Peace
1 Peace
Notas iniciais
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Ela não havia planejado aquilo. Não havia sequer imaginado que poderia acontecer. Deveria ser algo rápido, descompromissado, puramente físico. Fleur Delacour gostava bastante de flertar, de encantar, de se entreter. E por que não deveria gostar? Era linda e jovem e tinha o direito de se divertir. Se os corações continuavam a quebrar por onde passava, como se um rastro de destruição a seguisse, não era realmente culpa da garota. Fleur, afinal, não era o tipo de pessoa adepta a falsas esperanças ou a mentiras. Pelo contrário, sua sinceridade cortante estava sempre lhe causando problemas. De uma forma ou de outra, ela sempre fora honesta com todos com quem se envolveu, nunca fez promessas que não pretendia cumprir e jamais falou sobre amor. Se os rapazes eram tolos o bastante para se apaixonar, bom, esse era um problema inteiramente deles.
Talvez essa opinião soasse fria e cruel, no entanto, era tudo o que a moça poderia oferecer se quisesse sobreviver. Era fácil ser transformada na vilã da história, quando se era uma mulher. Ainda assim, nenhum daqueles garotos era inocente ou digno de qualquer lamento. Fleur havia aprendido, há muito tempo, que homens sempre iriam querer algo dela. Iriam querê-la. Não por sua personalidade, sua inteligência, seu talento em feitiços, ou qualquer qualidade intrínseca a sua persona, mas por sua beleza. Pelo sangue veela que queimava em suas veias. A desejavam como desejariam um objeto. Algo belo e precioso que poderia ser admirado, tocado, manuseado, porém que não deveria ter qualquer individualidade ou opinião. Para eles, ela era apenas uma coisa que deveria ser usada e possuída.
Fleur sabia de tudo isso desde que era apenas uma criança, quando os olhares começaram e o medo também. A noção de que a qualquer instante alguém poderia tentar forçá-la a dar algo que ela não desejava dar. A certeza que o perigo a rondava e de que jamais estaria segura. A sensação constante de ser a caça em um festim sangrento. Então, foi obrigada a se tornar uma caçadora.
Sendo assim, não, Fleur Delacour não sentia pena ou nutria qualquer simpatia pela galeria de rapazes que alegavam ter tido seus corações destruídos por ela. Que bradavam para o mundo sobre sua vilania ou crueldade. Que achavam que tinham qualquer direito sobre ela ou sobre seu corpo. Que cuspiam em escárnio quando ela passava e a chamavam de vadia ou vagabunda. Não tinha espaço em seu coração para empatia por quem a destruiria sem hesitar. Não era tão evoluída.
Tudo isso, é claro, não queria dizer que se privaria de atender aos seus próprios desejos ou de alguma diversão com alguém bonito e descartável. Aquele era um jogo que duas pessoas poderiam jogar, afinal. E era justamente isso o que pretendia fazer quando Bill Weasley entrou em sua vida. Ele havia atraído a atenção da garota no instante em que se viram pela primeira vez, ainda no Torneio Tribruxo. Era alto, musculoso, ruivo, dono de incríveis olhos azuis e parecia ter acabado de sair de um show de rock. Havia algo nele que gritava rebeldia e que instigara a rebelde silenciosa que habitava a Delacour. Ela sabia que a recíproca era verdadeira. Tinha bastante consciência de sua beleza avassaladora e detestava falsa modéstia.
A terceira tarefa do Torneio, contudo, estava prestes a começar e não havia tempo para distrações ruivas. Dessa forma, a jovem apenas desviou os olhos do rapaz e se concentrou no que precisava ser feito, deixando um aviso mental de “depois” para si mesma. Depois ela poderia ir à caça. O “depois”, no entanto, precisou ser adiado, após os eventos trágicos daquela noite. Fleur foi atacada no labirinto. Cedric Diggory foi assassinado. O Lorde das Trevas retornou. O mundo parecia ter desabado e nada mais seria capaz de ocupar a mente da menina.
Bill Weasley foi, então, varrido para o esquecimento e só voltou a cruzar os pensamentos da moça, meses depois, quando entrou em sua vida pela segunda vez. Embora fosse mais adequado dizer que, daquela vez, fora Fleur a entrar na vida dele. Afinal, era ela a estrangeira, se mudando para Londres e conseguindo um emprego no Gringotes, local onde ele já trabalhava. Ficou genuinamente surpresa ao reencontrar o rapaz, que despertara sua atenção há tantos meses, mas não de forma negativa. Definitivamente não. Além disso, a notícia de que ele ficaria responsável por ajudá-la a aperfeiçoar seu inglês lhe soara bastante interessante. Se fora uma decisão dos superiores ou um pedido do homem, Fleur não saberia dizer. E, sendo honesta, tão pouco se importava.
Não era difícil deduzir o que aconteceu depois. Garota conhece garoto. Ambos se sentem mutuamente atraídos. Por alguma circunstância do acaso, os dois precisam passar longos períodos de tempo juntos. Sozinhos. Em um lugar com portas e fechaduras. Sim, eles transaram. Muito. E sim, foi bom. Muito bom. A moça não tinha problema nenhum em admitir que o sexo viera antes de qualquer outra coisa. O desejo os levara um ao outro. Exatamente como deveria ser. Exatamente como ela havia aprendido que seria. O único problema foi que as coisas não acabaram ali.
Havia algo diferente em Bill Weasley. Algo que a inquietava, assustava e exasperava. O homem nunca parecia satisfeito apenas com sexo. Queria conversar, queria abraçá-la, queria adormecer ao seu lado após tudo estar acabado. Bill lhe sorria com “bom dias” e lhe trazia cafés. Fazia perguntas sobre sua rotina, seus sonhos, suas opiniões políticas, sua família. Nunca se contentava com respostas superficiais e, mesmo que as conversas deles se equilibrassem de forma frágil entre o inglês e o francês, Fleur sentia que nunca havia tido diálogos tão profundos com nenhuma outra pessoa. O rapaz também lhe contava sobre a própria vida, os próprios sonhos, a própria família. Falava sobre tudo com paixão e calor. Tudo sobre ele crepitava. Seus cabelos, seus sorrisos, suas sardas, sua empolgação, seu coração. Havia fogo nas veias daquele homem, porém, não do tipo que queimava. Fogo que aquecia. E Fleur, tão acostumada ao frio, à indiferença, a sofisticação gelada, sentia-se derreter sempre que ele estava por perto.
Bill Weasley lhe puxava cadeiras, lhe oferecia casacos, lhe levava para jantar. Lhe apresentava partes de Londres nas quais ela jamais imaginara pisar. Ouvia tudo o que a francesa tinha a dizer com atenção, como se de fato se importasse com cada uma de suas opiniões. Lhe ensinava sobre verbos, adjetivos e pronomes. Fazia uma parte dela desejar que o “eu” se tornasse “nós”. Fazia com que ela desejasse amaldiçoá-lo. Aquilo tudo era enervante. Desesperador. A confundia, dava nós em seu cérebro, estilhaçava todas as suas certezas. Não era assim que homens deveriam se comportar. Não era assim que ela deveria se sentir. Não era assim que as coisas deveriam ser.
Sem saber como reagir e sentindo um pânico inexplicável dominá-la, a francesa fez a única coisa que julgou possível: passou a ignorar o Weasley. Fugia dele sempre que possível, o punia com longos silêncios, o evitava deliberadamente, se comportava como uma perfeita geleira sempre que não havia escapatória a não ser interagir com ele. Uma parte dela a dizia que era uma grande cretina por isso, mas, bom, ela de fato era uma grande cretina. Aquele circo de horrores durou por uma semana inteira, até Bill finalmente perder a paciência e a confrontar, pouco antes de seu horário de almoço, em uma quarta-feira cinzenta.
— Fleur, posso falar com você? — ele perguntou, enquanto se posicionava em frente a porta, obstruindo a única rota de fuga.
