Pecados
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Tsunade havia finalmente perdido a paciência. Após o tiro de festim disparado no escritório, a chefe médica da Vongola invadira o cômodo e ignorando a cara de surpresa de Naruto, levou para Hinata para a ala médica.
— Eu me lembro de você. – ela comentou enquanto a médica cuidava do ferimento a bala no ombro. – Quando eu acordei, eu vi você algumas vezes com o meu médico.
— Fui a mediadora do acordo que manteve a Akatsuki longe de você. Eu precisava ter certeza de que a sua memória realmente não voltaria. E também, fui eu a responsável pelas dezenas de cirurgias após o acidente. Para ser clara, sou contra o que Naruto está fazendo. Te trazer de volta para isso tudo. Sua vida seria bem melhor sem saber que um dia você matou duas pessoas que te amavam.
— Quem... Quem exatamente eles eram? Os pais de Naruto?
— Para você?
— Sim.
— Seu pai ficou muito mal quando sua mãe morreu. Sua mãe foi um caso raro na Vongola, ela não tinha a ver com nosso mundo, era apenas uma estudante de intercambio na Itália. Não sei os detalhes de como seus pais se conheceram, só sei que a sua mãe foi a primeira civil em séculos a se casar com um guardião. Na época seus pais eram duas crianças, mal tinham completado dezoito anos. Quando Hinami morreu para aquela doença, Hiashi ficou um bom tempo devastado. Você era pequena demais e sua irmã ainda um bebê. Minato e Kushina, por serem guardiões como Hiashi, se comprometeram a cuidar de vocês, como vocês seriam herdeiras igual a Naruto, seu pai não viu problema. Se não me engano, vocês moraram com eles por um ano. E mesmo depois de Hiashi se recuperar, Kushina continuou presente como uma mãe.
Após algumas horas, Hanabi tinha enfim, conseguido um tempo a sós com a irmã. E por mais pesado que o clima entre elas ainda estivesse, a jovem Pioggia não conseguia negar que sentira falta da irmã.
— Você parece estranhamente bem com tudo isso.
Por mais acabada fisicamente que Hinata estivesse, as costelas doíam, assim como grande parte do seu corpo, ela não conseguia negar que por mais trágica e triste que a história dela fosse, preencher parte daquele vazio sobre o seu passado parecia ter retirado um peso do tamanho do mundo de suas costas.
— Estou em parte, aliviada por ter descoberto um pouco do passado. “Bem” não é a palavra certa. Eu só não sei o que sentir. É tudo muito confuso. – ela encarou a irmã – E então, estou esperando a sua explicação.
Por mais difícil que fosse recontar todo o acontecido com ela, Hanabi o fez, palavra por palavra, descreveu tudo o que foi feito a ela por Sasori. Passara as últimas semanas pensando em como diria aquilo para a irmã e como se sentiria quando admitisse tudo aquilo para Hinata. Embora as feridas ainda estivessem ali, abertas e frescas, por vezes Hanabi não tinha tempo nem mesmo de pensar sobre isso, ocupar sua cabeça com os treinos e todo o compromisso com a Vongola ajudava a mantê-la distraída e longe dos seus medos. Momentos como aquele, no entanto, onde era obrigada a recriar aquelas memórias e se prender no sadismo de Sasori mais uma vez, traziam a ela novamente aquela fraqueza que tanto abominava.
Ela não escondeu nada da irmã, nenhum pensamento, nenhum ressentimento. Nem mesmo o mais profundo dos seus medos ficou intocado. Hanabi não queria nunca mais sentir-se fraca e impotente, fosse para se proteger ou para proteger alguém. Fossem os anos da infância que ainda a assombravam, fossem as horas com Sasori que jamais se apagariam da sua cabeça. Ela jamais seria incapaz novamente, não importa o que tivesse que sacrificar para isso.
— E se você tiver que matar alguém? Por que você vai acabar tendo que o fazer.
— Se isso tiver que acontecer, vai acontecer. Depois eu paro para pensar em como vou me sentir.
