Passado, Presente ou Futuro
3 Capitulo III
– Como todos já sabemos, ontem e hoje tivemos alguns acontecimentos fora do normal... – Quíron começou
–Fora do normal? Um de nossos sátiros encontra uma garota fora dos limites da Colina, praticamente trucidada, que não se lembra de absolutamente nada. Você acha isso fora do normal? Ah, por favor. – uma garota pálida de cabelos negros e compridos, usando uma coroa de flores coloridas e um vestido cor de rosa falou, me parecendo indignada.
–Sem ironia, okay, Yas? A garota ta ouvindo isso tudo e não é culpa dela, então fica na tua. – Pablo respondeu
–Só digo que isso é o que acontece. Somos semideuses, nada deveria ser fora do normal, mas aparecem essas coisas – disse 'essas coisas', apontando para mim –do nada, e geralmente quando a gente tá bem. Aí vocês resolvem arrumar uma reunião, na minha opinião, sem necessidade alguma, por causa disso. Sou dona do meu nariz, Pablo, e tenho tanto direito de falar quanto você. Abaixa a bolinha aí.
–TRETA, TRETA, TRETA! – alguns entoavam
–CAMPISTAS! – Quíron gritou. –SILÊNCIO! Ou NADA de captura à bandeira na sexta! – todos ficaram em absoluto silêncio. –Precisamos decidir o que fazer quanto a ela. O filme de orientação não será útil dessa vez. Não creio que convenha que ela vá para o chalé de Hermes.
–POR QUE NÃO? – um garoto altamente gostoso, digo, alto e loiro, de olhos azuis gritou.
–SOMOS LEGAIS! – outro garoto nem tão alto, de cabelos castanhos cacheados e olhos também castanhos, com uma carinha de criança bagunceira completou.
–Você não se lembra de nada mesmo? – uma menina de cabelos castanhos arrepiados escondidos dentro de uma cartola negra me perguntou.
– Eu... – tentei responder, mas por tentar lembrar, minha cabeça doía de novo. Já estava me irritando com aquilo.
– ELA PODE LEMBRAR E NÃO QUERER CONTAR! – Rafa gritou
– ELLA, SE LEMBRA? – Alguém gritou, mas eu não soube quem era.
Depois dessas perguntas, vieram outras, e mais outras, e mais outras, e eu gritei. Foi como no quarto da Casa Grande, mas dessa vez, não fui arremessada e pude ver com mais clareza o que acontecia. O vento se juntou, comprimindo-se à minha volta e 'explodiu', para todas as direções, como um furacão que desistiu de girar e se expandiu, acertando todos com muita intensidade, mas dessa vez, além do vento, outra coisa também aconteceu, um estrondo que só ouvi, sem conseguir ver o que era, a não ser um clarão branco. Acabei desmaiando e não vi mais nada.
...
–Oi, Ella. — Pablo falou, entre uma garfada e outra de miojo –Está melhor?
Estávamos na sala da Casa Grande –que descobri ser o nome da casa em que eu acordei, que era realmente grande– , eu estava deitada em algo como um sofá-cama, e Pablo estava sentado ao meu lado.
–Ah, oi? O que houve? – olhei para a janela da sala da Casa Grande e vi que o céu exibia estrelas. –Já anoiteceu? O que eu fiz? Eu fiz de novo, não foi?
–Você chocou a todos.– Nando falou, apoiado ao batente da porta, sorrindo.
–NOSSA. Viu o porquê de você ser o cocô e não eu? Isso foi completamente sem graça. Suas piadas não tem graça. Nenhuma. Vou até chorar depois dessa. – Pablo exclamou.
–Dá pra pararem e focarem em mim? Obrigada. – disse, já rindo.
–Você tacou raios em geral. Parabéns, foi um belo espetáculo. – Pablo respondeu
–Não. Pablo é um exagerado. Você invocou pequenos raios, mas eles não fizeram mal algum a ninguém. Fora a suas roupas. Bem, elas agora estão mais em frangalhos do que já estavam. – Nando lançou um olhar sério para o Pablo e continuou. –O que é bom, agora sabemos que você é filha de Zeus.
–Bom? Eu poderia ter machucado alguém! Mas o que? Eu tenho pai? Onde ele está? Ele poderia me ajudar. Vocês o conhecem?
–Ei, calma. Vamos resolver, mas tudo a seu tempo. – Nando disse, se aproximando.
–Agora o melhor é dormir. Amanhã temos muitas coisas para fazer. Seu instrutor vem te buscar amanhã de manhã. – Pablo continuou.
