Pecados
21 Capítulo 21
Notas iniciais
A mente de Naruto despertou do seu torpor. Com um lento retorno da sua consciência, ele levou um tempo muito maior do que o normal para conseguir entender o cenário ao seu redor. As lembranças vinham como flashes e faziam seu cérebro inundar sua cabeça de dor, a cada pedaço montado no quebra-cabeças, ele sentia que a cabeça estava a ponto de explodir.
Olhando ao redor, ele reconheceu o luxuoso e imenso quarto. Estava em Torino, Itália. O coração da Vongola. Com dificuldade, ele levantou e sentou na beira da cama, os ferimentos estavam longe de estarem cicatrizados e pareciam prestes a estourar os pontos a qualquer movimento. Munido de um certo desespero, ele tateou o criado mudo a procura do anel do céu, e sentiu um pequeno alívio ao colocá-lo no dedo, aquilo deixaria os pensamentos sobre Hinata afastados por um tempo.
— Pelo jeito, meus sentidos ainda não estão enferrujados, sabia que você estava de pé.
A figura cansada e abatida de Sasuke entrou pelo quarto, vê-lo daquela forma, indicava o estado de caos que a Vongola deveria se encontrar. E a vestimenta que ele vestia, indicava que Naruto ainda presenciaria o restante daquela tempestade. Sasuke estava vestido para o funeral de Hanabi, e estava claramente, a espera que Naruto conseguisse acompanhar o cortejo.
O coração da Vongola era uma propriedade colossal que mais parecia um vilarejo. Atrás da pomposa e imensa mansão, dezenas de casas e pequenos prédios serpenteavam pelos quilômetros de vale, somente um quilômetro após a última casa, havia um antigo e estranhamente belo cemitério. O local se espalhava pelo sopé da montanha, abrigando milhares de lápides idênticas, todas retangulares, feitas de mármore preto e com letras douradas. Ver o cemitério de longe, dava a sensação de olhar para uma incomum trilha de peças de dominó.
Embora o corpo de Naruto estivesse claramente sem condições de acompanhar o movimento, ele se trocou, e com um passo lento e doloroso, acompanhou Sasuke. Pelos corredores.
— Quanto tempo fiquei apagado?
— Quase três dias.
— Afinal de contas, que merda aconteceu?
— Deu um senhor trabalho, mas Gaara e eu conseguimos te imobilizar. Shikamaru cuidou do resgate de Hinata. E como você pode imaginar, Madara fugiu.
Por mais que ele soubesse que não haviam pego Madara, as lembranças dele estavam embaralhadas e quase ilegíveis. Ao se lembrar de Hinata, ele parou.
— Onde está Hinata?
— Deve estar se arrumando, ela também não tem condições, mas duvido muito que vá ficar no quarto.
— Me leve até ela.
— Naruto, você quase a matou. Não é melhor dar um tempo a ela?
Com um sorriso estranhamente triste, ele voltou a andar.
— Antes fosse tão fácil assim. Me diga logo onde ela está.
Após ser guiado pelos corredores da mansão, Naruto acompanhou os passos de Sasuke até chegar no quarto onde Hinata estava. Sem dar uma palavra se quer a ele, Naruto entrou no quarto e com um mero olhar, fez as empregadas que ajudavam Hinata a se vestir, deixarem o quarto. Ela não o encarou. Estava só com as roupas íntimas e vários curativos, incluindo o que protegia a sutura no tiro que levara.
— É muita coragem sua, aparecer aqui depois de tudo.
— Corte o teatro barato. Eu jamais faria algo a você sem motivo, mesmo tendo perdido o controle. Como eu fui tão cego?
Ele procurou apoio em uma poltrona quando a perna falhou e o corpo dele começou a ceder a dor. A dor física, no entanto, era inferior a pressão que se abatia sobre a sua cabeça. Seus pensamentos pareciam ter saído de um liquidificador.
— Do que você –
— CHEGA!
Foi a primeira vez em muitos anos, que aquela pressão subiu pela sua mão, era a primeira vez que sua mente não conseguia suportar tudo aquilo e o peso do anel era maior que sua força. Com uma clara aflição, ele retirou a joia do dedo e após guardá-la, agarrou dois tufos de cabelo com tanta força que quase os arrancou. Ele ignorou a fraqueza da perna machucada ou as facadas de dor que os ferimentos impunham na sua carne e rumou até ela. De arma em punho e um olhar tão confuso que ela não sabia por onde começar a decifrar, ele variava a mira entre ela, e a própria testa. Arrastando a cadeira da escrivaninha, Naruto sentou de frente a Hinata e com um choro desesperado, confuso e claramente revoltado, ele continuou balançando a arma na mão.
