Notas iniciais
O título escolhido para este capítulo vem da canção "Reflection", do filme Mulan, da Disney. Com exclusão do capítulo, da história em si e de seus respectivos personagens, a canção e as marcas de produtos que são mencionadas na ficção não são de minha autoria e nem responsabilidade. Espero que o capítulo seja de seu agrado. Desejo uma boa leitura a todos!

Ele era um sujeito alto, de pele alva, costas e peitoral acolhedoramente largos e encontrava-se curvado sobre si mesmo, tocando o seu alaúde de um jeito concentrado, porém tranquilizador. Seus cabelos escuros e lisos estavam presos em um baixo e apertado rabo-de-cavalo, mexas soltas caindo-lhe sobre seu rosto jovial, apesar de ser claro já possuir certa idade. Seus lábios corados pronunciavam cada palavra da canção quase angelical como em um beijo suspirado, sua voz sem potência vocal derramando-se e fundindo-se com as notas de seu instrumento, misturando-se em uma cidra de sabor extremamente adocicado que simplesmente parecia adentrar aos poucos cada fresta de seu corpo, tirando qualquer um da realidade.

Assim que terminou de prolongar a última nota da canção, o homem finalmente mostrou-se não ser uma estátua de Michelangelo quando ergueu a cabeça e endireitou sua postura, tirando uma pequena pausa para observar o movimento do bar. A luz que incidia diagonalmente sobre si iluminava melhor a beleza de seu rosto e exibia seus olhos inigualáveis de um azul-esverdeado estonteante.

Eu senti um balde de água fria cair sobre meu corpo quando percebi que, após alguns minutos da mais pura abstração, fixo apenas na aparência do sujeito, o mesmo estava a me encarar. Sem-jeito, tive um sobressalto e tratei de desviar o olhar, apertando a bebida em minhas mãos e comprimindo meus lábios, uma vez que percebera que minha boca encontrava-se entreaberta ainda há pouco.

Não me lembro se o indivíduo chegou a ouvir um “Toque alguma coisa!” ou se apenas o fez por sua livre e espontânea vontade, apenas sei que ele voltou mais uma vez suas atenções ao seu alaúde.

O tempo passou, mas a chuva não parecia mostrar sinais em ceder e eu apenas girava o copo em minhas mãos, vez ou outra admirando o músico de soslaio, até que tornei a abrir meu livro de Física, pulando a questão na qual havia empacado e começando a fazer novas, tornando a abstrair-me da realidade que me cercava, enxergando apenas os números dançantes em minha mente enquanto encarava o papel à minha frente, a caneta apoiada em meus lábios cerrados.

– Oi, dá licença? – ouvi uma voz perto de mim e senti um toque suave em meu braço.

– A resposta é 2,2.10³ Kilonewtons – eu cuspi prontamente, antes de perceber a expressão de espanto no rosto do músico – A-are, desculpa, foi automático...

O sujeito deu uma gargalhada alta, me fazendo encolher de vergonha.

– Que é isso! Percebi que você tava completamente entretido nisso aí! – ele falou, com um sorriso – Aliás, tão entretido que sequer notou que o bar logo vai fechar e você é o único cliente que ainda está aqui.

– O quê?! – gaguejei, olhando em volta. Era verdade; Fora os funcionários ocupados em reorganizar o local, eu era o único a continuar lá, mesmo após todos terem se retirado e o show acabado – Ah, eu sinto muito! – disse, me levantando e arrastando a cadeira, começando a arrumar minhas coisas na pressa.

– Hey, hey! Calm down – ele disse – Ao menos termine sua bebida, antes – e fez um trejeito em direção ao meu copo.

– Ah, não, eu não bebo – respondi.

– Não bebe? Então, eu dou um jeito nisso – e, sem demoras, estendeu a mão e agarrou o copo, tomando dois goles da bebida – Ah, desceu queimando! – disse, depois de bater na mesa com força e soltar um “Iee-hah!” tipicamente caipira. Arqueei uma sobrancelha pelo jeito abusado do músico – Mas se não bebe, por que pediu um whisky Jack Daniel’s?

