Paz Temporária - Chama Imortal

2 Defendendo os fracos e oprimidos


Percebi que falei besteira e instintivamente coloquei minhas mãos sobre a boca o mais rápido que pude. Para minha sorte, os dois estavam ocupados demais brigando entre si para prestar a atenção em mim. Abaixei minhas mãos e suspirei profundamente. Notei, então, que tinha derrubado meu cachimbo. Abaixei-me para pegá-lo e quando estava levantando ouvi mais movimentos vindos da floresta. Levantei rapidamente e fiquei atenta. Os sons vinham da mesma direção de onde aqueles dois pirralhos tinha saído e eles pareciam não notar nada (normal, afinal ainda estavam discutindo). Aproximei-me lentamente deles e coloquei uma mão no ombro de cada um deles. Eles estranharam e me encararam confusos enquanto eu olhava atentamente para a origem dos sons.

– Tia... Aconteceu alguma coisa? – perguntou a pequena.

– Você disse que precisava de minha ajuda, certo?

– Não! Eu tenho tudo sobre controle. – respondeu o garoto.

– Droga! Parem com isso!

– Isso irmão! Não seja tão idiota!

– Mas que... Foco, foco! Precisavam da minha ajuda para o quê?

– Bem... – disse a garotinha olhando seu irmão como se pedisse permissão para continuar falando.

– Ah... Merda! Tudo bem pode falar. – disse o garoto.

– Oh... Bem... É que meu irmão idiota acabou arranjando uma briga com uns caras malvados e... Bem... Estamos fugindo deles.

– Arranjou uma briga e agora não consegue lidar com isso?

– Eu já disse que está tudo bem. Eu posso resolver isso sozinho.

Os sons se aproximavam cada vez mais, até que pude ver algumas silhuetas saindo da floresta. Passei para a frente dos dois e armei minha guarda.

– Bem... Parece que suas palavras serão colocadas à prova, pois acho que vocês foram encontrados.

Os dois se viraram rapidamente para a floresta e levaram um susto. Havia cinco homens mal encarados nos observando com raiva em seus olhos. Dois deles portavam pedaços de madeira e todos estavam cheios de más intenções. Um deles tomou a frente e veio de encontro comigo, parando a cerca de um metro de distância de mim. Ele olhou para o garoto com repulsa, depois para a garota com malícia e, por último, para mim com desdém. A pequena se agarrou com força na minha perna e percebi que seu irmão estava começando a ficar nervoso. O homem coçou seu queixo que continha uma barba mal feita e tentou fazer “gestos amigáveis” antes de começar a falar:

– Boa noite senhorita. Não sabia que alguém vivia aqui nesta floresta.

– Algum problema com isso?

– N-não. Nenhum. Ah! Você encontrou as crianças. Estávamos procurando esses dois pestinhas feito loucos.

– Gostaria de saber o motivo. Pelo modo que os chamou duvido muito que sejam parentes.

– O-o quê?

– Exatamente o que ouviu.

– Bem... Você é muito perceptiva. Realmente não somos parentes. Nós só precisávamos dar uma palavrinha com o garoto. Nada de mais.

– Uma palavrinha? O que foi que ele fez?

– Não é nada do que está pensando. Preciso apenas trocar umas ideias com ele. Nada grave.

– Se é assim, então fale aqui mesmo.

– O-o que disse?

– Isso mesmo. Se o que você quer falar com ele não é nada de mais, então diga aqui mesmo.

Ele me encarou surpreso, coçou a cabeça e ficou algum tempo tentando encontrar palavras. No final, ele acabou desistindo e voltou seu olhar para mim com mais seriedade.

– Tudo bem, tudo bem. Você me pegou. Eu tenho umas contas a acertar com esse pivete.

– Desculpe a pergunta, mas qual a sua idade?

– Anh? Trinta e dois, por quê?

– E a sua, moleque?

– Quinze.

– Você tem contas a acertar com um garoto dezessete anos mais novo que você? Não pode estar falando sério.

