Peaceland
1 Ato Único
Notas iniciais
Os palavrões do início são atribuídos às personalidades fortes dos personagens que as pronunciam.
1 EXT. CEMITÉRIO PEACELAND, NOITE 1
[Scott está sentado sobre um dos túmulos. O personagem é um zumbi infantil, aparentemente 8 anos se fosse humano. Ouve-se conversa ao redor, mas Scott permanece sentado segurando um pequeno objeto. É uma foto velha e amassada que apresenta uma menina sorridente de cabelos castanhos, curtos e cacheados, usando uniforme escolar antigo. Ouve-se um barulho próximo a Scott. Ele olha para a origem do som e esconde a foto sob ele, deixando uma ponta aparente. O zumbi Ryan aparece. Ele aparenta ser um adolescente, se aproxima de Scott.]
RYAN (rindo) – Scott, amigão, como vai?
SCOTT – [Suspiro] Como sempre, Ryan. Nós não mudamos nunca.
RYAN – Nós não precisamos. Você está sumido, o que está acontecendo, hein?
SCOTT – Não é nada.
Scott desvia o olhar para o outro lado. Ryan olha para onde a ponta aparente da foto se encontra. Ele a pega rapidamente e Scott tenta pegar de volta, sem obter sucesso.
SCOTT (Gritando) – Ryan! Me devolve isso! É meu!
RYAN – Não acredito que está assim por causa de uma humana!
SCOTT – E o que você tem a ver com isso?
RYAN – Eu só quero te ajudar, parceiro. Esquece essa menina! Vem cá, vem. [Se aproxima de Scott e pega-o pelo braço. Conduz Scott para um ponto atrás da tumba, onde outros quatro zumbis adolescentes conversam]
VINI – Quem é esse?
RYAN – É meu amigão Scott. Ele tá com problema.
LUCA – Que é que tá pegando? Pode falar pra gente, irmãozinho!
SCOTT (nervoso) – Falar? Eu não tenho nada pra falar.
CARL – Claro que tem! Conta pra gente. Você morreu de quê?
[Scott dá um passo atrás. Os zumbis se entreolham]
HARRY – Acho que ele não quer falar.
VINI – Pode crer. Deve ser desses que não gosta de falar do passado.
RYAN – Não gosta, mas vive nele. [Ryan dobra a foto e guarda em seu bolso, e os outros não notam]
LUCA – Pode falar, irmãozinho. Ninguém aqui guarda rancor, não. Apesar de ter feito muita merda na curta vida. Eu, por exemplo, morri de Aids.
VINI – Cirrose!
CARL – Overdose!
HARRY – Câncer no pulmão! De tanto fumar!
RYAN – Briga de rua. Por causa de droga, sabe?
VINI – E você, irmão? Se meteu com o quê?
SCOTT – Não me meti com nenhuma dessas coisas.
CARL – Mas você é tão pequeno! Tem cara de que se meteu.
SCOTT – Não me meti com nada!
HARRY – E morreu de quê?
SCOTT (pós-pausa) – Tuberculose.
HARRY (pós-pausa) – Ao menos não tem do que se arrepender.
SCOTT – Como assim?
RYAN – Fizemos muita coisa ruim em nossas vidas, Scott. Fumamos, bebemos, nos drogamos, nos envolvemos com pessoas erradas. E por isso morremos. Foi uma escolha nossa. Já você, não teve culpa do que te aconteceu.
CARL – Quantos anos você tinha?
SCOTT – Nove. Escutem, mesmo que eu não me arrependa de ter causado minha morte, arrependo-me de outras coisas. É difícil morrer sem se arrepender de algo que não foi feito.
LUCA – Do que se arrepende, Scott?
SCOTT – São coisas meio... pessoais.
VINI – Já dissemos, irmão, pode se abrir com a gente.
SCOTT – Eu prefiro manter isso comigo.
RYAN – Ele provavelmente se arrepende de não ter fodido a garota dos sonhos dele.
[Scott se enconlhe]
HARRY – Ryan! Para de falar merda, caralho! O menino tinha nove anos! Não dê ouvidos ao Ryan, Scott. Ele é um babaca.
SCOTT – Tá tudo bem.
