Paz Temporária - Chama Imortal
5 A contadora de histórias
Fiquei refletindo sobre aquela minha nova descoberta por algum tempo. Era difícil acreditar que dentre todo mundo, eu me tornaria base para uma lenda folclórica. Porém os fatos estavam ali e... Não havia como negar a semelhança entre as histórias. Enfim, a ficha demorou, mas finalmente caiu e sai do transe. Ruby me encarava com um sorriso em seu rosto, como se demonstrasse por mim a felicidade que eu sentia, pois eu mesma não era capaz disto. Ficamos em silêncio por algum tempo, até que a pequena virou-se e tirou uma espécie de caixa de sua bolsa. Ela abriu a tampa e retirou uma espécie de pão com uma coloração marrom escura. Pegou uma faca, cortou uma fatia e a estendeu para mim:
– Quer tia?
– O que seria isso?
– Não sabe? Bem... Não é de se espantar... Isso se chama bolo de chocolate. Apesar de não ser caseiro, é muito bom.
– Não, obrigada. Eu não como.
– Sério? Nossa... Isso torna tudo mais fácil. Se bem que... Eu adoro comer.
Ela mordeu a fatia com vontade e a devorou rapidamente. Fiquei observando-a intrigada enquanto comia aquele alimento estranho. Neste momento, uma dúvida surgiu em minha mente:
– Ah! Você disse “apesar de não ser caseiro”, certo? O que isso quer dizer?
– Oh... Eu me esqueço de que você não está por dentro das coisas de hoje em dia. Esse bolo foi feito em uma fábrica. Existem várias delas com máquinas que fazem o trabalho de pessoas normais, só que com mais... Pre... Preci...
– Precisão?
– Isso! Meu irmão adora essas coisas. Eu acho meio assustador. Vai que elas se revoltam e param de fazer bolo? Isso seria péssimo!
– Heh. Entendo.
De repente, uma grande melancolia tomou conta do meu ser. Ela veio tão repentinamente que não sabia nem seu motivo. Olhei para o teto do templo em busca de respostas. Sempre que ficava confusa sobre algo, olhava para o céu. Esse método nunca me decepcionou, e naquela vez não foi diferente.
Notei que quanto mais eu falava com Ruby, mais eu percebia que não sabia de nada sobre o mundo fora da floresta. Isso também me fez perceber o medo que eu sentia de descobrir este mundo. Estava perdida nos meus pensamentos quando senti algo puxando minha camisa. Olhei para baixo e a pequena me olhava, porém não exibia um sorriso no rosto.
– Tia... Aconteceu alguma coisa? Eu disse algo de errado?
– O quê? Por que acha isso?
– Você estava olhando para o teto com um rosto tão triste.
– Não é nada disso. É só que... Eu me toquei que não sei absolutamente nada sobre a sociedade atual. E isso me incomoda um pouco.
– Oh... Entendi. Bem, então por que não sai da floresta? Já que você é imortal, pode até explorar o mundo inteiro se quiser.
– Eu sei disso, mas... Eu... É difícil admitir isso como uma ex-assassina, mas... Tenho medo do que encontrarei.
– Medo? Por quê? Eu sei que tudo deve estar muito diferente, mas não há o que temer.
– Não é isso... Ou é... Bem, isso pode ser por causa da última vez em que fui até lá. Aquilo me deixou um pouco traumatizada.
– Nossa! O que houve?
– Lembra-se da organização de sacerdotes que eu mencionei da última vez em que esteve aqui?
– Lembro. Por quê?
– Como os céticos destruíram todos os outros templos, eles ficaram um bom tempo usando este aqui como local de oração. Porém, conforme o tempo passou, as lideranças passaram para outra geração, e mais outra, e mais outra... E eles pararam de aparecer. Na verdade, essa “parceria” durou cerca de três gerações. Como você sabe, a passagem do tempo ocorre muito rapidamente para mim, então quando me dei conta já não havia mais ninguém por aqui. Por isso decidi ir até a vila dar uma olhada. Mas... A cena que encontrei foi aterradora. Boa parte da floresta havia sido derrubada e a vila estava em péssimas condições. Pessoas dormindo nas estradas, casas caindo aos pedaços e um forte cheiro de fumaça no ar. Mais ao longe, pude ver uma enorme construção de... Uma espécie de pedra. Esta possuía três altas torres que exalavam uma fumaça negra horrível. Voltei correndo para cá o mais rápido que eu pude e decidi nunca mais sair.