— Por Deus, Hanabi! Você está se ouvindo? Eu entendo que – ela fez uma pausa para pensar na palavra certa – todo o acontecido, tenha mexido com você. Mas daí a acreditar em tudo que Naruto diz? Vocês não são deuses, não são donos do mundo para decidir quem morre e quem vive!
— Então, eu devo confiar cegamente na “justiça?”, na lei? Na mesma polícia infestada de traidores, que por sinal foi quem te deixou nesse estado.
— Isso é diferente.
— Não é. A verdade minha irmã, sempre esteve ali, na cara de todo mundo. A diferença é que ninguém quer enxergar e admitir. O mundo é assim, as pessoas são assim. Desde os primórdios da história sempre existiram aqueles que só se importam com poder e dinheiro. Vai ser sempre assim, não importa. Essas pessoas não querem saber dos seus ideais, da sua justiça e da sua lei. Sabe, parte do meu treinamento, envolveu conhecer justamente esse lado do mundo, que sempre fica oculto em meio ao medo das pessoas em conhecer esses fatos. Você tem noção de quantas crianças mundo a fora são vendidas como escravas sexuais? Quantas pessoas são vendidas como contrabando e mortas para o mercado de órgãos? Sabe quantos milhões de pessoas mundo afora morrem de fome e vivem na total miséria para que seus governantes vivam no luxo?
— Então agora você é a justiceira que vai corrigir o mundo?
— Serei. – ela deu de ombros – Se a Vongola tem o poder para fazer isso, qual é o mal de usá-lo? Sabia que a família está ajudando, enquanto conversamos, com a transição de vários governos na África? Enquanto as pessoas ficam no seu pedestal de moralidade e pregam palavras de vergonha na internet, o homem que um dia você tanto amou, e que ainda ama, não tente esconder de mim, estava sujando as próprias mãos e usando todo esse poder para algo útil. Seis países Hinata. Milhões de pessoas que em pouco tempo, vão ter condições de ter uma vida melhor sem governos corruptos e milícias para oprimi-los.
— É para isso que servem as coalisões militares! É para isso que os países ajudam uns aos outros!
— Ora pelo amor! Você acha que se um pais com alto poderio militar, invadir um pais na África, ele vai poder simplesmente acabar com o problema e ajudar o lugar? Não. Ele não vai. Ele não pode simplesmente se infiltrar e acabar com a raiz do problema. Sabe por que? Por que os outros países vão acusa-lo de estar pensando em favorecimento próprio, por que os direitos humanos vão ataca-los de todos os lados pelas mortes. É por isso que ninguém se ajuda mais hoje em dia. É tanta hipocrisia para justificar o ato, por mais correto que ele seja, que ninguém quer o fazer. Semana passada eu acompanhei uma missão da Varia, como parte do meu treinamento, me levaram a um acampamento no extremo oriente. O lugar era usado por um grupo extremista como um local de diversão. Sabe o que havia lá? Dezenas de mulheres, de todas as idades, de todos os locais da Europa e da Ásia. Estudantes, mães de família, prostitutas, trabalhadoras. Todas sequestradas e presas para servirem de “exemplo”, quando na verdade, tudo que aqueles animais queriam era estuprar, matar e torturar. O mundo é assim Hinata! Não finja que não sabe. As pessoas usam a religião, usam sua posição pública, usam qualquer artifício possível para justificar seus gostos e perversões.
— Então eu posso entender que você está usando o artifício de fazer o bem, apenas para ter poder.
— Sim, pode. Não me importa. Eu também posso pensar que você e meu pai me exilaram para não ter que dividir o poder que tinham. Por isso, que não me importa o que você pensa ou o que o mundo pensa. Se as autoridades não têm coragem de fazer o mundo obedecer às leis que eles mesmos escreveram, bem, nós temos essa coragem. E temos o poder para isso.
— Eu te proíbo!
— Você me proíbe? – ela gargalhou – Já sou velha o suficiente para tomar minhas próprias decisões, Hinata. E mesmo que eu não fosse, você não é mais da Vongola. Não tem poder sobre mim.
— Então é assim que vai ser entre nós? Seremos inimigas de agora em diante?