— Agora não é um bom momento, Weasley. — ela afirmou, evitando encará-lo nos olhos. Sempre fora muito boa em ignorar pessoas. Em mostrar indiferença, superioridade, arrogância. Às vezes o comportamento lhe vinha de forma espontânea, como se fizesse parte de sua natureza erguer o nariz e se mostrar superior. Se fosse honesta, admitiria que passava boa parte de seu tempo se sentindo superior a, no mínimo, 60% das pessoas com quem interagia. Mas não com Bill. Nunca com Bill. Ignorá-lo doía e ela não imaginava um dia em que conseguiria se sentir melhor do que ele.
— Weasley? — o homem questionou, arqueando uma sobrancelha. Sua voz atingindo um tom seco.
Haviam passado da fase dos sobrenomes há semanas. Não fazia muito sentido permanecer formal, quando se via a pessoa nua quase todas as noites. E às vezes durante o dia também. Chamá-lo daquela forma o havia atingido, Fleur conseguia perceber. Bill, no entanto, apenas suspirou, levando as mãos às têmporas.
— Eu fiz algo que te machucou? — ele perguntou. Fleur o olhou chocada. Havia um misto de pesar e preocupação genuínos nos olhos dele.
Aquele homem era absurdo e estava realmente tentando enlouquecê-la! Ela poderia socá-lo. Poderia azará-lo. Poderia matá-lo.
— Você… você...você — encontrar palavras para explicar o que Bill fazia com ela já seria difícil em sua língua materna, em um idioma emprestado tudo se tornava ainda mais complicado. Como traduzir duplamente aqueles sentimentos? — Você está me enlouquecendo, William!
— Eu estou te enlouquecendo, Fleur? E o que você acha que está fazendo comigo? — o rapaz desabafou, passando as mãos pelos longos cabelos ruivos.
— Eu não sei o que você quer de mim! — os dois disseram ao mesmo tempo.
Trocaram um olhar assustado. Fleur mal se atrevia a respirar. Estavam em um daqueles momentos que mudavam tudo, ela podia sentir. Bill, por sua vez, não se deixou intimidar, ele raramente se deixava intimidar.
— O que eu quero de você? Eu quero você, Fleur. Isso é tudo o que eu quero. — havia tanta convicção na voz dele que a mulher sentiu as pernas ficarem bambas.
O coração dela acelerou em seu peito e a moça se deu conta de que ser desejada por Bill Weasley era algo que ela queria mais do que tudo. Se deu conta, não sem surpresa, de que também o queria. Talvez até mais do que isso. No entanto, ela ainda era Fleur Delacour e confiar completamente em um homem ia contra tudo o que lhe fora ensinado. Contra todos os seus instintos.
— Por quê? — perguntou, erguendo o queixo e forçando a voz a sair firme.
— Por quê? — Bill parecia bastante chocado. Dessa vez ela não se deixou abalar.
— Porque você me quer, William?
O ruivo riu, como se fosse uma pergunta absurda e a francesa se preparou para ouvi-lo dizer sobre como era linda. No fim, era sempre sobre isso. Ela era linda e ele queria possuir a dona daquela beleza, como possuiria uma boneca de porcelana. Aquela era uma história antiga, uma história com a qual já estava bastante acostumada.
— Porque você é brilhante. Uma das pessoas mais inteligentes e esforçadas que conheço. Porque é ambiciosa e corre atrás do que deseja. Porque é sempre sincera, mesmo que isso a coloque em problemas. Porque tem um senso de humor tão único que eu nunca encontraria outra pessoa capaz de fazer as piadas que você faz. Porque você é corajosa, audaciosa e impertinente. Porque quando fala sobre a França e Beauxbatons me apresenta um mundo inteiro que eu nunca conheci. E porque quando fala sobre sua família, especialmente sua irmã, há tanto amor que é impossível não ficar tocado. E porque você está me enlouquecendo, mas eu já nem me importo com isso. Precisa que eu continue?
Não precisava. Aquilo era suficiente. Era mais do que suficiente e Fleur queria apenas se jogar nos braços dele. Ainda assim, seu lado racional continuava a contê-la. Continuava a criar dúvidas em sua cabeça. Continuava gritando que havia algo errado ali, que havia algum tipo de armadilha, que ela acabaria se machucando e que a melhor opção seria fugir.
— E porque eu sou linda, não?
Bill sorriu de uma forma levemente maliciosa.
— Isso você já sabe. E é algo óbvio demais para uma pessoa tão pouco óbvia.
Fleur não conseguiu não sorrir. Que Merlin a ajudasse, porque aquele homem seria seu fim!
— Mas foi isso que te atraiu quando me conheceu, não foi? — ela já nem sabia o motivo de estar insistindo tanto. Uma vida de medo e decepções, talvez.
Ele deu de ombros.
— Você ficou encantada pela minha personalidade maravilhosa no instante em que nos conhecemos?
— Touché. — a moça admitiu sorrindo. Quando o conheceu, a única coisa que lhe importou foi o fato de que era um homem muito – muito! – atraente.
— Olha, eu não vou mentir para você. — o Weasley continuou — Sim, Fleur, eu te achei a mulher mais linda do mundo, quando te conheci. E sim, foi por isso que desejei me aproximar. E então eu te conheci de verdade e foi por isso que não quis me afastar. Que não quero me afastar. Essa é a verdade e é isso o que eu quero. O que você quer?
Ele. Estava totalmente perdida e um tanto apavorada, mas essa era a realidade. Fleur Delacour queria William Weasley e estava cansada de fugir desse fato. Talvez ele partisse o coração dela. Talvez ela partisse o coração dele. Mas, apesar de tudo o que poderia dar errado, a garota queria conhecer o desfecho daquela história. Pela primeira vez na vida, estava disposta a arriscar seu coração.
— Eu quero que você feche essa porta e me beije.
E foi o que ele fez.
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“Nosso amadurecimento chegou e se foi
De repente, neste verão, está claro
Eu nunca tive a coragem de minhas convicções
Enquanto o perigo estiver próximo
E ele está logo na esquina, querido
Porque ele vive em mim
Não, eu nunca poderia te dar paz”
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Havia meses que Fleur Delacour não conseguia dormir uma noite inteira. Desde o fim do Torneio Tribruxo, seu sono vinha difícil e sempre esbarrava em pesadelos terríveis. Pesadelos que costumavam envolver o labirinto ou os olhos de Cedric Diggory a encarando sem vida. Às vezes ela amaldiçoava o dia em que colocara seu nome naquele cálice estúpido. Às vezes se sentia absurdamente triste por tudo o que acontecera ali, por alguém tão jovem como Cedric estar morto, por alguém tão jovem como Harry ter vivido tudo o que viveu. Às vezes era consumida pela raiva, por ter tido suas chances de vencer e alcançar a “glória eterna” tão obviamente sabotadas. Às vezes era atingida por todas essas emoções ao mesmo tempo. Sentimentos eram complicados e pareciam sempre escolher a noite, quando toda a luz se escondia e as trevas reinavam, para se misturar como um redemoinho dentro da francesa, afugentando seu sono ou o torturando quando ousava aparecer.
As noites, no entanto, eram melhores quando Bill ficava com ela. Não era algo que acontecia sempre. Ele tinha sua própria vida, afinal. Uma família, amigos, trabalho, outras obrigações que o impediam de adormecer ao lado de Fleur todos os dias. Ou até mesmo de estar com ela todos os dias. A mulher entendia. Além disso, era bastante orgulhosa para pedir que ele ficasse, quando essa não era a intenção. Mesmo que esse fosse o desejo de seu coração. Mesmo que esse fosse constantemente o desejo de seu coração. Ela sempre queria que ele ficasse e isso a assustava um pouco. Estar apaixonada ainda era algo novo e intimidante para a meio-veela, porém, inegavelmente maravilhoso.
