Pasha
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Pasha
Capítulo Único
O apartamento estava impecável quando Lilia os recebeu, literalmente brilhando. As cortinas engomadas estavam intocadas, nenhum babado fora do lugar, e nas paredes de tons sóbrios, mancha alguma era notada. Era um nível de classe e elegância que Yuri Plisetsky nunca antes havia visto em qualquer outro lugar que não fosse o Bolshoi. Pensando melhor, até que fazia sentido.
O chão de madeira polido a exaustão, refletia como um espelho e atraía os olhos verdes do patinador para o perfeito reflexo de si mesmo abaixo de seus tênis, sujos demais para a estética impecável do lugar; quando Lilia não estivesse olhando, ele até tiraria uma foto para sua conta do instagram. Aquele chão perfeito iria distraí-lo por dias.
“Dentro desta casa há regras que eu quero os dois cumprindo.” Lilia fez questão de frisar a importância da colaboração de Yakov e o aluno. “Já deixei que trouxesse sua gata, Plisetsky, não quero ver nenhum pêlo voando pela minha sala.”
“Potya não solta pêlos!” Nada de “sim senhora” ou “pode deixar, senhora”. O garoto ainda não tinha aprendido como se comportar perto de Lilia.
“Modos, Yuri, estamos na residência de madame Baranovskaya pelos próximos meses, deve seguir as regras da casa.”
“Tudo bem, Yakov, se ele fizer algo que me desagrade, sempre posso compensar isso em ensaios extras.” Yuri resmungou baixo aquela punição nada agradável, enquanto seu treinador disfarçou um sorriso culpado. Os anos não haviam sido capazes de amenizar a rigidez dos métodos de Baranovskaya, muito menos a mórbida satisfação de Yakov com as punições impostas pela bailarina. “Se meu nome estará nisso, não quero nada menos que a perfeição.”
Aproveitando a segurança das costas de Lilia voltadas para si, o garoto remedou cada palavra com caretas exageradas, recebendo um olhar repreensivo por parte de Yakov, que o fez suspirar inconformado e mudar o foco de sua atenção. Ele deixaria para reclamar dos elevés mais tarde.
Ao longo do corredor, portas demais para pessoas de menos vivendo naquele apartamento podiam ser vistas, cômodos desconhecidos que provavelmente não seriam abertos para a visita de Lilia. Yuri não podia negar a ligeira curiosidade em espiar cada uma daquelas fechaduras douradas, mas o conteúdo daquelas salas era incerta; poderia abrigar tanto um estúdio particular quanto uma coleção de todos os pares de olhos de enxeridos como os dele. Certas coisas eram melhores continuarem um mistério.
“Vocês ficarão aqui,” disse ela de repente, tirando Yuri dos pensamentos macabros sobre olhos mutilados e coleção de cadáveres. “Acha adequado?”
A pergunta fora dirigida a Yakov, que após uma rápida olhada para o interior do quarto, o julgou muito melhor do que qualquer outro lugar em que já havia morado. Para quem há sete anos vivia em um quarto no dormitório coletivo dos patinadores, aquele cômodo era um palácio.
“Maior do que nossa antiga sala,” relembrou com uma pontada de piada e nostalgia, quem sabe até saudade.
A careta de Lilia denunciava que as memórias da prima ballerina não eram lá muito saudosas.
“Aquilo não era uma sala.” Para ela, se não existiam paredes para dividir os cômodos, um fogão e uma geladeira no canto da sala transformava a peça toda em uma só cozinha. “Meu quarto é o da primeira porta,” informou apenas para ambientação, ela não esperava que ninguém ali se atrevesse a incomodar suas preciosas horas de sono. “Há um banheiro no fim do corredor que ficará à disposição de vocês.” Yakov e Yuri seguiram o dedo comprido que apontava a direção. “Não quero ver nenhum fio de cabelo loiro naquele ralo, Plisetsky, acredite em mim quando eu digo que irei verificar.”
“Meu cabelo não cai,” respondeu sem tentar expressar tanta chateação. O único ali com cabelo em constante queda era Yakov, mas ele não diria isso, pelo bem de suas orelhas. “E aqui na frente?”
A intenção de Yuri não era a de ser inconveniente ou curioso além da conta; a pergunta havia sido puramente por formalidade, já que pelas suas contas, as portas ali estavam sobrando.
A hesitação de Lilia foi mínima, de modo que para Plisetsky, a oscilação naquele olhar tão austero passou despercebida. O mais discreto dos sinais, todavia, não deixou de ser notado por Feltsman. Ele ainda a conhecia muito bem.
