Notas iniciais
Quero agradecer à Deb que praticamente escreveu metade do capítulo durante meu bloqueio criativo e ao Luc que foi meu terapeuta por um dia, me ajudando a sair do bloqueio criativo. Sem vocês esse capítulo não seria possível. Agora podem ler!

– O que você quer comigo? — perguntei.

Enquanto eu estava conversando com "a galera", a Mia apareceu e me puxou para um canto, dizendo que precisava conversar comigo. Ninguém se importou, então fui obrigada.

– Eles podem ter engolido, mas eu não. Nem a Rafa. Sabemos que você não é normal. — ela já começou acusando.

– Normal é meio relativo, não acha? Nenhum de nós — fiz um gesto indicando tudo à minha volta — é normal. Se fossemos, não estaríamos aqui.

– Eu sei que você está escondendo alguma coisa. Eu sinto.

– Vai ver o que você sente seja indigestão. Ou prisão de ventre.

– Vai ver o que você sente agora com esse ombro machucado não se compare a o que vai sentir se continuar usando mal a sua língua.

– É o que? Complô contra minha língua agora? Por favor, Mariana. Ameaças não vão ajudar em nada.

– Talvez você só precise de uma demonstração.

Ela levantou uma adaga cravejada de pedras vermelhas em seu punho e quase encostou em meu pescoço. Aquilo era novo pra mim. Afrodite não era deusa da beleza, amor e tudo que há de fofo?

–Olha, sei que a perda da Lilly foi difícil e que a minha aparição não ajudou nem um pouco na recuperação, mas convenhamos, se eu fosse ela, por que esconderia minha identidade? — perguntei e ela abriu e fechou a boca duas vezes.

– Me responda você.- ela encostou a lâmina de leve em minha garganta.

– Não. Não sou obrigada. — já estava irritante aquela garota que tinha me visto uma vez e estava toda nervosinha por minha causa. Igual à Rafaela.

– Simplesmente não é possível que você não lembre de nada. Principalmente tendo os sonhos Não acredito em você.

– Sonhos?

– Você esqueceu o que é um sonho ou é estúpida mesmo? — ela apertou a adaga e uma gota de sangue escorreu pelo meu pescoço.

– Eu sei o que é sonho. Só não sei do que você esta falando. E estúpida é você. – respondi, me sentindo estúpida com essa resposta infantil.

– Os sonhos, Ella. Todo semideus novato tem sonhos reais durante a noite. Praticamente toda noite.

– Eu não... Não tenho sonho nenhum.

– Viu? Eu não tenho como acreditar.

– MAS É A VERDADE! EU NÃO ESTOU MENTINDO! — esbravejei, irritada.

Ela olhou em meus olhos e não faço ideia do que viu. Pareceu resolver então que talvez pudesse acreditar em mim. Ou não. Só sei que depois de alguns segundos me encarando, embainhou a adaga.

– Me encontre na frente do refeitório ao pôr do sol. Se você não aparecer, te mato. E estou falando sério.

– Claro, sem pressão nenhuma.

– Cala a boca que é o melhor que você faz, viu?

– Mia, ainda não descobri o que eu faço de melhor, mas quem sabe calar a sua boca vire minha especialidade? — é, eu estava louca pra ver aquela garota fora do sério. — Nunca se sabe.

– Acho que só o meu namorado consegue isso. Me beijando, Ella. A não ser que você seja lésbica... Sem preconceito, eu sou perfeita pra todo mundo mesmo. — ela deu de ombros e saiu rindo.

Beijar a Mia? Eca. Preferia que ela falasse todas as palavras do dicionário.

Não tive cabeça pra voltar à conversa, então saí do refeitório.

Escolhi um rumo aleatório e deixei que meus pés me guiassem. Pensei no que a Mia havia dado a entender. Talvez eu realmente fosse a Lilly. Ah, que lindo, eu me contrariando. O que seria do Will ao descobrir? O que seria do Acampamento? Será que uma noticia de tal gênero, afetaria a todos? Pensando melhor, se a história dos sonhos fosse realmente verdade... Tanto que eu não havia sonhado desde que cheguei ao Acampamento. Mas se os sonhos revelassem o meu passado, talvez fosse uma felicidade não tê-los. Eu não queria lembrar do passado, havia me decidido ao conversar com o Gus, não havia? Já pensando por outro lado, e se minha vida fosse feliz? E se eu fosse amada e bem tratada? E se eu na verdade fosse a Lilly? Embora não houvesse nada que provasse que sim, também não havia nada que provasse que não.

