Pedaços Transformados
63 Dúvida
Notas iniciais
dúvida
CALUM, 12 ANOS. LUKE 12 ANOS.
—Me tire uma dúvida – pediu Andrew assim que seus filhos entraram no carro, colocaram os cintos e começaram a discutir. – Se vocês não gostam de Star Wars, por que querem se vestir de acordo com os personagens no halloween? Não vou nem comentar o fato de faltar quase três meses e vocês já estarem discutindo isso.
Julie sorriu.
Calum sorriu.
Luke gemeu, batendo a cabeça contra o vidro da janela. Quase três meses era uma via de mão dupla e significava que ou ele seria enganado ou Julie esqueceria, mas alguém iria mudar de opinião. Luke tinha certeza – quase certeza – que seria ele. E preferiria abrir um buraco naquele vidro com a testa, deixá-la sangrando, antes de fazer o que Julie queria. Como sempre.
—Você quer responder, Luke? – questionou Julie, cutucando-o insistentemente sua cabeça por cima do banco.
—Vamos, lá, Luke – insistiu Calum. – Eu adoraria ouvir.
—Até você, Brutus? – perguntou Luke, ultrajado. – Você não era assim!
—Eu mudei – disse Calum simplesmente, dando de ombros com casualidade.
—O que ficar um mês sozinho com Julie Hemmings não faz – disse Andrew suavemente, como se tomasse notas num experimento bem sucedido e não estivesse vendo os olhos suplicante do seu filho.
Droga, praguejou Luke. Ele tinha esquecido-se que seu pai era imune aos seus olhos fofos e adoráveis. E que Andrew Hemmings amava observar o que chamava de “interação humana”, era fascinante segundo ele.
—Vamos lá, Luke, diga – pediu sua irmã.
E muitas coisas poderiam ter mudado, (Calum poderia) mas o fato de Luke não conseguir negar algo a sua irmã? Não – se possível piorou, porque agora ela tinha mais uma carta na manga para chantagem: o sentimento da culpa. E não tinha vergonha de usá-lo.
—Eu sou Luke Skywalker – murmurou Luke envergonhado.
—Mais alto – ordenou Julie.
—Eu sou Luke Skywalker! – gritou Luke.
—Mais baixo – pediu Calum.
—E eu sou a princesa Leia! – completou Julie, vitoriosa.
—Se vocês são Luke Skywalker e Princesa Leia – comentou seu pai – isso faz de mim...
—Darth Vader – respondeu Julie, ignorante do fato de não ser uma pergunta. E se houvesse ela teria sido retórica.
—Oh! – exclamou Andrew, escolhendo ignorar a ignorância alheia. – Eu sou um... um...
Ele não conseguia se lembrar do nome, era parecido com uma raça, mas Andrew não... Era como se a memória tivesse sido bloqueada, ela estava lá, Andrew conseguia ver a palavra, sentir o gosto dela na sua boca, mas não conseguia prová-la, pronunciá-la.
—Sith! – completou Julie. – E eu uma princesa! E Luke um jovem padawan! E Calum... – Julie parou, virando-se para ele. – O que você é?
—Eu sou... – Calum não havia pensando em quem seria, concentrado demais em torturar Luke, mas, se seus melhores amigos gêmeos eram Luke Skywalker e Princesa Leia, isso só podia significar uma coisa... – Eu vou ser Han Solo! – exclamou ele.
—É isso... – começou Julie a assentir até que absorveu o que aquilo significava. – O que? Não! Se não teríamos que ficar juntos e por mais que meu desejo seja um incesto, o incesto não é com você, Calum, porque isso não seria um incesto, agora com Luke, duas vezes Luke, seria um incesto duplo – declarou ela sem respirar.
Luke ficou sem fôlego por ela. Ele não podia acreditar no que tinha ouvido ou dizer se sua irmã falava sério ou não – Julie tinha esses momentos em que era Luke não sabia dizer se ela mentia por ser tão honesta.
—Não vou nem falar algo – disse seu pai, fechando a boca e voltando a olhar para a estrada. – Vou fingir que isso nunca aconteceu.
