perdição

setembro, uma semana e um dia depois

Os lábios de Calum eram doces, suaves, viciantes, e, a essa altura do campeonato, Luke sabia que seriam sua perdição — não que se importasse, ele estava muito além do ponto de retorno.

Luke suspirou quando a mão de Calum vagava suas costas, passava por sua barriga, subia por seu tórax, contornava seu pescoço... apertava seus cabelos — ele cravou os dedos com força na cintura de Calum, impedindo-os que se afastassem e que suas mãos vagassem tanto quanto as dele.

Luke não sabia em que lugar eles estavam no grande e variado jogo dos relacionamentos (existia uma variedade surpreendente, só perdia para os diferentes tipos de sexualidade, na opinião de Luke), mas ele não queria que Calum senti-se desconfortável e se afastasse — ele queria ficar assim mais um pouco, um pouco mais.

Luke queria conhecer todos os cantos da boca de Calum e ouvir todos os sons que ele poderia fazer, senti-lo dobrar-se e curvar-se e estar confortável com si, enquanto as mãos de Calum conhecia-o completamente.

—Você pode mover as mãos — murmurou Calum contra seus lábios.

—E você pode tirar o blinder — disse Luke, inconscientemente, seus lábios perseguindo os dele... E então se afastando corado assim que percebeu o que disse.

Calum tinha os olhos arregalados, os lábios e as bochechas vermelhas e... e Luke não sabia se devia sentir-se envergonhado pelo que disse ou orgulhoso por deixá-lo daquele jeito

—Você... — balbuciou Calum. O que você... — Ele piscou, atordoado. — Está dizendo?

—Não é como se eu quisesse ver você sem blusa! Ou não quisesse! — completou Luke rapidamente. — É que você ficaria mais confortável sem! É só isso! Eu não estou pensando em nada pervertido, eu juro!

Calum riu, os olhos ficando ternos e as bochechas mais vermelhas ainda, sorrindo satisfeito ao ver Luke perdido, porque adorava tudo aquilo. Ele gostava quando Luke estava todo embolado e as palavras saiam atropeladas e atropelando umas às outras. E ele gostava de vê-lo envergonhado, de ser o motivo para isso.

—Está tudo bem, Luke. Eu entendi. Sem blusa — disse, sério.

—Blinder! — corrigiu Luke, envergonhado.

—Por que? Você não quer me ver sem blusa? — provocou Calum, pegando a mão dele e pegando com a mão dele a ponta da sua blusa, levantando uma sobrancelha enquanto puxava-a para cima devagar.

—Eu com certeza quero — respondeu Julie. — Por favor, não parem por mim, continuem.

—Ahn, Julie? — Luke levantou os olhos para sua irmã que acenou para ele.

—Luke — disse ele no mesmo tom. E depois de uma pausa completou: — Calum.

—O que você está fazendo aqui? — chiou Luke.

—Claro — concordou Julie. — A dúvida é o que eu estou fazendo aqui. O que eu estou fazendo aqui? — repetiu ela a pergunta. — Eu não sei. Que tal "era isso que você não estava me contando, Luke?"

Calum levantou uma sobrancelha para Luke, como se ele mesmo não soubesse que agora era um bom momento para ser empurrado — mas, fora ter puxado a blusa para baixo, Calum estava orgulhoso de como Luke manteve-se firme. E de como as mãos dele voltaram para sua cintura, apertando a blusa contra sua pele, impedindo-a que ela subisse... que ele se afastasse.

—Eu e Calum, nós estamos... — Luke olhou para ele em dúvida.

—Não namorando — provocou Calum com um sorriso.

Luke o empurrou, revirando os olhos e murmurando "saia de perto de mim".

—Porque é isso que não namorados fazem — observou Julie.

—Você sabe muito sobre isso, não é, Julie? — questionou Calum. — Pelos seus momentos ante-namoro e presente pegação com Ashton?

Julie sorriu petulante.

—Eu não sei do que você está falando.

—Ah, é? Você não se lembra de como peguei vocês no meio do corredor da pizzaria num ataque de ciúmes?

—Vocês estão fugindo do assunto — interrompeu Luke. — Concentrem-se.

—Desculpe — murmuraram.

—Bom. Então. Julie?

—Luke?

—Acho que devemos, hum — murmurou ele — conversar, né?

—Não vejo porquê — respondeu ela.

—Você não...

—Eu não esperava por isso — disse sua irmã, dando de ombros — mas não estou surpresa

—E raiva? — questionou Luke.

—Raiva? — repetiu ela, olhando-o como se ele fosse um idiota.

Luke sentia-se como um.

Aquele momento era como A caminhada da vergonha, como se ele fosse uma garota e tivesse sido pego fazendo o que não devia, embora Luke soubesse que sua irmã caminharia com dignidade e como se tivesse certa... E ele realmente não queria pensar nisso.

