Passado, Presente ou Futuro
24 Capítulo XXIV
Notas iniciais
Assim que saímos do Anfiteatro, cumpri a promessa que fiz à Ana e ao Bay. Como Will disse que não poderia me acompanhar, fui sozinha até a ala hospitalar.
Nick não parecia surpresa em me ver lá. Aquele lugar era mais meu chalé que o chalé 1.
Me sentei em uma das macas e esperei.
– O que temos hoje? – Nick perguntou, sorrindo.
– Uma perna e um braço mordidos. Um ombro quase bom. – respondi.
– No que você se meteu dessa vez? – ela perguntou, enquanto desatava o pedaço do vestido amarelo – mais vermelho que amarelo – da minha coxa.
– Você sabe, o de sempre.
Ela tirou as faixas do ombro e saiu.
– Oi pra tu.
Procurei de onde a voz vinha, mas não encontrei.
– O que houve aí contigo? – disse um garoto em pé ao meu lado.
– Oi, Ferrari. – sorri. – Você sabe, o de sempre. Uma garota tem que criar sua reputação de durona.
– Da próxima vez, me chame. Talvez a gente se ajude, sei lá. – seu sorriso era genuíno.
– Eu já chamei. Desculpa por isso. – minha expressão murchou.
– Não peça desculpas, está tudo bem. A Mika não vai ficar satisfeita, mas pra tu ter me chamado, deve ter um motivo, certo?
– Hm... – como explicar a alguém que o maior motivo de você escolher ele é que você não se importa? – Ouvi falar por aí que você era bom guerreiro, mas segundo a profecia, teremos que viajar bastante. Achei que um filho do deus dos viajantes pudesse ajudar. – Raciocínio rápido, meu amorzinho.
– Faz sentido. Mas por que eu?
– Gostei de você. Diferente da Mia, sei que você não vai tentar me matar enquanto durmo. – hesitei. – Você não vai, né?
– Não. – ele riu. – E o monstro que te fez isso suponho que está nas profundezas do Tártaro no momento, certo?
– Quem é Tártaro? – perguntei, fazendo-o gargalhar. Ergui as sobrancelhas. – Qual é a graça?
– Desculpa, é que esqueço que você não sabe muito das coisas. Tártaro é pra onde os monstros vão quando eles morrem.
– É tipo o céu dos monstros?
– Mais pra uma sala de espera com aspecto de inferno.
Nick voltou, com faixas, garrafas estranhas e – o que fez meus olhos brilharem – dois cubos de ambrosia.
Praticamente pulei no saquinho de ambrosia e comi rapidamente, sentindo a deliciosa sensação quente tomando conta de meu corpo. Era uma sensação feliz, de alívio, como se o tudo o que me machucava, não machucasse mais.
Ela limpou ambos os ferimentos e começou enfaixando.
– Como assim sala de espera?
– Os monstros morrem, mas não definitivamente. Eles vão para o tártaro e ficam lá por um tempo. O tempo é relativo, pode ser por um dia, uma década, um ano, um século. Embora essa do século é só se você der muita sorte. O que no mundo semideus não existe.
– Nossa. Que positividade. Pensamentos felizes esses seus, Lipe.
– Ele só disse a verdade, Ella. – Nick respondeu. – Pode ficar de pé, por favor?
Me levantei e não senti quase nada. Meu amor pela ambrosia aumentava a cada dia.
– Viu? É apenas a verdade.
Ela terminou de me enfaixar. Me sentia uma múmia.
– Se importa se eu for para o meu chalé agora? Tenho algumas coisas a resolver lá e....
– Tudo bem, Felipe. Não se preocupe, pode ir. – Interrompi.
Ele olhou para a Nick.
– Alguém vai aparecer para acompanhar ela até o chalé. Alguém sempre aparece.
Ele assentiu e saiu de lá.
– “Alguém sempre aparece”, Nick?
– É só você reparar. Assim que o Pablo ou o Gustavo descobrir onde você está, vai aparecer aqui.
– O Will não? – perguntei.
Ela sorriu com o canto da boca e saiu. Mas o que?
– Ei você. – uma voz feminina chamou e fiquei procurando.
– Eu?
– Ella, né? – então a vi acenando para mim.
Ela era um pouco mais alta que eu, tinha cabelos negros compridos, lisos mas cacheados nas pontas. Sua franja na testa batia nos óculos retangulares e seus olhos castanhos me encaravam. Era magra de nariz fino e dedos compridos, cujos eu reparei quando ela acenou.
– Sim, eu. Você é....?
– Nathalia.
Ficamos em silencio por um tempo até ela sacudir a cabeça como se lembrasse de alguma coisa.
– Ah! Desculpa, eu me esqueci. Bem, meu pai me mandou te dizer uma coisa.
– Seu pai?
– Sim, Hermes. Ele falou algo sobre uma missão aí.
– O que foi exatamente que ele disse, Nath?
– Ah, claro. Ele disse que você precisa tomar muito cuidado nessa missão. Que o maior perigo está não só onde vocês vão, mas também mais perto do que imaginam. Eu, na verdade, achei isso muito a cara de Apolo, sabe? Ele que costuma falar em enigmas e coisas do tipo. Papai não é de fazer isso não. Não que eu seja tipo melhooor amiga dele mas ele é mais normal. Digo, ele fala como alguém normal. Não que Apolo não seja. Mas ele não é muito mesmo, né? Sei lá. Papai é um cara legal e....
– Nathalia! A mensagem do seu pai!
– Sim sim, desculpa. Ele disse que apoia a missão e que vai ajudar vocês. Vocês podem chamar ele quando precisarem, mas uma vez só. E não pode ser no mundo inferior, porque ele não tem permissão para ir lá. Ele gostaria de poder ajudar mais mas...
– Entendi. Obrigada mesmo.
– Não foi nada. – ela sorriu e saiu andando.
Creio que assim que ela saiu, eu adormeci, porque não lembro de mais nada daquela noite.
...
Quando acordei, não estava na ala hospitalar, mas na minha cama no chalé 1.
E o chalé estava completamente vazio.
Ao levantar da cama, me lembrei que era segunda-feira, portanto todos deveriam estar fazendo suas obrigações.
Me arrumei e saí do chalé, em direção à comida.
– Bom dia, Bela Adormecida. – Madu me cumprimentou no caminho para o refeitório.
– Já virou meu apelido, é?
– Talvez. Gus me impediu de te acordar, mas já que você está aqui, vamos logo.
– Vamos pra onde? Ah, por favor, para. Eu tô morrendo de fome.
– Sua missão se inicia amanhã, Ella. Você precisa treinar o máximo possível hoje.
– AMANHÃ?
– Não te avisaram?
– Preciso definitivamente comer.
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