Escrever é um sentir-se inquieto, como se a cada instante passado palavras fossem perdidas, pensamentos dissolvidos em uma massa disforme de ideias que dizem tão pouco sobre o passado quanto uma parede branca.

Agora mesmo, sentada diante da parede em questão, só posso intuir todos os corpos que essas paredes guardaram, todos os pecados cometidos, os cotidianos monótonos e as fugas covardes. Como uma prisão. E nessa prisão até mesmo o tédio se torna tema, a falta se torna algo com que preencher os instantes do dia. Uma monotonia que ao ser escrita se torna a fuga do monótono.

Escrever é uma inquietude, palavras soltas que ao se enfileirarem numa página se tornam algo que não são. Escrever é buscar sentido na loucura, dar lógica a ilogicidade, organizar o que foge a ordem, é contar uma mentira dizendo que é mentira, e fazer se comoverem com ela com mais veracidade do que com o real.

Afinal tudo é prisão, cada ideia e pensamento está preso a uma cultura limitada sempre a algo. Ninguém vê a vida por inteiro, porque o ver é limitado aos sentidos, experiências, ideias, nada é completo, acabado, inteiro. Tudo é fragmento, um sopro, e mesmo a ideia que tive no instante passado se foi, e já não sei se ela existiu ou a inventei, como uma ideia engenhosa do passado que perdi.

Porque culpar o passado é fácil, sem sofrimento, dizer que o bom se foi, pois não se pode voltar e conferir se de fato ocorreu, o passado é completo de uma eternidade nebulosa, que não há como afirmar ou negar. Tudo ao passar se torna especulação.

Ao final, tudo são paredes imateriais, e toda parede tem sua limitação, seu horizonte. Assim sendo jamais faltará sobre o que escrever e alimentar os vícios de expressar ideias que depois de escritas perdem o sentido de ser e se tornam a materialidade de algo de que já não me lembro se existiu.

Notas finais
... é contar uma mentira dizendo que é mentira, e fazer se comoverem com ela com mais veracidade do que com o real.