Pedaços Transformados

283 Não, você não é


não, você não é

outubro, duas semanas e dois dias

—Mãe — disse Luke.

—Diga – disse ela.

Julie inclinou a cabeça para frente, para ver o rosto do seu irmão, porque sabia que era agora. Era agora e ela sentia-se ansiosa, como se aquele momento fosse o seu (e era) – nem no seu caso ela sentia-se assim, porque aquele era Luke e seria Luke com Calum, suas duas pessoas preferidas juntas, e apesar de conhecer sua mãe e saber que elas eram iguais (por mais que não quisesse), Julie sentia-se nervosa.

Por que e se Liz não aceitasse? E se sua mãe fosse uma daquelas que não se importava desde que não fosse seu filho, sangue do seu sangue, carne da sua sangue, cabelos dos seus cabelos...?

Julie sabia o que seu irmão pensava, ela o conhecia. E ele era um idiota. Quando Luke pensava demais, demorava demais, os pensamentos dele vagavam demais.

—Nada — disse Luke.

Julie suspirou.

—Você conta ou quer que eu faça isso? — perguntou.

Outros deixariam seu irmão falar quando quisesse, apoiariam a decisão dele mesmo sendo idiota. Agora ela... ela bateria nele e depois riria, ela o forçaria a fazer o certo, ela estaria ao seu lado quando ele precisava, mesmo que o contrário não ocorresse.

—Diga — disse ela, suavemente.

—Mas...

—Luke – interrompeu Julie. – Agora – ordenou. – Diga – repetiu.

Ok, ele era um idiota, um idiota e para sempre um idiota. E queria se sacudir, como sonhava em sacudir Julie. Então, sim, ele era um idiota, um idiota tipo máster, nível supremo. E, provavelmente, um idiota sem conserto.

Luke não tinha problemas com isso, sinceramente, ele tinha problemas com o fato da sua irmã achar o mesmo, dele achar que começava a se igualar a ela.

—Mãe. — Luke respirou antes que desmaiasse sem fôlego. — Eu sou gay.

Liz inclinou a cabeça para o lado, como se fizesse uma pergunta silenciosa, olhando-o curiosa e depois para Julie, como se perguntasse se aquilo era verdade, antes de começar a rir desesperada e ficar sem fôlego, soluçando enquanto lágrimas queimavam no canto dos seus olhos.

—Filho. — Ela fez a mesma pausa. — Você não é.

Luke suspirou. Ele sabia que não seria fácil, não porque sua mãe não fosse aceitar ou qualquer outro motivo que os "pais" tinham... Agora.

Era medo e medo não tinha sentido.

Era medo e ele não precisava.

Era medo e ele tinha Julie ao seu lado.

Era medo e sua mãe não era assim — ele sabia, no fundo de si, que não.

—Mãe — recomeçou Luke — eu gosto de garotas.

—Eu sei. – Liz sorriu.

—Eu gosto de garotos — continuou.

—Eu sei. – O sorriso cresceu mais um pouco.

—E eu...

A última confissão era a pior, era difícil colocar as palavras para fora, porque... era verdade. Era verdade e uma vez que ele dissesse não podia pegá-las de volta, mas ele não podia pegar de volta desde que disse a Calum, e ele não queria pegá-las de volta assim que soube que Calum sentia o mesmo. Só que... dizer a sua mãe, dizer a alguém que não fosse sua irmã, sua outra metade, era como dizer ao mundo, era tornar aquilo definitivo e era se abrir para as consequências do "e se eles não dessem certo?" .

E se eles não dessem certo?

—Você gosta de Calum? — sorriu Liz, provocativa. — Eu sei — ronronou ela.

—Então porque você disse que eu não era...

—Idiota seu irmão, não é? — questionou Liz para sua filha.

Julie deu de ombros.

—Seu filho — lembrou.

—Ele puxou a você — disse sua mãe.

—Eu sou mais nova – discordou Julie. — Ele puxou a você.

—Podemos colocar a culpa em Andrew — sugeriu Liz.