— Por que? Você era a única pessoa, a única! Que não poderia fazer isso. Eu esperaria isso de qualquer um, até mesmo daqueles que me criaram e dizem que me amam. Por mais que eu acredite nessas palavras, eu esperaria a traição deles, antes da sua. Você não tinha esse direito, não você. Depois de tudo que eu fiz? – ele levantou em um pulo, derrubando a cadeira – Eu roubei por você, matei por você. Sacrifiquei tudo que eu tinha você. Tive cada pequeno pedaço da minha alma, dolorosamente tirados por você. Entreguei meu coração para você em uma bandeja de prata e aceitei seguir meu destino sozinho sustentado pela ilusão de que era o melhor para você. Nada disso é suficiente para você? Não foi, né? Até a minha força e o resto da minha sanidade você rouba. Não é suficiente me prender nesse maldito amor, não é suficiente me prender em um mundo mergulhado em sangue e morte, onde a única coisa viva que tenho é você. Não é suficiente me fazer te desejar e te amar a ponto de me fazer desistir desse anel?
— Do que diabos você –
Ela se calou quando ele virou e sem nenhum aviso, disparou a arma. Poucos centímetros mais à esquerda e aquela bala atingiria muito mais que um punhado de cabelo, o erro foi proposital e ela percebeu que ele havia enfim, perdido o pingo de controle que lhe restava. Na próxima vez que ela o desafiasse, talvez não continuasse respirando.
— Não ouse continuar me ofendendo. E não ouse insultar sua irmã ainda mais. Eu me pergunto, o quão pesado é, saber que a morte de Hanabi está nas suas costas? Isso é, se é que você sente algo. Desde quando? Desde quando você espiona para ele? Foi assim que eu comecei meu disfarce como agente da Interpol? Antes até?
Com uma infinidade de tiques, ele estava prestes a ter um colapso. Será que se ele arrancasse seus cabelos, sua pele e abrisse seu crânio, veria que seu cérebro estava podre e velho? Se arrancasse os músculos de seu peito e destroçasse seu externo, veria que seu decrépito coração, havia enfim, sugado toda a força da sua razão e o tornado naquele ser burro e condescendente que ele se tornara? Sua explosão de fúria que resultara no mais perfeito olhar de pânico de Madara, era no final, apenas a válvula de escape da sua consternação, ao perceber que havia sacrificado a vida de Hanabi, pelas mentiras de Hinata?
— Ah, eu sabia que a vida iria me cobrar um preço alto pelos dias de felicidade, – ele continuou – só não sabia que seria um preço tão insuportável de se carregar. E você ainda não respondeu minhas perguntas.
— Naruto, você precisa acreditar eu –
O clique da arma sendo engatilhada espalhou-se pelos seus ouvidos ao mesmo tempo que ele pressionava a arma contra a testa dela.
— Já disse, não me interessa. Quero a verdade, não suas desculpas!
— Foi um pouco depois de você chegar em Tokyo.
Ouvir aquelas palavras, serem ditas pela boca dela, havia quebrado algo dentro dele.
— Não era nada demais na época. – ela obrigou-se a manter o contato visual, por mais duro que fosse – Algum figurão do departamento de segurança me procurou, disse que suspeitava que a Interpol estava retendo informações e pediu relatórios diários sobre tudo que você fazia. Desde então eu entrego esses relatórios. Depois do episódio com Danzou, eu recebi uma mensagem da mesma pessoa pouco antes de decolarmos para a Escócia. Eu nem sabia que ainda tinha meu celular, só me lembro dele propor um acordo para recuperar minha vida. Minha carreira. Eu só disse que estaria indo para a Escócia e em seguida, entreguei meu celular para ser destruído. Eu não pensei, fui idiota e entreguei nossa localização em uma bandeja. Mas nunca passou pela minha cabeça que era para esse tal Madara que eu me reportava.
— E mesmo assim, você não pensou em me dizer isso.
Largando a arma no chão, ele levantou e ao perceber que a força abandonava seu corpo cada vez mais, andou com passos lentos até a janela e se apoiou na murada.