De uma forma ou de outra, suas madrugadas eram mais fáceis, quando Bill estava com ela. Não era como se o homem fizesse qualquer coisa extraordinária. Na maioria das vezes, apenas lhe fazia uma xícara de chá e se sentava ao seu lado, em frente a grande janela do quarto – Fleur havia adquirido um pânico profundo de lugares fechados após a terceira tarefa do Torneio Tribruxo –, conversando sobre qualquer coisa ou sobre nada. Ou então a confortava após um de seus pesadelos, a acolhendo em seus braços e acariciando seus cabelos. Ele nunca se queixava de ser despertado ou de permanecer acordado por longas horas por causa dela. Nunca parecia sequer incomodado. Fleur o adorava um pouco mais por isso.
Ainda assim, também se sentia culpada por retirar a paz das noites dele, por lhe causar tormento, por impedir que prosperasse na terra dos sonhos. Era egoísta demais, contudo, para não se agarrar a presença do ruivo, porque com William Weasley, ela finalmente se sentia segura e isso lhe era algo precioso e raro demais para que abrir mão fosse sequer uma opção.
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Havia algo triste na forma como a neve caia e pintava as ruas de branco. Algo belo, porém inegavelmente melancólico. Ou talvez fosse apenas Fleur que estivesse se sentindo inegavelmente melancólica. Era dezembro, o natal se aproximava e ela sentia falta de sua família como sentiria falta de um órgão vital. Não ajudava o fato de Londres ser tão sem graça e enfumaçada, quando comparada a toda glória parisiense. Não era como se a moça quisesse passar todo seu tempo comparando a Inglaterra com a França, entretanto, era algo que fazia instintivamente, principalmente quando a saudade de casa se tornava forte demais.
Às vezes, Fleur precisava lembrar a si mesma de que escolhera estar ali. Melhorar seu inglês lhe traria mais oportunidades. Além disso, sempre houvera uma parte dela – rebelde e inquieta – que queria voar, conhecer o mundo, ir para longe de seu mundo brilhante e perfeito. Poderia ter escolhido outro lugar, é claro, mas tudo o que vivera no Torneio Tribruxo, especialmente em seus últimos instantes, lhe dizia que precisava ser a Inglaterra. Havia algo grande acontecendo na Grã-Bretanha e, por mais que tentasse, ela não conseguia ignorar.
Até mesmo em Beauxbatons, eles haviam estudado os efeitos devastadores da ascensão do Lorde das Trevas. Como alguém de sangue mestiço – veelas poderiam ser lindas, contudo, nunca foram totalmente apreciadas pelos bruxos, que em vários momentos da história haviam tentando controlá-las ou exterminá-las – , Fleur não conseguia não sentir um misto de comoção e revolta com tudo o que aprendera. Ademais, Harry Potter havia salvado sua irmã e a moça se sentia em dívida com ele desde então. Havia ainda Cedric Diggory, alguém de quem ela gostara, um bom rapaz, um bom amigo. Alguém que não merecia o destino que tivera e que merecia menos ainda que sua morte fosse esquecida ou que não significasse nada. Fleur Delacour estava longe de ser a melhor pessoa do mundo e tinha bastante consciência desse fato, entretanto, também não era o tipo de pessoa que conseguiria permanecer impassível diante da ascensão do fascismo e do genocídio de milhares. Por mais difícil que fosse, estava exatamente onde deveria estar.
Sendo assim, ela apenas apertou o casaco contra o corpo e se dirigiu ao Gringotes. Tivera uma manhã bastante agitada, sendo obrigada a andar de um lado para outro, seguindo duendes mal humorados e passando todo o tempo contando os segundos para se encontrar com Bill, na hora do almoço. No entanto, pouco antes do meio dia, quando finalmente conseguiu se sentar em sua pequena mesa, percebeu um envelope com seu nome. Era a letra do namorado. Ainda era estranho usar aquela palavra para se referir a alguém. Namorado. Quase sorriu com o pensamento. O conteúdo do breve bilhete, porém, não era feliz. O pai do Weasley havia sido atacado por uma cobra na madrugada anterior e estava no St. Mungus. Fleur sentiu seu coração se contrair imediatamente, não conhecia o pai do rapaz, mas conseguia imaginar como ele deveria estar desesperado. Família era algo importante para Bill e isso era uma das coisas que Fleur mais gostava sobre ele.
Sendo assim, e sem pensar muito, pegou sua bolsa e avisou que estava indo almoçar, agradecendo por seu emprego ser apenas de meio período. Aparatou no St. Mungus, sem saber muito bem o que estava fazendo. Sabia apenas que Bill precisava dela e isso lhe bastava. Levou o que pareceu uma eternidade para conseguir se localizar no hospital e encontrar o namorado. Tudo dentro dela estilhaçou, quando teve um vislumbre dos cabelos ruivos dele. O jovem parecia derrotado. Encostado a uma pilastra, sozinho, os ombros caídos. Ela caminhou até ele decidida, incapaz de deixá-lo só por mais um segundo que fosse.
— William. — chamou da forma mais delicada que conseguiu.
Ele se virou para ela, parecendo surpreso, mas não disse uma palavra. Em um segundo já estavam emaranhados. Sequer seriam capazes de dizer quem iniciara o abraço, tão pouco importava. Fleur não saberia dizer por quanto tempo ficaram assim. O tempo que foi necessário, supunha.
— Você está bem? — a moça perguntou, assim que se separaram.
Ele acenou com a cabeça.
— E o seu pai?
— Ele vai ficar bem. — afirmou com um suspiro aliviado. O medo, no entanto, ainda queimava em seus olhos azuis. — Ele vai ficar bem. — repetiu como se precisasse de uma confirmação, alguma garantia.
Fleur entrelaçou as mãos as dele. Não sabia muito bem o que fazer. Não sabia muito bem o que dizer. Não era boa em consolar pessoas. Se por algo intrínseco a sua natureza ou apenas pela falta de prática, não saberia dizer. O fato era que nunca tentara consolar alguém, além da irmã. Jamais tivera aquele tipo de instinto. Jamais se importara. E isso era injusto, porque Bill era sempre fora muito bom em consolá-la.
— Vai ficar tudo bem. — escolheu dizer alguma obviedade, porque parecia melhor do que nada.
O rapaz sorriu para a namorada.
— Obrigado por estar aqui.
— Sempre. — ela respondeu, se surpreendendo com quanta sinceridade colocara naquelas palavras.
Em pouco tempo, Fleur foi deixada a parte do que acontecera na madrugada anterior. Não fosse por Harry Potter, era provável que Arthur Weasley estivesse morto. Mas não estava. Graças a Merlin, não estava! Era isso o que importava. O homem estava com a esposa agora, enquanto o filho mais velho lhes dava alguma privacidade e tentava finalmente processar toda a situação. A maior parte dos irmãos ainda estava em Hogwarts, aguardando a possibilidade de ir para casa. Charlie, o filho que morava na Romênia, fora avisado e estava procurando um método rápido de voltar para a Inglaterra. E havia Percy. Esse, de toda forma, Fleur já descobrira que era um complicado, para dizer o mínimo.
Sendo assim, toda a responsabilidade caía nos ombros de Bill. De um modo ou de outro, seria o que iria acontecer, ele era o mais velho, afinal. Fleur se propôs, então, a ajudar da maneira que pudesse. Os pedidos do ruivo incluíam basicamente resolver coisas fora do St Mungus, para que pudesse continuar ali com os pais. Fleur concordou, se sentindo um tanto aliviada por não ter que conhecer nenhum dos parentes do Weasley naquele momento. Um hospital não era um lugar adequado para ser apresentada a família de seu namorado. Além disso, se fosse honesta, a ideia a apavorava um pouco. Ainda não estava pronta para isso.
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“Mas eu sou fogo e vou manter seu coração frágil quente
Se sua tristeza em forma de cascatas e ondas do oceano vier
Todas essas pessoas pensam que o amor é para se mostrar
Mas eu morreria por você em segredo
O diabo está nos detalhes, mas você tem um amiga em mim
Seria isso suficiente se eu nunca pudesse te dar paz?”