—Mamãe! — exclamou Julie, levando a mão à boca, escondendo um sorriso enquanto se fingia de horrorizada. — Essa é uma ótima idéia!

—O que foi? – questionou Luke quando ambas olharam para ele. O que ele tinha feito?

—Luke, meu raio de sol...

—Oi? — piscou ele.

—Essa foi boa — concordou Julie.

—Você disse que é gay, eu disse que não – lembrou sua mãe. – Você disse que gosta de garotos. E garotas. Então você é bissexual. É o termo correto. Bi de dois, sexual de atração, físico. Compreende?

Não, pensou Luke. Ele não compreendia. E nem queria.

—Você não está com raiva? — perguntou Luke ao invés disso. Era a única coisa que podia se agarrar no meio de toda aquela confusão para não perder a cabeça.

—Você — apontou Liz para sua filha e depois movimentou o dedo entre ambos. – Os dois. Idiotas.

—Nem venha, mamãe. Responsabilize-se pelos seus atos. E filhos.

—Eu não estou com raiva de você, meu filho idiota. – Suspirou Liz. — E você, Julie? Sua vez. Diga algo para eu ficar com raiva, eu preciso ficar com raiva.

—Mãe! – exclamou Luke. – Não peça isso! Ainda não me recuperei da última vez.

—Hum – pensou Julie. – Eu não tenho nada. Nenhuma novidade.

—Como está você e Ashton?

Julie deu de ombros.

—O de sempre.

—E como é o de sempre? — perguntou sua mãe, curiosa.

—Você sabe, a mesma coisa entediante de sempre. Assistimos, comemos, brincamos, provocamos, nos beijamos.

—O de sempre — repetiu Liz sem emoção.

—Você é tão sem vergonha — murmurou Luke. — Você não sente vergonha? Não fica constrangida?

Julie pensou. Era uma pergunta a se considerar. Ela sentia vergonha, ficava constrangida? Sim, sem dúvida. Até ela tinha seus momentos. Mas não havia nada para seu envergonhar no que disse, era tudo verdade.

—Não — respondeu, coçando distraidamente os pés em cima do centro, um com o outro. — Mamãe sempre diz que vergonha é matar e roubar. Eu não estou fazendo nenhuma dessas coisas.

—Você está me matando — murmurou seu irmão, afundando-se no sofá. — Deixe-me morrer.

—Oh! — exclamou ela de repente, sentando-se ereta no sofá. — Nós fomos num encontro... semana passada? Retrasada? Quando foi que eu vi você e Calum beijando-se, Luke?

—Uhh — zombou Liz, sorrindo. — Isso eu quero saber.

—Não foi tão divertido — disse sua filha, balançando a cabeça, desgostosa. — Comemos, discutimos, Anne disse que eu podia ter o que quisesse de sobremesa. Ashton só me leva para lá, é sério.

—Eu não estava falando da sua coisa de sempre — disse Liz, com um olhar de "você sabe". Ela sabia. — Não se faça de desentendida.

—Eu prefiro a conversa de sempre — opinou Luke, levantando a mão. — O que mais de surpreendente você tem, Julie? Até agora não teve nenhuma novidade chocante.

—Você quer uma novidade chocante? — questionou Julie, com os olhos estreitos que não fugiam de um desafio e um sorriso que dizia "você pediu por isso".

—Sim — concordou Luke, duvidando que realmente queria.

Da última vez, ela tinha dito que não era mais virgem... quando, na verdade, não era mais bv — Luke duvidava que queria alguma novidade chocante, mas ele não queria falar sobre si para todos, era seu assunto menos preferido.

—Eu tenho uma novidade chocante — anunciou Julie. — Eu marquei um encontro.

—Isso é tão emocionante — mordeu Luke. — Estou tremendo de choque.

—Eu ainda não cheguei na parte boa — disse sua irmã. — Eu marquei um encontro.

—Eu ouvi da primeira vez — murmurou ele.

—Que bom — disse ela. — Não perca o resto. Eu marquei um encontro. — Julie disse mais uma vez, mostrando todos os dentes ao sorrir. E mais ainda quando Luke revirou os olhos. — Para você.