“Nada que contribua para os ensaios.” Com irrelevância ela ergueu os ombros e abanou as mãos, dissipando pelo ar cheirando a lavanda, qualquer vestígio que pudesse denunciar sua fraqueza. “Sobre a cômoda há o cronograma de ensaios que Yakov e eu planejamos e também o horário das suas refeições. Devo lembrá-lo de que boas refeições e descanso adequado garantem melhores resultados que horas ininterruptas de ensaio, Plisetsky.”
O garoto não ficou muito contente ao ver todos os horários meticulosamente justificados e programados para seus dias, mas já que tinha aceitado praticamente vender sua alma ao diabo — ele não estava falando de Lilia, não… — em troca da medalha, não tinha muito o que fazer.
“Alguma dúvida?”
“Quando posso ligar para o meu avô?”
“Sempre que quiser,” respondeu Yakov. “Não é algo que precise de um cronograma para funcionar.”
Aquilo o deixava mais aliviado.
“Apenas seja coerente e não o importune altas horas da noite,” lembrou Lilia, virando as costas para os convidados. “Acomodem-se. A cozinha está disponível para o uso de vocês.”
Yuri a viu se afastar com estranheza, seus olhos a seguindo até que Lilia desapareceu para dentro de seu quarto. Ele até pensou em comentar como ela era — ou estava? — esquisita, mas sem saber quão seguro era criticar uma ex-esposa, ele preferiu cuidar de Potya, que já cheirava cada canto daquele cômodo estranho.
Ainda em posse de sua mala, Yakov manteve-se na entrada do quarto, encarando a porta fechada de Lilia e imaginando se ambos estavam dividindo o mesmo ingrato pensamento…
Ele também queria saber o que tinha naquele quarto trancado.
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O pianista podia até errar o tempo da composição, Lilia não.
Não existiam erros quando a dança estava em jogo. Ela podia entrar em cena e, em um passo mal calculado, cair no meio do palco, aquilo jamais seria desculpa. O ideal era a perfeição, mas quando essa não podia ser alcançada, a falha se tornava parte da coreografia, deixando de ser um erro. A plateia nunca saberia o que era um improviso se o bailarino os convencesse, e Lilia sabia vender a perfeição como ninguém.
Ela só não estava conseguindo aquilo hoje.
“Pausa para Baranovskaya,” ordenou o coreógrafo. Ele não estava nada contente com o desempenho de Lilia naquela manhã de ensaio, e as bailarinas a quem não era quista, estavam adorando isso. “Lilia, se você perder a contagem de novo, te dispensarei dos ensaios de hoje.”
“Eu ainda não passei minha cena com Sytsov...” mesmo exausta, ela tentava manter o timbre inabalável.
“Do jeito que está, não fará diferença.” Ah, a represália… O Kirov todo falaria sobre aquilo até o fim da temporada. “Você tem dez minutos. Enquanto isso, Romanova, vamos repassar sua variação de Gamzatti.”
Baranovskaya se conteve para não mostrar sua total aversão à colega de cena e abutre particular, sempre pronta para se alimentar da desgraça alheia, principalmente quando a desgraça recaía sobre Lilia. Quando não fazia isso, tentava comprar a simpatia dos diretores e coreógrafos do teatro — e todos sabiam muito bem qual era a moeda de troca.
Lilia gostaria de ter o estrelismo de quem podia se dar ao luxo de sair batendo a porta, correr para casa e só voltar a pisar naquele lugar faltando minutos para a apresentação. Ela poderia fazer isso, não? Já estava usando o figurino, mesmo, eles não teriam tempo de começar um novo do zero. Quem sabe se fosse mais ríspida e exigisse as regalias que Romanova facilmente possuía, passassem a respeitá-la mais.
Ora, o que estava pensando… Se Lilia queria mudanças, teria que mudar de teatro, quem sabe de país? Às vezes ela pensava ter de levar mais a sério as piadas de Yakov e desertar de uma vez quando saísse em turnê com La Bayadère dali alguns meses. Ele poderia fazer o mesmo quando levasse Oleg Nikiforov para competir no Campeonato Europeu.
“Mamãe!”
E lá estava a razão pela qual Lilia não ia a lugar nenhum do mundo.
“Entre logo aí, Yuri!”
A entrada nada discreta de Yakov, tirou Lilia de suas memórias. Ela estava atordoada o bastante para não reconhecer o estúdio de dança como a realidade, sendo incapaz de enxergar totalmente fora da névoa saudosista na qual sua mente volta e meia a metia.
“Lilia, nos desculpe a demora, aconteceu um imprevisto.”
Pela careta feita em direção ao aluno, visivelmente contrariado, já era possível imaginar o tipo de imprevisto.