Também pensei na profecia. Seus últimos versos haviam me provado que se tratava de mim, mas embora revelassem isso, mais nada era revelado. Eu só sabia que assim que Quíron tomasse conhecimento da profecia, ele agiria rápido, fosse sua decisão qualquer que fosse. Mesmo aquela profecia sendo minha, eu acreditava que ele nunca me mandaria em uma missão, afinal de contas, ela era uma novata.

Tentei afastar todos aqueles pensamentos confusos da minha cabeça, focando meus olhos no chão. A grama era bem aparada e parecia ter acabado de ser regada — embora sempre tivesse essa aparência — e seguia até um pequeno riacho que ligava o lago à Praia dos Fogos. Cascalhos à sua margem em tons de cinza brilhavam por causa da luz do sol. Mais à frente, do outro lado do riacho, pude ver a imponente parede de escalada, ostentando obstáculos inimagináveis.

Sentei-me à beira do riacho e tirei meus sapatos. Joguei minhas pernas para dentro da água encarando seu movimento tranquilo e constante, puxando tudo para uma única direção e esperei que a correnteza carregasse meus pensamentos confusos. Mas contra minha vontade, minha cabeça estava a mil. Pois é, não rolou.

Devo ter ficado assim, ponderando minha vida por várias horas, porque percebi uma mudança na claridade que era refletida na água. Não tinha vontade de olhar o céu para ver o sol, mas provavelmente em pouco tempo ele iria se pôr, o que significava que meu encontro iminente com Mia estava mais próximo que eu gostaria.

Quando comecei a ponderar a possibilidade de fugir de tal encontro, apesar das ameaças dela, senti um movimento ligeiro atrás de mim. Alguém se esforçava para ser cautelosa, mas os galhos e folhas secas não colaboravam. Não tive vontade de virar para trás e conferir, mas procurei à minha volta algo que pudesse usar de arma. Infelizmente, eu teria que me contentar com os cascalhos da beira do riacho.

Primeiro senti algo se aproximando demais e segurei os cascalhos com força. Talvez não fossem ótimos, mas era o que eu tinha. Logo vi que era uma mão se dirigindo ao meu ombro esquerdo. Antes que eu pudesse reagir, porém, a mão parou no ar, como se tivesse percebido que ia fazer besteira.

Então, uma garota de lindos cabelos castanhos se sentou à minha esquerda. Não a reconheci de imediato, pois seu cabelo tapava minha visão.

Senti certa raiva quando percebi que era Deb. Já não bastava ter me atravessado com uma adaga, ainda vinha me torturar? Antes que eu pudesse abrir a boca para protestar, ela se manifestou.

– Me desculpe.

A declaração repentina me fez sobressaltar, meu ombro latejando em protesto. Olhei em seus olhos e só vi dor.

– Eu sei que um pedido de desculpas não vai trazer o seu ombro de volta e nem tirar a dor que você sofreu. – continuou – E que é ridículo eu tentar pedir perdão. Mas quando eu te vi a ponto de rasgar a garganta do Will, olhando ameaçadoramente para o Davi, o sangue me subiu a cabeça. Eu já estava bastante nervosa por causa da caça, não sei se você sabe, mas sou conselheira de Atena. Eu não estava aceitando muito bem o fato os planos terem falhado. Não foi por sua causa, mas na hora foi o que pareceu. Sei que não são motivos e sei que pode me odiar, e não te julgo por isso, mas... Eu sinto muito.

Vi que era verdade apenas olhando em seus olhos. A dor refletida neles era genuína.

– Embora eu ache que você exagerou, entendo o que fez. — respondi, franzindo a testa — Ou tento entender.

– Exagerei é apelido. Eu poderia ter te matado, sabia? Se o Filipe não tivesse feito a cauterização da veia a tempo...

– Filipe? — perguntei, surpresa.

– Pois é. Ele sabia exatamente o que fazer, mas acho que não queria que ninguém revelasse isso, porque quando o Davi comentou com alguém, ele ficou furioso.

– Não entendo nada nessa vida mesmo. — quase dei de ombros. Com certeza me acostumar com meu ombro imobilizado seria complicado.

– Uma hora acostuma, vai por mim — ela riu.

– Talvez...- eu não fique aqui por muito mais tempo, pelo menos não o suficiente para acostumar, pensei, lembrando da profecia novamente — Talvez seja exatamente isso que eu preciso.

– Talvez. – ela sorriu. – Bem, se precisar de qualquer coisa, estou por aí, pode me chamar. – se levantou e dessa vez, sem hesitação, tocou em meu ombro esquerdo. – A gente se vê! – e saiu correndo, cabelos ao vento.

Olhei para cima, praticamente choramingando. O sol estava se pondo, o que significava meu encontro com Mia.

Notas finais
Mia, te amo, tá?