Pedaços Transformados
253 Ideias
ideias
setembro, uma semana depois
Calum ouviu o apito cinco minutos depois do jogo ter começado e queria reclamar — ele estava indo tão bem! Por que Julie havia apitado antes da partida ter terminado? Quem havia decidido que ela seria a assistente do time?
Calum amava o sangue correndo nos seus ouvidos, o coração batendo alto, a respiração ofegante, a mente focada o suor deslizando pelo seu corpo... Certo, esse nem tanto, mas parecia que foi há um minuto atrás que o jogo começou e ele não sentia nada disso.
Profundamente.
Calum não pensava em jogo e ganhar e vitória e time, sua mente ainda estava focando, diminuindo tudo até chegar no fato de que ele e a bola e o time eram um. Agora todos eram apenas indivíduos separados, não havia confiança, não havia fé de que se ele jogasse a bola, alguém a pegaria, que se ele errasse um passe, alguém o salvaria.
O seu time... não era seu.
Treinos de prática normalmente significava não treinar com quem estava acostumado — você devia estar preparado para jogar numa partida com qualquer um a qualquer momento se algo acontecesse (imprevistos aconteciam), mas o que Calum sabia do "seu" time e eles dele?
Nada.
Oh, não, espere, Calum sabia que Jorg definitivamente não gostava dele — era recíproco.
Julie, como uma boa assistente, havia ignorado isso e colocado os dois no mesmo time, deixando-o sem nenhum dos seus amigos — Calum tinha reclamado com ela e Julie havia dito "não quero saber", quando ele tentou de novo, ela apitou e apontou para a quadra.
Luke estava no outro time.
Ashton estava no outro time.
Michael estava observando a partida com Julie (porque o técnico não prestava para nada).
E todos os outros garotos do time que ele gostava e conversava também estava do outro lado — Calum não era uma Julie antissociaal da vida, mas também não era um comunicável e popular Michael.
—Calum! — Julie apitou de novo. — Vai ficar refletindo sobre a vida ou...
—Já vou! — gritou ele.
—Agora! — E apitou de novo. — Ok, agora que todos... Pare de arrastar os pés, Calum! Então, como eu dizia, quermesse.
—Não, você não dizia — discordou Ashton. — O que você quer dizer?
—O que eu disse. Quer-mes-se — silabou ela.
—Julie — disse Calum, irritado — será que já podemos voltar para o...
—Não — interrompeu ela. — De qualquer jeito, eu já ia chamar vocês para uma pausa. E não sei do que você está reclamando, você estava péssimo. Pa-té-ti-co. O que houve?
—É, Julie, o que houve? — retrucou Calum.
Ela torceu o rosto numa careta e fez o que sempre fazia quando perdia e não queria admitir (Calum não se sentia feliz por vencer) o ignorou.
—Quermesse — repetiu Julie. — Desse sábado no outro. Precisamos de uma barraca. O que vai ser? — perguntou. — Ideias?
—Barraca de comida? — sugeriu Luke, fracamente.
—Rejeitado — disse Julie. — Mais alguém aqui sabe cozinhar além de você? Não. E não temos fundo para isso. — Julie levantou dois dedos e os abaixou conforme falava. — Precisamos de algo barato e lucrativo. E que todos vocês possam participar.
—São três coisas — opinou Ashton. — Deveria ter três dedos.
Julie olhou para sua mão, abriu e fechou os dedos e fez uma recapitulação do que aconteceu, e então apitou com força, com todo o ar que tinha em seus pulmões.
—Ideias. Rápido.
—Tiro ao alvo?
—Não. Armas estão proibidas. Está no regulamento da escola, vocês não o leram?
—Barraca de vidente? — disse Michael ao invés de acabar com os sonhos de Julie e dizer que ninguém lia o regulamento da escola. (Ele era Ninguém.) — Eu soube que você é boa em...
—Urg — disse Julie, como se a ideia fosse horrorosa. — Não sei onde você ouviu isso, mas eu não sou boa, eu sou maravilhosa.