O estoicismo mascarou a nostalgia trágica e a demora para soltar as barras de alongamento pôde ser facilmente confundida com a elegância clássica que merecidamente a definiu como prima ballerina. Seus braços, agora, estavam soltos ao lado do corpo, sentindo falta daquele peso leve que um dia ela conseguia abraçar.
Já não há nada a ser abraçado.
“Para a barra, Plisetsky.”
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O Allegro Appassionato de Yuri Plisetsky, estava muito mais próximo do desastre do que Lilia gostaria de testemunhar, praticamente um Deluso, se o momento permitia o trocadilho infeliz. Ela já estava velha demais para lidar com aquele tipo de desempenho horrível.
“Você está odiando tudo isso.” Yakov nem precisou perguntar. Em outra situação — ou outra profissional — ele até daria uma risadinha para tornar o momento mais descontraído, mas era de Lilia que ele estava falando e para Lilia, não existia graça no balé, não do tipo engraçado; a única graça permitida era a da leveza, uma que Yuri não mostrava ter.
E, sinceramente, nem o próprio Feltsman podia dizer ser a pessoa mais divertida do mundo para exigir bom humor dos outros.
“Queria poder furar meus olhos.” A seriedade naquela afirmação não o fez duvidar nem por um segundo. “De onde você o tirou, uma vitrine? Ele parece um manequim, todo rígido.”
“Começou o estirão da adolescência, está ganhando altura e perdendo flexibilidade, isso que é o mais flexível dos meus patinadores.”
Os olhos verdes abriram-se, o mais perto de arregalarem que Lilia expressava sem deformar sua expressão.
“O que aconteceu com você, anda fazendo caridade?” Alvo da encarada julgadora, Yakov disfarçou o rubor e ajeitou o que lhe restava de cabelo. “Você já teve patinadores melhores, brilhantes.”
“Ah, mas o nosso Yuratchka é brilhante! Nem Victor entrou na categoria sênior aos quinze anos!”
“Não foi porque ele faz aniversário em dezembro?”
Um tilintar destoante da música promovida pelo pianista e os dois mais velhos voltaram seus olhos para o culpado; Yuri Plisetsky e seu iPhone.
Nenhum dos patinadores de Yakov gostavam de ver a raiva borbulhando nos olhos do técnico, estourando em gritos e berros como a chaleira humana, mas com certeza, nenhum de seus colegas gostaria de ver o demônio que parecia crescer por debaixo da pele bem cuidada de Lilia Baranovskaya, quando tecnologia maculava seus ensaios clássicos.
Naquela hora, Yakov nem tentou intervir, fingindo não estar no salão quando Lilia saiu de onde estava e caminhou até Yuri. O pianista, provavelmente velho conhecido de Baranovskaya, deixou de tocar e até chegou a descer a tampa sobre as teclas, antevendo a tragédia. Até Yuri, acostumado a enfrentar as ordens de Yakov e reclamar constantemente de tudo, se arrependeu por todos os seus pecados digitais. Se saísse vivo daquilo, ele nunca mais faria uma vídeo chamada na vida.
“Plisetsky,” pronunciou ela, o ensaio de um enterro. “Você precisa dessa coisa para o plié?” A pergunta era retórica, mas ele quase respondeu. “Precisa tirar uma foto de cada quinta posição deprimente que faz de frente para esse espelho? Precisa?” Yuri estava irritado, mais consigo mesmo por estar se sentindo mal com a repreensão de Lilia, do que com ela. “Me entregue isso.” A princípio, ele hesitou, mas não o bastante para Lilia notar e se incomodar com a insolência. Ele só esperava que a bailarina não fosse como ele e acabasse arremessando seu telefone pela janela. “Terá seu precioso celular de volta quando conseguir fazer um espacate perfeito.”
Um espacate?! Ah, ele preferia que ela tivesse feito farelo do celular.
“Você disse brilhante, Yakov?” ironizou Lilia, voltando até o ex-marido e lhe entregando o aparelho.
“Quando ele quer.”
Depois de ter o celular tomado, Plisetsky atingiria o espacate em três dias.
“De onde parou, Plisetsky! Vamos lá, cinco, seis, sete, oito!”
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No colo do pai, a criança chorava, inconsolável com a morte de Nikiya. Ele não entendia, e não havia quem pudesse convencê-lo, de que quem fora picada por uma serpente não fora a mamãe, mas a trágica e apaixonada dançarina do templo interpretada por ela. E aquela cobra de plástico não ajudava nada sendo realista demais para quem tinha apenas cinco anos.
Yakov também não duvidaria nada de que algum dia colocassem uma serpente de verdade no cesto de flores de sua esposa, aquela tal Romanova não era de confiança.