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Fleur adorava as sardas de Bill. Adorava deixar seus dedos vagarem por elas, as contando e agrupando mentalmente como se fossem pequenas estrelas formando constelações. Adorava também perceber como sua pele muito pálida contrastava com a pele queimada de sol e sardenta dele. Adorava especialmente os momentos em que estavam assim: deitados em uma cama, pele contra pele. Os últimos dias haviam sido difíceis, mas tudo parecia estar finalmente se acalmando. O pai de Bill havia saído do hospital e iria ficar bem, os irmãos haviam chegado. Exceto por Percy, que parecia realmente disposto a romper seus laços familiares, mas isso era um problema para outro dia. Era quase natal e os dois estavam emaranhados um ao outro. E, ainda assim, havia algo errado. A mulher conseguia perceber.
— Qual o problema, William? — ela indagou, enquanto seus dedos se prendiam a um franzido de preocupação que se formava na testa do rapaz.
Ele fechou os olhos e respirou fundo.
— Acho que você deveria voltar para a França.
Fleur se desvencilhou dele imediatamente, se sentando na cama e sentindo a indignação nascendo em seu peito.
— Você acha o que? — perguntou, não porque não houvesse entendido o que ele havia dito na primeira vez, mas porque o estava dando uma chance de repensar suas palavras.
— Que você deveria voltar para a França. — ele repetiu, abrindo os olhos. O azul turvo de tristeza.
— Você quer que eu vá embora? — ela questionou, reunindo todo seu autocontrole para não agredir aquele homem.
— Não, é claro que não quero que você vá embora, Fleur. — ela ergueu uma sobrancelha de forma inquisitiva — Só acho que será melhor para você, se for embora.
— Melhor para mim? — a mulher riu sem humor.
Bill também se sentou.
— Fleur — o rapaz disse o nome dela com tanto pesar que a fez se arrepiar — As coisas não vão melhorar por aqui, na verdade, vão piorar muito. Essa semana foi apenas um pequeno aperitivo do que nos aguarda. Apesar do que o Profeta Diário e o Ministério da Magia insistem em dizer, Harry está falando a verdade. Você-Sabe-Quem realmente retornou.
— Eu sei! — ela respondeu irritada, podia ouvir seu sotaque se tornando ainda mais forte — Acredito em Harry, você sabe muito bem disso.
— O que estou dizendo é que tudo vai ficar pior e mais perigoso. Seria melhor se você voltasse para a França. Mais seguro.
Havia um lado de Fleur que conseguia entender que Bill estava preocupado com ela, que tinha medo que se ferisse. Conseguia compreender também que o homem havia estado muito perto de perder o pai e que aquilo o deixara em pânico e fizera perceber que a ascensão do Lorde das Trevas era algo muito mais real e próximo do que poderia supor. Havia uma diferença entre saber que algo estava acontecendo e sentir isso realmente te atingindo. Ainda assim, Fleur ainda era Fleur. O que, em outras palavras, queria dizer: uma mulher incapaz de conter a própria ira. Talvez fosse o sangue veela que fizesse seu interior se incendiar com tamanha intensidade. Talvez fosse apenas sua personalidade. A única coisa que importava era que naquele momento ela estava irritada. Muito irritada.
— Você não decide o que é melhor para mim, William! — esbravejou.
— Eu não… — ele tentou argumentar, mas foi interrompido.
— Eu não terminei! — a francesa praticamente gritou — Quem você pensa que é para falar sobre o que é melhor ou mais seguro para mim? Não sou uma criança, não sou uma idiota, não sou alguém sem condições de tomar as próprias decisões. Eu sei o que está acontecendo aqui e estou escolhendo fazer parte disso. Se os acontecimentos dessa semana fizeram algo por mim, foi aumentarem a minha certeza de que estou onde tenho que estar. Quero me tornar parte da Ordem da Fênix, não fugir para casa e me esconder como uma covarde. — a voz dela aumentava a cada palavra — Que tipo de mulher você pensa que eu sou, William? Porque se acha que sou do tipo que ignora a ascensão de um regime fascista, que prega o genocídio de milhares, ou que abandona pessoas, que me ajudaram e salvaram a vida da minha irmã, em um momento de necessidade, você está muito enganado! Eu tomo minhas decisões, eu escolho o que fazer com a minha vida. Isso não é algo que cabe a você ou a homem nenhum. Estamos entendidos?
Bill anuiu com a cabeça, ela continuou.
— Ótimo! Porque é assim que as coisas são e assim que serão. E talvez eu me machuque no processo ou coisa pior, mas é um preço que estou disposta a pagar, porque não conseguiria viver comigo mesma, se me comportasse como uma fraca e fingisse que não há nada acontecendo.
— Fleur… — ele tentou novamente, mas a mulher ainda não havia terminado seu monólogo e sequer o ouviu.
— Eu também tenho medo de que você se machuque, William. Tenho tanto medo que às vezes é difícil respirar. Também fico assustada, porque nunca imaginei que seria capaz de me preocupar tanto com alguém que não fosse da minha família. Há uma parte de mim que adoraria implorar para que você fugisse e esquecesse tudo isso. Talvez para que voltasse para o Egito e para uma vida relativamente segura, quebrando maldições em pirâmides. Mas, lá no fundo, eu sei que não estaria com você, se você fosse o tipo de homem capaz de fazer isso. Se não fosse tão corajoso, tão idealista e tão disposto a fazer o certo. Eu quero ser corajosa também, não me peça para ser outra coisa.
Bill a encarou em completo silêncio, por um tempo longo demais. Fleur torceu as mãos de forma inquieta.
— Pelo amor de Merlin, William, diga alguma coisa! — implorou, por fim.
— Eu amo você. — ele disse de forma simples, mas com uma intensidade inegável.
Fleur já havia ouvido incontáveis juras de amor, porém nenhuma como aquela. Tão direta e tão inquestionavelmente verdadeira. Aquilo a atingiu por inteiro e trouxe lágrimas aos seus olhos. Lágrimas que ela se recusou a deixar que caíssem. Ser amada – realmente amada – romanticamente ainda era uma ideia nova para a moça, contudo, uma ideia que parecia cada vez melhor. Ainda mais em tempos tão sombrios. Principalmente porque ela sabia, há algum tempo, que o que sentia por Bill Weasley também era amor. Então, sorriu.
— Ótimo, porque eu também amo você.
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Não demorou muito para que Fleur Delacour e Bill Weasley percebessem que não queriam ficar longe um do outro. A cada dia tudo parecia pior e mais sombrio, o futuro era incerto e os dois eram jovens e estavam loucamente apaixonados. Não havia tempo para hesitação, para pensar duas vezes, para adiar decisões importantes. Eles se amavam e sabiam que pertenciam um ao outro de todas as formas possíveis. Queriam enfrentar o fim do mundo juntos e queriam fazê-lo como marido e esposa. Então, em uma noite estrelada e um pouco fria, Bill Weasley, se ajoelhou, tirou um anel do bolso e pediu Fleur Delacour em casamento. E sem pensar por um único segundo, ela aceitou.
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Fleur Delacour era muitas coisas, mas não era estúpida. Essa, no entanto, era uma opinião irritante que as pessoas adoravam cultivar a seu respeito. A família de Bill, por exemplo, parecia bastante inclinada a acreditar que ela era a mais idiota das criaturas. Eles não gostavam dela, isso era bem óbvio. Bom, pelo menos as mulheres da família não gostavam. O pai do rapaz parecia não ter uma opinião formada a seu respeito, embora sempre a tratasse com bastante cordialidade. Os gêmeos adoravam fazer brincadeiras, porém, a moça não sabia se deveria se sentir ofendida, já que pareciam fazer o mesmo com todos que estivessem ao seu entorno. Ron mal conseguia dividir um cômodo com ela por dois minutos. E os outros irmãos ainda não lhe haviam sido apresentados. Molly e Ginny, contudo, a odiavam. Não era um exagero, as duas não pareciam capazes de tolerá-la e não faziam qualquer questão de esconder esse fato.
