Pedaços Transformados
17 Pesadelo
Notas iniciais
pesadelo
CALUM, 9 ANOS. MALIA, 9 ANOS.
Um corpo quente estava próximo ao seu e Malia aproximou-se dele, ronronando feito um gatinho, feliz por tudo ter sido apenas um pesadelo e estar no seu quarto, dividindo a cama com o seu irmãozinho. Embora várias coisas dissessem que existiam algo de errado, ela ignorou. Qual foi a última vez que seu irmão esteve tão próximo assim?
Espere.
Malia franziu a testa, pensando sobre essa pergunta e a resposta era nunca. Calum não ficava próximo dela enquanto dormia porque ela não deixava, ela chutava tanto ao dormir que ou ele dormia encostado na parede ou acordava deitado no chão, mas...
Seu corpo estava completamente dolorido que, só de pensar em chutar Calum, Malia sentia que era quem estava sendo chutada. E o frio era tão forte que ela sentia que seus ossos quebrariam ao menor impacto. É, aquilo não havia sido um pesadelo.
Contudo Malia ainda estava com sono e queria dormir.
E não conseguiria enquanto Calum estivesse tão perto.
Agora que estava acordada, consciente – ou quase que – Malia não conseguiria dormir com alguém próxima a si, encolhida daquele jeito, completamente dentro do seu próprio espaço. Ela não gostava disso! Malia queria estar... livre, sem amarras, sem alguém (nem mesmo seu irmão) dentro seu espaço. Ela gostava de estar no espaço dos outros, mas só de pensar em alguém no seu, só de ter a certeza que seu irmão estava no seu agora, Malia sentia que acordou num pesadelo.
—Mova-se – murmurou ela, cutucando-o. Calum reclamou, mas não se mexeu. – Mova-se – tentou novamente, mais insistente, com mais força. – Mova-se. – Malia o empurrou.
—Ahn? O que? O que? O que... – Calum franziu a testa, olhando para o teto do quarto antes que sua irmã aparecesse no seu campo de visão, os cabelos dela fazendo cócegas no seu rosto. – Aconteceu?
—Você caiu – afirmou Malia, sabiamente.
—Cai?
Calum mordeu o lábio, não sabendo se chorava (novamente) ou ria (pela primeira vez) – de alivio, cansaço e indignação. Malia achava que ele iria cair nessa? Não era porque ele havia caído literalmente que cairia no sentido figurado.
—Você caiu – repetiu ela, balançando a cabeça novamente.
—Você não me empurrou? – questionou, cuspindo o cabelo sabor chocolate da boca.
—Por que eu faria isso? – questionou Malia, olhando-o muito ofendida para ser verdade.
—Você é uma péssima mentirosa – disse Calum, suspirando.
—Não me culpe por tentar – disse ela, piscando os olhos inocentes inexistentes. – Então...
—Então...
Calum não queria falar. Bem, ele queria, mas não queria. E se começasse e não soubesse mais como parar? E se parecesse um idiota que só pensa em si mesmo, que não sabia o que fazer sem sua irmã, como se o ponto principal fosse ele e não sua irmã? Calum não queria falar.
E se ele dissesse algo errado?
Olhando para Malia, ciente porque ela havia empurrando-o, entendendo a sensação de tudo ser demais, de muito – muito próximo, muito calor, muito pessoal – a realização bateu em Calum. E se ele não dissesse nada? Esse seria o pior cenário.
Pensar em sua irmã pensando que ele não se preocupava – embora soubesse que era improvável – era a pior coisa que poderia acontecer; Malia sabia que isso nunca iria acontecer, que ele estava preocupado, tão preocupado com ela, mais preocupado do que estaria com qualquer outra pessoa, contudo...
Calum também sabia sobre ter pensamentos que não queria, pensamentos que estavam lá, que não era reais, mas que não conseguiam sair, que ficavam voltando e voltando, e sabia como seria bom ter a certeza que eles não eram reais, de ter alguém dizendo que eles não eram mais.
—Eu estava preocupado – confessou Calum.
—Eu sei – disse Malia, sorrindo tristemente para ele antes de dar um sorriso brilhante. Ofuscante. Completamente falso. – Mas agora eu estou bem. Maravilhosamente bem. Estupidamente bem. Es-ton-te-ante-mente – silabou ela devagar para não errar – bem.
—Você é uma péssima mentirosa – repetiu Calum.
—Você é pior.
—Não sou! – retrucou Calum, sentando-se no chão duro, indignado.
—Oh, sim – zombou sua irmã, inclinando-se até que estivessem bem perto. – Diga uma vez que você mentiu e eu não descobri?
—Quando eu estava fingindo ser uma menina...
—Não vale! – retrucou Malia. – Não é uma mentira se você não sabe que é uma mentira!
—Quando eu...
—Não conta! Você não sabia que...
—O que está acontecendo aqui? – interrompeu Andrew, entrando no quarto. – Consigo ouvir vocês gritando do corredor.
—Estamos num hospital – anunciou Kora atrás dele. – Se comportem.
—Mamãe! – exclamou Malia, surpresa por... Hum, ela realmente não sabia.
Ver sua mãe era uma surpresa por si só, embora, por causa de tudo que havia acontecido, não devesse – não era como se Kora Hood fosse ignorar a filha no hospital, ela apenas... não era... presente. Kora estava em casa todo dia, sendo “A Dona da Casa”, mas nunca foi do tipo presente, presente, “como foi seu dia?”.
—Mamãe... – balbuciou Calum, hesitante. Sobre o que Andrew e ela conversaram? Cadê o pai deles? Por que sua mãe ficava olhando-o pelo canto do olho, como se fosse ele deitado na cama e não Malia?
—Filhos – cantarolou ela.
Calum franziu a testa, olhando de sua mãe para Malia e para Andrew e para qualquer outra pessoa que estivesse ali que não estava, querendo saber se alguém tinha percebido o que aconteceu ou se ele estava apenas... Imaginando? Sonhando? Porque aquela... aquela não era sua mãe.
Sua mãe era – por falta de uma palavra melhor... Calum achava mais fácil dizer o que ela não era e Kora não era uma mãe do tipo alegre e divertida, ela era mais do tipo repreensora e reclusa, não de brincar e cantarolar e ficar olhando de segundo e segundo para ele.
Calum não gostava dela olhando-o de segundo e segundo, de estar sendo observado.
—O que aconteceu? – questionou. – Qual o problema?
—Encontramos um... – Andrew pareceu pensar na palavra certa. – Uma mutação nos seus genes, Malia.
—O que isso significa? – questionaram Malia e Calum. Eles não eram exatamente e nem nada parecido com nerd. Estavam falando de X-Men?
—Você nasceu com uma inclinação a ter uma multiplicação exagerada das suas células.
—E isso não é bom, é? – interrompeu Calum.
—Calum – repreendeu sua mãe, apertando os lábios em desaprovação. – Não interrompa.
—Não é – respondeu Andrew. – Mas tudo vai ficar bem, Malia.
—Eu vou poder ir para casa?
—Assim que fizemos alguns exames, passarmos alguns remédios, você sabe. – Ele deu de ombros antes de confessar: – A coisa chata de sempre.
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