Pecados

10 Capítulo 10


Notas iniciais
Boa leitura!

Quase uma semana havia passado desde o sequestro de Hanabi e todas os eventos posteriores. Graças a declaração de guerra da Akatsuki, Naruto havia revogado todas as autorizações para operações no Japão e espalhado as forças da Vongola ao redor de Uenohara. Apenas ele continuava em Tokyo, apenas esperava pelo tempo certo para Hanabi poder deixar oficialmente a casa de Hinata. Ele até pensava que levaria mais tempo para ela aceitar a decisão e confrontar a irmã, porém a recente e bem-vinda amizade dela com Sakura, que se recuperava bem, havia dado um pequeno ânimo a Hanabi. E até mesmo a própria Sakura.

Além disso, também foi preciso disfarçar os ferimentos da garota. Tirando o braço quebrado, todo o resto foi possível disfarçar.

Após um cansativo dia de trabalho, principalmente por Neji, que havia ficado na ativa no lugar de Naruto que precisara resolver um assunto urgente da Interpol, o fato é, a presença e as constantes reclamações dele conseguiam ser piores que as de Hanabi. Em condições normais ela discutiria com Neji, o criticaria por ele a tratar como uma criança que precisa de ajuda com tudo e evitaria a vergonha de ver seu primo agindo pior que a irmã mais nova. Mas após os últimos acontecimentos e a fama dela ficando cada vez pior, tudo que ela queria era se enfiar em um buraco e nunca mais sair de lá, quando seu horário de trabalho terminou, ela logo desapareceu no primeiro táxi que encontrou, dava graças a Deus por estar chegando em casa onde tinha certeza de ter pelo menos algum alento. Afinal aquele dia não poderia piorar. Poderia?

Quando ela abriu a porta do apartamento, percebeu que aquele dia seria definitivamente o pior de sua vida. Por um momento ela simplesmente parou sem entender o motivo das malas sobre o sofá, mas quando viu Hanabi saindo de seu quarto com uma mochila nas costas, ela entendeu tudo. Embora não quisesse admitir.

— Hana? Para que tudo isso? E o que aconteceu com o seu braço?!

Antes que as palavras escapassem e ela corresse até Hinata preocupada com a cara abatida e ainda mais cansada que o normal, Hanabi obrigou o próprio corpo a ficar parado e desviou o olhar para as malas.

— Eu sei que é repentino mais. Eu vou me mudar, uma amiga quer uma companheira de quarto para dividir o aluguel, eu já até consegui um emprego. – ela deu um sorriso trêmulo.

Em um curto espaço de tempo, os pensamentos de Hinata fervilharam em uma mistura perigosa de sentimentos e palavras não ditas. Mas usando toda a força que ainda restava nela, simplesmente deu um sorriso, segurou as lágrimas e abriu caminho para que a irmã passasse. No momento em que Hanabi percebeu que deixaria o apartamento sem uma conversa, uma discussão ou um simples abraço, o arrependimento veio de imediato, mas sua decisão já estava tomada. Não voltaria atrás.

Com as malas na mão, ela deixou o apartamento e pronunciou um quase inaudível “Adeus” enquanto seus passos iam em direção ao elevador. Mas tudo desabou quando ouviu a porta fechar, as lágrimas vieram e na mesma hora seu coração gritou em protesto, por que estava tomando aquela decisão? Por que abandonaria Hinata justo agora que tinha a família que tanto sonhou?

Dentro do apartamento, o mundo de Hinata parou por um instante e antes que a força faltasse nas pernas, ela encostou na porta e deixou que o corpo deslizasse em direção ao chão. As lágrimas vieram, pesadas e carregadas com um pesar absurdo. Era um sentimento antigo, que vinha de antes do acidente. Um que ela nunca entendeu e muito menos conseguiu evitar. Que inútil ela era, incapaz de entender os sentimentos da irmã, incapaz de estar presente. Incapaz de ser a família que a caçula sempre desejou. Desde o momento em que entendeu que Hanabi e ela não eram próximas, a solidão nos olhos da garota finalmente ganhou uma explicação, mas aquele sentimento pesado e intenso nunca desaparecia de Hanabi, não importando o quão perto ela estivesse, o quão juntas estivessem.

E agora, a partir do momento em que ela deixou aquele apartamento, a verdade veio nua e crua para Hinata, nada seria como antes.

Os últimos dias haviam esgotado totalmente a psique de Naruto. Lidar com toda a pressão que a Vongola recebia era demais para um líder tão novo como ele. Delegar a organização e estratégia para possíveis combates, a Jiraya e Orochimaru foi sua melhor decisão. Assim como ele, os dois sabiam que dificilmente a Akatsuki atacaria abertamente, ela faria ataques cirúrgicos e programados para maximizar os danos na família. Isso obrigava transmitir a cada um dos homens da Vongola e da Varia, que a própria segurança deles era o mais importante. E o pior, ele havia ficado longe de Hinata desde o sequestro de Hanabi. Por mais que ficar longe dela o deixasse concentrado no seu dever como Cielo, a ausência dela o desestabilizava de uma forma que ele não conseguia entender. Tudo que fizera em relação a ela nos últimos dias foram algumas mensagens e rápidas ligações.