— Eu não sou sua inimiga. Nunca vou ser sua inimiga. Mesmo tendo nossas diferenças, eu ainda daria minha vida pela sua, e não importa o que eu diga, ainda te amo tanto que incomoda. Você é minha irmã, e se o passado não mudou isso, não é a minha posição na Vongola que vai. No mais, você sabe que não pode voltar para a polícia. Danzou protocolou sua prisão, por mais que Naruto use sua influência para te manter longe de ser presa, aparecer diante da polícia agora é o mesmo que pedir para ser presa.
— Já cheguei a essa conclusão antes da sua epopeia.
Com um suspiro, Hanabi coçou a cabeça e após um minuto de silêncio, simplesmente andou até a cama onde a irmã estava, a abraçou por um longo tempo e como costumava fazer quando criança, deitou a cabeça no colo de Hinata.
— Hanabi, eu –
As palavras de Hinata cessaram quando ela finalmente entendeu que irmã havia simplesmente caído no choro.
— Seria realmente bom se você pudesse me apoiar. Não me restou nada, sabe? Não depois daquele homem. Eu perdi a força, Hina, perdi a vontade de viver. Eu não tenho memórias de uma infância feliz ou de uma família amorosa para me agarrar e usar como tapa buraco. Tudo que ainda tenho é essa raiva do mundo e a nossa relação. Eu me recuso a ser uma mulher impotente que não pode reagir, não quero isso. Não quero ser fraca, não quero perder a vontade de viver. Se eu vou encontrar forças matando uma, dez, cem pessoas para salvar uma ou um milhão de pessoas, eu vou fazer. É o caminho que você e meu pai tiraram de mim, e eu estou cansada de ter as pessoas tirando coisas de mim.
Vencida pelo momento, ela apenas acariciou os cabelos da irmã e mudou o assunto.
— Bom, o que acontece comigo agora? Parece que simplesmente deixar esse lugar não é uma opção.
— Eu não sei ao certo. Naruto não pode ser visto com você por enquanto, por isso que apenas os guardiões e figuras do alto comando estão aqui. A opinião geral da família ainda é muito importante. Primeiro ele terá que apresentar provas de que Madara quebrou o acordo primeiro, vai levar um tempo até reunir dados sobre Danzou. Provavelmente você vai ser levada para algum lugar.
— Você vai comigo?
— Não. Ainda não sou apta a ficar responsável pela segurança de alguém. Provavelmente você ficará com o próprio Naruto ou com algum guardião em um lugar neutro.
— Neutro?
— Onde nem a Vongola nem outra família ou organização mafiosa tenham efetivo.
— E ainda existe tal lugar?
— Atualmente só a Escócia e Noruega.
Como adiantado por Hanabi, pouco depois da conversa das irmãs, Naruto foi ao quarto de Hinata assim que a noite caiu e com uma conversa curta e um tanto quanto fria, disse que ela partiria, com ele, para a Escócia em poucas horas. Como ele deixara claro, ela não seria obrigada a ir, mas se recusasse, provavelmente seria presa e em pouco tempo, estaria em posse da Akatsuki.
Sem opções e com a cabeça quase explodindo em meio a tantas confusões e descobertas, tudo que restou a ela foi aceitar o pedido dele e concordar.
A viagem começou junto com a madrugada, um jato particular no aeroporto de Tokyo já esperava pelos dois e durante o embarque, ela ouviu, mesmo que escondida, os protestos de dois dos guardiões pela decisão dele. Já dentro do avião, ela esperou por ele entrar enquanto se distraia com o luxo e a aparência interna do veículo. Haviam poucas poltronas, todas extremamente confortáveis e reclináveis o suficiente para serem usadas como camas. Havia ainda um pequeno bar, um frigobar, uma pequena espécie de cozinha e um banheiro ao fundo.
O trajeto foi longo o suficiente para dar umas boas horas de sono a Hinata e ainda deixa-la acordada em meio ao silêncio mórbido entre eles no restante da viagem. Por mais que a cabeça dela ainda fervilha-se com perguntas a serem feitas, algo dizia a ela que era melhor deixar tudo para quando estivessem na Escócia.
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