Notas iniciais
Finalmente o caça. AEHOOOOOOO.

Imediatamente todos que estavam na tenda saíram correndo. Fiquei desnorteada e não fazia ideia do que fazer. Alguém segurou meu braço e me puxou para a multidão. Adentramos a floresta e eu pude ver que haviam fortes construídos por ali. Vi que os grupos vermelho e azul se dividiam pela metade. Metade sumia e a outra ia na direção em que eu estava indo.

– Para onde todos estão indo? Para onde estamos indo? – perguntei, mas não obtive resposta.

Quando chegamos, vi que quem havia me puxado até lá era a Madu e que ela já estava de elmo. Coloquei o meu. Com dificuldade. As pessoas se organizavam como para uma batalha de verdade e a Madu fazia parte da linha de frente. Aparentemente o chalé de Zeus era o líder do grupo vermelho. Entendi que aquelas pessoas ali fariam parte do ataque. Eles procurariam a bandeira do adversário no enquanto os outros que havia sumido tinham ido para a defesa ou qualquer outra coisa que tivessem como estratégia.

Alguém apareceu do meu lado e me estendeu uma espada.

– Vi que você esqueceu sua arma, então te trouxe uma. — Paulo falou, com um brilho no olhar.

– Hm... Obrigada. – respondi e acabei me misturando na multidão.

Vi que não ia ajudar em nada no meio daquela gente então resolvi não ficar lá. Desvencilhei-me daquele amontoado de corpos e me escondi atrás de uma árvore que era rodeada de outras árvores. Escalei a árvore tendo pouca dificuldade por conta do tornozelo e me sentei em galhos de sua copa me escondendo entre folhas de modo que ninguém pudesse me ver. De lá eu conseguia ver todos do ataque de ambos os grupos.

Não que eu tivesse medo de ficar lá e enfrentar, não que eu não quisesse. Eu queria. Mas era impossível. Eu era uma novata, enquanto todos lá eram treinados e experientes. Imaginei que o elemento surpresa de pular de uma árvore seria favorável a mim.

Outro sinal ecoou, e Quíron disse algumas palavras. Devo admitir que não ouvi nenhuma. A adrenalina corria por minhas veias e meu cérebro a mil.

Quando um terceiro sinal soou, todos começaram a correr. Me perdi vendo todos aqueles corpos se enfrentando. Um contra um. De lá de cima, me pareciam formigas vermelhas e azuis se enfrentando. Era até engraçado ver as pessoas se divertindo em algo tão destrutivo. Reparei em certa dupla do time azul. Diferente de todos, aqueles dois pareciam trabalhar juntos, e honestamente, o que eu via era uma sincronia perfeita.

Algumas vezes ambos se juntavam e lutavam contra um oponente e outras, cada um contra um e logo eles trocavam, confundindo os oponentes e os incapacitando. Aquilo era o mais real que poderia ser. Eles lutavam tanto com voracidade quanto elegância. Um ajudava o outro. Era simplesmente incrível vê-los lutando. Suas espadas tilintavam praticamente no mesmo ritmo, não importando seus oponentes. Era música para meus ouvidos, e provavelmente para os deles também. Como a Nick os havia chamado mesmo? Dupla impossível. Era um nome muito bem aplicado. Will e Davi eram mesmo impossíveis.

Vi Madu indo em direção a eles e resolvi me manifestar. Não sabia se aguentaria o tombo, nem se conseguiria que alguém ficasse embaixo parado o tempo suficiente para aparar minha queda. Era até um tanto suicida, mas por que não? Dei de ombros e fiz uma prece rápida a qualquer que fosse o deus das quedas amortecidas e me joguei na batalha. Literalmente.

Se fora sorte minha, azar do garoto, ou simplesmente minha prece fora atendida eu não sabia, mas sabia que havia aterrissado relativamente bem. Relativamente, pois fiquei com pena do garoto de cabeça raspada cujo fora o amortecedor da minha queda. Talvez ele precisasse passar algum tempo na ala hospitalar. Talvez eu devesse emagrecer um pouco.