– Droga mulher! Estou querendo lhe poupar, mas você não está cooperando!

– Só estou querendo saber a verdade.

– A verdade? Muito bem! Vou contar toda a porra da verdade! Esse moleque aí é um maldito cético e estava blasfemando no parque! Tentamos corrigi-lo, mas não adiantou nada.

– Só porque suas ideias divergem vocês... Espera... Você disse cético?

– Exatamente!

Virei-me para o garoto e o encarei com desgosto. Eu tinha um ódio muito bem cultivado por esses malditos desde a reforma cética. Afinal, eles destruíram os templos e fizeram com que os espíritos elevados desaparecessem... Enfim, fizeram uma porção de coisas que me afetou bastante. Aliás, eles eram o principal motivo de eu não querer voltar à sociedade.

Estava prestes a perder a razão quando a pequena apertou minha perna com mais força ainda. Isso fez com que eu voltasse à sanidade e me virasse novamente para o homem. Coloquei a mão em minha cabeça tentando manter a calma.

– Enfim... Como ia dizendo... Que tipo de blasfêmia ele disse?

– Ele disse que a afirmação de que existem múltiplos Deuses era ridícula. E ainda completou com “já é difícil acreditar na existência de um, quanto mais vários.”. Esse maldito filho da puta...

– Oh ele disse que... Espera... Como assim múltiplos Deuses? Só existe um.

Ficamos nos encarando um pouco confusos por algum tempo. Eu estava tentando digerir aquela informação. Pouco antes de eu me isolar de vez na floresta, eu visitei a vila mais próxima para arranjar alguns suprimentos e notei uma total falta de crença na existência de Deus. Admito que fiquei um pouquinho mais feliz quando ele começou a falar de blasfêmias, pois levava a entender que a fé estava voltando por lá. Porém... Deuses? No plural? Eu simplesmente não conseguia engolir aquilo.

Parece que ele teve uma reação parecida, pois sua expressão mudou lentamente de confuso para nervoso. Os outros homens começaram a se aproximar e nos cercavam lentamente. Puxei os dois para minhas costas e os encarei com seriedade.

– Parece que temos outra herege aqui.

– Herege? Por Deus, o que vocês estão falando?

– Vejam isso! “Deus”. No singular! Existe mais do eu um, sua maldita herege! E eu pensando ter encontrado uma pessoa pura.

– Olha aqui... Posso não ser pura, mas sou uma sacerdotisa e acho que entendo muito mais sobre a espiritualidade do que vocês.

– Sacerdotisa? O que seria isso?

– Droga... Não existem mais sacerdotisas? O que houve com esse mundo...

– Ela não está falando coisa com coisa. Parece que teremos que punir os três.

– Espere um pouco... Você estava falando sobe pureza, mas está prestes a atacar uma mulher, um garoto de quinze anos e uma garotinha por que discordamos de sua visão religiosa da vida?

– Exatamente! Como religiosos, é nosso dever punir aqueles que se desviam dos caminhos da luz!

– Se você realmente acha que este é o caminho da luz, então não há mais o que se fazer pela sua alma.

– Peguem eles!

Os dois homens que portavam pedaços de madeira viram para cima de nós preparados para nos bater com os mesmos. Respirei profundamente e avancei. Desarmei o primeiro com um chute em seu braço e aproveitei o impulso do chute para me abaixar e dar uma rasteira no segundo, que caiu de cara e se arrastou por alguns centímetros. Rapidamente levantei e percebi que o primeiro avançou contra mim utilizando de algum tipo de técnica primitiva de luta. Desviei facilmente de seus golpes e o finalizei com um chute na nuca. Os outros dois que estavam apenas observando resolveram investir também, deixando apenas o que tinha falado de pé encarando a cena.