“Ora vamos, bärchen, não fique assim…” Com uma paciência e compaixão que não se via enquanto técnico, Yakov tentava consolar o menino. “É tudo de mentirinha, a mamãe está bem…”
“Mamãe…” Evocar o título materno trouxe à tona as lágrimas e o choro sofrido. Yakov ria culpado, embalando o filho enquanto pensava qual seria a melhor maneira de apaziguar aquele coraçãozinho. “Salva ela, papai!”
Ele até tentou explicar que Nikiya voltaria a aparecer no último ato, mas não conseguiu acalmá-lo até que Lilia deixasse o palco e os recebesse em seu camarim, sã e salva.
Já fazia algum tempo que Yakov observava Lilia penteando e trançando o cabelo de Yuri, tendo como justificativa estar treinando possíveis penteados para as apresentações futuras. Para a sempre aficionada pela boa estética da apresentação Lilia Baranovskaya, aquilo não era novidade. Para o vivido Yakov Feltsman, aquilo era um perigoso apego de um passado projetado.
Plisetsky não estava reclamando, não depois de aprender como se comportar funcionava naquela casa. E ele até que gostava de ter outra pessoa para cuidar de seus cabelos, já que era por pura preguiça que ele não via uma tesoura há mais de um ano. O momento até rendia alguns stories autorizados pela própria, o que tinha lhe conquistado um número surpreendente de seguidores extras em pouco tempo, todos fãs da bailarina.
“Vou precisar comprar mais grampos, tem fios demais soltando dessa trança…” Distraído com o celular, Yuri não chegou a ouvi-la. “Já está liberado, Plisetsky.”
Batendo com a ponta dos dedos sobre o teclado digital, ele continuou alheio ao mundo real. Aos olhos de Yakov, Lilia também estava longe.
Após uma das inúmeras notificações do telefone fazer o aparelho vibrar — Baranovskaya havia proibido o assovio característico que doída em sua alma —, Yuri enfim voltou à realidade.
“Já tô de saída, a Mila tá me esperando lá embaixo!” Vestindo a camiseta comprada quando ainda estava no Japão, ele se ergueu da cadeira e puxou a mochila, andando até a entrada, já que corridas ali também eram proibidas. “Até depois!”
“Se for se atrasar, pelo menos ligue avisand-” A porta batendo foi a única resposta que Yakov conseguiu receber. “Fica o dia inteiro grudado naquela porcaria de celular e nem para ligar ele se preocupa…” resmungou, inconformado. Ah, a juventude...
Feltsman era muito mal acostumado com a responsabilidade que Georgi costumava ter, e até que ele devia reconhecer Victor nessa contagem antes de sua aventura para Hasetsu, para lidar com um jovem tão temperamental quanto Plisetsky. Aquilo era culpa dos anos dois mil ou de algo colocado na comida sintética daquela geração? Como o bom velho rabugento que era, Yakov se preparou para comentar isso com Lilia, ao se dar conta de que os olhos dela não haviam deixado a porta pela qual Yuri tinha saído.
A cena se fazia muito familiar com uma em especial, dolorosa e longínqua, evitada a todo custo. Era o olhar vago, as memórias dançando por trás do tom esverdeado, as comparações entre passado e presente que faziam pairar sobre a sala, o ingrato e sufocante título do “e se?”.
“Lilia,” chamou Yakov, tendo finalmente a atenção silenciosa e até um pouco abatida da ex-esposa. “Você- você sabe que ele não é Pavel, não é?”
A respiração dela descompassou o suficiente para Yakov perceber tê-la pego de surpresa. Era choque misturado com uma quase indignação. Ensaiando o que responder, ela respirou fundo e desistiu de falar várias vezes, fechando semblante e olhos para evitar trazer à tona a ferida jamais cicatrizada.
“Sim, Yakov, eu sei. Mas e você, sabe? Se lembra de como era ter um filho?”
Surpreso, Feltsman percebeu não saber responder àquela pergunta.
Apertando os lábios para conter as inúmeras palavras que amargavam aquelas recordações tão dolorosas, Lilia apertou os dedos no cabo da escova que ainda segurava, e deu as costas para Feltsman, entrando no corredor que levava aos cômodos. De longe, Yakov viu quando ela apanhou uma chave e abriu, com as mãos trêmulas, o quarto em frente ao seu.
Lilia permaneceu trancada no cômodo até o dia seguinte.
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“O que você vai querer dessa viagem, hein?” Mesmo com a correria com os preparativos para o Campeonato Europeu de Patinação Artística, Yakov se esforçava para dar atenção ao filho. O garotinho estava um pouco abatido pela gripe de última hora, mas não deixava de sorrir para o pai.