– Oh... Isso parece ser... Muito triste. Mas as coisas não estão mais desse jeito. A construção que você falou deveria ser uma fábrica antiga. Hoje em dia elas não soltam tanta fumaça assim. A cidade cresceu bastante e... Ainda existem moradores de rua, mas... Há alguns lugares bonitos e é um bom lugar para se viver... Quer dizer, isso se você não for um cético.
– Então não está mais tão ruim... Espere. Você quis dizer a menos que você seja religioso, certo?
– Não. Na verdade, no tempo dos meus avôs era assim. Se você acreditasse em alguma coisa sobrenatural, então você tinha problemas mentais. Mas isso começou a mudar depois que o exército saiu do poder. Agora a situação se inverteu e existe até um grupo que caça aqueles considerados hereges.
– Meu Deus... Mas isso... Também não está certo. Admito que existe um local obscuro no meu coração reservado para o ódio que sinto desses malditos, mas... Isso não quer dizer que eu vá sair matando eles. Ainda sou uma sacerdotisa, afinal.
– Entendo. Eu também não concordo com isso. Principalmente porque meu irmão é cético. Ele pode ser um idiota e se meter constantemente em encrenca por causa disso, mas... Ele ainda é meu irmão.
– Heh. Entendo. Aliás, você parece estar muito bem informada sobre a história de sua cidade.
– Ah... Isso... Bem... É que meu avô viveu na época em que o exército mandava em tudo e até ajudou a acabar com isso. Ele vivia me contando história. Dizia que o fazia por causa de um amigo que morreu na guerra. Esse amigo contava altas lendas pra crianças de orfanatos e elas gostavam bastante. Então meu avô resolveu aprender essas lendas e as contava pra mim e pro meu irmão. Então... Foi assim que eu comecei a me interessar por História. Quero trabalhar com isso quando crescer... Não sei bem como, mas eu vou descobrir!
– Interessante. Seu avô parece ser uma boa pessoa.
– E era... Só que ele morreu esse ano. Minha avó morreu ano passado, então eu sabia que ele não ia durar muito... Mas ele já era velhinho, coitado. Meus pais tiveram a gente muito “tarde”.
– Sinto muito por isso.
– Não se preocupe. Além do mais, você já deve ter passado por isso várias vezes.
– Sim... Isso faz parte da minha maldição. Todos os parentes que eu conhecia já morreram há muito tempo. Mas já estou acostumada com isso.
– Existe um jeito de se acostumar com isso?
– Na verdade não. Eu apenas estou... Conformada. Afinal, não há o que fazer.
– Tem razão...
– Outra coisa: como eu sou imortal, sei qual é o valor da morte. Muitos pensam que é o fim de tudo, mas eu acho que é mais como um descanso... Um descanso que eu daria de tudo para conseguir.
– Posso até estar sendo muito intrometida, mas... Você já tentou se matar?
– Já fui atacada por algumas feras selvagens, cai de grandes alturas, recebi um raio na cabeça, fiquei horas submersa, passei outras horas pendurada pelo pescoço em uma árvore e até tentei cortar minha própria cabeça. Mas ainda estou aqui. Sobrevivi a isso tudo... E só ganhei uma imensa frustração por ser incapaz de acabar com meu sofrimento.
– Oh... Deve ter sido difícil pra você. A solidão machuca bastante. Sei disso porque não tenho muitos amigos na escola. Eles dizem que eu sou estranha.
– O quê? Você não é estranha.
– Não precisa ser gentil, tia Tsuya. Eu sei que sou esquisita, mas eu não me importo. Gosto de ser assim.
– Bem... É isso que importa, acho.
– Sim! Sem falar que eu não preciso deles.
– Também não precisa ser radical assim.
– Mas é verdade! Eu só estava solitária mesmo por causa da morte do vovô, só que não preciso mais me preocupar com isso.
– Por quê? Por causa do seu irmão?
– Não, ele é um idiota. É por causa de você, tia. Quer dizer... Eu... Posso contar com você para isso?