– Ah, isso... – comentei, coçando a parte de trás de minha cabeça, ainda com o material em minhas mãos, apesar de estarem escorregando – É porque eu entrei fugindo da chuva, sabe?

Uma voz braba de uma das funcionárias se fez ouvir, gritando “Ei, Brennan! Se você não vai ajudar a gente, pode ir embora! Tá atrapalhando, se manda!”, fazendo o musicista se desculpar e dizer que já iria se retirar. Entornou o resto da bebida em sua boca, seu gole se fazendo sonoro.

– Ah, então você se chama Brennan, é? – perguntei, um pouco antes de eu realizar um movimento brusco para evitar que os objetos caíssem de minhas mãos.

– Sim, sou Brennan Belchior. Prazer — e me deu um sorriso capaz de fazer qualquer um se derreter ali mesmo — Quer ajuda aí, seu...? Desculpa, e o seu nome, qual é?– e estendeu seus braços para segurar o material.

– Sou Ramanesh. Dakar. Ravi – completei, travando nas palavras quase cuspidas e agradecendo pela ajuda oferecida, começando a organizar minha bolsa e colocando o dinheiro da bebida na mesa.

– Bom, se veio pra cá pra fugir da chuva, não precisa mais se preocupar! Ela parece ter passado, já – disse, apontando para a porta – O que acha de irmos embora juntos, Ramanesh?

Aceitei e curvei levemente minha cabeça em agradecimento quando ele abriu e segurou a porta, dando-me prioridade na passagem. Ouvi Brennan gritar que iria embora, dizendo que não era para nenhuma das meninas sentirem saudades dele que ele voltaria, ouvindo xingamentos e sendo novamente enxotado em resposta, gargalhando alto.

– Então, Ramanesh – começou, sorrido, fechando seu sobretudo e segurando a caixa contendo seu alaúde em uma das mãos, depois de sair do estabelecimento – Vai para qual direção?

– Eu vou para lá – e apontei para a direção na qual estava andando antes de entrar no bar, pretendendo fazer o caminho contrário e andar umas boas quadras, uma vez que havia percorrido uma distância "plausível", digamos assim. Pelo menos as placas me diziam que eu havia andado em linha reta, então não deveria ser um problema retornar ao meu apartamento.

– Oh, que pena, vou na direção contrária – ele falou, soltando seus cabelos pretos e desalinhados, bagunçando-os em quase uma coçada – Oh, antes de eu ir! Vê se aparece aqui amanhã, ok?

Fiquei surpreso.

– Huh? Por que está me dizendo isso?

– Ah, por nada! É só que você estava me olhando tão fixamente... Sabe, com este seu jeitinho acanhado e indeciso – ele disse, abrindo um sorrisinho malicioso e seus olhos estreitando-se e emitindo um brilho sugestivo. Desconversou, em seguida – Imaginei ter gostado do show. Eu toco aqui todos os dias, menos nos domingos. É meu bico, sabe? – e, já começando a andar, me acenou – Eu toco a partir de às 22 h. Vê se vem, tá? Tchau!

E, ainda com seu largo e animado sorriso estampado em seu rosto alvo, ele foi se afastando com suas passadas constantes e despreocupadas, contendo certo gingado.

– “Jeitinho acanhado e indeciso” ? – eu repeti para mim mesmo em um murmúrio, chocado – Eu sou realmente assim... ?

E, olhando uma última vez para o musicista que se afastava, memorizei o endereço do local e o horário do couvert artístico, lembrando do nome do sujeitinho.

Brennan Belchior.

E, com o jeito cativante do músico insistindo em interromper minhas contas e revisões mentais do exercício no qual estava com dificuldade, segui pelo caminho de casa naquele começo de amanhecer.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.