Eles vieram com muita cede ao pote. Chega a ser se graça quando os inimigos veem tão sedentos por sangue, pois ficam cheios de aberturas e suas bases são totalmente instáveis. Aproveitei uma dessas aberturas e desviei do ataque do primeiro, dando uma sequência de socos mirando em seus pontos vitais logo em seguida. Utilizei apenas a força necessária para apaga-lo e voltei minha atenção para o quarto homem. Ele avançou inseguro, o que o condenou ainda mais. Defendi seu primeiro golpe e desarmei sua base, fazendo-o cair de bunda no chão. Aproveitei a altura e desferi um chute em sua nuca. Depois que apaguei mais um, ouvi o segundo homem levantando. Ele estava apoiado em um de seus joelhos. Virei-me rapidamente e avancei contra ele, executando um chute em sua nuca. O motivo de acertar a nuca é que era um ponto fácil de ser atingido e que garantia o desmaio do oponente.

O fanático religioso ficou me encarando assustado enquanto me aproximava lentamente dele. Mantive uma expressão séria durante toda a luta e continuava assim. Bem... Isso não teve muito a ver com o momento em si, pois eu passava a maior parte do tempo com essa expressão... Enfim, estava a alguns metros do infeliz (ele tinha recuado depois que mandou os seus companheiros nos atacarem), ele começou a fuçar em sua cintura e puxou um objeto estranho de metal. Parecia muito com aquelas armas que os céticos usavam, mas muito mais... Bonita? Enfim, ele apontou a coisa de metal para mim enquanto tremia bastante.

– A-afaste-se! Não me faça usar isto!

– E o que seria esse treco?

– O quê? Como assim você não sabe o que é uma pistola?

– Digamos que eu estou aqui neste templo há muito tempo.

– Droga! Cale-se! Você vai se arrepender de ter mexido conosco.

– Que eu saiba, foram vocês que me atacaram.

– Bem... Ah! Foda-se!

Ouvi um grande “estouro” e me assustei. Senti algo quente escorrendo pelo meu peito e uma leve queimação vinda do mesmo local. Olhei para baixo e notei um buraco no lado esquerdo do meu peito. Ele parecia satisfeito com seu feito, mas não adiantou muita coisa.

– Há! Isso que dá ser teimosa!

– Droga! Isso doeu. Esse treco de metal é perigoso. Deveria jogar fora.

Sua expressão mudou novamente e ele agora ficava desesperado. Ele então continuou sua tentativa falha de tentar me matar. Quando cheguei até ele, possuía diversos buracos ao longo do meu tronco e um pouco acima de meu olho direito. Limpei o sangue que escorria de lá e o encarei com desgosto.

– Se eu fosse qualquer outra pessoa estaria morta a essa altura. Não sei como consegue falar de Deus... Ou Deuses sem ter um pingo de “humanidade” em você? Bem... Que Deus tenha piedade de sua alma, pois eu não terei.

Ele ficou tão assustado que começou a correr de volta para a floresta, mas o segurei e dei algumas sequências de socos até que ele desmaiasse. Virei-me e fui andando em direção aos dois enquanto minhas feridas se regeneravam. Eles ficaram me encarando assustados, até que eu cheguei a um metro dele. O garoto estava muito espantado, mas a pequena logo saiu do “transe”, sacudiu a cabeça de uma maneira extremamente fofa e abriu um largo e inocente sorriso em seu rosto.

– Obrigada tia!

Ela pulou em cima de mim e me abraçou. Fazia tanto tempo que eu não tinha contato físico com outra pessoa que eu travei. Fiquei apenas ali parada sem saber o que fazer até que ela me largasse. Pelo jeito eu estava mais do que certa em pensar que aquela noite seria, no mínimo, complicada.

Notas finais
Aqui está o segundo capítulo fresquinho~ Como estamos no começo... Não sei bem o que falar aqui x.x Ah! Eu não devo escrever hoje, então só vou postar o terceiro capítulo sexta por causa da facul... Entendam xD Enfim... Agradeço a quem leu até aqui, espero que estejam gostando e até a próxima