RYAN – É isso aí. Meu amigão Scott não liga pra isso. Ele sabe que eu estou só brincando, apesar de ter uma foto bem interessante.
VINI – Que foto?
SCOTT – Ryan, não ouse! Isso é meu!
[Ryan tira a foto do bolso e a ergue no ar]
RYAN (debochando) – Você quer? Vem pegar!
[Scott pula várias vezes para tentar pegar a foto, sem conseguir. Os outros tentam não rir, mas acabam rindo].
RYAN – Que tal pedir com educação pro seu amigão Ryan, hein?
SCOTT – Me dá essa droga antes que eu te mate de novo, idiota!
[Ryan semicerra os olhos].
RYAN – Me chamou de quê? [Ryan empurra Scott e rasga a foto em duas partes e joga no chão. Scott grita e começa a chorar] Isso é pra você aprender a me respeitar! Eu sou autoridade nesse cemitério, ouviu? E saia daqui antes que eu perca a paciência! Anda!
[Scott sai correndo com aparente desespero]
HARRY – Ryan! Por que fez isso? Ele tava chorando, cara!
RYAN – Deixa ele chorar, igual um bebê! É isso que ele é! Da próxima vez que encontrarem esse garoto, quero que deixem claro quem manda em Peaceland! Agora vamos, eu tô cheio de fome!
Todos – Cérebros!
2 EXT. RUA DA CIDADE – PRÓXIMO À CASA DE MARISA 2
[Scott corre pela rua, chorando. Ele parece desnorteado e procura algum lugar para onde possa correr. De repente, para e observa uma casa grande e iluminada no fim da rua. Ele anda devagar até lá, e para em frente ao portão de grades douradas. A casa tem um jardim bem cuidado e cercado por um muro alto de chapisco. Próxima à casa está uma árvore grande com um balanço. Scott hesita por alguns instantes, e finalmente respira e escala o portão. Quando ele pula para o outro lado, parte de seu braço fica pendurada na parte superior da parede. Ele demora alguns segundos resgatando o pedaço e recolocando-o no lugar. Com passos cuidadosos, ele segue para perto da casa. Passa a observar o que acontece na casa pelas janelas. A primeira retrata um escritório, onde um homem parece ocupado. Scott observa por alguns segundos com curiosidade]
GEORGE (Gritando) – Marisa! (Com mais intensidade) Marisa!
[Pouco depois, uma mulher entra na sala. A expressão de Scott se torna emocionada. A mulher tem os cabelos presos e usa um vestido rosa-bebê. Se parece com a menina da foto]
MARISA – Francamente, George, você não tem paciência?
GEORGE – Eu tenho coisas mais importantes para me preocupar do que com minha paciência. Onde estão os contratos de ontem?
[Impaciente, Marisa caminha para um arquivo e pega um maço de papéis dentro de uma gaveta]
MARISA – Você está cansado de saber. Sempre os guardo aqui.
[Marisa joga o maço sobre a mesa e George ergue os olhos]
GEORGE – O que há com você, mulher?
MARISA – Eu é que pergunto. Você não vem jantar?
GEORGE – Tenho prioridades aqui.
MARISA – Faz três noites que você não janta direito.
GEORGE – Eu não me incomodo. Não tenho fome.
MARISA – As crianças estão preocupadas. E eu também.
GEORGE – Com o quê? Com o fato de que não vou ter tudo pronto amanhã?
MARISA – Com o fato de que o pai está se ausentando. George, nós precisamos de você.
GEORGE – Hoje não dá, Marisa. Não consegue compreender? Sei que estou deixando vocês de lado, mas é necessário. Ao menos por enquanto. Diga às crianças para não se preocuparem. Logo estarei livre para lidar melhor com eles.
MARISA (Caminhando para a porta) – Você é quem sabe. Não me culpe se as crianças odiarem o pai daqui a algum tempo.
[Marisa sai e fecha a porta. Do lado de fora, Scott sorri]
SCOTT (Sussurrando) – Marisa e seu jeitinho. Continua linda. E ela... Tem filhos. Uau.