Bom, não eram exatamente hostis quando Bill estava por perto, é claro, mas o desagrado estava sempre evidente em seus rostos e se intensificava quando as três estavam sozinhas. Ou pior, quando mãe e filha achavam que estavam sozinhas. Fleur não era estúpida e também não tinha qualquer problema de audição, sendo assim, conseguia ouvir e compreender muito bem quando estavam falando mal dela pelos cantos. O que acontecia com bastante frequência. A barreira linguística nem sempre permitia que entendesse o que a ofensa significava, entretanto, ela inquestionavelmente entendia que era uma ofensa. Fazia questão de guardar as palavras consigo, apenas para consultá-las em um dicionário, na primeira oportunidade. A pior e mais constante certamente era “fleuma”. Muco. A francesa sentira vontade de azarar aquela pequena pirralha ruiva pelo apelido tão absurdamente engenhoso. Havia inteligência naquilo, o que apenas irritava a meio-veela ainda mais. Talvez houvesse azarado a garota, se a pirralha ruiva em questão não fosse a irmãzinha querida de seu noivo.
Fleur sabia que não era fácil e que tinha uma personalidade “complicada”. Em alguns momentos até tentava suavizar o próprio comportamento, em uma tentativa vã de não desagradar as mulheres. Ainda assim, nunca fora muito boa em fingir o que quer que fosse. A honestidade seria eternamente o seu pecado mortal, e não via muito propósito em dissimulações. Se você precisava atuar para que gostassem de você, então essas pessoas não gostavam realmente de você e podiam ir para o inferno. De fato, a moça não teria problema algum com o desgosto de Molly e Ginny – seriam apenas mais dois nomes numa lista bem grande de seres humanos que a detestavam – , se elas não fossem membros da família de Bill. E membros que ele amava.
Fleur podia até não ter muita experiência com relacionamentos, mas sabia que iniciar um casamento tendo uma péssima relação com a sogra e a cunhada, não era algo promissor. Além disso, sentia que tinha o direito de se indignar diante ao tratamento recebido e a visão horrível que as mulheres tinham dela. Especialmente diante ao fato de que duvidavam, de forma muito aberta, do amor que sentia por Bill. Que direito tinham elas de questionarem seus sentimentos? Não era certo e Fleur não conseguia não se preocupar com o efeito que isso teria em seu possível casamento. E se William acabasse dando ouvidos à sua família e percebendo que ela era, de fato, complicada demais para que valesse a pena? O simples pensamento era suficiente para estilhaçar o coração da francesa.
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“Sua integridade me faz parecer pequena
Você pinta paisagens de sonhos na parede
Eu falo merda com meus amigos,
É como se eu estivesse desperdiçando sua honra”
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Tudo na vida tinha limites e Molly Weasley havia cruzado todos os limites do aceitável e acabado com toda a paciência de Fleur Delacour. A moça entrou no quarto de Bill como um furacão, recebendo um olhar assustado do rapaz.
— O que aconteceu? — ele indagou, ainda surpreso.
Fleur poderia entrar em combustão espontânea. Fazia tempo que não sentia tanta raiva.
— O que aconteceu? Você estava naquele jantar? A sua mãe está claramente tentando fazer você se apaixonar por Nymphadora Tonks!
O ruivo suspirou e levou as mãos às têmporas. Ele também já estava cansado daquela guerra passivo-agressiva que se desenrolava n’A Toca. Não era aquilo que esperava, quando resolveu apresentar a noiva à família. Queria que todos se dessem bem. Que se unissem e se protegessem naquele momento difícil. Definitivamente não fora esse o resultado obtido.
— Eu não estou interessado na Tonks, Fleur. Sempre fomos apenas amigos.
— É claro que você não está interessado nela, esse não é o ponto, William! — Fleur quase gritou, enquanto os cabelos prateados dançavam por suas costas.
— Ela também não está interessada em mim.
A moça o olhou como se ele fosse um idiota.
— Eu sei que não, ela está apaixonada pelo senhor Lupin!
— Pelo Remus? — Bill parecia um tanto chocado com a revelação — A Tonks está apaixonada pelo Remus?
Fleur revirou os olhos. Os sentimentos de Nymphadora Tonks por Remus Lupin eram tão óbvios que ela não conseguia entender como as pessoas podiam não percebê-los. Estava tudo escrito no rosto da moça. Mas talvez os outros apenas não fossem observadores tão bons quanto ela. Na verdade, era bem provável que não fossem.
— Sim, ela está apaixonada por ele. Mas essa também não é a questão aqui, William! — os dois podiam especular sobre a vida amorosa de terceiros em outro momento, aquela (infelizmente) não era hora para fofocar em casal — A questão é o desrespeito da sua mãe. Ela sabe que estamos noivos e, mesmo assim, está empurrando outras mulheres para você. Na minha frente!
— Eu não estou interessado em nenhuma outra mulher, Fleur. — ele começou, mas um único olhar afiado da francesa o fez suspirar — E essa não é a questão, não é?
— A sua mãe e a sua irmã me odeiam e não querem que nos casemos. Essa é a questão. — Fleur tentou impedir que a voz falhasse ao dizer aquelas palavras em voz alta, mas foi em vão.
— Elas não te odeiam, Fleur. — Bill tentou, mas recebeu uma gargalhada seca como resposta — Não são suas maiores fãs, eu admito, mas ódio é um termo muito forte.
— Agora eu me sinto muito melhor. — a garota retrucou de forma sarcástica.
— Não é nada pessoal, elas estão apenas sendo super protetoras
— É claro que é pessoal! Elas acham que eu não sou boa o suficiente para você, mas que a Tonks é. Como isso não seria pessoal?
— Elas apenas não te conhecem direito. Vão se encantar, como eu fiz, assim que estiverem mais familiarizadas.
Fleur duvidava muito que isso fosse acontecer. E uma parte dela se questionava se Molly e Ginny não estariam certas. Talvez ela não fosse boa o suficiente para Bill. Esse pensamento lhe passava pela cabeça algumas vezes, se tornando mais frequente desde que chegara À Toca. Bill era um homem bom. Era centrado, íntegro, leal e gentil. Era carismático, sempre sabia a coisa certa para dizer e conseguia acolher sem julgamentos. Fleur nunca sabia o que dizer e tropeçava em palavras erradas, mesmo em seu idioma materno. Era franca demais, pouco agradável, ríspida. Flertava abertamente com a arrogância e tinha uma aparência gelada e indiferente, que só derretia quando o fogo da ira a dominava, o que podia acontecer sem qualquer aviso prévio. Havia momentos em que sequer achava que era uma boa pessoa. Talvez Bill merecesse alguém mais como ele. Talvez merecesse alguém melhor. Ela se odiou imediatamente por esse sentimento, nunca fora uma mulher insegura e não queria se tornar uma agora. Ainda assim, era autoconsciente o bastante para saber que a vida ao seu lado nunca seria fácil.
— E se não se encantarem? E se me odiarem para sempre? — conseguiu perguntar.
Bill provavelmente leu o medo em seu rosto, porque se aproximou e a trouxe para perto delicadamente.
— Então, eu lamento muito por elas. — ele se aproximou ainda mais e disse olhando no fundo dos olhos dela — Fleur, eu te amo e conheço seu coração. Adoraria que você e a minha família se dessem bem, mas, no fim do dia, quando se trata de casamento, as únicas opiniões que importam são as de nós dois. Eu escolhi você. Vou sempre escolher você.
Fleur sorriu para ele, sentindo um pouco de sua insegurança se dissipar.
— Uma escolha ousada, William. Eu não sou uma mulher fácil.
Bill devolveu o sorriso.
— Eu não te amaria se você fosse.
A moça quase se derramou em lágrimas.
— Ei, o que foi? — o Weasley indagou, secando aquelas que caíram.