“Que tal uma medalha, Pasha?” Atravessando o momento, como era costume de sua personalidade intrometida, Oleg Nikiforov piscou para o menino, que apertou os olhinhos sonolentos e sorriu um pouco mais contido. Em outra situação, ele teria rido alto da piada do seu melhor amigo adulto, mas não andava com forças o bastante para isso.
“E o que ele faria com uma medalha, Olezhka?” Tentando arrematar mais alguns pontos no figurino do patinador instruído pelo pai, Margosha provocou.
“Ele poderia mostrar para todo mundo e se vangloriar por conhecer o melhor patinador do mundo, não é, Pavel?” Por trás daqueles dos dois adultos, o pequeno Pasha conseguia ver a irmã mais velha dando aquele sorrisinho julgador, igualzinho ao de Lilia. “Ai! Margosha, por que você me espetou?!”
“Eu não fiz nada.”
Pasha também gostava de ver como mamãe e Margosha eram parecidas, mesmo que a irmã tivesse nascido muito antes de papai e mamãe se conhecerem. Lilia explicava que Margosha era sua irmã antes até dele nascer e aquilo era ainda mais impressionante.
“Já sei!” Ignorando a inocente discussão atrás de si, Yakov decidiu. “Que tal um balde daquelas pecinhas coloridas de montar? Ouvi dizer que são possíveis de encontrar em Budapeste!”
“Você quer dizer Lego?” Nem Oleg queria acreditar na ousadia do técnico. “Não vão te deixar entrar com isso na volta.”
“Já entrei com coisa pior,” vangloriou-se. Talvez Oleg tivesse puxado aquilo um pouco de Yakov.
“E se o Pasha engolir uma daquelas peças, pai?!” Margosha, mostrando seu lado superprotetor, quase voltou a espetar Nikiforov. Acidentalmente, daquela vez. “Lilia jamais vai deixar!”
“Mas ela não está aqui.” Yakov dividiu aquele olhar travesso com Pavel, sabendo que o filho gostava de quando ele e o pai acabavam levando o mesmo tipo de bronca de Lilia. “E eu tenho certeza que sua irmã pode cuidar bem de você.”
“Isso mesmo, me coloque no meio da bagunça.” Cortando o fio da agulha com os dentes, ela deu seu trabalho por encerrado. “Pronto, Oleg, agora vai logo guardar essa roupa antes que vocês se atrasem.”
“Foi você quem quis mexer nela em cima da hora!”
“Vai logo, Oleg!”
As malas já aguardavam ao lado da porta, prontas para a viagem à Hungria. Se tudo desse certo, em menos de uma semana ele traria um campeão — e uma caixa de brinquedos ilegal — e Lilia, em turnê, traria um sucesso. Depois daquilo, eles podiam tirar alguns dias de folga ao lado de Pavel e Margosha. Fazia algum tempo que eles não tinham um momento daqueles, todos juntos.
Se eles soubessem… Se qualquer um deles soubesse…
A plateia do Palais Garnier aplaudia com entusiasmo o fim do ato, clamando por Lilia Baranovskaya. La Badayère ainda não havia terminado, mas o público aplaudia em pé a bailarina soviética que interpretava tão brilhantemente a personagem Nikiya, tanto, que Lilia precisou voltar duas vezes após fechadas as cortinas para agradecer o carinho do público. Ela não podia imaginar como seria a recepção dos presentes quando entrasse para a cena final.
De volta à coxia, Lilia desviou da assessoria do teatro que arrumava o cenário final, e se apressou para chegar ao camarim reserva. Por melhor que fosse a recepção do corpo de baile, cenas daquela intensidade, como a morte trágica de Nikiya, sempre a deixavam com um peso no peito, um mal estar que não a deixava até a cortina ser fechada pela última vez, encerrando a apresentação. O final. O retorno para a realidade.
Ela queria logo voltar para casa.
“Lamento, mas a madame Baranovskaya não pode atender, agora.”
Ao ouvir o próprio nome ser citado dentro do sotaque francês, Lilia não conseguiu continuar o caminho. A pessoa ao telefone parecia com dificuldades para conversar em inglês com quem estava do outro lado da linha e a barreira linguística não conseguiu ser opção na mente de Lilia quando ela se viu mudando o caminho em direção à sala.
“Com licença, eu posso atender?” Assustada, a pessoa não sabia como responder, se dava atenção ao difícil inglês do homem ligando, ou ao francês da bailarina russa. “Por favor, não irei demorar.”
O fone foi entregue com receio e logo depois, Lilia se viu sozinha na sala. Alguma coisa não estava indo bem e só fazia aumentar o nervosismo.
“Baranovskaya na linha.”