[Scott vai para a outra janela, pertencente ao cômodo para onde Marisa passou. É uma sala de jantar, onde dois meninos e uma menina correm. A menina é exatamente igual à da foto]
MARISA – Andy! Sam! Lyz! Parem de correr, por favor! Vamos jantar.
[Rapidamente, as crianças se sentam em suas cadeiras.]
ANDY – Cadê o papai?
MARISA – O papai não jantará conosco hoje. Amanhã, talvez. [As crianças se entreolham, entristecidas] Crianças, preciso que entendam o papai. Ele está trabalhando muito.
LIZ – Tudo bem, mãe. Nós sabemos disso.
MARISA – Então vamos orar aO Senhor. Liz, nos dá essa honra?
[Liz assente. Todos fecham os olhos e cruzam as mãos sobre a mesa]
LIZ – Senhor, abençõe nosso alimento. Obrigada por ajudar a mamãe a preparar essa mesa farta. Que ela sempre esteja cheia. Senhor, abençõe a mamãe, o papai, o Andy e o Sam. Que sejamos felizes. E por favor, Senhor, ajude o papai a acabar logo o trabalho. Amém.
MARISA, ANDY, SAM – Amém.
[Scott observa a família jantar com expressão feliz. Instantes depois, Liz olha para a janela, na direção de Scott]
LIZ – Um menino na janela, mãe.
[Rápido, Scott se abaixa e se espreme contra a parede. Todos olham para a janela vazia]
LIZ – Estava ali agora mesmo.
MARISA – Que curioso! Vamos procurar de manhã, está bem?
[Scott inclina a cabeça, como se estivesse tentando ouvir alguma coisa]
SAM – Mãe, o papai não jantou conosco... Mas ele vai com a gente na festa amanhã, não vai?
[Marisa encara Sam]
MARISA – Espero que sim, querido. Vou falar com ele. Afinal, não é uma festa qualquer, é o casamento da tia Estela.
ANDY – A tia Estela é tão legal! Estou muito feliz que ela vai casar, ainda mais com tio Rudolf.
MARISA – Sim. Todos nós estamos.
SAM – Será uma festa linda. A mais linda que a Igreja Eastglory já teve.
LIZ – Mamãe, terminei. Posso olhar a janela?
MARISA – Quer achar seu amigo? Pode sim, querida.
[Liz desce da cadeira. Abaixado, Scott se esgueira de volta para o portão da frente e o escala. Em seguida, anda pelo caminho de onde veio.]
SCOTT – Estela... Nossa, era só um bebê. Já vai casar. [Ele olha para trás] Igreja Eastglory. Isso pode ser interessante.
3 INT. IGREJA EASTGLORY, NOITE SEGUINTE 3
PADRE – E pelo poder em mim investido, eu os declaro marido e esposa. Pode beijar a noiva.
[O casal que está se casando se beija, e todas as pessoas na Igreja aplaudem. Os noivos saem da Igreja, seguidos pelos padrinhos e outros convidados. A festa acontece do lado de fora, o jardim é bem iluminado por várias lâmpadas. Uma orquestra toca e as crianças começam a correr. Liz, Sam e Andy juntam-se à correria]
MENINA – Está com você, Andy!
ANDY – Ai, que saco! Vamos logo com isso. [Andy se vira para a parede externa da Igreja e esconde o rosto] Um, dois, três...
[As crianças correm]
MULHER – Onde está George, Marisa?
MARISA – Infelizmente ele não pôde vir. Estava ocupado com o trabalho.
MULHER – Entendo.
[Scott está atrás de algumas árvores que cercam o jardim. Ele sorri ao observar as crianças correrem. Seu sorriso se fecha. Liz corre para onde ele está. Com desespero, Scott se esconde alguns metros à direita. Liz penetra nas árvores, e Scott a perde de vista. Scott observa enquanto Andy procura pelas outras crianças e encontra Sam debaixo de uma mesa. Ouve-se um pequeno grito abafado, na voz de Liz. Scott vira-se para o ponto onde a menina entrou nas árvores e corre para lá. Ele retira algumas folhas do caminho, e aparece em uma clareira. Ryan segura Liz, prendendo seus braços e sua boca. Liz chora e se contorce]
RYAN – Temos algo bom para jantar!
[Vini, Carl, Harry e Luca aparecem por entre as árvores]
VINI – Que delícia!