—Isso é muito feio, papai – desaprovou Julie, estralando a língua e balançado a cabeça enquanto se afundava no banco. – Você não pode fingir que não viu algo só porque não gosta. O que você faria se eu e Luke realmente...
—Hã? – balbuciou Luke, virando-se na cadeira para olhá-la. – Que história é essa? Não venha me colocar nos seus acontecimentos hipotéticos!
—Não é hipotético! – defendeu-se Julie, cruzando os braços – Algum dia pode ser real!
—Não se depender de mim!
—E o que você faria se eu me apaixonasse por você? – desafiou sua irmã, aproximando-se dele até que seus narizes se tocassem.
Luke fechou e abriu a boca, ainda sem... Julie falava sério? Luke odiava o fato dela ser uma mentirosa nata e amava que isso fosse contra seus ideais e odiava que ela estivesse brincando com ele agora.
—Isso é sério? – questionou finalmente. – Você está realmente me perguntando isso?
—Chegamos – interrompeu seu pai, parando com tudo e fazendo todos irem para a frente e voltar. – E eu não quero ouvir mais nem um... – Andrew pensou numa palavra, mas nem uma era tão... precisa. – Vamos fingir por um momento que somos seres racionais e educados – disse ele numa voz zen, fechando os olhos, inspirando e expirando e torcendo para ainda ser um bom manipulador – e não vamos assustar o novo amigo do Luke.
—Eu ainda não acredito que Luke fez um amigo – comentou Julie, incrédula, mas sem maldade, seguindo as ordens do seu pai e fingindo por um momento ser um ser racional e educado.
Luke não conseguia fingir tão bem, mudar tão rápido. E ele também não acreditava que fez um amigo – não que não tivesse amigos além de sua irmã e Calum, mas... Existia uma diferença entre amigo que você encontra apenas na escola, amigo que depende da estação e amigo que você passa em sua casa para levá-lo junto ao trabalho do seu pai, porque o próprio não tinha um pai para levá-lo ao trabalho e ir para a escola com a mãe professora não contava.
(Liz havia discordando. “Um, dois, três”, ela contou “três pares de mãos seria ótimo para trocar e dar banho e ensinar o B com A.”)
Michael fazia parte do último.
(Calum também se encaixava nessa categoria, entretanto ele era uma exceção que não fazia parte de nem uma categoria. E de todas. Ele era amigo amigo, duas vezes amigo; ele era seu melhor amigo.)
E seu pai havia sugerido a Klaus (ou diretor Klaus, como seu padrinho gostava de repetir) que seria uma ótima ideia levar todos os alunos que não tinha como acompanhar os pais para o hospital, num trabalho voluntário, e... Era uma boa ideia. E Klaus havia aceitado. E agora eles estavam na frente da casa dos Clifford e alguma parte de Luke sabia que Julie iria envergonhá-lo (sua irmã não mudava) e ele não via à hora disso acontecer para poder suspirar de alívio e tirar aquele peso dos ombros e a sensação de estar pisando em ovos.
—Michael – acenou Luke, desanimado. Não é porque ele queria que acontecesse logo que estava animado para que acontecesse logo, existia uma diferença que ele não sabia explicar.
Michael o ignorou, nem dado um olhar a ele ou aos outros dois no banco de trás, concentrando-se no motorista.
—Obrigado mais uma vez, Sr. Hemmings – agradeceu ele. E então sorriu. – Ou posso pular isso e te chamar de Andrew?
—Eu gostei dele – murmurou Andrew em aprovação. E então se virou para seu filho e perguntou: – Onde você o encontrou? Precisamos de mais!
—Eu não gostei dele – intrometeu-se Julie, recusando-se a olhá-lo.
—Eu pensei que seu fingimento fosse demorar mais – murmurou seu pai para si, mas olhando-a pelo retrovisor. – Mas, pelo visto, eu fui iludibriado por mim mesmo.
—Hum-hum – concordou Julie, sem prometer nada. – Mamãe disse que esse é o seu defeito mortal.
—Esperar sempre o melhor dos outros? – provocou seu pai, levantando a sobrancelha para ela.
—Sim – respondeu sinceramente. – Acho que li algo que dizia "os piores defeitos são aqueles que parecem bons" ou alguma outra coisa nesse sentido.