“Lilia!” Era Yakov. Ele apenas a chamou pelo nome e ela já percebera o desespero. “Lilia- Lilia-” Ele engasgou duas vezes, incapaz de falar mais do que o nome da esposa. Descrença, dor. O que estava acontecendo?!
“Yakov? O que aconteceu?” Lilia tentou acolhê-lo primeiro, mostrar compreensão, mas seu pânico não a deixou levar a opção “perda do campeonato europeu” a sério nem por um instante. “Yakov!” Do outro lado da linha, um chiado; choro. Quando aquele homem chorava?! “Yakov, por favor, o que está acontecendo?!”
“Pavel, Lilia… Pavel…”
As sapatilhas de Lilia deslizaram pelo piso, a levando ao chão. Da plateia, foi possível ouvir o choro gritado da bailarina, que não chegou a voltar para a cena final.
Naquela noite, Nikiya não partiu para uma eternidade feliz ao lado de quem amava. Lilia sentia ter tido o mesmo fim.
Lilia não esperava ver Yakov em sua casa quando deixou o quarto naquela manhã. Na verdade, ela não sabia nem o que falaria a ele depois da tensão deixada, pensava até em fingir ter se esquecido, mas pelos olhos insones de Feltsman, era óbvio que ele se lembrava. Era óbvio que a esperava.
“Bom dia, Lilia.”
“Bom dia.” Querendo provar a si mesma ter autocontrole o bastante, Lilia manteve-se séria, escolhendo um jogo de xícaras bonito e decorado para lhe acompanhar em seu café. Anos em ensaios e turnês exaustivas a presentearam com um apreço acima da média pela cafeína e seu corpo era extremamente sensível pela falta dela. “Plisetsky?”
“Mandei meus patinadores hoje para uma aula de hidroginástica, Georgi disse que poderia ser bom, principalmente para os mais novos.”
“Georgi Popovich…” Sorriu ela para a porcelana branca. “Também é do tipo super protetor?” Yakov concordou.
“Assiste todas as apresentações dos colegas, até em competições que não se classifica.”
Tão amável, Lilia não esperaria menos do filho de Margosha.
E novamente as memórias do passado. Era aquilo que não a deixava ter paz.
“Me perdoe por ontem, Lilia.” Sem sequer olhá-lo, ela apenas ouvia. “Não queria ter te deixado constrangida.”
Baranovskaya não sabia o que mais esperava daquilo. Não tinha raiva do ex-marido, mas existiam tantos pontos não explicados, abafados pela discrição de Yakov e mal resolvidos pela distância…
“É claro que você sabe que Yuri não pode ser Pavel, um filho seu não teria um desempenho tão horrível no balé.”
A provocação bem humorada a fez rir, risos esses acompanhados de lágrimas logo depois. Finalmente encorajada a olhá-lo, Lilia notou que ele também chorava.
“Um filho nosso, você quer dizer.”
“Ele certamente sairia à mãe prima ballerina, não tenho dúvidas.”
“Do jeito que ele gostava de te imitar, não duvido que teria me traído e entrado na patinação.” Yakov balançou a cabeça. Ele não tinha a mesma certeza. “De qualquer forma, hoje em dia Pasha estaria muito velho para a patinação.”
“Mas não para a dança.”
Lilia arqueou as sobrancelhas. Sim, ele tinha razão. Aos trinta e cinco anos, ainda seria possível ver Pavel protagonizando solos, até peças inteiras. Bailarinos já não se aposentavam tão cedo quanto em seu tempo, e aos poucos os patinadores estavam seguindo o mesmo ritmo.
“Qual desses caminhos você acha que ele teria escolhido?” perguntou Yakov, timidamente insistindo naquela conversa. Calmamente, Lilia tomou um lugar ao lado dele, respirando fundo. Várias vezes tinha se pego pensando naquilo, mas era a primeira vez que diria em voz alta;
“Nenhum.” Após a certeza, o riso. “Margosha podia levá-lo para assistir aos ensaios de Nikiforov e aos meus, mas você lembra como ele era, adorava aquela bola de futebol.”
“Um jogador na família…” Yakov falou extasiado, como se aquilo fosse de fato acontecer. “Teria sido engraçado ver Margosha bordar as iniciais dele em todo o uniforme.”
“Ela bordaria com lantejoulas.”
Ambos riram. Não havia sido apenas a gentileza que Georgi puxara da mãe.
Mais um momento de silêncio em que Lilia recordava com um sorriso as boas memórias, e ela ouviu a voz embargada de Yakov confessar mais um dos sentimentos guardados há tanto tempo.
“Quando você disse… Quando saiu de casa e discutimos, você disse que eu não sentia falta dele…”
“Escute, Yakov-” ela queria se explicar.