— Se eu soubesse disso, jamais teria mandado Hanabi te tirar do país. Se você tivesse ao menos considerado o tamanho dessa merda, as coisas seriam diferentes. Percebe também, que foi por causa dos seus relatórios, que a Akatsuki conseguiu sequestrar Hanabi? Eu sempre deixei homens de confiança e habilidade, quando não deixava Sasuke, responsáveis pela segurança de Hanabi. Embora seus relatórios só contassem os meus passos, a informação era poderosa. Você foi a única pessoa que eu nunca fiz questão de tomar precauções. Só você sabia exatamente quando eu chegava, quando saia, assim como meus caminhos. Com informações precisas, ele poderia especular o momento em que a segurança de vocês estava mais fraca. Foi assim que Hanabi foi pega, agora entendo. Você tem noção de tudo que fez? – ele não disfarçou o quão abalado estava, nem mesmo as lágrimas – Eu deveria te matar, aqui, agora. E eu o faria se minhas mãos parassem de tremer e o resto do meu coração permitisse.
— O que vai acontecer comigo?
— Com uma traição dessas nas costas? Você seria submetida a toda humilhação que possa imaginar. Seria torturada até enlouquecer.
— Me deixe pelo menos acompanhar o enterro de Hanabi.
— Eu não vou contar a ninguém sobre isso.
As palavras dele a pegaram desprevenida. Foi impossível esconder a surpresa.
— Por que?
— Por que não seria inteiramente justo. Eu também tenho minha parcela de culpa, se eu tivesse revelado tudo desde o início, você ao menos saberia como agir. Além disso, foi eu quem pus o anel da chuva na mão de Hanabi. Se essa sua traição fosse exposta, a família iria ignorar os meus erros, iria focar apenas nos seus e iria exigir o pagamento em sangue. Traição é um assunto sério aqui, embora ela seja frequente, é tratada das piores formas. Não, esses castigos não são suficientes. Tanto eu quanto você, devemos espiar esse pecado e pagar pelas nossas atitudes. Eu coloquei a vida de Hanabi na mira e você puxou o gatilho. Sendo assim, eu vou te dar uma punição muito pior.
Encarando a figura de Naruto apoiado na murada da janela, ela percebeu o quanto de fato, ele tremia, e embora não conseguisse nem mesmo imaginar o que ele sentia, imaginava o quão intenso era, já que ele se recusava a usar o anel do céu. Novamente, uma atitude surpreendente a pegou de guarda baixa. Ele tirou um segundo anel do bolso, o mesmo anel com uma pedra de safira que Hanabi usava, e atirou no colo dela.
— A partir de amanhã, você será a minha Pioggia. Toda a família será contra, não apenas pela morte recente de Hanabi, mas pela falta de confiança que você vai ter. E como eu direi que você exigiu o seu direito como herdeira, todos vão te ver como uma interesseira em busca de poder. Junte isso ao fato de toda a Vongola saber sobre o nosso passado e eu duvido que qualquer homem daqui vá confiar em você um dia. E essa, será sua punição. Você não vai poder se distrair nem mesmo por um momento, pois isso pode significar uma adaga nas suas costas, veneno na sua comida e água. Você será rejeitada, humilhada e isolada de agora em diante. E eu não vou mexer um dedo para mudar isso.
Deixando o quarto, ele não olhou para trás, não voltou a encará-la. Apenas disse que ela deveria estar pronta para, em alguns minutos, acompanhar o cortejo.
Hinata reservou aquele momento, o último momento de “paz” que provavelmente teria, para deixar cada pequena parte do seu corpo, sentir. Sentir o que fosse que estivesse presente na sua alma.
Quando o cortejo começou, ela se surpreendeu. A frente de todos, Naruto e os outros guardiões eram os responsáveis por carregar o caixão. E por toda a extensão do caminho, haviam homens, mulheres e crianças apinhados para esperar sua vez de seguir a caminhada. Ela não soube quanto tempo levou para entrarem no cemitério, não soube dizer em que parte exata a chuva começou. Tudo que ela se permitiu perceber, além do caixão da irmã, era aquela chuva pesada, gelada e absoluta. Não havia nem mesmo uma brisa, apenas aquela torrente forte que roubava o calor das pessoas ali presente, assim como enegrecia o céu e lhe tirava a luz.
Era até irônico, na hora em que a Vongola se despedia precocemente de sua Pioggia, a natureza parecia reproduzir com exatidão, os acontecimentos. Não havia nada no céu além de escuridão, da mesma forma que a tristeza abraçara o coração do Cielo.
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