— Eu amo você. — ela respondeu simplesmente — De um jeito que nunca imaginei que amaria alguém. E eu quero ficar com você por quando tempo tivermos. Só que eu me conheço, William. Sou complicada. Inapropriada. Impaciente. Entro em brigas. Entro em situações arriscadas por ambição ou por ideais. Conquisto inimigos. Conquisto “fãs” que querem meu amor ou supõe que o merecem. Não sou como a sua mãe. Nunca ficarei feliz apenas com uma vida tranquila, cuidando de marido e filhos. Quero isso também, porém, quero mais. Muito mais. Sou uma causadora de caos por natureza. E sua família já não gosta de mim, querendo ou não, isso vai nos causar problemas. O que estou tentando dizer é que a vida comigo nunca será tranquila. Posso te dar muitas coisas: minha sinceridade, minha lealdade, minha companhia, minha proteção, meu corpo, meu coração, minha alma, todo o meu amor, mas não acho que algum dia poderei te dar paz. Isso seria suficiente para você?
— Eu sou um grifinório, que cresceu com seis irmãos causadores de confusão, e escolheu quebrar maldições como profissão, Fleur. Não estou procurando tranquilidade ou paz. Quero você, com todos os defeitos e qualidades. E se precisar passar por algumas tempestades no caminho, tudo bem. Não me importo. Eu sei quem você e te escolho. Simples assim.
Fleur não disse nada, porque não parecia haver mais nada a ser dito. Acabou com toda a distância entre os dois e o beijou. Um beijo cheio de certezas. Cheio de promessas. E nada pacífico.
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“O diabo está nos detalhes, mas você tem uma amiga em mim
Seria suficiente se eu nunca pudesse te dar paz?”
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As coisas não ficaram exatamente fáceis depois disso. Molly e Ginny ainda a odiavam e Fleur fazia seu melhor para não explodir com as duas. A menina, pelo menos, voltou para Hogwarts, aliviando a situação por um tempo. Bill passara a trabalhar mais e a situação política se tornava cada vez mais complicada e sombria. Havia dias melhores e dias piores, mas a moça estava conseguindo tolerar os percalços em seu caminho. Acabara até mesmo se acostumando com uma nova rotina. Ainda assim, nada poderia tê-la preparado para o dia 30 de junho de 1997.
Começara como um dia comum. A calmaria permanecera durante toda a tarde, sendo quebrada apenas durante a noite, quando receberam a notícia de que Hogwarts estava sob ataque de Comensais da Morte e membros da Ordem da Fênix haviam sido designados para defender o colégio e seus alunos. Bill entre eles. Foi nesse instante que Fleur perdeu o fôlego. Molly e Arthur começaram a se agitar em torno dela, a preocupação evidente em cada gesto de duas pessoas que tinham cinco filhos em perigo. A francesa, por sua vez, permaneceu imóvel em sua poltrona. Incapaz de se mover, incapaz de falar, incapaz de respirar. Todo seu corpo paralisado pelo pânico, enquanto o coração acelerava em horror e sua mente enviava preces a qualquer divindade que pudesse ouvi-las.
Aquele tormento se estendeu por horas. Até que uma nova mensagem lhes fora enviada. Uma mensagem que não trouxe qualquer conforto. Pelo contrário. Bill havia sido ferido por um lobisomem e estava recebendo cuidados na enfermaria de Hogwarts. Nenhuma informação a mais lhes fora revelada. Fleur poderia assassinar com as próprias mãos o incompetente que escrevera um bilhete tão vago e desesperador. Queria saber o que estava acontecendo, queria respostas, queria seu noivo. A raiva e o medo a corroíam, enquanto seu cérebro gritava que se não haviam dado mais detalhes, era porque as notícias não eram boas. Todos sempre preferiam dar más notícias pessoalmente.
“Ferido por um lobisomem” – um lobisomem, pelo amor de Merlin! – era melhor que “morto por um lobisomem”. Enquanto fosse apenas “ferido” tudo poderia ficar bem, seu lado racional tentava argumentar. No entanto, não havia espaço para racionalidade na Delacour naquela noite, o pânico a controlava. A sensação de estar sendo partida ao meio. A certeza de que algo se quebraria para sempre dentro dela, se perdesse Bill.
Naquele momento ela odiou estar apaixonada. Se amaldiçoou por se sentir daquela maneira. Se amaldiçoou por ter se deixado ficar vulnerável e exposta, tão dependente do bem estar de outra pessoa para se sentir bem. Logo ela que sempre fora tão independente, tão autossuficiente. “Ame e proteja sua família e nada mais”, fora algo que a sua avó a havia ensinado e uma lição na qual a moça se agarrou por anos. Mas Fleur não conseguia evitar o amor que crescia em seu peito e a vontade de proteger outros. Não a era a avó, não era uma veela completa, no fim das contas, e o seu 3/4 humano sempre falaria mais forte.
Quase se estapeou por pensar em tamanhos disparates. Independente do que acontecesse, uma vida sem nunca ter esbarrado em Bill Weasley seria uma vida triste, fria e solitária. Uma vida que ela não queria. E era bom que Merlin não ousasse condená-la a ter tal vida, ou a mulher o faria sofrer as consequências pessoalmente. Fleur sentiu uma vontade imensa de chorar, porém segurou as lágrimas. Bill era o único com quem ela se permitia ser frágil. Além disso, lágrimas não ajudariam ninguém e ela se recusava a aceitar que haveria um motivo para chorar. O noivo ficaria bem. Tudo ficaria bem. Repetiu aquilo para si mesma mil vezes como um mantra e, com a cabeça erguida e as mãos trêmulas, seguiu os sogros em direção a Hogwarts. Em direção ao seu destino.
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Fleur não se lembrava de muita coisa sobre o percurso até Hogwarts. Era como se sua mente houvesse desligado e sido reiniciada apenas quando viu as portas brancas da ala hospitalar se abrindo a sua frente.
— Molly... Arthur… — a professora McGonagall disse, levantando-se, depressa da cadeira na qual se sentava, para cumprimentá-los. Fleur sequer conseguiu se irritar por ter sido tão claramente ignorada. Não tinha energia para isso — Lamento muito…
— Bill — Molly sussurrou, passando direto pela professora e correndo para o lado do filho. — Ah, Bill!
Lupin e Tonk, que até o momento anterior estavam sentados próximos da cama, se levantaram rapidamente e se afastaram para que os Weasley pudessem se aproximar do rapaz convalescente. A senhora Weasley se curvou até o ruivo e levou os lábios à testa dele. Fleur se aproximou lentamente, como se cada passo lhe custasse muito. Como se estivesse fazendo um grande esforço para não desmoronar. Porque era exatamente assim que se sentia. Bill estava deitado em uma cama de hospital, pálido, inconsciente, coberto por ataduras, o rosto bonito desfigurado. Atacado por um lobisomem. A moça só conseguia se perguntar se ele sentia dor. Se iria acordar em breve. Se ficaria bem. Se se tornaria um lobisomem e, se sim, como lidaria com isso? Como ela o ajudaria a lidar com isso?
— Você disse que Greyback o atacou? — Arthur perguntou aflito, como se pudesse ler as dúvidas da nora, à McGonagall. — Mas não estava transformado? Então, o que significa isso? Que acontecerá ao Bill?
— Ainda não sabemos — respondeu a professora, olhando desamparada para Lupin.
— É provável que haja certa contaminação, Arthur — Remus explicou. — É um caso raro, provavelmente único... não sabemos qual será o comportamento dele quando acordar...
Molly tirou um pote das mãos de Madame Pomfrey e começou a aplicar seu conteúdo nos ferimentos do filho. Fleur assistia a tudo estática, como se estivesse vendo um filme trouxa, o coração ainda disparado em seu peito. O medo ainda estampado em seu rosto. Bill estava vivo. Estava vivo. Estava vivo. Ninguém tinha certeza do que aconteceria com ele, mas pareciam ter certeza de que sobreviveria. A francesa conseguia sentir parte do peso deixando seus ombros. Tudo o que importava era que o noivo sobrevivesse, todo resto os dois poderiam resolver. Ela sabia que sim.
Molly começou a soluçar, atraindo a atenção da jovem, as lágrimas caindo no rosto mutilado de Bill.
— É claro que a aparência não conta... não é r... realmente importante... mas ele era um g... garotinho tão bonito... e ia se... se casar!
