cartas

setembro, um dia depois

—Oi — disse Julie.

—Hum — murmurou Calum.

—É assim que você responde alguém?

—É assim que você acorda alguém? — mentiu ele.

Você precisa estar dormindo para ser acordado, sussurrou sua consciência.

Calum a odiava. Como ele podia ter uma consciência tão... tão... tão ética? Ele não precisava ser sempre certo, fazer o correto, ele sabia que não precisava, que tinha liberdade e que ninguém iria culpá-lo se mentisse, mas Calum ainda sim não gostava. Andrew não mentia porque era péssimo, Julie porque não achava sentido, ele porque não gostava da culpa.

—Claro que não — bufou julie. — Eu acordo alguém pulando em cima desse alguém, mas como você não está aqui...

—Vá pular em cima de Luke

—É uma boa idéia — refletiu ela. — Mas eu queria falar com você, não pular em cima de Luke.

—Sobre?

—E precisa de assunto? Eu só queria falar com você.

—Seu namorado é outro.

—Oh, eu sei — disse Julie, simplesmente, mas Calum devia estar péssimo, porque nem se sentiu envergonhado por uma sugestão sexual que não existia, mas que sabia que devia ter. — Então... Como você está?

—O que você quer, Julie? — Ele não estava a fim de conversas sem sentido, Calum só queria dormir, parar, esquecer. — Só você para ligar porque quer me ouvir falando.

—Oh, mas que ultraje! Como você pode pensar...

—Julie.

—Você está muito irritado — murmurou Julie para si. — Por que você está tão irritado? Sim, você pode ser irritado — disse ela antes que ele pudesse reclamar. — Mas você não pode jogar essa irritação sobre mim sem sentido, então...

Calum sorriu.

—Eu preciso que você me der um motivo — concluiu.

—Exato — concordou Julie. — Foi para isso que eu liguei.

Calum sorriu mais ainda, sentindo sua irritação deslizar para longe, porque, por algum motivo divino que ele não entendia, Julie sempre sabia a hora de ser idiota e de estar presente, de falar e ficar calada, de quando ele precisava dela, de alguém que o amava por quem era.

—O que você fez? — questionou Calum, despreocupado. Julie tinha... hum... contribuindo para o Apocalipse ao decidir que já era uma garota crescida e devia se comportar como tal?

—Bem... — Calum podia ouvi-la pensando. Às vezes Julie pensava tão alto que isso acontecia, e esses às vezes acontecia quando ela pensava sobre algo que não queria falar.

—O que você fez? — questionou Calum mais uma vez, nem um pouco despreocupado quanto antes. O que. Julie. Havia. Feito.

—Hã... eu... sabe a caixa que te dei? No hospital? Seu presente de aniversário?

—Sim — respondeu ele, lentamente.

—Pegue.

—Okay.

Se não fosse por Julie tê-lo lembrado nesse instante, Calum teria se esquecido de que a caixa estava ali, de que havia recebido um presente, porque sem chance dela ter dado a ele um presente — mais uma prova do Apocalipse iminente.

Como se segurasse a caixa de Pandora com radiação, Calum utilizou apenas a pontas dos dedos, pegando-a com cuidado, porque fosse o que fosse que estivesse ali dentro era importante. Colocando-a sobre suas pernas cruzadas, Calum a encarou.

Era uma caixa de sapato rosa desgastada, que tinha a tampa selada com fita durex, e ao que parecia tinha muito tempo que ela estava assim.

O que tinha ali?

Quais segredos Julie havia guardado?

Quais objetos amaldiçoados estavam trancados?

Que perigo aquela caixa abrigava?

Por que Julie havia dado a ele?

Calum pegou o telefone que colocou no criado mudo e assim que o colocou no ouvido, Julie sussurrou no seu ouvido:

—Abra.

—Julie — disse Calum — qual é...

—Por favor — pediu ela. — Abra.

Momento tenso, pensou Calum, ligando o viva voz e colocando o telefone de lado para que pudesse ter as duas mãos livres... para abrir. A Caixa. Ele perguntava-se se Pandora sentiu curiosidade e medo sobre o que tinha ali dentro, se ela achou que estava pronta, se ela duvidou se era capaz, se ela achava que o melhor a fazer seria não abrir.