Uma garota de cabelos cor de rosa veio em minha direção, espada a postos. Devo admitir que fiquei impressionada comigo mesma. Mostrei tal facilidade em derrubar a garota que quase esqueci para que havia pulado, partindo para cima de um garoto que parecia um tanto desnorteado. O desarmei e ele se rendeu para que eu o levasse como prisioneiro. Que raios eu faria com um prisioneiro? O usaria contra os inimigos? O mandaria me abanar e colocar uvas na minha boca? Embora a segunda opção fosse tentadora, me contentei em entregá-lo a uma garota loira de elmo vermelho que estava ao meu lado.

Vasculhei a área procurando a Madu, mas não consegui enxergar seus cabelos castanhos naquela vasta multidão de elmos cobrindo cabelos. Porém enxerguei certo par de olhos verdes. Will lutava sem parecer se esforçar nem um pouco, enquanto grande parte dos adolescentes de lá suava como porcos, ele parecia impecável. Como um deus, pensei. Não conseguia, porém, deixar de pensar em sua perda. Um garoto de elmo vermelho partiu para cima de mim.

– Ei, calma, camarada. — apontei para meu elmo, rindo. — Estamos juntos nessa.

Ele assentiu e saiu correndo atrás de ação.

Percebi que aquilo havia me custado a localização de Will. Antes de pular, eu não havia pensado direito, mas agora já tinha meu objetivo traçado em minha cabeça. Corri em direção ao lugar que havia o visto por último e uma garota baixinha me feriu. Olhei para meu antebraço e ele sangrava consideravelmente. A reconheci pelo jeito arrogante. E pela altura, claro. Rafaela.

– Ótimo te ver aqui. Te fazer pagar pelo que fez com Quíron vai ser bastante agradável. — ela falou, atacando novamente.

Mas de jeito nenhum eu deixaria uma baixinha falar assim comigo. Ela podia ter a experiência e treinamento que fossem, mas pagaria por falar assim comigo, principalmente por me culpar por algo que nem ao menos fiz – de propósito.

Bloqueei seus três primeiros ataques e investi contra ela. Felizmente ela não tinha um escudo e foi fácil cortar seu braço. Até teria ficado com pena dela se não tivesse ficado impressionada com o que tinha feito. Seu braço tinha um talho do ombro ao pulso. Aquilo sim sangrava. Ela me olhou e vi fogo arder em seus olhos.

– Que venha então, baixinha. — provoquei.

Ela foi para cima de mim tão furiosa que se atrapalhou nos golpes e a bloqueei apenas erguendo minha espada. Ao mesmo tempo dei uma rasteira nela que quase a fez cair, mas a baixinha tinha bom equilíbrio afinal. Infelizmente ela não desistiu.

– Sabia que pessoas se machucam bastante durante os caças? Já houveram até mortes. Você deveria se preocupar mais com como usa sua língua.

Fiquei entediada com todas aquelas ameaças irritantemente estúpidas. Cortei-lhe a perna, o que a fez mancar um pouco e me atacar. Defendi-me sem dificuldade e a rasteira dessa vez foi mais eficiente. Ela caiu sentada e antes que conseguisse se levantar, subi em suas pernas, com um pé em cima de cada uma, pondo todo o meu peso em cima dela e dei uma joelhada em sua testa, a desacordando.

– Eu uso minha língua como quiser. – respondi embainhando a espada, mesmo sabendo que ela não podia ouvir.

Ótimo. Ela havia me distraído direitinho. Eu perdi a dupla de vista e grande parte dos adolescentes que permaneceram ali estavam caídos. Havia duas ou três duplas travando duelos, mas fora isso, nada. Resolvi seguir o barulho. Embora gritos ecoassem por toda parte, de algum modo, enquanto eu lutava com Rafaela, meus ouvidos meio que se desligaram do mundo. Agora eles estavam focados no caminho pelo qual mais gritos ecoavam. Corri bastante e ouvi o tilintar de espadas bem mais alto que antes, mas quando cheguei um pouco mais perto, vi que não conhecia nenhum dos campistas ali. Eba. Como eu acharia o Will agora?