Agora, a pedido dela, ele dirigia até o apartamento dela. Observando tudo ao seu redor enquanto esperava o semáforo ficar verde, ele percebia o quão doentia sua mente tinha ficado e todo aquele sangue imaginário levava a apenas uma pergunta: por que? Por que uma parte sua queria tanto quebrá-la? Para que ele pudesse concertá-la e tê-la de volta ao seu lado? Ou pelo simples prazer de causar nela, parte da dor que causou nele mesmo quando abriu mão da própria vida e liberdade para que ela fosse livre, para que ela vivesse?

Então como ele se sentiria quando chegasse no apartamento dela? Como seria ao ver Hinata quebrada? A resposta estava logo ali, no prédio em frente. Com passos rápidos ele passou pela portaria e logo o elevador permitiu que seus passos o levassem para aquela porta. Foi preciso apenas duas batidas e uma breve conferida pelo olho mágico da porta para que ele ouvisse o clique das fechaduras destrancado, mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela despencou em seu colo, sem palavras, apenas soluços e lágrimas.

O arrependimento veio forte, implacável, assim como aquela felicidade doentia que tentava ganhar espaço em meio a culpa. Ele escutava uma parte da sua mente gritando e gargalhando, tentando convencer aquele tolo coração de que ela merecia aquela dor, cada parte dela. Foi difícil separar tudo, foi difícil manter a lucidez e não ceder aquela loucura latente que veio junto com o anel do céu, mas além disso, foi difícil ficar inteiro enquanto ela se desmanchava em um choro sincero, como uma criança que acabou de perder o melhor amigo. Tendo cuidado com o ombro dela, que insistia em não se recuperar totalmente graças as estripulias dela, Naruto a levantou e devagar, deixou-a no sofá.

Depois, com um gesto firme, segurou o rosto dela e encarou os olhos perolados, já vermelhos e inchados.

Havia de tudo um pouco por de trás daqueles olhos, muita raiva, diversos ressentimentos, dor e principalmente, perguntas. Perguntas tantas vezes repetidas que pareciam ter sido gravadas a ferro, perguntas cujas respostas, Naruto possuía a maioria. Não era preciso ler mentes ou nada parecido, ele conhecia Hinata tão bem que chegava a ser estranho o quão pouco ela mudara nesses longos anos.

— Você me disse na mensagem que Hanabi havia partido. Ela disse algo?

— Nada demais. Apenas pegou as coisas dela e foi embora.

Sob o olhar de Naruto, ela levantou, foi até a cozinha e após remexer algumas das portas do armário, finalmente achou a garrafa de vinho que procurava, separou duas taças e após um curto trabalho com a rolha, tentou encher as taças. Só então ela percebeu que estava tão nervosa que sua mão não parava de tremer, derramando vinho pelo balcão. A reação veio rápida e um tanto quanto inesperada, pegando Naruto de surpresa quando ele ouviu a garrafa voar pela cozinha e se espatifar na porta da geladeira. Passada a raiva com o vinho, ela apenas sentou no chão da cozinha e voltou a chorar enquanto ele se aproximava.

Com um afago e uma rápida checada para ter certeza que ela não tinha se cortado durante o curto acesso, logo ele seguiu para a curta dispensa no corredor e pegou algumas coisas para limpar aquela bagunça. Em silêncio, ele começou a juntar os cacos da garrafa e das taças.

— Sabe por que eu nunca te falo sobre o acidente? Sobre essa minha vida com tão poucas memórias? Acordar foi a pior sensação que eu tive. Lá atrás, sabe? Nos primeiros minutos era tudo um silêncio agoniante na cabeça, depois vieram as perguntas, onde estou? Quem sou? O que faço aqui? Essas coisas. Na época eu ainda tinha muitas sequelas do acidente, andar era difícil e o meu raciocínio demorava para acompanhar as coisas, era como se meu cérebro estivesse procurando onde foram parar as memórias dos dezessete anos que eu perdi, toda a minha referência de vida. A medida que os dias foram passando, os médicos esperaram minha mente estar razoavelmente estável para deixar Hanabi me ver, eles tinham medo da amnésia ser temporária e que ver minha irmã pudesse me colocar em choque pelo stress que o cérebro sofreria. Embora eu tenha ficado em silêncio sobre essas situações durante aquele tempo, eu implorava mentalmente para que pudesse ver ela e que minhas memórias voltassem. Mas quando nos encontramos e nada aconteceu, foi horrível.

Ela fez uma pausa quando viu que uma taça com suco era balançada na sua frente, ele já havia limpado tudo e estava sentado ao lado dela no chão da cozinha.

— Você está tomando remédios não está? Então nada de álcool hoje.

