Notas iniciais
Will, obrigada por sempre me apoiar e elogiar os capítulos sz Mary Anne, obrigada por ser tão diva sz Ser maravilhoso que vai ler esse capitulo, OBRIGADA.

Depois da escalada, nos separamos. Resolvi ir para o lugar que mais me trazia conforto no Acampamento. A praia.

Sentei-me não muito afastada do mar de modo que em alguns momentos, a maré vinha e molhava meus pés.

A praia era o melhor lugar para pensar. Comecei a perceber que onde havia água, eu pensava melhor. No lago, na praia. Na noite anterior eu havia passado horas na praia apenas pensando comigo mesma, sem ninguém para atrapalhar. Embora eu imaginasse que a aquele horário – era quase o pôr do sol – haveriam muitas pessoas, acabei me enganando. Provavelmente por causa do campeonato, as pessoas devem ter se enjoado de ficar por lá, então a praia estava vazia, fora uma ou outra dríade ou náiade que surgia do nada.

Por algum motivo que não entendi, me lembrei de Hero. Seu sorriso era genuíno, inocente. Feliz. Parecia muito com meu sorriso sempre que eu estava perto do Will. Ele sempre me fazia sorrir. Não que ele fosse engraçado como o Champs, mas só o fato de o ver já fazia meus dentes terem uma vontade louca de aparecer.

Um garoto correndo passou na minha frente, me distraindo. Ignorei. Ele passou de novo no sentido contrário. Ignorei. Passou de novo. Desisti.

— Por acaso você está perdido? Com algum problema de visão ou é só falta de educação mesmo? – gritei.

— Nossa, você é realmente um doce! – ele sorriu.

Ele era muito bonito mesmo. Tipo mais que o Will. Loiro, musculoso, de olhos azuis. Mencionei que estava sem camisa? Seu bronzeado era perfeito. Seu sorriso cegava. Ele parecia ter seus 18 anos, e aparentemente arrasava corações.

— Doces são pra comer. Eu não.

Ele ergueu uma sobrancelha e começou a rir. Gargalhar na verdade.

— Essa foi ótima, Sweetie. Sabe, esse apelido nunca serviu em você mesmo.

— Como assim “nunca serviu”?

— Nada. Posso me sentar? Não tenho muito tempo.

Eu não respondi, mas ele sentou assim mesmo. Seu braço direito encostava no meu como se fôssemos velhos amigos. Perto demais, querido, perto demais.

— Já sentou mesmo. – dei de ombros, o que fez um braço roçar no dele e o outro doer. Aquele braço já estava irritando. Fiz uma nota mental para que, assim que possível, comeria uns três pedaços de ambrosia. No mínimo.

— Tenho de ser rápido, senão minha carona vai embora.

— Então seja. — respondi.

— Eu te conheço, Sweetie. Ou Ella. Como preferir. Conheço há alguns anos.

Arregalei os olhos. Aquilo realmente me chocou. Um campista que me conhecia? Por que ele não simplesmente se apresentou logo no primeiro dia e me contou tudo? Calma, Ella, calma.

— Há alguns anos?

— Não posso falar muito e preciso ser rápido, o sol já está se pondo. – ergui as sobrancelhas em indagação, mas ele simplesmente ignorou. – Você precisa sair em missão. A profecia que a Camila recitou, te inclui. Aliás você é a principal, mas enfim. Esta noite mesmo, na reunião semanal que o Quíron promove, você deve se apresentar para cumprir a profecia.

— Por que?

— É simples, Sweetie. – ele segurou meu rosto em suas mãos, o toque era quente e não tive vontade de afastá-las. – Se quiser recobrar suas memórias, é o único jeito.

— Minhas memórias?

Eu não queria. Eu havia decidido que a vida no Acampamento era boa e que eu não precisava do passado.

— Sim. – ele ergueu uma sobrancelha. – Ei, você não quer!

— Isso foi uma pergunta?

— Não. Mas lamento, Sweetie. Se você não cumprir a profecia, o Acampamento será destruído, e sem nossos heróis, nada será de nós. Não que você se importe conosco, mas sei que a destruição do Acampamento pesará em sua decisão. – ele acariciou minha bochecha com o polegar.

— “Nós”?

Seu sorriso me cegou novamente.

— Você não imagina o quanto eu senti sua falta. – ele hesitou. – Ou a encrenca em que vou me meter por estar aqui com você. — ele olhou para o sol, que praticamente não estava mais lá. – Mas já que vou, que valha a pena.

Ele me beijou. Não era um beijo feroz como meus últimos com o Will, aquele era doce, carinhoso, diferente. Não o afastei por um simples motivo: eu estava paralisada. Eu sentia como se aquilo já tivesse acontecido, mas não me lembrava. Estranho também era que, enquanto a mão dele estava entrelaçada em meu cabelo, eu não sentia dor de cabeça. O beijo terminou no mesmo jeito que começou: devagar e com o maior cuidado do mundo.