Aquilo definitivamente chamou a atenção de Fleur. Como assim “ia se casar”? O que aquela mulher estava insinuando. Bill estava vivo, Bill iria continuar vivo. É claro que eles ainda iriam se casar!
— O que é que a senhora quer dizer com isso? — ela indagou em alto e bom som, o sotaque se intensificando — Que quer dizer com “ele ia se casar”?
A senhora Weasley ergueu o rosto manchado de lágrimas, parecendo espantada. Era provável que sequer se lembrasse da presença da noiva do filho. O fato daquelas pessoas continuaram a ignorá-la e a ignorar o papel que ela tinha na vida de Bill, estava começando a ascendendo as chamas da personalidade de Fleur.
— Bem... só que...
— A senhora acha que William vai desistir de se casar comigo? — quis saber Fleur indignada. Seria possível que a sogra não poderia deixar de ultrajá-la nem em um momento como aquele? — A senhora acha que por causa dessas mordidas, ele não vai me amar?
Era um pensamento absurdo. Fleur admitia que havia tido suas dúvidas, suas inseguranças. Admitia que em um ponto não confiara no amor de Bill, assustada demais por todos os outros homens que apareceram em seu caminho, não querendo nada além de usá-la, sequer a enxergando como um ser humano. Mas o Weasley lhe provara que era diferente, lhe provara que a via por inteiro e a aceitava por quem era. E cada vez que as teias de aranha da dúvida ameaçavam aparecer e tomar conta da mente de Fleur, ele as varrera para longe. Bill a amava. A amava de uma forma tão completa e verdadeira que ainda a deixava tomada pela emoção. A moça surpreendentemente já não tinha qualquer medo quanto a isso. Aquilo era amor verdadeiro e nenhum lobisomem poderia ser mais forte do que amor verdadeiro.
— Não, não foi o que eu...
— Porque ele vai! — Fleur afirmou, empertigando-se e jogando seus longos cabelos prateados para trás. — Será preciso mais do que um lobisomem para fazer William deixar de me amar!
— Bem, claro, tenho certeza — respondeu a senhora Weasley — , mas pensei que talvez... visto que... que ele...
Então a francesa finalmente entendeu o que Molly estava insinuando e sentiu o sangue ferver. Sentiu vontade de estapear a mulher. Sentiu vontade de voar em seu pescoço e esganá-la. Sentiu vontade de amaldiçoá-la. Fleur sabia que a sogra não gostava dela. Sabia que a considerava arrogante, fútil, tola e muitas coisas piores. Sabia até mesmo que não confiava no amor que ela e Bill sentiam um pelo outro. Mas ter o descaramento de expressar aquela dúvida em voz alta, na frente de todos, era um tipo novo de afronta.
Fleur não amava muitas pessoas, mas quando amava era para valer. Era por inteiro. E ela amava Bill. Amava o homem que ele era. Amava seu caráter, seu coração gentil, sua determinação, sua coragem. Beleza era sempre algo a ser admirado, ela sabia disso. Mas, no fim do dia, beleza também era algo que significava bem pouco. A moça entendia isso melhor do que ninguém. Se a beleza de Bill havia sido malucada em uma prova de coragem – em um testemunho de que ele estava lutando pela coisa certa –, então isso só o tornava alguém mais valioso aos olhos de Fleur.
— A senhora pensou que eu não ia querer casar com ele? Ou é essa a sua esperança? — desafiou, com as narinas tremendo. Não se lembrava de já ter sentido mais ódio em sua vida — Que me importa a aparência dele? Acho que sou bastante bonita por nós dois! Todas essas marcas mostram que me marido é corajoso! E eu é que vou fazer isso! — acrescentou com ferocidade, empurrando Molly para o lado e arrebatando o pote cheio de unguento das mãos dela.
A senhora Weasley recuou para junto do marido e ficou observando Fleur tratar dos ferimentos do filho, com uma expressão muito curiosa no rosto. Ninguém disse nada. Ninguém parecia capaz de pensar algo apropriado a ser dito após aquela explosão. O que era ótimo. Fleur preferia mesmo o silêncio, enquanto se concentrava em cuidar dos ferimentos de Bill. Enquanto se concentrava no fato de que ele estava respirando. Enquanto tentava evitar o pranto que se prendia ao seu peito, toda vez que se dava conta de quão próxima estivera de perdê-lo.
— Nossa tia-avó Muriel — Molly disse após um longo silêncio... — tem uma linda tiara, feita pelos duendes... e estou segura que posso convencê-la a lhe emprestar para o casamento. Ela gosta muito do Bill, entende, e a tiara ficaria muito bonita em seus cabelos.
— Muito obrigada — respondeu Fleur formalmente, reconhecendo a oferta de paz. Percebendo que havia conquistado alguma consideração por parte da sogra — Tenho certeza de que ficará muito bonito!
E então, sem que nenhuma das duas soubesse muito bem como aquilo aconteceu, as mulheres correram para o braço uma da outra e se abraçaram, enquanto as lágrimas explodiam para fora de ambas. Havia sido uma noite estressante e, apesar de todas as óbvias diferenças, as duas amavam Bill e quase o haviam perdido. As duas sabiam também que as coisas seriam difíceis para o rapaz e que ele iria precisar delas para se recuperar. Talvez não fosse o bastante para transformá-las em melhores amigas, porém, era bastante para selar a paz. O bastante para que algum respeito mútuo nascesse. E até mesmo um pouco de afeto. Era um começo.
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“Todas essas pessoas pensam que o amor é para se mostrar
Mas eu morreria por você em segredo”
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Fleur permaneceu ao lado de Bill até ele acordar. As mãos entrelaçadas as dele. Não dormiu, não comeu, não se moveu. A espera pareceu interminável, porém inegavelmente gratificante. Porque quando viu os olhos dele se abrirem e a fitarem pela primeira vez, sentiu seu mundo voltar ao eixo. Ele ia ficar bem. Talvez levasse um tempo. Talvez ele se tornasse um pouco diferente. Mas isso não era relevante naquele momento. Tudo o que importava era que ele ainda estava ali. Vivo. Todo o resto podia ser mediado.
A moça não era inocente. Sabia que seria difícil para o rapaz lidar com as mudanças – físicas e mentais – que ser exposto a licantropia lhe trariam. Sabia que a recuperação não seria fácil ou indolor. Sabia que ele não seria exatamente a mesma pessoa. Estava marcado para a vida. Entretanto, sabia também que o coração dele permaneceria o mesmo. Que tudo o que importava sobre ele não podia ser alterado. Sabia que estaria ao lado do noivo, durante todo aquele processo. Por todo o tempo que ele precisasse. Por sua vida inteira. Porque o amor que compartilhavam era mais forte que qualquer coisa e apenas crescia a cada vez que se apoiavam mutuamente.
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Fleur Delacour e William Weasley se casaram no dia primeiro de agosto de 1997. Em uma cerimônia que traduzia com precisão o que seriam os primeiros meses de sua vida conjunta. Um pouco de luz, amor e felicidade, sendo constantemente interrompido por trevas. Não era um momento fácil. A guerra se complicava mais e mais a cada dia, eles precisavam se esconder, responder chamados da Ordem, lutar. Na maior parte do tempo, no entanto, tudo o que estava ao seu alcance era esperar. Esperar que algo ruim acontecesse, esperar que algo ruim não acontecesse, esperar por notícias das pessoas que amavam, esperar que Harry, Ron e Hermione tivessem sucesso em sua missão secreta, mesmo sendo tão jovens. Em alguns momentos aquilo podia ser enlouquecedor, porém, ter Bill ao seu lado tornava tudo suportável. Mais do que isso. Apesar de todo caos e dor, os dois conseguiram construir um pequeno refúgio. Conseguiram encontrar alguma alegria, alguma luz.