— Acho que nada na minha vida vai ser pior do que aqueles dias. – continuou ela após dar um sorriso e beber um pouco do suco – Era insuportável olhar para Hanabi e não lembrar nada. Ver uma notícia na televisão e não ter a mínima ideia do que aquilo significava... Depois de alguns dias eu comecei a fazer fisioterapia para recuperar os movimentos do corpo, além de passar por uma bateria de exames toda semana. Com o tempo as coisas foram ficando mais fáceis lá dentro. O problema veio quando recebi alta, quando vim para o Japão e Hanabi começou a me falar da nossa família, de como nossa mãe morreu cedo e nosso pai veio a falecer no acidente de carro que quase me matou também. Saber dessas coisas trouxe sentimentos antigos e eu não sabia lidar com eles. Um psiquiatra da época me disse que eu passaria por muitas situações como aquela, impressões de coisas e pessoas, como se o cérebro esquecesse as memórias, mas não as sensações que elas trouxeram. É como se eu estivesse diante de uma porta segurando um chaveiro com milhões de chaves e por mais que eu sinta qual é a chave correta, eu nunca vou conseguir encontrá-la de fato. Por vezes isso acontece quando o assunto é Hanabi, eu sei de poucas coisas, sei que fui uma péssima irmã para ela. Mas as vezes eu quase sufoco de preocupação com essa garota.

— Ela tem apenas vinte anos, Hinata. Uma hora ou outra algo assim ia acontecer, mas como você já disse, ela tem a cabeça boa, confie um pouco nas decisões dela e dê um pouco de espaço. Sei que está difícil para você e até entendo o seu lado, por mais que você esteja preocupada com ela, também está aterrorizada por estar sozinha. – ela olhou surpresa para ele – Não precisa de tanto espanto, você é fácil de ler e qualquer pessoa nessa situação também sentiria esses medos.

Apesar das palavras de Naruto e dos gestos dele, ainda estava tudo lá. O orgulho ferido por falhar em seu trabalho, a única coisa em que se considerava boa. A raiva de si mesma por ser fraca. Mais o que havia se espalhado como uma erva daninha era o ressentimento. Ressentimento por não saber conviver com a irmã, por não ser a família que ela sempre sonhou. Ressentimento por nem mesmo saber o motivo exato da partida de Hanabi.

— Devo mesmo ter sido a pior pessoa do mundo no passado.

— Você está apenas se martirizando com tudo, você não pode controlar tudo, Hinata. Não pode controlar os pensamentos de sua irmã, ou os sentimentos dela. Além disso, passado é passado, não dá para mudar.

— Você não tem arrependimentos, Naruto? Decisões que mudaria se fosse possível?

— Se eu não tenho arrependimentos? Meu passado é composto de arrependimentos e decisões equivocadas, e embora eu pense em mudar grande parte delas, acabaria fazendo tudo novamente se tivesse a chance.

— Por que?

— Não sei, acho que no final, eu sentiria falta dessas lembranças.

Aquela era apenas uma meia verdade, afinal todas as perguntas dela seriam respondidas se ele quisesse. Poderia recitar tudo que sabia dela, quem ela era no passado, seus gostos, suas paixões. Poderia listar as comidas que ela gosta e as que odeia, suas cores favoritas, seus medos. E poderia também contar cada uma daquelas lembranças que ficavam cada vez mais vívidas na memória dele, os dias na isolada Highlands escocesa. Poderia recriar todo aquele itinerário que continuou por Londres, Liverpool, Barcelona, Madrid, Mallorca, Paris e Marselha. Por muito pouco ele não revelou tudo, contou todos os segredos e desabafou todos aqueles velhos ressentimentos. Qual seria a atitude dela ao saber de tudo aquilo? O que ela faria ao saber que o homem ao seu lado, é o assassino por de trás de milhares de mortes mundo afora, que ele é o Cielo de la Famiglia Vongola?

Ele calou seus pensamentos ao puxar Hinata para seu colo e selou aquele silêncio com o beijo mais provocante que conseguiu produzir, fazendo aqueles pensamentos perderem a importância.

— Acho que depois dessa choradeira toda, você deve estar doido para desaparecer, não é? – ela deu um sorriso inseguro.

— Eu geralmente gosto de pessoas complicadas. Qual a graça do simples?

Por algumas horas, aquele sorriso, aqueles olhos azuis e os beijos de Naruto foram suficientes para fazê-la esquecer as coisas. Ela já tinha percebido antes que ele tinha essa influência estranha sobre ela, sentia que poderia despejar qualquer coisa sobre ele e que mesmo assim, receberia aquele sorriso caloroso outra vez. É verdade que mal conhecia Naruto, o pouco que sabia vinha das conversas com ele e das coisas que encontrou pela internet, mas a cada beijo ela se perdia mais e mais em um sentimento estranho, sentia seu coração acelerar pelas coisas pequenas, as vezes um sorriso ou um olhar era o suficiente para fazer coração martelar o peito. Assim como sentia uma falta absurda e dolorosa quando não estava com ele.

Seria esse sentimento, o amor do qual tanto se fala?

Notas finais
Desculpem pela demora em responder aos reviews, só poderei fazer isso agora, semana foi cheia. No mais, até quarta como capítulo 11!