— O que... – tentei falar.

— Imagino que isso te faça ficar curiosa sobre seu passado. – ele disse, sério, se levantando do meu lado e caminhando para longe.

Que costas, hein.

— EI! ME DIGA PELO MENOS SEU NOME! – gritei.

Ele virou meio de lado e deu um sorriso travesso.

— Você me chamava de Sol. – ele disse, e saiu correndo.

Sol era algo que me lembrava de... Lembrava de nada. Branco total.

A propósito, o sol já havia sumido.

...

Minha nota mental piscava como um letreiro neon na minha cabeça. AMBROSIA. COMER AMBROSIA.

Consegui me esgueirar entre as macas de forma que ninguém me viu entrar. Achei o saco de ambrosia e peguei três pedaços. Pois é, fiquei com medo de comer mais. Acontece que meu medo de ser pega era maior que tudo, então não parei para saborear muito, apenas coloquei os três cubos pra dentro. Parei de sentir imediatamente a dor do meu ombro. Saí de lá com a mesma facilidade que entrei.

— Olha só quem está aí.

Dei um pulo de susto e me virei de costas, olhando para a entrada da ala hospitalar.

— Nick?

— Ouvi falar por aí que você já estava melhor, estou vendo que procede.

— Er... Hm...

— Vem cá, prometo não te prender aqui. – Fui até onde ela estava e ela começou a mexer no meu braço. – Você tem noção de como isso aqui está errado? Essas faixas nem prestam mais.

— É que eu...

— Fica quieta, Ella. Entra. Agora. – ela mandou.

Obedeci.

— Senta aí. – ela disse, apontando para uma maca vazia. – E não saia.

Obedeci.

Uns segundos depois, ela voltou com curativos novos, os colocou em cima da minha maca ao meu lado e começou a tirar os meus – que estavam um lixo.

Assim que ela terminou de tirar, olhei para meu ombro.

— Era pra aparecerem essas manchas roxas mesmo? – perguntei.

— Não.

Pelo tom dela, o melhor que eu podia fazer era ficar quieta, então fiquei.

Ela enfaixou o ombro novamente, deixando-o imobilizado. Imobilizado mesmo.

— Volte aqui amanhã de manhã para que eu possa fazer isso de novo.

Agradeci com um meneio de cabeça e saí.

...

Quando estava quase no chalé 1, alguém me chamou, mas não reconheci a voz.

— Oi?

— Aqui, Ella.

Me virei de costas para me deparar com a Mapa.

Seus cabelos castanhos estavam presos em uma trança, que caía em seu ombro. Reparei que ela usava um colar com um pingente vermelho, que parecia algum tipo de talismã. Ela usava a camisa do Acampamento – que caía muito melhor nela que em mim – e um short jeans.

— Ah, oi Mapa. – sorri.

— Como está o braço? Queria pedir desculpas por não ter chegado mais cedo no caça. Podia ter evitado.

— Não se preocupe, já estou melhorando.

— Bem, você ainda está enfaixada, então imagino que não esteja cem por cento bem.

— Ah, você sabe, melhorando. Mas eu já estou me sentindo bem. Tanto que vou pedir uma missão esta noite.

— Esta noite? Achei que a reunião fosse só para os conselheiros...Espera. Você disse “missão”? Novatos não conseguem missões.

— Eu sei, mas acho que vou conseguir.

Ela chegou perto de mim e falou baixo:

— Não, não vai.

— Por... – comecei a falar, mas minha voz sumiu.

Ela virou a cabeça de lado, olhando para mim. Seus olhos, antes castanhos, agora estavam roxos.

— A missão é minha, entendeu?

Assenti com a cabeça. Eu não conseguia mais ter o controle do meu corpo.

— A reunião é em alguns minutos, e você não vai.

— Mas eu... – consegui proferir duas palavras antes da minha voz desaparecer novamente.

— Ah, está tentando resistir? – ela ergueu uma sobrancelha e sorriu, mostrando suas covinhas. – Conselho de amiga: desista. Isso é compulsão de nível 3. Nenhum semideus normal pode resistir.

— Você...

— Sério, Ella? Desiste logo. – ela hesitou. – Quer saber? Já que você não está cooperando, vou me divertir um pouco. Vá para a floresta e não saia de lá até que eu dê a ordem.

Minhas pernas não me obedeciam. Obedeciam à Mapa. Comecei a me afastar e andar em direção à floresta.

— Obrigada, mamãe! – ouvi ela cantarolando e rindo atrás de mim.

Notas finais
Então né... Ella se fodeu.