—É "os defeitos mais perigosos são aqueles que, com moderação, são qualidades" – corrigiu Michael sem perceber.
Julie o olhou. Pela primeira vez ela o olhou e... Urg, Julie Hemmings sabia que eles poderiam ser amigos, mas não, ainda não, seria muito rápido e simples e ela gostava de um joguinho às vezes, como se não soubesse o que queria, como se não soubesse sempre o que queria.
—Então você é Michael – avaliou ela, olhando o mais novo amigo do seu irmão de cima a baixo quando ele abriu a porta do carro, para se sentar ao seu lado no banco traseiro.
—E você é Julie – ele a cumprimentou do mesmo jeito caloroso.
—Não, eu não sou – disse Julie, levantando o queixo do jeito mais pomposo que conhecia. – Para você – disse, frisando o "você", o fato dele não ter um título – eu não sou. Para você, eu sou Rainha Fada.
—Rainha Fada? – zombou Michael, olhando para suas costas retas com puro escárnio. – Cadê as asas?
—Calabouço – ditou ela simplesmente, sentando-se reta e piscando diante daquela afronta. – Coloquem-no no calabouço.
—Nós estamos sem calabouço – lembrou Luke automaticamente e então gemeu novamente, encolhendo-se e querendo desaparecer. Ir a tanto RPG Live Action e ser um dos cavaleiros pessoais de uma rainha tão sedenta por sangue fazia com que não houvesse mais calabouço disponível.
—Joguem-no num buraco sem fundo e esperem que ele apodreça –continuou Julie sem se afetar.
—Todos os nossos buracos sem fundo estão cheios – relembrou Calum, suspirando ao perceber que era sua vez para colocar limites em sua rainha egoísta e infantil.
—Cortem-na a cabeça! – gritou. – Não, esperem – pediu a Rainha Fada, levantando a mão num ato universal e indiscutível de silêncio. – Não precisam me dizer. – Ela fechou os olhos e suspirou, rangendo os dentes. – Eu já sei. A espada não está afiada por ter sido usada de mais, não é?
—Me pergunto como ela foi usada de mais – murmurou Calum, dando-a um olhar que beirava a pena.
E se tinha uma coisa que Calum tinha se esquecido era que sua rainha odiava pena. Ele pode ver os olhos se estreitando em ameaça, o nariz se enrugando em desgosto e a boca se curvando em escárnio, e no fundo de tudo isso seus olhos brilhavam em diversão.
Oh, não, pensou Calum quase recuando, mas não. Ele não fez isso. Ele não desafiou Julie a provar que era digna de ser rainha. Ele não recuou para mostrar que não tinha medo. Ele se manteve firme e esperou o julgamento.
—Alguma sugestão, Calum? – questionou sua rainha, sarcástica. – Talvez você devesse acompanhar esse insolente, para que ele não fique solitário na solitária.
—Isso era para ser uma piada? – perguntou Michael, piscando. – Porque... Uau. – Ele piscou uma segunda vez. – Horrorosa.
—Acostume-se – aconselhou Luke. – Essa foi a melhorzinha que ouvi hoje. Ela costuma ser... péssima. Péssima, péssima, péssima.
—A do "você vem sempre aqui?" foi boazinha! – defendeu-se sua irmã. – Ela é clássica por um motivo.
—Tão clássica que mamãe nem percebeu – comentou.
—Ela devia estar fingindo...
—Não – interrompeu Andrew, apesar de ter dito a si mesmo para não se envolver. Existiam coisas que ele não podia ajudar ou atrapalhar, apenas observar. Mas também existiam coisas que ele não podia não fazer nada, que era mais forte do que si. – Ela não percebeu mesmo – disse ele. – Eu tentei essa uma vez e ela olhou para minha cara, perguntando se eu estava cego para não ver o crachá ou se era louco, porque aquele era o emprego dela e era claro que ela ia sempre ali. A menos que "seja quarta a noite, porque é o meu dia de fol... Você não ouviu isso de mim!"
—Papai acabou de fazer aspas com os dedos e imitar mamãe? – sussurrou Julie para Calum que estava mais próximo.