“Não, me ouça, por favor. Eu sei que eu errei. Eu não devia ter feito o que fiz na época, mas eu pensava que se mergulhasse no trabalho, enchesse minha cabeça de coisas que não fossem ele, eu seria capaz de enterrar toda a dor embaixo do trabalho, mas isso só foi pior…” Silenciosa, Lilia secava as lágrimas com discrição. “Nem com Margosha eu conseguia falar sobre isso. Mas insisti nisso, até você ir embora, até todo mundo ir embora, até não restar de fato ninguém com quem eu pudesse conversar. Só que quando eu caía, exausto, na cama, eu sonhava, Lilia, sonhava com Pavel. E é tão injusto que nos meus sonhos ele esteja sempre bem, sorridente, mas que continue com aquelas malditas talas!” Yakov não se conformava. Pelo menos em seus sonhos, ele queria que o filho nunca tivesse contraído a poliomielite que limitava seus passos e não o deixava se mover com metade da energia que cabia naquela criaturinha sempre animada. “Eu nunca quis esquecer Pasha, eu só queria me esquecer da dor. No meio do caminho, acabei esquecendo vocês. Me perdoe.”
Ela não podia falar, pois sabia que se tentasse, choraria de forma horrível, então limitou-se a assentir. Yakov a conhecia suficientemente bem para entender.
Ainda sem respondê-lo, Lilia deixou seu lugar a mesa, tocando-lhe os ombros baixos, num chamado sem palavras que, como ela já sabia, o fizeram entender ser preciso segui-la.
O corredor era o único caminho que eles podiam fazer naquele apartamento, e mesmo assim causava nervosismo. Qual das salas fechadas ela abriria? E o que teria a ver com o que Yakov falara?
Não teve muito tempo de mistério e logo Lilia parou em frente a uma das portas, a do cômodo onde passara a noite. Sem aviso, um alerto qualquer que fosse, ela girou a maçaneta dourada, abrindo-a para um quarto. Yuri ficaria decepcionado se descobrisse que a verdade não era nenhuma das versões sangrentas inspiradas em O Albergue. Suas teorias de conspiração estavam todas erradas.
O tom das paredes era clara, um esverdeado pálido e suave, perfeito para um quarto de criança. Foi só quando Yakov notou a cama no canto do cômodo, coberto por um dossel transparente, é que ele entendeu o porquê de estar ali.
“Pensei que,” começou Lilia. Ela falava com dificuldade, porém mesmo assim não derramara uma lágrima. “se um dia pudéssemos ter dado um quarto ao Pavel, teria sido algo assim.”
Yakov se pegou andando pelo quarto, de olhos arregalados e úmidos pela vontade de chorar. Eles tinham tantos planos, naquela época… Após a temporada de patinação acabar, Yakov queria encontrar um apartamento maior, ou até mesmo uma casa com jardim, onde o filho pudesse brincar e Margosha pegar sol, coisa que ambos adoravam. Margosha transformava qualquer canto com uma máquina em ateliê, então ele pensava em dar a ela um quarto maior onde pudesse ter um espaço para criar e outro para descansar, enquanto Pasha teria um quarto claro, iluminado como a criança radiante que ele era. E seria tudo sob medida, pois eles mereciam cada móvel feito à altura.
A luz natural, vinda da janela, aquecia e iluminava todo o cômodo, com certeza o quarto mais bem iluminado do apartamento. Onde os raios de sol tocavam, havia um tapete felpudo, perfeito para ele andar sem machucar o pézinho desnivelado, e as caixas com brinquedos ficavam em uma altura boa o suficiente para que Pasha pudesse pegar e devolvê-los sem forçar muito a postura. De fato, Lilia pensara em tudo.
Mais a frente, uma cômoda branca com puxadores de rostinhos de ursinho — e ali Yakov quase pensou recomeçar a chorar pelo seu bärchen —, trazia dentro das gavetas, roupas ainda etiquetadas, peças compradas por Lilia para apenas preencherem os móveis. Yakov ainda devia ter algumas peças do filho guardadas no depósito do rinque onde trabalhava. Ele não se importaria em entregá-las a Lilia.
“As roupinhas dele eu deixei naquele baú.”
O móvel do qual Lilia falava, era o posicionado em frente a cama.
Foi no mínimo estranho andar até ele, mas mesmo assim, ele o fez. Os brinquedos mais antigos, uma pelúcia alemã trazida por Oleg, chocalhos de tecido feitos por Margosha e o balde de Lego jamais aberto, cercavam o baú, uma caixa de memórias que não ofereceu resistência ao ser aberta.
O que doeu, foi serem todas roupas de quando ele era bebê.