–Instrutor? Dormir? Mas e meu pai?
–Calma, Ella. Vamos passar a noite aqui, mas Quíron não permitiu que fôssemos seus instrutores. Nem a Maria, que deveria ser por ser conselheira do chalé 1. Eu queria chutar aquele traseiro de cavalo.
–Pablo, também não é assim. Acalmem se os dois. Amanhã resolveremos tudo. Estou muito cansado pra pensar. Preciso voltar pro chalé, gostaria de ficar, mas o chalé precisa de algum conselheiro presente. Você fica, irmão?
–Fico sim. Boa noite maninho.
–Boa noitinha Nando. Obrigada pela corrida hoje. – eu sorri e ele sorriu de volta, chegou mais perto ainda, se abaixou e beijou minha testa.
–Boa noitinha Ella. Não foi nada, amanhã a gente aposta outra. – se virou para o Pablo, que assentiu com a cabeça.
Olhei para o Pablo e lembrei que não tinha comido o dia inteiro, bem, eu nem lembrava de alguma refeição que eu tivesse feito na vida.
–Será que ainda tem miojo aí? Eu to com muita fome, não comi nada hoje.
–Tem sim, chega mais. – ele sorriu e me ofereceu o prato.
Eu estava faminta, minha barriga roncava loucamente, comi aquilo em questão de segundos. Melhorou, mas minha barriga ainda doía um pouco. Eu não fazia ideia de há quanto tempo eu não comia, e apesar de ter ficado horas desacordada, me sentia cansada como nunca.
–Obrigada, Miojo. — eu disse e ele riu –Ai, desculpa! Obrigada, Pablo. — eu ri junto.
–De nada, Mioja. — ele disse assim que paramos de rir. –Olha, vou capotar em 3... 2... – Pablo disse e já estava roncando, no sofá cama.
Fiquei sentada ao lado dele, pensando, evitando forçar muito minhas memórias, que embora eu soubesse que elas estavam lá, sentia algo como um bloqueio, e sempre que eu tentava me lembrar de algo, minha cabeça doía. Olhei pela janela para ver as estrelas e achei ter visto alguém. Resolvi que não era nada, mas vi de novo. Levantei-me, com cuidado pra não acordar o Pablo, e fui até a porta apenas para mostrar a mim mesma que não havia ninguém lá e conseguir dormir. Quando a abri, vi um garoto da minha altura, de cabelos negros jogados de lado, piercing no nariz, usando um casaco de moletom grande e preto. Esperava tomar um susto, mas não tomei.
–Oi. Você demorou. – ele falou, com sua voz rouca.
–Demorei? – perguntei ainda meio assustada, meio confusa.
–Deixa a Ella, Ange. – falou outro garoto que eu não tinha visto. Quando o vi, lembrei imediatamente da reunião. Ele era magro e alto, com seu cabelo curto castanho e seus olhos levemente puxados. Usava a blusa laranja de cavalo com asas –pégaso– que me explicaram que era o uniforme do Acampamento.
–Eu só queria conversar com ela, dá um tempo, Davi.
–Eu ainda não to entendendo. Continuo perdida. O que vocês querem? – perguntei.
–Se continua perdida, o que acha daquele GPS que eu te prometi mais cedo, hein? – Lenz disse, aparecendo na luz e me fazendo corar.
–Vocês podiam dar um tempo pra garota, vai ver ela não se lembra de nada mesmo. – disse uma garota que parecia com o Ange, mas mais alta e mais bonita que ele. Com olhos amendoados e cabelo comprido, ela usava roupas completamente pretas.
Como assim? Era só um garoto e do nada tinham várias pessoas, e cada uma aparecia pra falar alguma coisa.
–Nick, a gente precisa saber de alguma coisa. Não tem como a gente se proteger sem saber nada. – disse o Ange.
–Concordo com o Ange. Se não soubermos de nada, estaremos desprotegidos e podemos acabar como ela. – outra garota apareceu falou. A ela, dei uma atenção especial. Seus cabelos ondulados pareciam tão macios que tive vontade de tocá-los, e em seu rosto angelical pairava uma expressão preocupada. Uma cruz prateada pendia em um colar no pescoço dela.
–Ainda não concordo com isso, Mapa. – ele estava se dirigindo a garota de cabelos ondulados. –Ela deve estar cansada e o Pablo não gostaria nem um pouco de saber que estamos fazendo isso. O Quíron menos ainda. – disse o Davi
–Ninguém se importa com o que você concorda ou deixa de concordar, Davi. – Lenz falou, fazendo o Davi encolher os ombros.