—Pai – começou Luke – me tire uma dúvida: mamãe, ela, realmente, realmente mesmo – insistiu ele – saiu com o senhor? Porque... – Luke balançou a cabeça, sem palavras. – Nossa. Eu não sei quem é que está sofrendo de síndrome de Estocolmo entre vocês dois.
—Deveríamos saber a opinião de Michael sobre isso, não? Ver se ele está apto e digno de você, Luke?
—Eu não estou, não vou e nem quero namorar com Michael para que ele esteja digno de mim, Julie.
—O que? Você só tem padrões para namoros? E outra, eu sei que você não está, não vai e nem quer namorar com Michael. Michael não é o seu tipo.
—Luke também não é meu tipo – comentou Michael para si, olhando para suas unhas com um grande interesse.
—Psiu, calado.
—Você quer vim calar? – provocou Michael, inclinando-se para o lado e empurrando-a com o ombro, não parando quando Julie desviou, inclinando-se sobre Calum, ou quando ele estava sobre Julie, que estava sobre Calum.
—Está vendo? – indicou Julie com um acenar desdenhoso e um empurrão de ombro. – Um garoto que dá em cima da sua irmãzinha não é o seu tipo.
—Ela tem razão – reconheceu Calum.
—Está vendo? Um garoto que não dá em cima de mim é o meu tipo.
—Você não tem tipo, Julie – discordou Luke.
—Eu tenho. Minha altura, moreno, provavelmente oriental... – Julie sorriu. – E está na minha frente.
—Quem? – questionou Calum, olhando ao redor, curioso. – Não estou vendo ninguém assim... O que?
—Eu não sei como, não é como se algo tivesse mudado – refletiu Luke – mas acho que agora eu entendo como mamãe não entendeu o "você vem sempre aqui".
—Calum, querido. – Julie se aproximou, colocando a mão sobre seu joelho e apertando. – Você pode me dizer a verdade, eu não vou julgá-lo. Você entendeu o "você vem sempre aqui"?
—Hã... – Calum pensou seriamente, embora soubesse que estavam brincando com sua cara, porque... Era a chance perfeita para acabar com aquela dúvida. – Sinceramente? Não. A cantada é para saber se eles podem se encontrar outro dia ali, no mesmo local, ou... Ou tem uma mensagem oculta?
—É uma boa pergunta – reconheceu Julie. – Contudo é mais simples do que isso.
—É?
—Sim – concordou Luke. – É para saber se... se...
—É um início de uma conversa – intrometeu-se Michael. – Embora também possa ser uma cantada, uma pergunta ou ter uma mensagem secreta, mas normalmente é apenas para ter um assunto para iniciar uma conversa, para não chegar dizendo um "oi" seco e sem graça. Tem gente que leva como uma cantada, tem gente que acredita que é uma pergunta verdadeira, e tem gente que descobre que o mundo vai acabar em 13 minutos.
Calum observou sua melhor amiga sorrir em resposta a isso, involuntariamente, sem perceber, e teve que levantar as suas "malditas sobrancelhas" como Julie gostava de relembrar, porque...
Mesmo quando ela fingiu não fazer isso, fingindo que não achava tudo que Michael disse algo impressionante e o "você vem sempre aqui" uma ótima idéia para códigos de apocalipse iminente, Calum ainda podia enxergá-la sorrindo.
A imagem queimava através das suas pálpebras fechadas.
—Eu não gosto de garotos intrometidos – rosnou Julie, percebendo o que acontecia ao ouvir seu pai dizer “Liz” e seu irmão “mamãe” e ver Calum sorrindo para ela.
Calum sorriu ainda mais – o som dessas palavras pareceu quase terno para os seus ouvidos.
—Mas é justamente o que você precisa – retrucou Michael, falsamente indignado.
E ele tinha razão, reconheceu Calum, porque ele não tinha dúvidas de que aquele sorriso de Julie era o mesmo que recebeu dela há tantos anos, que a viu dar para Malia – era um sorriso que dizia vamos ser amigos, era um sorriso que recusava qualquer outra coisa além disso.
Era um sorriso que ela não pode esconder novamente por uma fração de segundos ao ouvir Michael, passando a mão no nariz para esconder.
Era um sorriso que somente Calum viu e entendeu e guardou consigo.
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