HARRY – Vocês tẽm certeza? Ela é só uma criança!
CARL – Harry, defensor das criancinhas oprimidas! Vai ficar comendo cérebro de cachorro morto, igual àquele manteiga derretida do Scott?
HARRY – Vamos acabar logo com isso.
[Scott sai do esconderijo]
SCOTT (Gritando) – Parem! Deixem-na em paz!
LUCA – Falando nele, olha quem aparece!
RYAN – Eu disse pra você não me atrapalhar mais, idiota! Você conhece essa menina, é? Porque ela é igualzinha a uma foto que eu rasguei ontem.
SCOTT – Não ouse atacá-la, Ryan. Meta-se com gente do seu tamanho.
RYAN – Me meto com quem se mete comigo! Agora que eu sei o quanto essa fedelha é importante pra você, fico muito mais feliz em comer esse cérebrozinho! Bom, talvez não só o cérebro.
[Ryan ri. Carl, Vini e Luca o acompanham]
SCOTT – Você não sabe com quem está se metendo, meu amigo. É sua última chance.
RYAN – Última chance pra você meter o pé!
SCOTT – Você é quem sabe.
[Scott dá um passo para ir até Ryan]
RYAN – Se der mais um passo, é o fim dela.
[Scott hesita]
SCOTT – Por que quer fazer isso? Por que não a deixa em paz?
RYAN – Primeiro, porque eu estou com fome. Segundo, porque eu não esqueci o que você fez ontem. E a melhor maneira de te atingir é essa. Agora, se me dá licença...
[Ryan abre a boca para morder Liz. Liz usa a perna direita para chutar a virilha de Ryan. Ele grita, se contorce e cai no chão, soltando Liz. Ela começa a chutar Ryan no chão. Os outros zumbis ficam boquiabertos]
SCOTT – Igualzinha à mãe.
[Scott pega um galho grande no chão e acerta Vini, que estava ao seu lado, distraído. Vini cai no chão, e Scott o acerta outra vez. Scott anda até Luca]
LUCA – Vai encarar, é?
[Luca desfere um soco em Scott. Ele cai no chão. Luca pega o galho e o levanta para acertar Scott. Harry acerta outro galho na cabeça de Luca, que cai. Harry estende a mão para Scott e o levanta]
SCOTT – Obrigado, Harry.
HARRY – Tava mais que te devendo essa.
[Liz continua chutando Ryan com muita raiva, embora o zumbi já tenha morrido]
SCOTT – Liz. Liz! [Ele anda até a garota e a segura pelo braço] Já chega, Liz, ele está morto.
[Liz se vira para Scott. Após alguns segundos, o abraça, chorando]
LIZ – Obrigada, Scott. Muito obrigada. Eu não teria conseguido sozinha.
SCOTT – Você... Você sabe meu nome?
[Liz solta Scott e enxuga uma lágrima]
LIZ – Claro que sei. Minha mãe sempre falou de você. Ela nos mostrou fotos de quando ela era pequena, essas coisas.
SCOTT – Marisa se lembra de mim?
LIZ – Diz que você é o melhor amigo que ela já teve. Ontem à noite, eu... Bem, contei a ela que te vi. Claro que ela não acreditou.
SCOTT – O que ela falou sobre mim?
LIZ – Ela contou sobre a amizade de vocês. As brincadeiras. O beijo no natal. E contou sobre sua doença. Disse que, se não fosse por ela, você seria meu pai.
[Scott fica sem reação por alguns segundos]
SCOTT – Ela disse isso?
LIZ – Sim.
SCOTT – O que você e seus irmãos acham disso?
LIZ – Bom, embora eu ame meu pai, acho que seria legal. Talvez fosse nos desse mais atenção que ele, sabe?
SCOTT – Eu não largaria vocês por nenhum minuto. Marisa foi... Muito especial para mim.
LIZ – Sei disso. E ela também sabe. Mas... Quanto a mim?
SCOTT – Você é uma menina incrível, Liz. Igualzinha à sua mãe.
HARRY – Gente, sem querer interromper, mas... Temos um problema.
[Liz e Scott se viram para Harry]
SCOTT – O que foi, Harry?