E quando chegou a hora de lutar, lutaram lado a lado. Permaneceram juntos nas trincheiras, varinhas em mãos, convicção em suas mentes, coragem em seus corações. Lutaram por suas vidas, pelas vidas das pessoas que amavam, pelas vidas de completos desconhecidos. Lutaram por lealdade, por idealismo, por amor. Lutaram pelo mundo em que desejavam viver, sonhar, construir uma família. Lutaram pelo que era certo. Juntos. E se morressem, esperavam morrer juntos. Sempre juntos.
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“E você sabe que eu faria tudo por você
Sentaria com você nas trincheiras [...]”
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A coisa sobre guerras é que nem sempre uma vitória parecia uma vitória. Eles haviam vencido, mas também haviam perdido. O Lorde das Trevas havia sido destruído. Fleur estava viva. Bill estava vivo. Por essas três coisas, a mulher seria eternamente grata. Ainda assim, muito sangue havia sido derramado. Perderam amigos. Perderam família. Fleur não conhecia Fred Weasley há muito tempo, porém ele era irmão de seu marido, era alguém que sempre a havia sido simpático e que se esforçara para arrancar sorrisos dela, mesmo nos piores momentos. Era alguém jovem e brilhante e que merecia mais. Muito mais. Então, sim, ela sentira a morte dele. Mas sentira muito mais por toda a dor que ela trouxera a Bill. Pela devastação que via em que cada Weasley sobrevivente. Especialmente Molly. As duas não eram nada parecidas e Fleur duvidava que algum dia tivessem uma relação completamente pacífica, no entanto, havia um vínculo inquestionável entre ambas e a jovem odiava vê-la tão arrasada. Preferia quando se estranhavam, se alfinetavam, brigavam.
O luto era uma coisa complicada, ela supunha, enquanto sentia sua própria dose de pesar. Fred, Remus, Tonks… Pensava em Teddy Lupin – em como seu pai havia ido pessoalmente avisá-los de seu nascimento, reluzindo em felicidade –, crescendo sem pais e isso fazia seu coração se contrair. Um órfão da guerra. Quantos mais existiriam? Não era justo. Nada era justo. Mas ninguém prometeu que seria. Então, ela se segurou na convicção da própria força, na certeza de que era mais afortunada que a maioria, na esperança de que dias melhores viriam e permaneceu de pé. Por si mesma, por Bill e por aquela nova família que precisava dela.
Por um tempo longo demais, tudo o que fizeram parecia ser suportar. Suportar a guerra, suportar o medo, suportar as cicatrizes. Então, suportar a perda, o luto, o trauma. Suportar mais um dia, mais uma semana, mais um mês. Encontrando breves momentos de alegria, amando quem ainda estava ao seu lado. Então, algo lindo, mágico e inesperado aconteceu.
Fleur não havia planejado aquilo. Não havia sequer imaginado que poderia ocorrer. O que, pensando agora, era uma tolice. Independente de qualquer coisa, fora inegável a surpresa que sentira ao perceber que estava grávida. Uma surpresa muito feliz. Por um breve instante ficou receosa, se questionando se Bill também se sentiria contente com a novidade. Mas percebeu que aquele era um receio ridículo, no momento em que finalmente reuniu coragem para contar ao marido que seria pai, fazendo o rosto dele inteiro se iluminar – de verdade – como não acontecia há algum tempo.
Uma vida crescia dentro dela e isso trouxe vida para todos ao seu redor. Uma chance de recomeçar, algo pelo que continuar, alguém novo para amar. Uma criança para desfrutar do mundo que lutaram para construir. Acima de tudo, aquele bebê lhes trouxera esperança. E quando uma linda menina chegou ao mundo berrando, na manhã de 02 de maio de 2000, há exatos dois anos da Batalha de Hogwarts e do fim da guerra, Fleur soube que não havia nenhum nome possível para ela além de Victoire. Vitória.
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“[...] Te daria minha vida selvagem, te daria um filho”
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A vida seguiu seu curso depois disso. Como se o nascimento de Victoire houvesse despertado todos de um longo sono cheio de pesadelos. Fleur amava ser uma mãe e Bill amava ser um pai. A nova rotina no Chalé das Conchas, cheia de risadas de bebê e encantos de uma pequena criatura descobrindo o mundo, logo os encheu de glória, fazendo com que voltassem a sonhar, a planejar, a fazer mais do que apenas suportar.
A dor ainda estava lá, é claro. Sempre estaria. Fleur ainda odiava lugares fechados e às vezes ainda sonhava com labirintos e cadáveres de pessoas jovens demais. Bill ainda tinha as cicatrizes de sua coragem estampadas no rosto, certos comportamentos derivados da licantropia, sonhos sobre lobos e garras e sangue. Ainda carregava a dor de perder um irmão. O coração de Fleur ainda doía, quando fitava Teddy Lupin, o adorável menino metamorfomago. Por ele, crescendo como um órfão, mas, agora que era uma mãe, também por Tonks, que nunca teria a chance de ver seu filho crescer, que tivera tão pouco tempo com ele, que perderia tanto. Então não, não era perfeito. A vida, entretanto, dificilmente era. Da mesma forma que Fleur não era perfeita. E que Bill não era perfeito. Nada disso, no entanto, precisava impedi-los de construir algo bom. Algo bonito. Algo que valesse a pena.
Três anos após Victoire, em um domingo tempestuoso, nascera Dominique. Um bebê planejado dessa vez, porque Bill e Fleur achavam que crianças precisavam de irmãos. Porque nenhum dos dois conseguia imaginar ter crescido como filho único e porque tinham amor para dividir com mais uma garotinha. Louis viera cinco anos depois, uma completa surpresa, mas que também lhes trouxera uma felicidade inquestionável. Cada um de seus filhos trouxera algo novo consigo, preenchera os vazios, altera suas perspectivas, iluminara seus mundos. Fizeram com que toda a dor e luta do passado ganhasse um novo significado. Fizeram com que a vida inteira ganhasse um novo significado.
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“Te daria o silêncio que só acontece quando duas pessoas se entendem
Família que escolhi, agora que vejo seu irmão como meu irmão
É o suficiente?”
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Estava quieto no Chalé das Conchas, um acontecimento cada vez mais raros naqueles dias. Ter três crianças em casa significava que o silêncio não era uma possibilidade. Porém, como se por um milagre, Fleur e Bill haviam conseguido colocar os três filhos na cama ao mesmo tempo e eles agora dormiam, se assemelhando aos anjos que definitivamente não eram. O casal trocou um olhar cansado e Bill apenas puxou a esposa para mais perto, a prendendo em um abraço.
— Sabe, agora você pode me contar sobre aquela briga que teve no trabalho. — ele sussurrou no ouvido da mulher, a fazendo sorrir.
— Você vai achar que eu estava errada.
— Eu jamais me atreveria a dizer algo tão absurdo.
Os dois riram. A francesa suspirou.
— Eu deveria me tornar um bom exemplo para nossos filhos e parar de me envolver em confusões, não é?
Ela sentiu o marido reprimindo o riso.
— Provavelmente, mas nós dois sabemos que isso não vai acontecer. — era verdade — Além disso, nossos filhos têm genes Weasley, acredite em mim, eles vão encontrar seu caminho para confusão, com ou sem exemplo.
— Isso me deixa muito aliviada, William. — Fleur respondeu sarcástica. Mas logo eles estavam rindo novamente. — Uma vida tranquila não é mesmo uma opção para nós dois, não é?
— Nunca foi.
— Ainda mais agora, com essas três criaturinhas que colocamos no mundo.
— Bom. Tranquilidade é superestimada e entediante.
Fleur se virou e selou os lábio aos de Bill, iniciando um beijo doce.
— Eu não poderia concordar mais.
Do lado de fora, as ondas se agitavam no oceano e uma tempestade se formava no céu. Uma promessa de que nunca haveria paz. Fleur Delacour e Bill Weasley, no entanto, sabiam que podiam navegar por águas turbulentas e que, desde que estivessem juntos, tudo sempre ficaria bem.
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“Eu te daria meu Sol, te daria o meu melhor
Mas a chuva sempre virá se você estiver comigo
[...]
Seria o suficiente se eu nunca pudesse te dar paz?"
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