–Olha, eu to aqui, sabiam? Não tenho nada a esconder, gente. – falei.
–Viu? Ela não tem nada a esconder, perguntem logo que eu quero sair daqui, essa casa me assusta à noite. – a Nick falou.
–Eu te protejo, Nicklícia. – o Lenz disse, chegando perto dela, a abraçando e beijando seu pescoço.
–Por favor, arrumem um quarto! – Davi pediu.
–Alguém me explica por que mesmo só a Nick veio e as outras garotas não? – Ange perguntou.
–Ah, quer as garotas? Ta legal. Tchau Ange. – Davi falou.
–Eu sou o que? – Mapa falou.
–Será que dá pra vocês se resolverem? — reclamei
–De que você se lembra, Ella?- uma nova voz perguntou, calma, e não descobri de quem vinha, pois a pessoa estava encoberta pelas sombras.
–Nada de antes de acordar na Casa Grande hoje de manhã. – respondi à voz.
–Eu disse, Will. Ela ta falando a verdade, não tem alteração de nada nela, batimentos, tom de voz, nada.
–Ella, precisamos que fale a verdade e acredito em você. – Will disse com sua voz calma, aparecendo na luz. Ele era tão bonito à luz da lua, embora eu já tivesse achado ele bonito antes, na reunião. Ele era esguio, e olhava pra mim com seus olhos verdes como o mar enquanto mexia em seu cabelo negro.
–Qual é a sua primeira lembrança, Ella? – Ange me perguntou.
–Err... Eu não entendi muito aquilo.
–Aquilo o quê? – Davi e Lenz perguntaram ao mesmo tempo
–Eu estava deitada numa maca, em alguma sala do segundo andar...
–Não queremos saber onde estava, queremos saber o que houve! — Ange reclamou.
–Tenha calma com a garota, Angeluz!- Will o cortou.
–Eu ouvi o Quíron conversando com alguém. Uma voz masculina.
–Com quem? – Lenz me perguntou, me fazendo pensar em como ele conseguia fazer duas coisas ao mesmo tempo, prestar atenção na conversa e agarrar a Nick.
–Eu não sei quem era. A voz não era nítida, pelo menos não tanto quanto a do Quíron.
–Ella, o que foi que o Quíron disse?- Will perguntou.
–Disse que o avisaria algo, e que entendia o porquê da voz ter feito o que fez, digo, o homem. E não, eu não faço ideia de quem era. Afinal, mesmo que eu conhecesse a voz, não lembraria.
–Mas o que?- Mapa falou, confusa.
–Ta legal. Já podemos ir. – Davi falou.
–Não. Tem que ter mais coisa. – Mapa insistia.
–Mapa. Chega. – Davi retrucou.
E como se a fala do Davi fosse uma deixa, Lenz e Nick saíram, ainda grudados.
–Você ta legal, cara? — Davi perguntou ao Will.
–Ta tudo bem. — ele respondeu.
–Muito obrigado, Ella. — Davi falou
–Não foi nada, Davi. — assim que falei, ele saiu , praticamente carregando a Mapa e com o Ange o acompanhando ao lado.
Virei-me para o Will, me sentindo na obrigação de falar alguma coisa. Embora eu estivesse feliz por ter alguém do meu lado naquela discussão, não gostava do jeito que ele me olhava. Mais cedo, ele parecia abatido, mas agora parecia fascinado. –Obrigada por tentar me entender e me defender, mas não faça de novo.
–Não foi nada, Ella. Mesmo.
–É que você nem me conhece, então que isso não se repita, eu sei cuidar de mim mesma.
–Sei disso, mas... Você me chamaria de louco se eu te dissesse que sinto que te conheço?
–Claro.
–Confio em você.
–Não confio em você. – e era verdade, eu não confiava mesmo.
–Não seja tão dura consigo mesma.
–Vê se não enche o saco.
–Vê se para com isso. – ele realmente estava me enchendo.
–Isso o quê? O que foi que eu... –ele abraçou minha cintura, me apertou contra si e me beijou. Um beijo demorado cujo eu retribuí sem nem saber o porquê.
Ele me soltou e eu percebi que estava mais vermelha que antes. Ele olhou pra mim, sorrindo.
–Boa noite, Ella. – ele beijou minha bochecha e sumiu. Na mesma rapidez em que apareceu.
Eu estava tão cansada e confusa que não consegui pensar em nada. Arrastei-me até o sofá cama e capotei.
Fale com o autor