejando, tão baixinho que quase passou despercebido pelos seus ouvidos por causa do tintilar das chaves dentro da bolsa – Liz devia estar procurando a chave do carro.

—Eu chego aí daqui a uns quinze minutos – disse ela, batendo a porta do carro, finalmente conseguindo encontrar a certa. – Não utilize o celular até eu chegar, eu posso querer te ligar e ele vai estar desligado e eu posso pensar que você foi sequestrado. Um garoto lindo sozinho numa escola abandonada?

—Parece o começo de um filme de terror – respondeu Calum. E completou rapidamente: – Não que eu assista. Filmes. De terror.

—Hã, sei, acredito.

Calum não acreditava nem um pouco nela acreditando nele.

—Andrew... – começou ele.

—Se eu ligar e você ligar, ninguém vai conseguir falar com ele, então eu vou ligar para Andrew no caminho. Não se preocupe. Julie deve tê-lo deixado sem juízo – disse Liz, não convencida.

Julie ter tirado o juízo de alguém? Sim. De Andrew? Pouco provável.

Algo estava errado.

E Calum não precisava saber disso.

Mas Calum sentia, assim como Liz – e, colocar as palavras para fora, dizer o que pensava, era o pior que se poderia fazer naquele momento: era tornar real aquele medo, era sair do escuro e ir para a luz e ter medo do que ela podia revelar.

(Mas, por um momento, por apenas um momento, Calum queria ficar no escuro, sem saber o que acontecia, porque se preocupar por algo sem sentido era melhor do que ter razão.)