HARRY – Senhorita... Eu sinto muito, mas... Eu acho que você foi mordida.
[Liz levanta a mão esquerda, que tem uma mordida bem no dorso e já começa a apodrecer]
SCOTT – Ah, não... Não, não, não, não, não! Droga! Quando foi isso, Liz?
LIZ – No começo. Quando ele... Me puxou. Acho que ele queria garantir que eu não sairia... Ilesa.
SCOTT – Droga... O que vamos fazer?
HARRY – Venham comigo.
LIZ – Para onde?
HARRY – Peaceland. Temos que amputar isso. Rápido.
4 EXT. CEMITÉRIO PEACELAND, NOITE 4
[Harry, Scott e Liz correm para dentro do cemitério e passam entre os túmulos de pedra. Harry para em frente a um deles]
HARRY – Aqui. [Harry usa uma pequena pedra para bater como se batesse em uma porta] Doutor Muylaert?
[A tampa do túmulo se move, dando espaço para que o Doutor Muylaert suba]
MUYLAERT – Harry. A que devo a honra?
HARRY – Um pequeno probleminha.
[Harry aponta para Liz. Muylaert fica chocado]
MUYLAERT – Uma humana em Peaceland? A essa hora?
SCOTT – É uma emergência. Ryan a mordeu. Temos que amputar.
MUYLAERT – Deixe-me ver isso. [Liz estende a mão mordida. Muylaert a examina] Na mão, demora a apodrecer. Mas vai ser logo, logo. Filha, vai ter que perder essa mãozinha.
[Muylaert volta para o túmulo e pega uma caixa branca e vermelha. Liz se vira para Scott]
LIZ – Não há outro jeito?
SCOTT – Não. Se deixarmos apodrecer, você vira zumbi.
HARRY – A maioria das pessoas teria medo de nós. Você não, Liz?
LIZ – Nem um pouco. Gosto de vocês, desde que não queiram comer meu cérebro.
MUYLAERT – Não é o que pretendemos. Ande, filha, deite aqui.
[Liz deita sobre o túmulo. Muylaert prepara para a operação. Do outro lado, Scott permanece junto a Liz. Harry está perto dele]
SCOTT – Tem ideia do que vai dizer à sua mãe?
[Liz balança a cabeça negativamente]
LIZ – Eu tenho medo, Scott. Eu não quero isso. Não quero ficar sem braço.
[Uma lágrima escorre pelo rosto de Liz. Scott a enxuga com a mão, e faz carinho no rosto dela]
SCOTT – É necessário.
LIZ – Não é não. Você sabe que não.
SCOTT – Pare. Não considere essa possibilidade.
HARRY – Scott, deixe que ela se decida. Se é o que ela prefere...
SCOTT – Ai, ai, Liz... Você só pode ser maluca para preferir virar zumbi.
[Com a mão livre, Liz segura a mão de Scott que está sobre seu rosto]
LIZ – Ah, Scott... Eu vou virar zumbi de qualquer jeito. No fim das contas, serei um zumbi sem braço. Não vejo por que não adiantar isso.
SCOTT – Simples. Você tem família. Tem tanto pra viver...
LIZ – Não me importo. No fim das contas, serão apenas lembranças.
SCOTT – Liz, aqui é tão chato. Não há nada para fazer, não há aventuras.
LIZ – Podemos ter aventuras. Eu e você. Aposto que comigo aqui, você não ficará tão sozinho.
[Scott sorri]
SCOTT – Obrigado pela preocupação. Mas eu morri na sua idade, e não pretendo deixar que você faça isso tendo outra opção.
LIZ – É o que eu quero, Scott. É a minha escolha.
SCOTT – Vai se arrepender de tê-la feito.
MUYLAERT – Posso começar?
[Muylaert segura uma pequena serra, pronta para começar a cortar o braço anestesiado de Liz. Scott o encara]
SCOTT – Não. Obrigado pela boa vontade, doutor. Mas Liz tomou outra decisão.
MUYLAERT – Mesmo? Então bem-vinda ao...
HARRY – Ainda não. Liz, você não está completa. Tem chance de se despedir de sua família.
[Liz olha para Scott]
LIZ – Venha comigo.
