beijo inocente

outubro, duas semanas e um dia

Uma semana passava rápido e Calum perguntou-se como acabou ali.

Numa barraca de beijo.

Com Luke como parceiro.

Julie tinha feito o cronograma, de quem ficava com quem a que horas, para não passar vergonha sozinho ou ser assediado, conciliando horário de pico com popularidade e maior chance de ser beijado, e Calum queria saber o que ela tinha na cabeça.

Oh, não, espere, ele pegava isso de volta. Ele sabia o que tinha. Ou deixava de ter. Todo as partes importantes.

Por que ele estava ali? Ele, ele/ele, Luke? Sério que ela precisava colocar os dois juntos?

Julie iria o quê? Ficar ao lado de Ashton enquanto ele, no horário de menor movimento (era puro roubo isso), beijava garotas e garotos estranhos? Ou iria ficar encarando-os até desistirem de assediar seu namorado?

—Pare de encarar, Calum — resmungou Luke. — Você está me deixando desconfortável.

—Eu que estou desconfortável — murmurou Calum, empurrando as mãos nos olhos para não ver. — Quando é que isso vai acabar? — gemeu.

—Você não beijou ninguém até agora — reclamou Luke.

—Como se você tivesse — retrucou Calum. -Afinal, Luke, o que você está fazendo aqui? Pela divisão da Julie, ela deveria estar com você e eu com Ashton.

—Nós trocamos — confessou Luke.

—Podia?

Luke deu de ombros.

—Se você conhece as pessoas certas.

—Julie — traduziu Calum.

—Julie — concordou Luke. E suspirou, colocando a mão no queixo. — Eu pensei que todos fossem cair em cima assim que isso começasse.

—É — disse Calum, surpreso. — Quantos minutos para nosso turno acabar?

—Eu não sei — respondeu Liz, aproximando-se. — Mas espero que ainda tenhamos tempo. — Ela levantou uma nota de cinco. — Para qual dos meus garotos eu devo dar isso?

—Oi, mãe. — Sorriu Luke, inclinando-se para ela acima da bancada que os separava. — Você sabe que eu sou seu filho preferido, certo?

—Não — respondeu Liz. — Você é?

—Eu não sou?

Liz de um de ombros.

—Você é uma escolha boa como qualquer outra. E o que você tem para mim, Calum?

—Você está linda hoje. Como todo dia da sua vida.

—Eu gosto desse garoto — murmurou ela. — Eu já disse isso?

—Hoje é um bom dia como qualquer outro — disse Calum.

—É. Aqui está os meus cinco para o meu filho preferido. Então como é isso aqui? Eu te beijo ou você me beija? Ou nos encontramos no meio?

Calum sabia que essa era uma boa oportunidade para uma linha do tipo "o que você quiser", mas ele sentia-se nauseado só de imaginar dizer algo assim para Liz, que era como sua mãe — ele tinha certeza que Ashton ou Michael diriam isso para a própria mãe, a mãe de Ashton talvez até flertasse de volta, mas não ele.

Em vez de responder, Calum levantou-se da cadeira e beijou-a na bochecha, pegando-a de surpresa.

Liz riu, feliz.

—Obrigado, querido — disse ela ao se recuperar. — É por isso que você é meu filho preferido.

—Mãe! — reclamou Luke.

—O que? — Ela sorriu. — E cadê a minha filha preferida?

—Você só tem uma, mãe — resmungou Luke.

—Dor de cotovelo — comentou Calum, balançando a cabeça para Liz. — É uma vergonha.

—Dor de cotovelo — concordou ela sábia. — Eu já vou, não demorem. Horário para chegar em casa até nove e meia — lembrou. — E tragam Julie.

—Eu sinto como se ela fosse minha filha — murmurou Calum.

—Ela é uma praga — concordou Liz. — Às vezes eu sinto como se ela viesse do Egito.

—Às vezes eu me sinto russa — confessou Julie.

—O que isso tem haver? — questionou sua mãe.

—Não sei. Pareceu uma boa confissão. Do tipo que choca.

—É, eu estou chocado — disse Luke. — O que você está fazendo aqui? O meu turno já acabou?

—Nahhh. — Ela subiu em cima da bancada. — Talvez. — Balançou os pés. — Depende. — Inclinou a cabeça.

—Do que?

—Dos seus lucros. Ohh. — Julie colocou a mão dentro do pote, tirando a única nota de cinco reias. — Eu espero que vocês tenham embolsado o resto, porque é muito pouco, não chega nem perto do que vocês precisavam arrecadado. — Julie suspirou, colocando o dinheiro no bolso disfarçadamente. — Acho que vamos precisar vendê-los.

—Tinha um valor mínimo a ser arrecadado? — questionou Luke.

—Vocês não ouviram a parte que eu vou precisar vendê-los? — perguntou Julie.

—Eu vi você roubando meus cinco reais, que eu trabalhei tanto para ter — disse Calum. — Isso serve?

Liz balançou a cabeça.

—Tanto faz. Cheguem até nove e meia. No mais tardar, nove e trinta e um. E não venda seus irmãos, Julie — repreendeu ela. — Eu não quero ter que comprá-los de volta.

—Mãe — disse Julie. — Mãe — repetiu, sorrindo. — Quem você acha que eu sou?

—Sem vendas — repetiu Liz. — Prometa.

—Não — recusou Julie.

—Juliee — pediu sua mãe.

—Papai me fez prometer não fazer promessas que eu não posso cumprir — explicou Julie. — E essa definitivamente eu não vou cumprir. Mãe, eu sou uma garota de negócios e uma alma solidária.

—Você é o que?

—Eu vou fazer minha parte para arrecadar dinheiro para a caridade. Ah, ali está Michael. — Julie pulou da bancada. — Preciso falar com ele e arrumar os últimos detalhes para a nossa apresentação.

—Apresentação? — Luke e Calum se olharam. — Que apresentação?

—Vocês não ouviram a parte que eu vou precisar vendê-los? — repetiu Julie.

—Julie — pediu Liz novamente.

—Mãeee — retrucou ela. — Eles não vão precisar se prostituir, eu não sou uma cafetona. Agora tenho que ir, tchau.

—Nove e meia! — gritou Liz, vendo sua filha levantar a mão num gesto rock n roll. — Que história é essa de caridade? — perguntou para os outros dois.

—Ashton mentiu para ela — respondeu Calum simplesmente. — Julie acha que o dinheiro vai para a caridade.

—E não vai — deduziu Liz. — Como ela pode ser tão inocente para ter caído nisso?

—É, é em Julie que eu penso ao ouvir inocente — disse Calum. — Meus ouvidos até coram em pensar numa pessoa tão inocente.

—Eu já estou corando — murmurou Luke, envergonhado.

—Você é fraco — anunciou Liz. Como ele podia ser tão fraco? — Nove e meia — repetiu antes de ir.