– Olha só. A novata sobreviveu. — falou uma voz

Vi que a voz se dirigia a mim e procurei de onde vinha.

– Ela parece um patinho perdido. — falou uma segunda voz, que eu reconheci imediatamente.

– Paulo, isso não tem a menor graça. — reclamei, cruzando os braços.

– Não esteja tão certa disso. — Paulo falou, pulando — ou aterrissando — bem ao meu lado, rindo.

Olhei para cima e vi outro garoto pulando da árvore e aterrissando ao meu outro lado. O reconheci com uma pequena dificuldade. Filipe Muliterno. Ele era bem mais bonito de perto. Seus olhos azuis brilhavam.

Ambos usavam armadura incompleta, provavelmente para facilitar os movimentos. Ou só para se exibirem mesmo, até porque parecia fazer o tipo do Filipe. Diferente do que eu já havia visto nos outros campistas, nenhum dos dois usava espada. Filipe usava uma lança de cabo preto entalhado com símbolos em prateado, da mesma cor de sua ponta. Já Paulo, parecia usar nada mais que uma faca presa ao cinto, até que notei certo brilho prateado em seu punho. Um soco inglês com espinhos. Ai.

– O que os conselheiros de Ares fazem se escondendo? — perguntei, num tom de deboche.

– Eu também gostaria de saber, mas esse aí não parece ser muito capaz de explicar. — Filipe disse, apontando para Paulo.

– Estratégia, mano. Já expliquei. Aqui ganha quem pega a bandeira, não quem sai apagando todo mundo. — Paulo falou, revirando os olhos.

– Apagar os outros sempre foi mais divertido. Não concorda, gatinha?

– Não me chame assim, Muliterno. — me virei para o Paulo. — Por acaso você viu uma dupla do azul passando por aqui?

– Várias delas. — ele respondeu, obviamente debochando de mim.

– Vou reformular a pergunta então. Por acaso o Will e o Davi passaram por aqui? — perguntei, impaciente.

– Tem muitos Wills e, nossa, tantos Davis que nem me atrevo a contar, gatinha. — Filipe respondeu, obviamente ignorando a minha aversão ao apelido.

– Olha, muito obrigada pela ajuda dos dois, mas eu estou meio que ocupada. — falei, seca.

– Eles foram por ali — Paulo apontou -, o que é bem o caminho até a bandeira vermelha.

– Por que vocês não os impediram? São doidos?

– Doido é como você está me deixando, sendo linda assim. — Filipe falou.

– Ele não tem namorada? — perguntei ao Paulo

– Ás vezes nem eu sei. — deu de ombros. — Mas respondendo à sua pergunta anterior, nosso objetivo é ganhar, a defesa vai fazer seu papel enquanto fizermos o nosso.

– Que seja. — dei de ombros e saí correndo na direção que Paulo havia me apontado.

Apurei meus ouvidos embora soubesse que não ouviria nada, até porque se eles planejavam capturar a bandeira, deveriam fazer isso sem muito alarde.

– Calem a boca os dois. — ouvi uma voz feminina, seguida de risadas.

Continuei avançando mais, escondida atrás ora de árvores, ora de arbustos.

– Deb, a gente ganha essa, não esquenta. — uma voz masculina retrucou. Lembrei-me do nome. Deb. Mas onde eu havia escutado ele mesmo?

– Não vou relaxar até que estejamos com aquela maldita bandeira. — Deb falou.

– É assim que se fala. — a mesma voz masculina falou e eu reconheci. Davi. Com certeza o Will estaria ali também.

Chegando mais perto, vi que os três caminhavam juntos. Mas como eu chegaria ao Will? Só ir contra ele já seria difícil, mas ir contra a dupla impossível e outra garota seria mais que impossível. Na verdade, impossível seria um apelido carinhoso. Então eu tinha que os separar. Mas como?

Notas finais
Se puder comentar, favoritar, ou o que seja, agradeço sz