—Você já abriu? — questionou Julie.

—O que você acha? — retrucou Calum, olhando para o celular como se Julie pudesse vê-lo.

—Não — suspirou ela, e Calum podia ouvir seus olhos rolando. — Eu não estou ouvindo lágrimas.

—Lágrimas boas ou lágrimas ruins? — perguntou, meio curioso e meio mórbido.

—Eu não sei — gemeu Julie, irritada. — Abra e me diga, eu já estou ficando...

Calum cantarolou, puxando o lacre que a selava devagar e sentindo-se... Ele não sabia como sentia-se quando Julie parou de falar repentinamente — nunca era um bom sinal.

—Ok, então. — Ele respirou fundo, segurando a tampa e puxando. — Olhe só o que temos... Papel? — balbuciou Calum. Ele olhou da caixa para o celular, para o nome escrito, para o fato de que Julie havia digitado nee-san, irmã, como nome de contato, sem acreditar. Julie tinha lhe dado papel em decomposição? — Por que tem um monte de... São cartas? — Ele aproximou aquele objeto paralisado não identificado do rosto e... Aquela letra era da Malia? — Por que Malia escreveu cartas?

—Bem, a pergunta certa é... Para quem — disse Julie, devagar. — Para você — respondeu a si mesma.

—Para mim? — repetiu Calum, não... absorvendo. Do que Julie falava? Ele não estava entendendo.

—Hum, Malia me deu cartas. Para te entregar.

Pela primeira vez na sua vida, Julie foi direta e objetiva antes que Calum pudesse pensar se queria ou não uma resposta — principalmente uma resposta direta e objetiva, uma resposta que não precisaria pensar sobre o que significava uma resposta que... respondia o que ele queria saber.

—Você está me dizendo — disse Calum — que Malia te deu cartas para me entregar e você não me entregou?

—Exatamente — concordou Julie.

—Acho que... — Calum piscou, sentindo-se atordoado e confuso e enjoado. — Eu preciso desligar, Julie.

—Ok — disse ela. — Sem problemas.

—Sim — assentiu Calum, mesmo que ela não pudesse ver, não fazendo nada para desligar.

O telefone continuou no seu ouvido, ele continuou ouvindo Julie respirar do outro lado e tentou fazer o que sua irmã, sua outra irmã, sempre dizia: respirar.

Malia sempre o mandava respirar e ele precisava tanto disso agora, ele precisava tanto dela; ele precisava sempre tanto dela.

Por que ela não estava com ele?

—Calum? — chamou Julie, suavemente.

—Sim? — engasgou ele, embora não estivesse chorando, porque aquilo não era difícil apenas para ele. Não era apenas ele que amava Malia, Julie também a amava; Julie também sofria por ela.

—Está tudo bem não estar bem — disse sua irmãzinha, como se soubesse. Ela sabia. — Está tudo bem não saber como estar.

—Sim. — Calum assentiu novamente e sentiu as bochechas úmidas.

—Você quer que eu vá aí? Eu posso acordar Luke e nós vamos aí. Ou então eu mando ele te trazer. Você escolhe. Podemos assistir o que eu quiser e, se você quiser falar sobre isso, nós falamos, se não eu deixo para amanhã.

Calum queria.

Calum não queria.

Ele queria esquecer o que ouviu, ele queria não saber que sua irmã havia escrito para ele, como se soubesse que iria morrer e estivesse se preparado.

(Ela sabia, ela estava.)

Ele queria ler o que ela lhe escreveu, ele queria saber o que ela queria lhe contar.

Ele queria estar sozinho.

—Está tudo bem — repetiu Calum, as palavras que ouviu ela dizendo. — Está tudo bem.

—Certo — disse Julie, sem acreditar, mas ela não o forçou. — Então... hum, qual anime da temporada você está mais ansioso para ver?

Calum riu, tentando disfarçar o seu choro, tentando não ser óbvio no quanto aquilo era difícil para ele, no quanto estava mal e precisava de alguém agora, ali, com ele.

—Não importa sua opinião — anunciou Julie. — Nós estamos indo.

E desligou na sua cara.