Dentre mantas, meias, babadores e conjuntos em miniatura, as únicas peças que Yakov conseguiu pegar, foi o par de meias de lã que ele comprou de uma loja fechada antes da União Soviética acabar, por um preço absurdo na época, mas que ele fez questão de desembolsar. Era lã pura, ovelhas de criação própria, tosada, limpa e higienizada, fiada em uma roca artesanal e tricotada a mão, uma a uma. Era tão grossa e quente, que parava em pé sozinha. Lilia mal usou os poucos sapatinhos que ganhou, na época, por sempre optar por aquelas meias, item mais usado no enxuto guarda-roupa de Pavel.
“Essas eu não deixarei você levar, são minhas preferidas.” Riu ela, melancólica. Yakov sorriu para o parzinho e o devolveu ao baú.
“Você ainda tem a bola?”
Lilia pareceu surpresa com o pedido, mas sim, ela ainda tinha aquela bola. Murcha, esfarelenta e frágil, mas estava ali, guardada.
Enquanto deixava aquele canto do quarto para buscar o brinquedo, Yakov ergueu-se da posição abaixada que estava, desconfortável demais para seus joelhos de setenta anos de idade, e tomou lugar na cama. Era impressão sua, ou o dossel cobrindo a cabeceira era o véu de noiva de Lilia?
A atenção sobre aquele detalhe foi tomada quando Yakov notou todas as fotos emolduradas ocupando espaço na prateleira acima ao baú.
Uma foto em preto e branco de Lilia, como Aurora, em seu primeiro papel principal no Kirov. Outra foto de Yakov, no topo de um pódio simples, com um sorriso no rosto e uma medalha no peito. Mais um registro, dessa vez, com Lilia, Yakov e a jovem Margosha, marcando o primeiro dia do recém-nascido Pasha em casa. A última moldura era uma foto que ele conhecia bem, seu Pasha de três anos entre Oleg e Margosha, apertados naquele sofá de dois lugares que eles não tiveram a chance de trocar.
“Queria ter colocado mais fotos, mas fiquei com medo de exagerar.” De volta, Lilia trazia entre os dedos a bola pedida por Yakov, guardada dentro de uma caixa. “Já está deteriorada, é muito antiga.”
“Tem certeza que posso levar?”
“Claro, Yakov, é sua, agora.” Olhando para as molduras, ela pegou logo a última, um dos poucos registros coloridos que guardava. Nem ela ou Yakov tinham boas recordações de Oleg depois daquele período turbulento, mas Pavel estava com um sorriso tão lindo naquela foto… “Você gostaria de ficar aqui? No quarto?” Distraído com a bola, ele precisou ouvir uma segunda vez para acreditar na oferta.
“Como assim?”
“Hospedado aqui, Yakov. Não precisaria dividir o quarto com seu aluno, pode ficar aqui, eu… Eu só pensei que pudesse gostar de ficar aqui. Costumo vir quando, você sabe, preciso apenas me curar.”
Curar, aquela era a palavra. Aquele quarto foi montado para ser uma memória feliz, acima de tudo, um sonho, com as roupas, brinquedos, fotos que faziam de Pavel a criança amada que era. Lágrimas podiam acontecer de vez em quando, revolta, culpa, saudade… Mas na maioria das vezes, estar ali era o bastante para curar a perda.
“Eu iria gostar, Lilia. Muito.”
Deixando o brinquedo sobre a cama, Yakov se aproximou devagar, um pouco incerto, meio torto e desconfiado, abrindo os braços como se não soubesse mais abraçar. Travada pelos anos sem fazer o mesmo, Lilia se deixou ser envolvida, retribuindo da mesma forma insegura, o consolo por trinta anos de luto.
“Lilia?” Sem sair daquele abraço, ela aguardou as palavras de Yakov. “Obrigado.”
Emocionada, Lilia se atreveu a abraçá-lo mais forte. Ela até pensou em respondê-lo, mas o celular de Yakov tocou, alto demais para os ouvidos sensíveis de Lilia, o fazendo se afastar.
“Deve ser o Yuri, eu já volto- Já volto com as minhas coisas.”
Vendo Yakov deixar o quarto, Lilia sentou-se na cama, pensando em tudo o que fora falado de uma única vez e quão forte tinha sido o golpe. Teria algo que ela pudesse dizer a Feltsman quando ele voltasse? Ou deveria apenas deixar o quarto à disposição?
Não. Foram anos demais de palavras guardadas e mal entendidos sem diálogo. Pavel, falante que só ele, não gostaria disso, não se tratando de seus pais. Ela não deixaria nem mais um dia se passar sem que pudesse falar. Era por isso que permaneceria ali e esperaria por Yakov para dizer, sem mais nenhuma defesa, antes da coragem ir embora;
Ela também estava grata.
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