SCOTT – O quê?
LIZ – Venha comigo ver a minha mãe.
SCOTT – Não, Liz, eu não posso.
LIZ – Ela é boa com segredos. É sua última chance de vê-la pela última vez.
[Scott olha para Harry, que dá de ombros. Em seguida, olha novamente para Liz]
SCOTT – Você é mesmo igual a ela. Teimosa. Corajosa. E muito linda.
[Liz sorri]
LIZ – Vamos?
[Scott revira os olhos]
SCOTT – Vamos.
5 EXT. IGREJA EASTGLORY, NOITE 5
MARISA – Onde esteve, menina? E que luva é essa?
LIZ – Não posso explicar aqui. Venha comigo, rápido.
[Liz conduz Marisa para a frente da Igreja, onde não há ninguém]
LIZ – Não vou fazer rodeios.
[Liz tira a luva. Marisa se espanta]
MARISA – Pelo amor de Deus, Liz, o que é isso?
LIZ – É complicado. Eu fui atacada por zumbis, e eles me morderam. Estou me transformando agora.
MARISA – De novo essa história de zumbi?
LIZ – Quer prova melhor do que minha mão apodrecendo? Eu estou dizendo a verdade.
MARISA – Isso... É impossível.
LIZ — Eu vim me despedir de você. Estou indo para o cemitério. Você não pode contar isso a ninguém.
MARISA – Filha... Ah, céus, por quê?
LIZ – Mãe, pare de se lamentar, por favor. Eu vou voltar e me despedir de Andy e Sam. Mas não direi a eles. E você também não. Eu sei que é muito para entender agora, mas... Tenho que ser rápida. Logo, essa luva não será suficiente. Você me entende, mãe?
MARISA – Eu.. Entendo. Embora seja difícil.
LIZ – Isso é ótimo. Enquanto eu me despeço deles, alguém deseja ver você.
MARISA – Alguém quer me ver? Quer dizer... Alguém como você?
LIZ – Alguém como o que vou me tornar. Acho que é fácil de deduzir. Ele está te esperando lá dentro.
[Liz aponta para a Igreja. Marisa abraça Liz e vai até a porta entreaberta. Scott está de costas no altar. Marisa anda com passos lentos até ele]
MARISA – Scott?
[Scott se vira, segurando uma flor do cemitério. Ele sorri, Marisa corresponde]
SCOTT – Há quanto tempo, minha menina.
[Scott desce os degraus. Marisa anda mais um pouco]
MARISA – É você mesmo?
SCOTT – Sim. Desculpe-me por tê-la abandonado.
MARISA – Não foi culpa sua. Eu nunca o culpei por nada.
[Eles chegam perto um do outro. Scott entrega a flor, e Marisa aceita]
MARISA – Passei tanto tempo pensando no que diria se pudesse. E agora nem sei o que dizer.
SCOTT – Mas eu sei. Eu nunca deixei de te amar, minha querida. Mas você seguiu em frente com sua vida. E agora, tem três filhos lindos.
MARISA – Me desculpe.
SCOTT – Não se desculpe. Você agiu como deveria agir. É assim que as coisas funcionam.
MARISA – Eu segui minha vida, mas nunca te esqueci, Scott.
SCOTT – Eu sei disso. Eu sei. A morte separou nossos caminhos. Mas eles partiram do mesmo ponto. Somos eternamente ligados um ao outro, apesar de tudo.
MARISA – Isso.
SCOTT – Queria ter tempo para conversar mais, meu anjo. Mas tenho que ir agora. Adeus.
[Scott passa por Marisa]
MARISA – Scott.
[Ele para]
SCOTT – O que foi?
MARISA – O que houve com Liz?
SCOTT – Ela foi atacada. Eu a ajudei a escapar.
MARISA – Obrigada.
[Scott sorri]
SCOTT – Eu é que agradeço.
MARISA – Pelo quê?
SCOTT (Andando) – Por tudo que vivemos. [Pausa. Scott chega na porta] Até breve, Marisa.
MARISA – Até.
6 EXT. CEMITÉRIO PEACELAND, NOITE 6
SCOTT – Agora sim. Senhorita Liz, bem-vinda ao Cemitério Peaceland.
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