Passion

1 Capítulo 1


“Amá-la não parece ser o suficiente! Quem saberá se serei um dia aquele por quem ela suspirará…”

Chovia. As nuvens carregadas e escuras pairavam no céu.

Ela corria debaixo da chuva intensa. O seu vestido molhado e pesado dificultava cada vez mais a tentativa de se afastar de quem a magoou.

Porém, assim como ela, ele chorava amargurado com as lembranças.

Ele procurava-a nos corredores da mansão escura, em vão. A noite começava a cair e ele ansiava poder tê-la nos braços novamente. Encontrou o vestido rasgado, aquele que ele lhe oferecera e o retrato que ela fizera dele encontrava-se agora riscado, irreconhecível.

Passou os dedos no desenho, sentindo a força com que ela traçava as linhas, sentido a raiva que ela sentia dele. E mais uma vez chorou por aquilo que perdeu. Ele queria poder voltar atrás, mas não era possível.

-Argh!

Um grito de raiva saiu da sua garganta e as lágrimas vieram, desta vez, raivosas. Ele entregou-se á solidão. Deixou o seu corpo cair no chão abraçando, por fim, os joelhos. Sentia-a cada vez mais longe de si, e isso matava-o aos poucos.

Enquanto isso, ela corria. Corria contra o amor que sentia, corria em direção á negação daquele sentimento. E estava tão confusa! Ao mesmo tempo que se queria afastar dele, queria-o ao pé de si.

Parou, não conseguia respirar. Estava a sufocar com tamanha dor.

“-Diz alguma coisa! Chora, bate-me, chama-me nomes…Mas reage! Não penses, reage!” – Ele pediu-lhe, segurando-a nos ombros bruscamente.

Ela lembrou-se dele novamente.

Afinal como podia esquecer-se de alguém com quem viveu tanto tempo.

“-Amas-me?” – Ele perguntou-lhe.

Ela não respondeu. Limitou-se a olhar para ele.

Eles sabiam a resposta para aquela pergunta.

“-Então deixa-me oferecer-te a minha mão! Quem é que vais desiludir ao fazê-lo? Quem vais magoar?” – Questionou.

“-A mim mesma!” – Ela respondeu, certa da sua resposta.

Caiu de joelhos no chão encharcado. O seu vestido outrora branco marcava-se agora com lama trazida pela chuva. Contudo ela não se moveu dali. O seu peito movimentava-se rápido. Ela chorava de mágoa e raiva, por se sentir inocente demais.

Como poderia ter acreditado nele desde o princípio?

Como poderia ele ter mentido sobre quem era verdadeiramente?

A chuva parou.

Ela ergueu os olhos molhados e cansados para o céu e viu o sol cumprimentar-lhe.

Viu ali uma nova esperança de renascer, e uma oportunidade de voltar atrás.

Mas isso, ela não poderia fazê-lo, por ela mesma!

Levantou-se e arrumou os cabelos num rabo-de-cavalo bem feito, limpou os olhos às mangas compridas do vestido e sorriu, tristemente, mas sorriu. Continuou a caminhar, mas parou, subitamente, ao ouvir o trágico som.

O cheiro a pólvora reinava no quarto da grande mansão. O corpo inerte estendido no chão, frio e sem vida. Os cabelos estavam revoltos e sem brilho, banhados pelo líquido escarlate. O pequeno revolver, ainda quente por ter tirado a vida a um amante que não soube amar com todo o seu ser. Um amante que deixou o seu pior lado vir ao de cima, magoando quem amava e matando-se tirando a vida a ela também, mesmo sem o saber.

Conta-se na pequena aldeia, que quem o encontrou já sem vida, foi ela.

Que foi ela que lhe fechou os olhos azuis pela última vez, que chorou em cima do seu corpo sem vida e que lhe beijou os cabelos dizendo o quanto o amava e que o perdoava, balbuciando palavras desconexas entre lágrimas sufocantes e arrependimento.

Mas ninguém sabe o que dizia o resto da carta que ele lhe escreveu, que começava como começou esta pequena narrativa.

Mas, mesmo sabendo apenas o começo, temos a resposta.

É sim por ele por quem ela suspira ainda hoje, quando se lembra dele, do seu sorriso e dos lábios suaves dele sobre os dela.

Foi por ele, sabendo que nunca mais o teria de forma completa, que ela deixou a vida para trás e correu, agora, de encontro a ele, tentando vê-lo, pela última vez, sorrindo.

Notas finais
Comentários? São merecidos ou nem por isso?
Bjs,♥!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!