—Então...
—Mas estou proibida.
—É? Quem...
—Meu pai. Mamãe. Meu padrinho. Todos os que se consultaram comigo. — Julie deu de ombros. — O de sempre.
—É, o de sempre — murmurou Calum. — Os pais de quem se consultou com você. Os amigos deles também. O de sempre.
Julie sorriu para ele. Até que se lembrou de que eles não estavam se falando. Por qualquer motivo que fosse que ela não se lembrava mais.
—Que tal... corrida de saco?
—O que é isso? Primário?
—Escalada?
—Você tem o equipamento e é bombeiro? Por favor, gente, ideias que vale a pena meus ouvidos ouvirem — anunciou depois de umas ideias traumatizantes. E infelizes. E que eram brincadeiras. Corrida de saco? Sério? — Quer dar alguma idéia, Calum? — questionou Julie. Deu a ele uma chance de se remidir e pedir desculpas.
Calum cruzou os braços e desviou o olhar.
—Não — murmurou ele.
—Que tal — perguntou Jorg, refletindo — barraca do beijo?
—Isso não é... — começou Julie.
Antiético, ela queria dizer.
Nojento.
Deve ser proibido em alguma cidade.
Deve passar tanta DST.
Eu não quero meu nome vinculado a algo desse tipo.
—Ótima idéia — concordou um.
—Bom — disse outro.
E então todos estavam murmurando sobre o quanto aquilo era ótimo, maravilhoso e que eles deveriam realmente fazer algo desse tipo — hã, sim, Julie queria saber o que a outra metade deles diriam.
—E todos vocês são solteiros? — questionou Julie. — Porque não quero ser a causa de traição.
—Todos somos crescidinhos, Julie — disse Jorg, com um sorriso irritante. — E a maioria vence. Quem quer barraca de beijo? — questionou ele, a mão já no alto.
Todas as mãos levantaram-se, salvo... Os olhos de Julie foi para Ashton que a encarava com uma sobrancelha levantada e as mãos abaixadas, e então ela contou Luke, Calum e...
—Michael — ofegou Julie. — Até tu, Brutus?
—Foi mal, Julie. — Michael deu de ombros. — É uma boa idéia. Barata, lucrativa e todos podem participar.
—Não use minhas palavras contra mim! E eu não vou participar disso! Quem não quiser participar disso — disse Julie, olhando alternativamente entre Ashton e Calum — não se sentir confortável beijando bocas desconhecidas, fale comigo que estão livre ok? — anunciou, embora soubesse que era um caso perdido.
Algum daqueles garotos iriam confessar estar desconfortável? Poderia parecer sexista, e por parecer eles não iriam dizer que estavam desconfortável, porque não iria querer ir contra o papel de gênero esperado. E ser zombado pelos outros que não tinham tanta coragem.
—Ok. — Michael bateu palmas. — De quem é a vez de limpar?
Todos gemeram enquanto Calum levantou a mão animado.
—Calum — gemeu Michael, batendo a mão na testa com um "não" decisivo e cansado. — De novo? Desde que as aulas começaram é a sua vez de limpar. E da última vez que eu montei o cronograma eu tive certeza de não colocá-lo lá. — Porque você vai estar de qualquer jeito, Mike não disse. Estava subentendido. Infelizmente. — Julie?
—Não. Não vou ficar de babá. Vou para casa. E você?
—Eu tenho coisas para fazer.
—Como? — questionou Julie.
—Como meu projeto de serraria.
—Por que você está em mais de um clube?
—Por que você não está? — retrucou ele.
—Porque eu fico entediado fácil.
—Eu também — concordou Michael. — Por isso estou em mais de um clube.
—Eu vou levar Julie para casa — disse Ashton antes que o pedissem. — Porque Luke vai ficar.
—Luke? — perguntou Michael para ter certeza.
—Tudo bem. — Ele suspirou. — Eu fico.
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