A caminhada da vergonha e Julie não deveriam estar nem na mesma frase, não porque eram incompatíveis (embora fossem), mas porque para fazer A caminhada outra coisa era necessária e Luke não queria pensar nisso.

A questão era que Luke fazia a sua caminhada da vergonha, pois foi pego fazendo o que não devia e ele estava constrangido, não porque foi com um garoto, mas porque:

1-ele foi pego por Julie, sua irmã;

2-ele nunca tinha sido pego antes (Luke era um bom exemplo para Julie e que tipo de exemplo dava agora?);

3-Calum era seu amigo... Ops, Calum era seu amigo de infância e agora, talvez, algo mais? E ele era o primeiro a ser algo mais mais, mais do que amigo, mais do que ficante-namorado e Julie perceberia isso, por isso ela era a principal razão das três. De tantas pessoas, por que logo Julie? Por que logo sua irmã que perceberia o quanto ele gostava gostava, realmente gostava, de Calum? Saber que ela saberia isso era o bastante para deixá-lo envergonhado. Nenhum garoto deveria ficar tão indefeso frente a sua irmã gêmea e caçula!

—Luke – chamou Julie. – Alôóó, preste atenção.

—Você não está com raiva por eu não ter te contado? – perguntou ele. Embora pudesse usar o fato dela ser a primeira a saber. Isso sempre funcionava.

Julie revirou os olhos para Calum, não acreditando, por que desde quando ela era essa idiota de marca maior?

Calum revirou os olhos teatralmente para ela, por que desde quando ela não era?

—Eu seria uma hipócrita – começou Julie, devagar para não ser mal interpretada — se tivesse raiva de você enquanto eu mesma não te contei quando comecei a me agarrar com Ashton

—Eu e Calum... Ele e eu, nós não... Você não quer saber — concluiu Luke por fim.

—Eu seria uma mentirosa se dissesse que eu não quero saber — confessou Julie, radiante. — Eu quero todos os detalhes. To-dos. Mas eu vou sair, só vim para deixar a bolsa — disse Julie, levantando ela — porque Ashton vai me levar para sair e se ele me ver com ela vai querer que eu pague. E ele está me devendo um encontro...

—Eu não vi você sair com a bolsa — disse Calum.

—Ashton pegou-a quando eu não estava vendo. — Julie revirou os olhos. — Aquele bastardo. Querendo me fazer pagar.

—Você não disse que iria sair com Ashton hoje — disse Luke, não que estivesse incomodado. Pela primeira vez na sua vida (não realmente), Luke queira que ela desaparecesse da sua frente, mesmo que para isso saísse com Ashton.

—Você não disse que estava com calum — replicou Julie.

Luke piscou.

—Você mesma disse que...

—Eu sou eu, Luke — disse Julie, firme — e você é você. Eu não vou deixar isso para lá, assim como você não vai conseguir.

—Huh — disse Luke sabiamente. Esse era ele e sua irmã o conhecia bem demais, melhor do que seria saudável para sua saúde.

—Eu não sei sobre você, Calum.- continuou ele.

—Eu não fiz nada — explicou Calum.

—O que? — disse Luke.

—É verdade — concordou Julie.

—O que? — repetiu Luke.

—O que? — Calum e Julie olharam-no.

Luke balançou a cabeça. E balançou novamente. Tinha vezes que Luke não entendia sua irmã, embora soubesse que havia, que deveria haver, alguma lógica no pensamento dela.

—Oh, venha aqui. — Julie abriu os braços e correu para Calum. — Ele não se aproveitou de você, aproveitou, querido? Ele não te fez fazer nada que você não queria, certo?

—Saia, Julie — resmungou Luke.

—É, Julie — concordou Ashton, da porta. — Saia logo antes que eu desista da minha garota sábia.

—Hum? — Calum olhou para Julie em dúvida. — É tipo garota mágica? Mahō shōjo?

—Não, é tipo "eu espero que vocês não mintam para mim depois". E que eu vou ser a madrinha de casamento! Owwnnttt — murmurou Julie. — Você está vermelho, Luke? Ele não é fofo, Calum? Você não shippa, Ash? — provocou ela.

Ashton revirou os olhos, com uma certa empatia alheia e um sentimento de prazer em conflito — era tão confuso. E bom ver que não era o único a sofrer na mão sádica de Julie.

A empatia ganhou.

—Vamos embora, Julie.

—O que? Não, não, não, não... — Julie recuou, mostrando as palmas da mãos. E exclamou: — Eu tenho pernas e sei usá-las!

—Ótimo — elogiou Ashton. — Agora vamos. — Ele apontou para a porta com um aceno da cabeça. — Saia.

—Urg. Isso não acabou! — gritou Julie, abrindo a porta e batendo-a ao passar. — E não demore, Ashton!

Ash revirou os olhos para ele, suavemente.

—Dá para acreditar? — murmurou ele, feliz. — Ela me ama tanto. Ah, e estou feliz por vocês.