– O-o quê? E-eu? B-bem... Claro! E-eu sou uma desocupada mesmo. Então... Sempre que quiser pode aparecer por aqui.
– Sério? Que foda! Obrigada, tia!
– D-disponha.
– Droga! Estava tão empolgada com as histórias que quase me esqueci. Meus pais queriam te agradecer.
– Me agradecer? Pelo o quê?
– Ué... Por ter salvado a gente daqueles caras malvados.
– Ah! Mas aquilo não foi nada.
– Como assim não foi nada, mulher? Você deu uma bela surra neles sem que eles te encostassem! É claro que o cara acertou os tiros em você, mas ele trapaceou! E também levou uma surra!
– Bem... Só fiz o que achei ser o certo.
– Tia Tsuya. Você é muito fodona para ser modesta desse jeito. Se não fosse por você... Eu nem sei o que teriam feito conosco.
Aqueles homens realmente não estavam com boas intenções. O jeito que eles olhavam a pequena era nojento, sem falar que estavam cegos de ódio pelo garoto. Pelos reflexos que pude ver de Jim ao me atacar, acho que ele realmente não teria muitas chances, principalmente por estar em desvantagem. Todos os fatos me apontavam como um tipo de “heroína”, mas estava muito desacreditada da vida para pensar assim. Apenas decidi fingir que concordava com ela, para que a mesma não se sentisse mal.
– Bem... De nada. Estou aqui para essas coisas.
– Então... Como eu ia dizendo, meus pais querem te agradecer... Pessoalmente.
– Anh?
– E como você está toda preocupada com esse lance de não manjar mais sobre o mundo, eu tive uma ótima ideia! Eu te levo lá em casa e você conhece meus pais.
– Espera... O quê? Não... Eu...
– Não se preocupe! Você disse que tem medo de ir sozinha, certo?
– Sim...
– Então! Eu te ajudo a enfrentar esse medo e ainda resolvo esse lance dos meus pais... Pra falar a verdade, eles não acreditam muito que você existe.
– Eu... Posso entender o motivo.
– Desse jeito eu provo sua existência, eles te agradecem e você enfrenta seu medo! É um plano perfeito!
– Eu... Não sei...
– Vamos! Por mim...
Ela virou-se para mim e encarou-me com os olhos brilhando. Era uma expressão extremamente poderosa. Fui incapaz de negar seu pedido... Aliás, acho que seria incapaz de negar qualquer coisa para aquele rostinho.
– Eu não... – disse e depois suspirei profundamente. – Tudo bem, tudo bem. Eu aceito.
– Sério? Yay! Então é melhor irmos logo! Quero que você esteja lá antes de eles chegarem do trabalho.
Tranquei meus aposentos e a sala do altar o mais rápido que pude e saímos do templo. Fiquei nervosa durante todo o trajeto. Pensei várias vezes em desistir de tudo e voltar correndo para o templo, mas nunca fui de romper com minha palavra. “Maldita honra!” pensava o tempo todo. No final, chegamos às últimas árvores da floresta. Minhas pernas tremiam e eu suava frio. Uma situação um tanto quanto ridícula para uma ex-assassina. A pequena foi na frente e estendeu sua mão para mim:
– Vamos, tia! Você vai ver que não está tão ruim.
– Tudo bem... Eu vou...
Respirei profundamente, cerrei os pulos, fechei os olhos e... Saí da floresta. Senti a mão de Ruby pegar na minha e me guiar por algum tempo. De repente, ela parou e puxou minha camiseta.
– Tia Tsuya... Já pode abrir os olhos.
Abri meus olhos lentamente e dei de cara com uma visão impactante. A área da floresta continuava a mesma, porém a pequena vila estava muito diferente. Havia muitas casas que iam até o horizonte. Pude ver algumas construções verticais acinzentadas e feias e outras grandes e largas construções que pareciam muito com aquela tal... Fábrica que vi da última vez, mas suas torres soltavam uma fumaça levemente acinzentada e em menor escala. A aparência do local realmente não era mais tão depressiva, mas ainda assim era desagradável. O cinza estava em quase toda parte, o que tirava a beleza natural que aquele lugar um dia possuiu. Ruby logo começou a me arrastar em direção à vila enquanto eu tentava digerir toda aquela informação, o que, obviamente, demoraria bastante.
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